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STBMA – Seminário Teológico Batista do Maranhão
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Teologia Sistemática III
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A igreja e o mundo durante a era escatológica
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Prof. Me. José Vidigal Queirós
Ano 2026
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SUMÁRIO
Capítulo I – Eclesiologia ......................................................................................................... 02
Capítulo II – Escatologia Individual
....................................................................................... 18
Capítulo III – Escatologia Geral
............................................................................................. 22
Capítulo IV – O Reino Escatológico de Cristo
....................................................................... 25
Capítulo V – O Reino Milenar de Cristo
................................................................................ 36
Capítulo VI – A Segunda Vinda de Cristo
............................................................................. 44
BIBLIOGRAFIA .................................................................................................................... 48
TEOLOGIA
SISTEMÁTICA III
CAPÍTULO
XVIII – ECLESIOLOGIA
1. Introdução
O estudo da Eclesiologia consiste na
abordagem temática sobre a origem, natureza, essência, governo, ministérios,
sacramentos/ordenanças e missão da igreja. O termo deriva do vocábulo ekklesía,
que, no grego clássico, designava a assembleia de cidadãos convocada para
deliberar. Na Septuaginta, o termo foi usado como tradução do hebraico qahal, o qual, por sua vez, era usado para
designar a assembleia de adoradores diante de Deus. Essa dupla raiz — política
e cultual-veterotestamentária — já sinaliza uma tensão que atravessará toda a
disciplina: a Igreja é comunidade convocada por Deus e, ao mesmo tempo, corpo
historicamente situado, com estrutura e visibilidade social.
2. Conceito de Igreja
2.1. Conceito etimológico
Embora a eclesiologia seja uma
doutrina exclusiva do Novo Testamento, as raízes da igreja estão localizadas em
Israel, o povo de Deus do Velho Testamento. No plano salvífico de Deus, a
igreja tem o seu lugar como uma agência divina no mundo. Não existe igreja fora
da obra redentora de Cristo e, por outro lado, não há execução do plano
salvífico de Deus fora da igreja.
O termo igreja, em Português, deriva
do latim “ecclesia” que, por sua vez, origina-se do grego ekklesia. O termo grego, por sua vez, deriva de ek (preposição que indica origem
procedência = de dentro de, de, de fora) e kaleo
(verbo grego que significa chamar, convidar). O significado profano deste
vocábulo designa uma assembleia democraticamente convocada. Em suma, o termo ekklesía designa uma assembleia
deliberativa (At 19.32,39,41). Buscando apresentar uma definição de igreja,
segundo as Escrituras, Thiessen[1]
propõe que o significado de igreja diverge de quatro falsas concepções:
1)
Não
consiste no judaísmo melhorado e continuado, uma vez
que Jesus, quando declarou “sobre esta
pedra edificarei a minha igreja” (Mt 16.18), a igreja era um projeto para o
futuro.
2)
A
igreja não é o reino. A expressão “reino dos céus”, em
Mateus, nunca é atribuída à igreja. O reino de Deus é maior que a igreja,
embora a igreja seja composta dos súditos do reino.
3)
A
igreja não é uma denominação. Embora algumas denominações se
identifiquem como “igreja”, nenhum grupo sectário é a igreja, uma vez que o
conceito neotestamentário de igreja não tem, sob hipótese nenhuma, a ideia de
uma instituição ou organização.
4)
A
igreja não é uma confissão de fé. As declarações ou confissões de fé
formuladas pela igreja ao longo da história são resultados do esforço
eclesiástico de preservar a sã doutrina. Dissidências e divisões surgiram em
decorrência do radicalismo de grupos de cristãos dissidentes que formaram
comunidades locais adotando para si sua própria confissão de fé; mas nenhuma de
per si constitui-se sozinha na igreja de Deus, nem tampouco é a legítima
detentora da verdade.
2.2. Concepção teológica de igreja
A igreja, sejam quais forem os
termos empregados para expressarem seu conceito, sempre será definida como povo
de Deus, ou ainda, a congregação dos santos de Deus. No Velho Testamento, há
dois vocábulos hebraicos que estão relacionados ao conceito de igreja: qahal, que deriva da raiz "qal", significando
"chamar"; e 'edhah,
derivado de ya'adh, que significa
"indicar" ou "encontrar-se ou reunir-se num lugar
indicado". O termo qehal 'edhah
significa "assembleia da congregação" (Ex. 12:6; Nm. 14:5; Jr.
26:17). A qehal no Antigo Testamento
englobava a assembleia dos homens de Israel, enquanto que o ‘am (povo) designava todo o povo de
Israel, a nação como um todo.
Não há de estranhar que, sendo a
igreja o novo “Israel de Deus”, as promessas messiânicas feitas a Israel são
extensivas à igreja. A igreja dá continuação ao remanescente da nação judaica e, portanto, pode ser identificada
como qehal ‘am Elohim, ou seja, a congregação do povo de Deus, como
designado em (Jz 20.2).
Na versão grega do Velho Testamento
(Septuaginta), qahal, no Pentateuco,
e qehal, na maioria dos casos, são
traduzidas por synagogé (derivada de syn + ago), significando
"reunir-se" ou "reunir". Nos últimos livros do Velho
Testamento é usada a palavra ekklesia,
termo originado de ek e kaleo, que quer dizer "chamar para
fora", "convocar". Desta forma, no que se refere à semântica do
termo, podemos afirmar com segurança que igreja
é a congregação do povo de Deus. Tal congregação assume vários aspectos que
devem ser analisados particularmente.
O conceito teológico de igreja
deriva da ideia da “qahal” judaica. Jesus, quando se referiu à fundação da
igreja, tinha em mente, sem dúvida, o mesmo conceito da “qahal” de Israel. A
“Qehal Yahweh” compunha-se do “povo de Deus”, a congregação dos filhos de
Israel. Com respeito à diferença entre a
“qahal” judaica e a “ekklesía” cristã, duas são as diferenças mais
notáveis entre a congregação da antiga aliança e a congregação da nova aliança:
1)
A qahal limita-se à nação de Israel constituída das doze tribos,
enquanto a ekklesia não conhece
fronteiras geográficas nem raciais;
2)
A qahal compõe-se dos filhos de Abraão segundo a carne
(circuncidados), enquanto a ekklesia
é formada pelos filhos de Abraão segundo a fé (judeus e gentios).
2.3. Acepções neotestamentárias do termo “ekklesía”
O termo ekklesia no Novo Testamento é usado de três maneiras:
1)
Para significar simplesmente uma assembleia (At 19.32, 39, 41) e equivale
ao termo grego synagogé (cf. Mt 4.23;
At 13.43; Ap 2.9; 3.9).
2)
Para designar o conjunto dos remidos
por Cristo (Ef 5.25-27) que incorpora todos os santos de todos os tempos e
todos os lugares do mundo (1Co 15.9; Cl 1.18, 24).
3)
Para designar a comunidade local ou
congregação dos santos. Este é o sentido mais corrente no Novo Testamento.
Dentre 108 vezes que o termo ekklesia
é usado, 90 se refere à igreja local (cf. At 8.1; 13.1; 14.23; 15.41; Rm 16.5;
Cl 4.16; 1Pe 5.13, etc.).
2.4. A igreja é uma comunidade de santos
Paulo, escrevendo sua Primeira
Epístola aos Coríntios, dirige-se aos membros da igreja como “igreja de Deus
que está em Corinto”, cujos membros foram “santificados
em Cristo Jesus, chamados para ser santos” (1Co 1.2). Tais santos formam
uma comunidade.
O estilo de vida da igreja no Novo
Testamento é essencialmente comunitário. Lucas, em At 2.44, descreve o estilo
de vida da igreja declarando que “todos os que creram estavam juntos e tinham
tudo em comum”. Em At 4.32, Lucas declara: “Da
multidão dos que creram era um o coração e a alma. Ninguém considerava
exclusivamente sua nem uma das coisas que possuía; tudo, porém, lhes era comum”.
A vida comunitária da igreja de Jerusalém era definida pelo fato de, sempre
juntos, perseverarem:
1)
“Na doutrina dos apóstolos” –
reunidos para o estudo da Palavra de Deus;
2)
“Na comunhão” – reuniões familiares
para auxílio mútuo;
3)
“No partir do pão” – comendo juntos
e celebrando a Ceia do Senhor;
4)
“Nas orações” – o caráter
devocional, cultual, destas reuniões exigia a prática da oração, da
intercessão.
5)
“Tinham tudo em comum” – todos os
bens particulares eram compartilhados por todos.
6)
“Tomavam suas refeições com alegria
e singeleza de coração” – a mesa da refeição era a manifestação do amor, da
intimidade e da fraternidade.
2.5. Igreja é o povo missionário de Deus (1Pe 2.9-10)
Pedro não só definiu a natureza como
também a identidade da igreja, a qual tem um propósito exclusivamente missiológico.
Através dela Deus pretende restaurar o mundo. A igreja é a herdeira legítima de
tudo aquilo que Deus propôs fazer através de Israel na antiga aliança (Ex
19.5-6).
1)
Raça eleita – a
igreja é a segunda raça; a primeira é a raça adâmica que herdou a morte; a
segunda é a “raça eleita”, gerada em Cristo, o segundo Adão também designado
como “espírito vivificante”, do qual herda a vida eterna (Rm 5.12-21; 1Co
15.45-49). Todos os que estão em Cristo são as novas criaturas, uma nova
geração, a nova humanidade (2Co 5.17) escolhida, separada e chamada para uma
missão no mundo.
2)
Sacerdócio real – a igreja é
a comunidade sacerdotal de um reino espiritual que opera no mundo (Ap 5.9-10).
Ela é intermediária entre Deus e o mundo. A igreja é identificada como a
embaixada do reino de Cristo no mundo e tem a missão de reconciliar o mundo com
Deus (2Co 5.15-20).
3)
Nação santa – a igreja é
uma nova nação, no sentido de ser outra diferente, santificada e separada das
nações do mundo. Está no mundo, por causa de sua missão no mundo, mas não
pertence ao mundo (Jo 17.15-18), uma vez que sua pátria está nos céus (Fp
3.20). A igreja, não somente é outra, diferente e separada, mas também é
“propriedade exclusiva de Deus” que a “chamou das trevas para a sua maravilhosa
luz”.
4)
Povo de propriedade exclusiva de
Deus
– a igreja é a comunidade dos resgatados que se tornou em
possessão de Deus. Essa comunidade é escolhida (raça eleita) e separada (nação
santa) como propriedade peculiar para realizar o propósito salvífico de Deus, no exercício da Missio Dei.
5)
Comunidade de vocacionados – As
expressões que identificam a igreja a igreja como eleita, santa e propriedade peculiar também designam sua vocação para a missão de proclamar ao
mundo as “grandezas de Deus”, isto é, os grandiosos atos redentores divinos. A
vocação da comunidade cristã consiste principalmente na proclamação dos atos de
Deus para a redenção do mundo - “a fim de
proclamardes as grandezas daquele que vos chamou das trevas para a sua
maravilhosa luz” (1Pe 2.9).
2.6. Uma comunidade messiânica (Mt 16.13-19)
A confissão de Pedro foi a razão de
Jesus declarar que, em sua obra redentora, ele contemplava a fundação da
igreja, que haveria de ser a comunidade dos redimidos, designada como agência
de salvação para o mundo. A declaração de Jesus “Também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a
minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela” (Mt
16.18) requer as seguintes considerações:
a)
“tu és Pedro” (πέτρος
= pedra solta que rola no chão).
b)
“sobre esta pedra” (πέτρᾳ
= rocha, penhasco ou cordilheira).
c)
“edificarei” (οἰκοδομέω
= construir uma casa; edificar a partir da fundação; erigir
uma construção civil).
d)
“minha igreja” (ἐκκλησία
= assembleia nos moldes de uma sinagoga).
Como o Messias, Jesus veio ao mundo
para trazer libertação espiritual (Lc 4.18-19) e instalar seu reino entre os
homens (Mc 1.14-15). Jesus, o fundador da igreja, seria também o fundamento
sobre o qual, como “pedra angular”, sua
igreja seria edificada (At 4.11; Ef 2.19-22; 1P 2.4-8). Como comunidade
messiânica, a igreja assume dois aspectos que passaremos a descrever em
seguida.
a)
Uma
agência indestrutível de salvação
“As
portas do inferno (hades, em grego = habitação das almas dos mortos, o “reino da
morte”) não prevalecerão contra ela”
(v. 18). Isto tem dois significados. O primeiro é que a igreja jamais haverá de
ser destruída pelo império da morte. A igreja é eterna e sempre triunfará sobre
aquele que tem o poder sobre a morte, isto é, o diabo (Hb 2.14-15). “Para isso se manifestou o Filho de Deus:
para destruir as obras do diabo” (1Jo 3.8).
O outro significado é que a igreja é
uma agência de salvação. O homem, em seu estado de pecado, pertence ao reino da
morte que tem Satanás como seu chefe. As portas do reino da morte abrem-se para
devorar a humanidade, mas Cristo, por meio de sua igreja, como agência do reino
dos céus, libertará os cativos que haverão de nele crer. As “portas do hades” (em hebraico sheol = habitação das almas dos mortos) haverão de ceder à
investida da igreja no exercício da missão (At 26.18; Cl 1.13; Ef 2.1-6).
b)
Uma
agência representativa do reino de Deus
A igreja foi investida de
autoridade, pois é portadora das “chaves do reino dos céus”. A ela o Senhor
conferiu autoridade para proibir e permitir, restringir e liberar, com
referência à disciplina dos seus membros. Embora tais palavras tenham sido
ditas a Pedro, elas se referem à igreja – “Em verdade
vos digo que tudo o que ligardes na terra terá sido ligado nos céus, e tudo o que
desligardes na terra terá sido desligado nos céus” (Mt 18.18).
Uma tradução literal deste versículo
haveria de ser a seguinte: “Seja o que
for que tiveres amarrado na terra terá sido amarrado nos céus; e seja o que for
que tiveres desamarrado na terra terá sido desamarrado nos céus”. Jamais, sob
nenhuma hipótese, tais palavras significam uma concessão a Pedro de autoridade
absoluta sobre a igreja.
A autoridade absoluta está nos céus.
Não é a autoridade dos céus que se
submete às decisões da igreja na terra; pelo contrário, a igreja na terra é que
executa, como ato de obediência, as decisões tomadas antecipadamente nos céus.
Como comunidade messiânica do reino, a igreja age no mundo, libertando
pecadores das prisões eternas do reino da morte, os quais são inseridos no
reino dos céus; e sobre estes ela exerce sua autoridade para disciplinar,
proibindo ou permitindo, restringindo ou liberando.
2.7. A extensão encarnacional de Cristo (Ef 1.22-23)
O apóstolo Paulo, descrevendo a
igreja como corpo de Cristo, declara que ela é “a plenitude daquele que a tudo enche em todas as coisas”. Em outras
palavras, a igreja é a extensão
encarnacional de Cristo. Há três implicações diretas deste fato:
1)
A
igreja deve manifestar ao mundo o caráter santo da pessoa de Deus
Não é em vão que as Escrituras
trazem exortações a que todos os crentes “sejam
imitadores de Deus como filhos amados” (Ef 5.1) e que todos vivam em
santidade de vida, pois o que Deus exigiu de Israel exige também da igreja: “Sede santos porque eu sou santo” (1Pe 1.15-16;
cf. Ef 1.14; 1Ts 4.3, 7; Hb 12.14). Isto pode ser entendido da seguinte forma.
Cristo é a reprodução perfeita da natureza e caráter de Deus – Ele é “a imagem do Deus invisível” (Cl
1.15); “Nele habita, corporalmente, toda
a plenitude da divindade” Cl 2.19).
Sendo a imagem perfeita de Deus e
habitando em cada regenerado (Rm 8.10; 2Co 13.5), Cristo se constitui em padrão
de integridade moral e espiritual para todo verdadeiro cristão (Ef 4.13; Rm
8.29). Além do mais, a essência do ser de Deus – Pai, Filho e Espírito Santo –
habita nos santos (Jo 14.23; Ef 4.6; 1Co 3.16-17). Por último, a imagem de
Deus, avariada pelo pecado, está sendo restaurada em todos os regenerados (2Co
3.19). Portanto, a igreja deve manifestar ao mundo o caráter do Deus santo. Em
consequência disso, a conclusão a que se pode chegar é que a igreja, como corpo
de Cristo, constitui-se no projeto da habitação da plenitude divina. Quando
Deus tiver definido o estado eterno da humanidade e da criação, então, ele será tudo em todos (1Co 15.28).
2)
A
igreja se torna no mundo a detentora da autoridade divina
A autoridade divina manifesta-se na
igreja porque, em primeiro lugar, a igreja é portadora das chaves do reino dos céus (Mt 16.19; 18.18). Em segundo lugar,
porque a igreja foi estabelecida como embaixada
do reino de Cristo no mundo dos homens (2Co 5.19). Finalmente, porque a
igreja foi constituída por Deus como reino
sacerdotal no mundo das nações (1Pe 2.9). De tudo isto deriva o fato de que
a igreja é instância da autoridade sobrenatural de Deus no mundo. Os
principados e potestades, que “capturaram” a humanidade e transformaram o mundo
em “império das trevas”, estão subjugados pelo poder do Soberano do Universo
que domina sobre tudo e todos como cabeça
da igreja, a qual é o seu corpo e “a
plenitude daquele que a tudo enche em todas as coisas” (Ef 1.23).
3)
A
igreja concretiza no mundo o eterno desígnio de Deus
A razão de existir da igreja é a
missão que ela exerce no mundo, para concretizar os desígnios de Deus. Isto
significa que a igreja deve servir como agência de salvação para o mundo (Mt
16.18), assume em sua vocação a incumbência de mediar a reconciliação do mundo
com Deus (2Co 5.18-19) e viabilizar o projeto de reconstrução da humanidade (Ef
4.22-24; Cl 3.9-10).
O grande e eterno desígnio de Deus
consiste em reconstruir o universo, isto é, restaurar toda a criação, começando
pela humanidade. Na primeira criação, Deus começou com o mundo físico e
terminou com o homem; na segunda, ele começa com o homem, uma nova criatura (2Co 5.17) e termina com o
novo céu e a nova terra (Is 65.17; 66.22; Ap 21.1, 5).
3. Designativos bíblicos da igreja
3.1. Corpo de Cristo
A igreja é um organismo vivo dotado
de corpo e espírito. Ela é o corpo cujo espírito no qual habita é o “Espírito
de Cristo” (Rm 8.9). Isto designa a união da natureza divina com a natureza
humana. Como corpo, é a extensão encarnacional do Verbo divino (Ef 1.23); é uma
unidade viva e indivisível, completa em si mesma, uma unidade organizada, uma
unidade na diversidade. A expressão “corpo de Cristo” é a metáfora paulina
predominante para designar seu conceito de igreja (Ef 1.22-23; 5.23, 30; Cl
1.18, 24; 2.19). G. Milton, dissertando sobre a expressão corpo de Cristo, diz que esta imagem da igreja como corpo tem
muitas vantagens sobre as demais metáforas utilizadas no Novo Testamento
porque:
1)
Ressalta o ato de que a igreja é uma
realidade espiritual viva e formada de membros vivos;
2)
Põe em relevo a diversidade dos
membros e suas relações mútuas, preservando a coesão viva do conjunto;
3)
Estabelece a relação do corpo com a
cabeça [...] que é Cristo, as noções de vida individual e de vida coletiva; de
crescimento até uma meta precisa [...]; crescimento que interessa a cada membro
e a todo o corpo;
4)
Evidencia a relação fundamental
entre corpo e Espírito e a importância do batismo em um só Espírito.[2]
Ao usar esta expressão metafórica, o
apóstolo Paulo associa a ela a concepção de que os cristãos são batizados em um
só Corpo (1Co 12.13) e que, em Cristo, são constituídos em um só corpo (Rm
12.5). Em consequência disso, todos os que estão em Cristo são membros uns dos
outros (Rm 12.5; Ef 4.25). Desta forma, o conceito teológico de igreja como
Corpo de Cristo, deve significar que:
1)
A igreja é uma unidade viva,
indivisível e completa em si mesmo.
2)
A igreja é uma unidade organizada e
em crescimento.
3)
A unidade na diversidade dos membros
estabelece o princípio da interdependência.
4)
Há uma relação íntima dos membros
com Cristo e dos seus membros uns com os outros (1Co 12.12-27).
5)
A comunhão genuína entre os membros
vai além das relações sociais (1Co 12.26; cf. At 4.32-35).
6)
A universalidade e a unidade
da igreja eliminam a distinção ou acepção de pessoas (1Co 12.12-13; Ef 1.22-23;
Gl 3.27-28; Cl 3.11).
7)
Cristo, como cabeça desse corpo, é o
Senhor da igreja sobre a qual ele exerce sua soberania (Cl 1.18).
3.2. Templo do Espírito de Deus
A igreja de Corinto é denominada por
Paulo de “santuário de Deus” (1Co 3.16). Em Ef 2.21-22, Paulo fala que os
crentes crescem “para santuário dedicado
ao Senhor” e que são edificados “para
habitação de Deus no Espírito”. Pedro diz que os crentes, como pedras
vivas, constituem-se em “casa espiritual”
(1Pe 2.5).
3.3. Coluna e baluarte da verdade (1Tm 3.15)
A expressão paulina “coluna e baluarte da verdade” significa
que, da mesma maneira que os pilares de um edifício sustentam a estrutura e o
teto, assim também a igreja há de manter incólume e incorrupta a verdade do
Evangelho em sua inteireza e exatidão. Assim sendo a igreja é:
1)
Produto
da Verdade – Se somos renascidos pela Palavra de
Deus (1Pe 1.23); se “a fé vem pelo ouvir”, pela Palavra de Deus (Rm 10.17); e se
os que recebem a Palavra são adicionados à igreja (At 2.41), resulta obviamente
que a Igreja é produto da Palavra da Verdade.
2)
Guardiã
e arauto da verdade – Na antiga aliança, Deus escolhia
quem proclamasse sua mensagem ao povo. O profeta, como assim era chamado,
proclamava: “Assim diz o Senhor”.
Assim também os enviados de Cristo são chamados a proclamar as grandezas daquele que os chamou das trevas para a sua
maravilhosa luz (1Pe 2.9). O conteúdo da pregação cristã (Kerygma) consiste em “todas as coisas” (Mt 28.20) ou ainda “todo o conselho de Deus” (At 28.20).
3)
Intérprete
da Verdade – Todo crente estudioso que se deixa
conduzir pelo Espírito Santo irá penetrando progressivamente nos tesouros da
Palavra. Contudo, a interpretação mais segura da Escritura é fruto de uma
tarefa comunitária, isto é, eclesial.
Isto só acontecerá por meio da ação unificadora do Espírito Santo por guiar
responsável os santos a toda a verdade (Jo 16.13).
A igreja é portadora dos oráculos
divinos. A ela foi concedida a revelação dos eternos desígnios de Deus, dos mistérios do reino (Mt 13.11; Lc 8.10;
1Co 4.1) e, portanto, a igreja é a guardiã da verdade, defendendo-a das
heresias e dos inimigos do reino de Deus.
3.4. A noiva de Cristo
No contexto da antiga aliança,
conforme descrito no Antigo Testamento, Yahweh
é, numa linguagem metafórica, identificado como o esposo de Israel (Is 54.4-5;
62.5; Jr 3.1, 14, 20; Ez 16.8; Os 2.18-21). Nesta imagem do matrimônio de Deus
com seu povo apoiam-se as expressões que fazem alusão à infidelidade e ao
adultério de Israel. “Geração adúltera e
pecadora” (Mc 8.38) foi o termo usado por Jesus ao referir-se aos seus
contemporâneos judeus que manifestavam em sua conduta infidelidade a Deus por
violarem a aliança. O eco desta expressão parece se ouvir em Tiago 4.4.
No Novo Testamento, especificamente
nos Evangelhos Sinópticos, Deus aparece como um Rei que convida Israel para as
bodas do seu Filho (Mt 22.1-14). A parábola das dez virgens (Mt 25.1-13)
ilustra a celebração das bodas do noivo (o Messias) com os remanescentes fiéis
dentre o povo de Deus. O Apocalipse declara: “são chegadas as bodas do Cordeiro, cuja esposa a si mesma já se
ataviou” (Ap 19.7). O apóstolo Paulo descreve a igreja como uma virgem
imaculada a ser apresentada como esposa para Cristo (2Co 11.2). Tais metáforas
com certeza designam a santidade e a pureza de vida da igreja.
4. O fundamento e a membresia da igreja
4.1. O fundador da igreja
Jesus, ao declarar: “edificarei a
minha igreja”, estava revelando sua função de agente divino para fundar a
igreja, assim como foi também agente divino na criação do universo. Mas, em
todos os atos do Filho, o Pai e o Espírito Santo estiveram operando também.
Desta forma, a fundação da igreja também é obra da Trindade.
a)
O Pai elege e chama – Yahweh
(Deus-Pai) para quem Israel era seu povo eleito (Is 45.4) elege, sela e envia
seu Filho Jesus Cristo (Jo 3.16; 6.27; 10.36) e Ele, elege, sela e chama os
seus escolhidos (Ef 1.3-6, 13; 1Pe 1.2) para formar a igreja.
b)
O Filho redime – sendo o
“único mediador entre Deus e os homens” (1Tm 2.5), Cristo é a ponte
estabelecida por Deus para nossa salvação e o caminho que nos leva ao Pai (Jo
14.6). Pelo seu sangue todos os eleitos são resgatados (Ef 1.7; 1Pe 1.19).
c)
O Espírito regenera – o Espírito
Santo infunde a vida, o movimento e a unidade da igreja. Pelo “novo nascimento”
nos dá a vida espiritual em Cristo (Jo 3.3, 5-8); Ef 2.1). Ele preserva a
unidade da igreja e reparte os dons espirituais (1Co 12.4; Ef 4.3-4, 7), para a
edificação da mesma.
No que se refere à “pedra angular da
igreja” (Mt 16.18), ao longo dos séculos, a Igreja Romana tem crido e ensinado
que o apóstolo Pedro é o fundamento sobre o qual Cristo edificou sua igreja. A
declaração de Jesus, em Mt 16.18: “Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a
minha igreja” tem gerado controvérsias, mas, como diz Thiessen, “não devemos
permitir que a conveniência da controvérsia religiosa determine nossa
interpretação, mas não devemos ignorar o consenso dos escritores bíblicos
acerca deste assunto”.[3]
Independentemente das interpretações
já conhecidas, Jesus deixou claro que sua igreja seria edificada e teria um
fundamento a que ele designou metaforicamente de “petra” (em grego) e não
“petros”. O vocábulo petra é
empregado dezesseis vezes no Novo Testamento, dentre as quais, onze vezes
significa uma porção saliente de uma rocha e cinco vezes, referindo-se a Cristo
(Mt 16.18; At 4.11; Rm 9.33; 1Co 10.4; 1Pe 2.8; cf. 1Co 3.11; Ef 2.20-22).
O apóstolo Pedro declarou em sua
primeira epístola que Cristo é a “pedra angular” que serve de fundação para a
igreja a que ele denomina como “casa espiritual” (1Pe 2.4-8). A “casa edificada
sobre a rocha” (Mt 7.24-27) que resiste aos ventos e tempestades é uma
referência à vida espiritual daqueles que fazem de Jesus o alicerce de sua fé e de sua salvação. O mesmo é ensinado por Paulo
quando diz que Cristo é o fundamento do edifício de Deus (1Co 3.11) e a “pedra
angular” (Ef 2.20-22).
A confissão de Pedro “Tu és o
Cristo, o Filho do Deus Vivo” expressa o miolo
da fé cristã. Mais que isso, é o centro da fé salvífica (cf. Jo 20.31; Rm
10.10). Pedro confessa que Jesus, o homem que está diante dele, é o Cristo, o
Ungido de Deus, o verdadeiro Messias enviado por Deus, o Filho Predileto, o
Unigênito de Deus, em contraste com todos aqueles que são vazios do poder
salvador. Assim, pois, Jesus, o Messias prometido, segundo a confissão de
Pedro, é a pedra fundamental do
Cristianismo e da própria igreja. A fé em Jesus é o fundamento de nossa
salvação. O cristianismo fundamenta-se na confissão de que Jesus é o Salvador
do mundo.
4.2. A membresia da igreja
Uma vez que cada igreja local não é
mais que a concreção espaço-temporal dessa realidade transcendente que chamamos
Igreja, então, uma verdadeira membresia na igreja local implica a união vital
com Cristo mediante o novo nascimento e conversão. Assim sendo, a igreja é
essencialmente a comunidade dos regenerados. Sem dúvida, como o interior dos
corações é conhecido somente por Deus (2Tm 2.19), é possível que algum
inconverso nela se introduza de forma despercebida, embora nela não permaneça
(cf. 1Jo 2.18-19).
Deduzimos de 1Jo 2.18-19 os
seguintes ensinamentos:
1)
“Eles
saíram de nosso meio; entretanto, não eram dos nossos;”
implica, portanto, que pode dar-se o caso de que alguém esteja conosco na
igreja sem que de fato pertença a ela.
2)
“Se
tivessem sido dos nossos, teriam permanecido conosco;”
deve significar que o verdadeiro crente permanece
até o fim, não como mérito para alcançar a salvação final, mas como indício da
salvação adquirida. Portanto, a igreja é um corpo espiritual que consta
unicamente dos regenerados pelo Espírito de Deus.
4.3. As relações da membresia
A noção de membro de igreja comporta
a ideia de que o crente é parte do organismo eclesial e, portanto, vive e opera
de acordo com este conceito. Por esta razão, ele guarda uma íntima relação com
a Cabeça (Cristo) e com os demais membros do corpo; relação que o apóstolo
Paulo designa por meio de expressões que indicam que os crentes são co-sepultados, co-plantados,
co-crucificados, co-ressuscitados (Rm 6.4-7), co-vivificados e co-assentados
nos céus com Cristo (Ef 2.5-6). De tudo isso, deriva a koinonia (comunhão) do corpo de Cristo, isto é, de cada crente com
Cristo e com os demais membros da igreja.
As passagens registradas em Ef 1.22;
4.15; 5.23; Cl 1.18; 2.19 declaram de forma explícita que Cristo é cabeça da
igreja. Tal declaração estabelece que Cristo não somente constitui-se no seu
legítimo mentor, mas principalmente
Autoridade Suprema sobre anjos e homens (Hb 1.1-14), o Chefe Soberano e Senhor
Proprietário da igreja.
Das passagens acima citadas deriva
compreensão de que a relação de cada crente com os demais membros da igreja
ocorre de tal forma que a ajuda mútua entre os membros de que fala Ef 4.16 é
essencial à noção de co-membro. Isto
estabelece uma relação de interdependência
que se manifesta por meio dos ministérios específicos exercidos individualmente
pelos membros da igreja de acordo com os dons recebidos.
Cada membro tem o direito e a
obrigação de manter vivo, isto é, ativo o dom recebido. O direito de exercitar
os dons proporciona a cada membro uma parte ativa na edificação da igreja por
meio da diversidade de dons e ministérios exercidos em função do proveito comum
e não de si mesmo. Portanto, na igreja não pode haver inúteis, pois todos têm algum dom para o exercício de algum
ministério; nem ociosos, pois o
trabalho nunca acaba e há atividade para todos desenvolverem.
4.4. Os nomes dados à membresia
Cada cristão individualmente e todos
os crentes coletivamente são designados como:
1)
Discípulos
de Jesus – de acordo com Mt 22.16, o discípulo
de Jesus era bem conhecido dos judeus. Ser discípulo
de Jesus comportava muito mais que ser alguém dentre as massas que o seguiram
para ouvir seus ensinos e presenciar seus milagres. O discípulo tinha com Jesus
uma relação de compromisso pessoal que exigia renúncia absoluta a tudo e a
todos, inclusive sua própria vida (Lc 14.25-27).
2)
Cristãos
– At 11.26 nos diz que foi em Antioquia que, pela primeira
vez, os seguidores de Cristo foram chamados cristãos.
O nome certamente teve logo rápida aceitação, pois vemos em At 26.28 que o rei
Agripa disse a Paulo: “Por pouco me
persuades a ser cristão”. A terceira passagem bíblica com tal referência é
1Pe 4.16, onde se estimula o crente a não se envergonhar se padece como cristão, para desta forma
glorificar a Deus.
3)
Irmãos
– O primeiro uso desta palavra em Atos é para designar os
coparticipantes das promessas de Yahweh,
prescindindo de sua aceitação pessoal e da fé cristã (At 1.16; 2.29, 37; 7.2;
13.15, 26, 38; 15.7, 13; 23.1, 6; 28.17). A partir de Atos 9.30 a palavra irmãos adquire outra concepção. Em At
9.30, indica os fiéis de Jerusalém. Em At 10.23 se aplica aos fiéis de Jope.
Posteriormente, o termo designa com frequência a todos os cristãos de qualquer
raça (At 11.1, 29; 15.23; 16.40; 17.10; 21.7; 28.14, 15; Rm 14.10, 15; 1Co
5.11; 6.5; 8.11, 13; 16.20, etc.).
4)
Santos
– este é o termo frequentemente usado por Paulo na saudação
em suas cartas (Rm 1.7; 1Co 1.7; 2Co 1.1; Ef 1.1; Fp 1.1; Cl 1.2; etc.),
indicando que o cristão é alguém posto à
parte, separado do mundo como possessão
exclusiva de Deus, a quem todos consagraram suas vidas e assim viverem para
ele.
5)
Filhos
de Deus – O apóstolo João (1Jo 3.1) prorrompe
em um grito de admiração: “Vede que
grande amor nos tem concedido o Pai, a ponto de sermos chamados filhos de Deus;
e, de fato, somos filhos de Deus. Por essa razão, o mundo não nos conhece,
porquanto não o conheceu a ele mesmo. O termo grego usado é tekna (plural de teknon, que quer dizer criança, menino). Outras passagens bíblicas que indicam tal filiação são Rm
8.14-16; Gl 3.26; Fp 2.15.
6)
Servos
de Deus – Tal expressão usada em 1Pe 2.16 (cf.
Ap 22.3) nos recorda duas coisas: 1) que a liberdade de filhos de Deus é compatível com o serviço a Deus. A obrigação que
nos impõe a lei de Cristo (1Co 9.21) é mais bem uma norma sábia que orienta ao
amor; 2) que, ainda que a diakonia
haja passado a ser a expressão técnica de um ministério específico, todo membro
da igreja é um diákonos, um servidor
mediante o uso do carisma peculiar
que recebeu do Espírito Santo.
5. Os atributos da igreja
5.1. Unidade (Ef. 4:4-6)
Paulo aponta três princípios que
definem a unidade da igreja:
1)
A unicidade de Deus
– "um só Espírito, um só Senhor, um
só Deus e Pai de todos" são as pessoas da Trindade que coexistem
simultaneamente no único Deus (1Tm. 2:5; Rm. 3:30).
2)
A unicidade da crença
– "uma só fé" como dom do
único Deus para a salvação de todos os que creem (Ef. 2:8-9). A meta de nosso
crescimento espiritual e de nossa maturidade a alcançarmos é o ponto final de
um processo de maturação que durará “até que todos cheguemos à unidade da fé”
(Ef 4.13).
3)
A unicidade da missão
– "também fostes chamados numa só
esperança da vossa vocação" (Ef. 4:4). A missão é única e todos fazem
parte dela.
A unidade da igreja é de caráter
meramente interno e espiritual; é a unidade orgânica do corpo de Cristo, do
qual todos os crentes são membros. Este corpo, embora tenha muitos membros, tem
uma só cabeça, Jesus Cristo, seu fundador. A concepção de unidade envolve
também dois elementos fundamentais: a uniformidade
do caráter cristão definida pela Imago
Dei restaurada no “novo homem” (2Co 3.18) e a integralidade dos que formam a “geração eleita”, a “nação santa”,
ou ainda, “o povo de propriedade exclusiva de Deus” (1Pe 2.9).
Em Cristo, estão desfeitas as
distinções, uma vez que todos os que foram batizados em Cristo foram revestidos
de Cristo (Gl 3.27) e, “Dessarte, não
pode haver judeu nem grego; nem escravo nem liberto; nem homem nem mulher;
porque todos vós sois um em Cristo Jesus” (Gálatas 3:28). Charles Van Engen
afirma que “o conceito de unidade não
significa juntar indivíduos ou denominações como pedaços de um quebra-cabeça,
para formar um todo maior. A concepção de Paulo é que o todo define a
identidade das partes, sendo mais que a soma delas”. [4]
5.2. Santidade (1Co 1:2)
A santidade da igreja deriva da
santidade de Deus (1Pe 1.14-15). A igreja é a comunidade dos santificados, que
foram chamados para ser santos (1Co 1.2). Ela é separada do mundo, isto é, “das
contaminações do mundo” (2Pe 2.20), e não das pessoas do mundo (1Co 5.9-10).
O povo de Deus é "nação
santa" (1Pe. 2:9), formada pelos filhos de Deus que devem andar na luz
como filhos da luz (Ef 5:8). A santidade da igreja caracteriza-se por ela ser o
"templo do Espírito Santo"
ou "santuário de Deus" (1Co
3:16-17; 6:19). Tal santidade se caracteriza também por uma plena alienação do
mal que marca o caráter de Deus, que é luz e nele não há treva nenhuma (1Jo.
1:5).
A igreja é chamada a manifestar sua
santidade nos relacionamentos pessoais dos crentes, que são luz, com o mundo
que está em trevas; e nas relações domésticas entre marido e mulher, entre pais
e filhos e entre servos e senhores (Ef. 5:3-6:9). Desta forma, a vida
santificada dos regenerados influencia a vida no mundo, favorecendo a uma
mudança cultural. “Na coletividade, o conjunto de indivíduos transformados faz
nascer uma cultura transformada”, declara Van Engen. [5]
Paulo apela para o reconhecimento de que o exercício da santidade cristã nas
relações cotidianas manifesta a santidade da igreja (Ef 5.6-6.20).
A santidade da igreja na sociedade é
a razão dos cristãos lutarem não “contra o sangue e a carne e sim contra os
principados e potestades, contra os dominadores deste mundo tenebroso, contra
as forças espirituais do mal, nas regiões celestes” (Ef 6.12). Em meio à
perversão individual e coletiva alimentada pelos sistemas e estruturas sociais,
“a igreja jamais deve pensar que a força política e econômica possa substituir
a força da santidade no Senhor”. [6]
5.3. Catolicidade (Hb 12:22-23)
Embora o sentido de igreja local
implique em uma multiplicidade e diversidade de congregações e, apesar do
pluralismo denominacional fazer distinções doutrinárias, litúrgicas e éticas, a
unidade da igreja como corpo redunda em sua universalidade.
Isto significa que a soma de todas as congregações e de todos os legítimos
cristãos formam uma só igreja, uma só "universal
assembleia" de todos os súditos do reino celeste (Hb 12:22-23).
Segundo a Epístola aos Efésios, a catolicidade da igreja é definida por alguns
princípios que não só identificam o caráter da igreja como também definem o seu
papel no mundo.
1)
Na plenitude dos tempos toda a
criação redimida deverá convergir a Cristo como centro do universo (Ef 1:10).
2)
A igreja, como corpo místico de
Cristo, “é a plenitude daquele que a tudo
enche em todas as coisas” (Ef 1.23)
3)
Em uma só igreja estão inseridos
todos os remidos dentre os judeus e gentios, isto é, remidos dentre toda a
humanidade (Ef 2:11-18).
4)
A universalidade do evangelho, fundamentada
numa oferta universal de salvação, estabelece o caráter universal da igreja (Ef
3:3-6; cf. Tt 2:11; Mt 28:19; Mc 16:15).
5.4. Apostolicidade (1Pe. 2:9)
A igreja é o povo eleito de Deus; e
tal eleição implica em vocação, responsabilidade e mandato missionário (1Pe.
2:9). Desta forma, a igreja é a única agência promotora e executora da Missio Dei. A igreja é o povo eleito e
vocacionado por Deus para uma missão no mundo (Jo 17.18; 20.21). Não existe
igreja sem missão nem missão sem igreja e nisto consiste o princípio de sua
apostolicidade. As bases do apostolado da igreja são:
1)
Jesus, o fundador legítimo da
igreja, foi o Enviado do Pai que comissionou os seus discípulos como apóstolos
(Jo 17.18; 20.21).
2)
A igreja nasceu e se edificou sobre
o fundamento dos apóstolos (Ef. 2:20).
3)
A Grande Comissão define não só a
missão como também o mandato apostólico da igreja (Mt 28:18-20).
5.5. Implicações teológicas
Com respeito à concepção teológica de igreja, Erickson
enumera as seguintes implicações teológicas:
1)
“A igreja não deve ser concebida
primeiramente como um fenômeno sociológico, mas como uma instituição
estabelecida por Deus. Por conseguinte, sua essência deve ser determinada não
por uma análise de suas atividades, mas pelas Escrituras”.
2)
“A igreja existe por causa de seu
relacionamento com o Deus Triúno. Ela existe para cumprir a vontade do Senhor
no poder do Espírito Santo”.
3)
“A igreja é a continuação da
presença e do ministério do Senhor no mundo”.
4)
“A igreja deve ser uma comunhão de
crentes regenerados que demonstram as qualidades espirituais de seu Senhor. A
pureza e a devoção devem receber destaque”.
5)
“Embora seja uma criação divina, a
igreja é composta de seres humanos imperfeitos. Ela não alcançará perfeita
santificação ou glorificação até o retorno do seu Senhor”.[7]
6. Os ministérios da igreja
O exercício dos ministérios
eclesiásticos exige governo; por outro lado, o governo na igreja se realiza por
meio de ministérios específicos. O poder eclesiástico, segundo Wayne Grudem,
consiste “na autoridade dada por Deus para levar a efeito a batalha espiritual,
proclamar o evangelho e exercer a disciplina da igreja”.[8]
Berkhof, embora não apresente um conceito teológico, descreve o poder da igreja
em relação à sua fonte e sua natureza. Em sua concepção, o poder emana
diretamente de Jesus Cristo como Cabeça da Igreja, “não apenas no sentido
orgânico, mas também no sentido administrativo, isto é, Ele é não somente
Cabeça do corpo, mas também Rei da comunidade espiritual”.[9]
Em seu lugar, seus ministros exercem autoridade em seu nome.
Os ministérios são exercidos por
ministros designados pelo Espírito Santo (1Co 12.1-11). A função que exerce o
ministro é seu ministério. No Império Romano, enquanto os magistrados estavam encarregados de administrar a justiça, os ministros estavam a serviço dos
magistrados para a execução de suas ordens, fazendo cumprir o que por eles fora
determinado.
No Antigo Testamento, o termo
hebraico mesharet designa os que
prestavam serviço no templo. Os tradutores da Septuaginta usaram o termo grego leiturgós (do qual deriva liturgia) que significa alguém que está
a cargo de um serviço público. Portanto, ministério
é ofício e ministro é oficial em
serviço sob as ordens de um superior.
O Novo Testamento usa três
expressões para identificar os ministros
da igreja: 1) o termo diákonos =
servidor, servente, encarregado de um ofício dentro da igreja (Fp 1.1); 2) o
vocábulo hyperétes (termo usado para
designar os remadores das galeras romanas subordinados ao comandante da nave)
usado por Paulo em At 26.16 e 1Co 4.1 para identificar-se como “criado de
Cristo”; 3) o termo leiturgós, para
expressar o caráter sacro do ministério como serviço à igreja e culto ao Senhor
(Rm 13.6; 16.16, 27; Fp 2.25; Hb 1.14; 8.2).
O termo grego epíscopos, composto de epi
(sobre, em cima de) + scopos
(observador, guarda, sentinela) foi usado para designar os presbíteros (anciãos) responsáveis pelo pastoreio e supervisão
geral da igreja (At 20.28). É tarefa fundamental dos epíscopos apascentar o rebanho (guiar, alimentar, vigiar, proteger
e curar). Efetivamente, o Novo Testamento reserva exclusivamente a Cristo os
vocábulos técnicos archiereús = sumo
sacerdote e hiereús = sacerdote;
enquanto que os seus ministros são designados pelos termos: epíscopos = supervisor; presbyteros = ancião; poimén = pastor; diákonos = servidor; e proestôn
= presidente.
7. A edificação da igreja através de ministérios especiais
Em Efésios 4.11-12, o apóstolo Paulo
declara que Cristo “E ele mesmo concedeu
uns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas e outros
para pastores e mestres, com vistas ao aperfeiçoamento dos santos para o
desempenho do seu serviço, para a edificação do corpo de Cristo”. Em suma,
Cristo estabeleceu alguns ministérios específicos aos quais designou pessoas
específicas para habilitar os santos
para o serviço a Deus, visando obter como resultado a edificação completa da
igreja. Quatro tipos de ministérios são mencionados por Paulo: apóstolos,
profetas, evangelistas, pastores e mestres.
7.1. Apóstolos
O nome apóstolo designa primeiramente qualquer dos doze, que foram testemunhas da vida, ministério, morte e
ressurreição de Cristo (At 1.21-22). O colegiado apostólico dos doze na igreja
primitiva era o mais alto escalão da autoridade eclesiástica. O ministério dos
doze não seria repetido, isto é, eles não haveriam de deixar sucessores. A
sucessão de Judas Iscariotes ocorreu antes do Pentecostes. Após o Pentecostes
ninguém mais é substituído. Exemplo disto é Tiago que não teve substituto após
sua morte por Herodes (At 12.2). Os critérios para o exercício do apostolado,
de acordo com At 1.21-22, eram três:
1)
Que fosse varão (andrôn) – “dos homens
que nos acompanharam todo o tempo” (v. 21). A mulher judia estava excluída
dos tribunais e não podiam exercer qualquer função que designasse autoridade de homem (cf. 1Tm 2.12).
Assim se explica que, mesmo tendo sido as mulheres as primeiras testemunhas da
ressurreição de Jesus, nenhuma foi escolhida para suceder Judas ou Tiago.
2)
Que houvesse acompanhado a Jesus
desde o batismo de João até o dia de sua ascensão (v. 22).
3)
Que fosse testemunha da ressurreição – qualificação especial
para a proclamação da mensagem (kérygma)
centrada na pessoa e obra de Cristo.
Em segundo lugar, apóstolo significa simplesmente enviado, comissionado, mensageiro. Paulo
vê o apostolado como vocação para a missão de plantar igrejas. Portanto, em
sentido mais amplo, qualquer missionário é apóstolo. A figura de um apóstolo na
igreja primitiva é a de um mensageiro
itinerante, cuja mensagem era ratificada por meio de “sinais e maravilhas” (cf. 2Co 12.12). Exemplo claro disso, é
Filipe, diácono da igreja de Jerusalém enviado como apóstolo a Samaria (At
8.5-7).
7.2. Profetas
Em grego, o termo usado para
designar um profeta é profétes que,
literalmente, significa porta-voz de outro; no caso presente, porta-voz de Deus
mediante uma peculiar inspiração. A diferença entre os apóstolos e os profetas
do Novo Testamento está no fato de que a inspiração destes era ocasional e, por
isso, sua autoridade como mestres estava subordinada à dos apóstolos.
O ministério profético exercido pela
igreja consiste na proclamação da revelação de Deus ao mundo. Tal ministério
tem início no evento histórico do derramamento do Espírito Santo, no dia de
Pentecostes. A interpretação que Pedro deu daquele evento estava fundamentada
na profecia de Joel. A partir daquele momento, todos na igreja, ungidos com o
Espírito Santo, estavam designados como profetas do Senhor, sem distinção de
pessoas. De acordo com Atos 2.14-18, a missão profética da igreja haveria de
ser realizada por pessoas de todas as idades sem distinção de sexo ou classe
social.
O versículo 17 declara: “vossos filhos e vossas filhas profetizarão,
vossos jovens terão visões, e sonharão vossos velhos; até sobre os meus servos
e sobre as minhas servas derramarei do meu Espírito naqueles dias, e
profetizarão”. Isto significa que na igreja todos os crentes foram
designados como mensageiros de Deus no mundo, tanto jovens como velhos, homens
e mulheres e pessoas de todas as classes sociais, inclusive os escravos. Todos
eles profetizarão. Não se trata aqui do dom da profecia exercido no culto como
dom concedido pelo Espírito de Deus a alguns, mas da ministração da Palavra de
Deus aos pecadores inconversos.
O propósito deste ministério é
restabelecer a paz entre o mundo e Deus, como diz Paulo em 2Co 5.17-20: “E, assim, se alguém está em Cristo, é nova
criatura; as coisas antigas já passaram; eis que se fizeram novas. Ora, tudo
provém de Deus, que nos reconciliou consigo mesmo por meio de Cristo e nos deu
o ministério da reconciliação, a saber, que Deus estava em Cristo reconciliando
consigo o mundo, não imputando aos homens as suas transgressões, e nos confiou
a palavra da reconciliação. De sorte que somos embaixadores em nome de Cristo,
como se Deus exortasse por nosso intermédio”.
Desta forma, a voz de Deus deve ser
ouvida no mundo por meio da igreja como detentora dos oráculos divinos e dos
mistérios do reino dos céus. Deus fala ao mundo através da igreja, que se
apresenta como embaixada de Cristo na terra.
7.3. Evangelistas
Esta palavra “evangelista” significa
anunciador de boas novas. São pois os
proclamadores da mensagem de salvação, o verdadeiro kerygma. Desta forma, todo apóstolo é evangelista, mas nem todo
evangelista é apóstolo. Os evangelistas parecem ser pessoas comuns dentre o
rebanho que testemunham de Jesus sem, contudo, exercer cargo de liderança ou
governo na igreja.
Talvez tenha sido por isso que os
apóstolos Pedro e João foram a Samaria confirmar o ministério de Filipe,
intitulado em At 21.8 de evangelista, o qual era também um simples diácono da
mesma igreja que ao se dispersar por causa da perseguição, proclamava a palavra
a todos os que encontravam pelo caminho (At 8.4-17).
7.4. Pastores e mestres
Calvino interpretou estes termos
como sendo diferentes funções para pessoas diferentes. Mas biblicamente, não há
razões para que se reconheça a exclusividade da função pastoral isoladamente,
isto é, separada da exortação e do ensino das Escrituras. Paulo exorta a
Timóteo, um dos aspirantes ao episcopado, a não só fazer o trabalho de evangelista e cumprir cabalmente o seu ministério
(2Tm 4.5), mas também a dedicar-se à leitura,
à exortação e ao ensino (1Tm 4.13). É critério para a
eleição de bispos (epíscopos) o ser
“apto para ensinar” (1Tm 3.2; Tt 1.9). Assim sendo, todo pastor é mestre,
embora a recíproca não seja verdadeira.
Por outro lado, com base em Romanos
12.7, o ensino não é prerrogativa exclusiva do ministério pastoral. Isto
significa que nem todos os que ensinam (didaskalos)
são pastores (poimén). Exemplo disso,
pode ser visto em At 13.1 com respeito à igreja de Antioquia, onde havia
pessoas que, segundo parece, exerciam a atividade profética distinta da
atividade docente. Em 1Co 12.28, Paulo, usando a expressão “primeiramente, apóstolos; em segundo lugar, profetas; em terceiro
lugar, mestres; depois, operadores de milagres; depois, dons de curar,...”
faz explícita distinção de pessoas e seus respectivos ministérios.
8. O governo na igreja
8.1. Noção de autoridade
Há, em grego, duas classes de
autoridade: krátos (poder absoluto,
majestade, soberania), próprio do kyrios, o Senhor; e a exousia (poder para governar, domínio,
jurisdição) próprio do magistrado que exerce justiça para fazer cumprir a lei.
O primeiro termo indica a soberania exercida por quem tem o poder absoluto
(monarca); o segundo designa o poder delegado a alguém. De um modo geral,
autoridade é o poder que cria e mantém a
ordem.
Na igreja, a autoridade suprema (krátos) reside em uma única pessoa:
Deus. No que se refere ao governo eclesiástico, há três autoridades na igreja:
a Palavra de Deus, como única norma impecável; o Filho de Deus, Jesus Cristo,
como único Senhor de tudo e de todos; e o Espírito de Deus, como único
princípio vital, o verdadeiro Vigário de
Cristo na terra. Aqueles a quem o Espírito Santo separou e habilitou com
dons para a liderança da igreja são ministros
a serviço de Cristo que, em seu nome e com a autoridade que lhe foi delegada
(comissionados) cumprem e fazem cumprir a vontade soberana de Deus.
8.2. O ofício de governar
Em sua Primeira Epístola a 1Timóteo
5.17, o apóstolo Paulo diz: “Devem ser
considerados merecedores de dobrados honorários os presbíteros que presidem
bem, com especialidade os que se afadigam na palavra e no ensino”. O termo
grego aqui usado para designar a tarefa de presidir exercida na igreja pelos
presbíteros é proistemi, que indica a
função de presidir, superintender, exercer chefia. Este termo era usado na
Antiga Grécia para designar os prefeitos e presidentes ou chefes de partido ou
de grupo.
O fato de que o único Chefe e
Governador da igreja, com autoridade própria e domínio sobre as comunidades
locais, seja Jesus Cristo, não é obstáculo para que haja nas igrejas o ofício
de governo exercido pelos líderes da comunidade local. De acordo com 1Co 12.28,
o Espírito concede a alguns crentes o dom de governar.
Na igreja, a autoridade para
governar está concedida diretamente aos pastores a quem o rebanho deve prestar
obediência e submissão. “Obedecei aos
vossos guias e sede submissos para com eles; pois velam por vossa alma, como
quem deve prestar contas, para que façam isto com alegria e não gemendo; porque
isto não aproveita a vós outros" (Hb 13.17).
8.3. O exercício do poder eclesiástico
O exercício do poder através da
igreja ocorre no aspecto espiritual e na instância do sobrenatural. Em nome de
Jesus, a igreja usa da autoridade que lhe foi outorgada para derrotar as forças
demoníacas que a ela se opõem (Ef 6.10-12); para proclamar o evangelho como
manifestação do “poder de Deus para a
salvação de todo aquele que crê” (Rm 1.16) cujo resultado é a conversão do
pecador “das trevas para a luz e da
potestade de Satanás para Deus” (At 26.18). A igreja detém o poder divino
também para derrotar a oposição não só contra os de fora da igreja (At 13.8-11)
como também os de dentro, que se manifestam como opositores ativos do
ministério apostólico (1Co 4.18-21; 2Co13.1-3, 10).
Por outro lado, a autoridade para o
governo e exercício da disciplina, simbolizada pelas “chaves do reino dos céus” (Mt 16.19; 18.18), é o meio pelo qual a
igreja cumpre na terra as determinações procedentes da soberania divina. Como
agência do reino dos céus, a igreja impõe-se contra as forças do pecado para
disciplinar e livrar da disciplina. “Ligar” e “desligar”, em Mt 16.19 e 18.18,
significam respectivamente o ato de restringir a conduta, impondo uma pena
disciplinar (ligar), e liberar da punição imposta (desligar). A disciplina é
aplicada em situações e relacionamentos (cf. Mt 18.15-20).
1)
A
necessidade da disciplina
Disciplina é o meio pelo qual se
busca o ajuste do caráter e do comportamento humano ao padrão estabelecido por
meio de normas e preceitos. Segundo o texto de Hebreus 12.4-17, a disciplina é
tanto um ato como uma exigência de Deus. Por meio dela, cada discípulo de Jesus
aprende a viver de acordo com o padrão de conduta definido pelas Escrituras.
Há, pelo menos, quatro razões pelas quais a disciplina é necessária: (a) para
corrigir as distorções de conduta; (b) para aperfeiçoamento do caráter; (c)
para o ajustamento da relação com o próximo e com Deus; (d) para restaurar o
crente que cai em pecado.
2)
O
propósito da disciplina
A aplicação da disciplina, em toda e
qualquer circunstância, procura levar a efeito a lei de Cristo concernente a
admissão e exclusão de membros. Tem como objetivo central promover a edificação
espiritual dos membros da igreja, assegurando a sua obediência às leis de
Cristo e, acima de tudo, a manutenção da santidade da igreja. A aplicação da
disciplina também visa: a) manter a ordem e o respeito na igreja (2Ts 3.6; Rm
16.17); b) restaurar a comunhão e a paz entre irmãos dissidentes (Mt 18.15-19);
c) dissuadir outras pessoas de seguirem o exemplo dos que vivem em pecado (1Tm
5.20); d) preservar a integridade e a pureza da igreja (1Co 5.6-11);
8.4. Os
modelos de disciplina
1)
A disciplina preventiva
No exercício da disciplina, medidas
preventivas são adotadas, visando eliminar por antecipação as possíveis causas
de queda no pecado. Tais medidas são: a admoestação que consiste na advertência
quanto ao perigo e as consequências de cair em pecado. (1Tm 1.18-20; 2Tm
2.16-18; Tt 1.10-14; Hb 3.12-19.); e exortação, que é a palavra de
encorajamento, de incentivo, que estimula a prática dos bons costumes (Rm
12.16-21; Ef 4.25-32; Cl 3.5-9; 1Ts 5.12-15).
2)
A disciplina corretiva
Esta é a disciplina terapêutica (Gl
6.1), cujo propósito visa corrigir as distorções do comportamento e os desvios
do caráter. Normalmente, os procedimentos adotados são a repreensão e a punição. A
primeira visa convencer o irmão infrator da culpa e da gravidade da falta
cometida. Exemplos: Mt 18.15-17; Gl 2.11-14; 1Tm 5.20. A segunda implica em
submeter o infrator a uma pena imposta por deliberação da igreja (2Co 2.5-6;
1Co 6.4-5). O apóstolo Paulo recomenda privar o infrator de manter contato com
os demais crentes (2Ts 3.14-15).
3)
A
excomunhão
A excomunhão ocorre em situações
extremas que se caracterizam por situações reconhecidas como intoleráveis para
o padrão ético da igreja. As situações mais frequentes ocorrem quando:
a)
o amor
cristão for violado por um irmão dissidente que recusa a retratar-se (Mt
18.15-18);
b)
quando a
unidade da igreja for violada por causadores de facção e semeadores de contenda
(Rm 16.17-18; Tt 3.10-11);
c)
quando a
santidade da igreja for maculada por causadores de escândalos (1Co 5.1-5, 9-11;
2Co 6.3; Rm 16.17);
d)
quando a
doutrina da igreja for violada por quem semeia heresias e perverte a fé (1Tm
1.18-20; 2Tm 2.16-18;2Pe 3.15-17).
8.5. Formas
de governo da igreja
A grande
questão relacionada à forma de governo da igreja deve julgar se ela é
compatível com as Escrituras ou não. “Uma forma ideal de governo eclesiástico
obedecerá aos princípios bíblicos de ordem e de sacerdócio de todos os
crentes”, diz Erickson.[10] Dentre os modelos eclesiásticos de governo, três
são os principais, mesmo havendo em cada um algumas variações: episcopal,
presbiteriano e congregacional.
1)
Episcopal
Na forma
episcopal de governo, a autoridade reside no bispo, em seus diversos níveis de
episcopado. A forma mais simples é encontrada na Igreja Metodista que
estabelece apenas um nível de bispos. Nas demais igrejas, como Católica Romana
e a Anglicana, o episcopado é hierárquico e mais complexo.
No sistema
episcopal, há diversos níveis de ministério ou diferentes graus de ordenação. O
primeiro é o do ministro ou sacerdote comum. Este se subdivide em diáconos e presbíteros (no catolicismo, a função de presbítero é exercida pelo
pároco, ou vigário paroquial). Estes estão sob a regência de um bispo regional
o qual é investido do poder de Deus (teocracia centralizada no bispo). Como
representantes de Deus, governam um grupo de igrejas locais (diocese) e ordenam
os ministros ou sacerdotes locais. Na escala de ascendência, a Igreja Romana
conta com os arcebispos (governantes das arquidioceses), os cardeais e,
finalmente, o papa, o qual acumula a função de bispo de Roma.
2)
Presbiteriano
O sistema
presbiteriano é menos centralizador que o episcopal. Nele a autoridade é
exercida pelo oficial principal, o presbítero (posição que remonta à sinagoga
judaica). No Novo Testamento, os presbíteros eram ministros eleitos pela igreja
local para o ministério pastoral e o governo da igreja (At 14.23; 20.28). Neste
sistema, entende-se que a autoridade de Cristo é delegada aos presbíteros eleitos,
aos quais os demais crentes se submetem. Por meio deles é que a autoridade
divina é de fato exercida na igreja.
A
autoridade eclesiástica é exercida numa série de concílios. O Conselho (ou consistório) é o grupo
responsável pelas decisões, no âmbito da igreja local. As igrejas locais são,
por sua vez, administradas pelo Presbitério
(igual número de presbíteros leigos e clérigos). No nível mais alto, a igreja
Presbiteriana possui uma assembleia geral, o Supremo Concílio, que também se constitui de leigos e clérigos
eleitos dentre os presbíteros. A constituição da denominação define as
prerrogativas de cada um desses concílios. No sistema presbiteriano, o
presbítero docente ou regente é o pastor local. Não existem níveis mais altos,
como o de bispo.
3)
Congregacional
No sistema
congregacional, a igreja é o centro da autoridade, que é exercida seguindo dois
princípios: a autonomia e a democracia. Pelo princípio da autonomia, a igreja
local é livre e independente, não estando subordinada a nenhuma instituição ou
outra igreja. Por ser democrática, cada indivíduo tem direito à voz em todos
assuntos tratados em assembleia geral dos membros, reconhecida como seu poder
máximo.
No sistema
congregacional, cada igreja local escolhe seu próprio ministro a quem delega a
responsabilidade do ofício pastoral, mas sem nenhum poder decisório. Outras
pessoas, dentre os leigos, são eleitas para cargos de cunho administrativo, de
acordo com a estrutura local definida pela assembleia dos membros. Embora não
tenha mandato determinado, o ministro, a critério da igreja, pode ser
substituído a qualquer tempo.
8.6. Os
oficiais do ministério e do governo eclesiástico
O Novo
Testamento estabelece que, em cada igreja local, um grupo de presbíteros
formava a liderança maior. Um colegiado pastoral, composto por presbíteros, era
eleito por cada igreja (At 14.23; Tt 1.5). Não há nenhuma evidência no Novo
Testamento de que alguma igreja, por menor que fosse, estivesse sob o comando
de um único presbítero. O único exemplo de que uma igreja esteve sob a direção
ou influência maior de uma só pessoa é o exemplo negativo de Diótrefes (3Jo
9-10), mas, mesmo assim, não está claro que, em sua igreja ele fosse o único
presbítero. A pluralidade de presbíteros era padrão para todas as igrejas
neotestamentárias.
Os
presbíteros são também chamados “bispos” e sua função principal é “pastorear a igreja de Deus” (At 20.28;
1Pe 5.2). A ação pastoral está diretamente relacionada com o ensino da Palavra
de Deus (1Tm 3.2; 5.17). Além do ensino, os bispos (ou presbíteros) estavam
encarregados da ministração aos enfermos (Tg 5.14); do governo do rebanho (1Tm
3.4-5; Hb 13.17) e da ordenação de ministros eleitos pela igreja (1Tm 4.14). A
partir de 1Tm 5.17, é possível deduzir é que o presbitério, em cada igreja, era
presidido temporariamente por um dos bispos locais. Os ministros auxiliares são
os diáconos. As referências aos diáconos são poucas, as principais são: Fp 1.1
e 1Tm 3.8-13. Desta última, a respeito dos diáconos, Wayne Grudem propõe o
seguinte:
Parecem ter tido alguma responsabilidade no cuidado
com as finanças da igreja, já que tinham de ser ‘não cobiçosos de sórdida
ganância’ (v. 8). Talvez tivessem alguma função administrativa em outras
atividades da igreja também, porque deviam governar bem seus filhos e sua
própria casa (v. 12). Podem ter também atendido às necessidades físicas dos que
eram da igreja ou da comunidade que necessitava de ajuda [...] Além disso, o
versículo 11 fala de suas esposas (e creio que fala), é provável que também
estivessem envolvidos em algum tipo de visitação de porta em porta e em
aconselhamento, pois as esposas não devem ser ‘maldizentes’.[11]
8.7. O
poder da igreja e do Estado
Tanto a
igreja como o Estado são instâncias da autoridade divina. “O Estado representa
o governo de Deus sobre a condição externa e temporal do homem, ao passo que a
igreja representa o seu governo sobre a condição interna e espiritual do
homem”, declara Berkhof.[12] O Estado assegura a posse e o gozo dos direitos
civis; a igreja exerce o poder em oposição às forças do mal com o propósito de
livrar o homem da escravidão espiritual, submetendo-o aos preceitos divinos.
No
exercício da autoridade, as armas da igreja são diferentes das armas do Estado.
Este faz uso da espada para agir como representante de Deus para “castigar o que pratica o mal” (Rm 13.4). A
igreja usa armas que “não são carnais” (2Co 10.4), também denominadas por
Paulo como “armadura de Deus” (Ef 6.10-12). As armas da igreja são espirituais
e destinam-se às batalhas “contra os
principados e potestades, contra os dominadores deste mundo tenebroso, contra
as formas espirituais no mal”. Isto significa que a ação beligerante da
igreja não está direcionada a pessoas ou instituições humanas. Somente ao
Estado foi outorgado o direito de usar a força; à igreja, jamais (Mt 26.51-53).
9. O
batismo cristão
9.1. O
selo do arrependimento
O batismo
é uma ordenança de obrigação perpétua que se fundamenta principalmente no fato
de Cristo ter se submetido ao batismo para que desse cumprimento a toda a
justiça (Mt 3.13-15). O verbo grego usado em Mateus e traduzido como cumprir é (plhrow) que significa literalmente encher a ponto de transbordar, dar plenitude
ou acabamento, cumprir (no sentido de satisfazer por completo).
Segundo os
profetas veterotestamentários, especialmente Daniel 9.24, o propósito divino
com respeito a Israel teria cumprimento em um tempo específico quando Deus
haveria de “dar fim aos pecados, expiar a iniquidade” e, acima de tudo, “trazer
a justiça eterna” por meio do Messias. Jesus veio para satisfazer plenamente, encher por completo a medida da justiça
de Deus.
A obra
messiânica de Jesus teria de ir além da experiência do pecado. Cristo veio
implantar o reino messiânico no mundo, um reino que traria justiça e paz sem
fim (Is 9.7). O regime da lei chegara ao fim para dar lugar à nova ordem do
reino escatológico divino. Todos são chamados ao arrependimento, sujeitando-se
à vontade soberana de Deus, e o batismo era o selo da regeneração. O batizado é
um pecador justificado, pois toda pendência para com a lei de Deus está quitada
pelo perdão mediante o arrependimento e a fé em Jesus, confirmados no batismo.
Por que
Jesus se submeteu ao batismo, uma vez que ele não tinha pecado? Embora não seja
dito explicitamente pelas Escrituras, estas subentendem que a obra expiatória
de Cristo é um sacrifício de substituição pelo qual a vítima sem mácula
oferecida no atar era o meio de propiciação pelos pecados para o resgate da
vida do pecador.
Embora
Jesus não fosse pecador, ele veio para substituí-lo e representá-lo perante
Deus, cumprindo toda a lei e submetendo-se completa e totalmente à vontade
soberana de Deus. Somente desta forma o homem, por meio de Jesus, é realmente
recebido como justo por Deus. O batismo é o pacto da obediência a Deus que
somente os pecadores arrependidos podem firmar.
9.2. Símbolo
da morte e ressurreição do pecador
A obra da
expiação do pecado realizada por Cristo foi um sacrifício vicário. Portanto,
todo pecador arrependido que nele crê está justificado, isto é, não pesa mais
sobre ele as razões para que seja condenado à morte, pois seus pecados foram
perdoados e Deus, por sua graça, lhe concedeu o dom da vida eterna. Assim
sendo, todo verdadeiro cristão é um regenerado que, depois de morto pelo
pecado, foi ressuscitado, passando da morte para a vida.
Em Cl
2.12, Paulo assegura que os santos “tendo sido sepultados, juntamente com ele
(Cristo), n batismo” também foram igualmente “ressuscitados mediante a fé no
poder de Deus que o ressuscitou dentre os mortos”. Tal ressurreição tem
natureza estritamente espiritual. Em Romanos 6.1-11, Paulo ensina que o batismo
consiste no sepultamento de um pecador que ressuscita para uma nova vida, uma
vida de santidade e obediência a Deus. Por esta razão, ele levanta a questão:
“Como viveremos ainda no pecado, nós os que para ele morremos? Ou, porventura,
ignorais que todos nós que fomos batizados em Cristo Jesus, fomos batizados na
sua morte?” (vv. 2-3).
Ao ser
batizado “em Cristo”, todo mortal arrependido tem sua sentença cumprida por
Jesus; de modo que, em Cristo, os santos, por meio do batismo, foram
sepultados. Mas como a morte já não tem poder sobre ele, uma vez que “quem
morreu está justificado do pecado” (v. 7), nem pode mantê-lo sob seu domínio, o
pecador justificado pela fé em Jesus ressuscita espiritualmente para viver para
Deus (vv. 10-11), para andar em novidade de vida (cf. vv. 4-5).
10. A
ceia do Senhor
10.1. Um
rito de celebração
A ceia do
Senhor é um rito praticado pela igreja em memória da morte de Cristo. Na
instituição da Ceia por meio de Cristo, a nova aliança foi selada pelo
sacrifício de sua vida que estava na iminência de ser realizado. De acordo com
1Coríntios 11.23-26, o rito é simbólico e representa três fatos fundamentais
que envolvem a relação entre Deus e a igreja: (1) Uma aliança eterna foi
firmada entre Deus e a igreja, tendo Cristo como mediador; (2) O sangue de
Jesus derramado para expiação dos nossos pecados é o preço do resgate de nossas
vidas pago a Deus Pai; (3) O Senhor está vivo, ressuscitado dentre os mortos, e
um dia vai voltar para consumar o eterno desígnio de Deus.
10.2. Um
rito de comunhão
A mesa, na
cultura hebraica, era o lugar de comunhão do povo de Deus durante as refeições
comunitárias realizadas após o sacrifício de animais oferecidos em “ofertas
pacíficas” (Lv 3.1-17; 1Sm 9.12-13; 16.3-5). A vítima do sacrifício era
consumida numa refeição de comunhão sob a bênção de Deus. O Salmo 23 expressa a
declaração de Davi que somente Deus poderia propiciar-lhe a oportunidade de
sentar-se à mesa com os seus adversários onde o seu cálice de comunhão
transbordava (v. 5).
A ceia do
Senhor é o rito que celebra a paz entre Deus e o homem. A mesa da cerimônia
pascal foi o lugar onde Deus, por meio de seu Filho, celebrou com os homens uma
aliança de paz selada com o sangue precioso de Jesus para remissão de pecados
por meio dos quais os homens haviam se tornado inimigos de Deus. O “cálice da
aliança” é o cálice da reconciliação, por meio do qual é celebrada a comunhão
restaurada entre o homem e Deus. Acusado pelos fariseus de sentar-se na mesa de
publicanos e pecadores e comer e beber com eles, Jesus respondeu: “Os sãos não
precisam de médico, e sim os doentes. Não vim chamar justos, mas pecadores ao
arrependimento” (Lc 5.31-32). A mesa para Jesus era o lugar oportuno para
reconciliar pecadores com Deus. Portanto, a ceia do Senhor é o lugar da
comunhão dos crentes com Deus por meio de Jesus, o mediador da eterna aliança.
CAPÍTULO
XIX
ESCATOLOGIA
INDIVIDUAL
Introdução
Escatologia,
termo derivado do grego (último, sentido de extremo), logosV (palavra, discurso), é a parte da teologia que
expressa a doutrina dos fatos e fenômenos dos últimos dias da história da
salvação. Os temas centrais de que trata a escatologia são: a morte, a
ressurreição, o estado da alma entre a morte e a ressurreição, o reino
escatológico messiânico, a segunda vinda de Cristo, o juízo final e o destino
eterno da humanidade.
A
escatologia é o desfecho da teologia cristã, em ambos os Testamentos do cânon
bíblico. Ela exprime a resposta divina à esperança última do homem. Toda a
mensagem da salvação declara o fim do mundo atual, onde reina o pecado e a
morte, o início do século eterno,
durante o qual a nova criação gozará da harmonia, da paz e da perfeita comunhão
com Deus.
1. A
morte física
Em sentido
geral, morte significa a cessação de qualquer forma de vida. O vocábulo grego qanatoV (morte) significa, no sentido natural da
existência, o fenômeno da separação da alma do corpo, pela qual cessa a vida no
mundo atual. Este é o conceito de morte física.
No reino
animal, a morte é o extermínio, o aniquilamento e o fim da existência dos seres
desprovidos de alma ou espírito. Para os seres humanos, a experiência da morte
tem outro significado. A morte não faz cessar a existência, ela consiste numa disjunção
das relações naturais da vida. Ao sair o espírito (natureza imaterial) do corpo
(natureza material), a vida prossegue seu curso por toda a eternidade; apenas
ocorrem as mudanças de nível e forma de vida, em uma nova dimensão e novo
ambiente de existência. O corpo perece, deixa de existir, morre. Morte é a desintegração do homem.
Tiago
declara: “O corpo sem espírito está
morto” (Tg 2.26). A vida do corpo cessa com a separação da alma (Gn 35.18).
Pedro descreveu a morte física como o abandono do corpo que ele chama de “meu
tabernáculo” (2Pe 1.14-15). Jesus, ao passar pela morte, orou: “Pai, nas tuas
mãos entrego o meu espírito” (Lc 23.46).
1.1. O
conceito de Jesus sobre a morte
Na
concepção de Jesus, morte não é o fim, mas um estado da alma separada do corpo.
Na ressurreição da filha de Jairo, declarou a respeito dela: “Ela não está
morta, mas dorme” (Mc 5.39; Mt 9.24; Lc 8.52). A mesma ideia é revelada pela
narrativa da morte de Lázaro: “Nosso amigo Lázaro adormeceu, mas vou para
despertá-lo” (Jo 11.11; cf. 11.14).
O conceito
que Jesus deu de morte nada tem a ver com a teoria do sono da alma. Para Jesus, na morte, a existência continua e a alma
apenas muda de ambiente, permanecendo em estado de consciência. O estado de
consciência da alma é descrito por Jesus na parábola do rico e Lázaro, em Lc
16.19-31, onde Abraão e o homem rico conversam sobre a situação e o destino dos
mortos.
1.2. O
conceito de Paulo sobre a morte
Paulo se
valeu da mesma terminologia de Jesus para expressar seu conceito de morte. Em
1Ts 4.13, ele se refere aos mortos como “os que dormem” que haverão de ser
trazidos por Jesus novamente à vida em um novo corpo durante a ressurreição, em
sua segunda vinda (1Ts 4.14-15).
Conforme
Paulo, o corpo está sujeito à morte, mas o espírito não o está (Rm 8.10). O
tipo de corpo de nossa atual forma de existência não se adapta à habitação
eterna devido à sua natureza mortal (1Co 15.50-53). Por isso, o corpo
corruptível é provisório e ele o designa como “tabernáculo”, o qual haverá de
ser desfeito e substituído por outro que ele chama de “habitação celestial”
(2Co 5.1-4). Paulo entendia que, por ser resgatado por Jesus, morrer significa
partir desta vida e estar com Cristo (Fp 1.21-23).
1.3. A
natureza da morte
Em Mt
10.28, Jesus diz: “Não temais os que
matam o corpo e não podem matar a alma; temei, antes, aquele que pode fazer
perecer no inferno tanto a alma como o corpo”. A morte se manifesta sob
três formas: morte física, morte espiritual e morte eterna. A morte espiritual
consiste na separação entre a pessoa e Deus, que se caracteriza por uma degeneração
(perda total da vitalidade) espiritual (Ef 2.1-2). A morte eterna consiste na
consolidação do estado de separação entre a pessoa e Deus, definido por toda a
eternidade. Designada como “segunda morte” em Ap 21.8, a morte eterna
caracteriza-se por um estado de separação de Deus durante um período infinito
de punição ininterrupto.
2. O
estado intermediário
As
Escrituras falam da sobrevivência da alma e da ressurreição dos mortos. A
questão a ser tratada é a seguinte: Onde e como vivem as almas dos mortos? De
acordo com Ec 12.7, quando o homem morre, o corpo volta à terra de onde se
originou e o espírito retorna a Deus. Isto implica em dizer que os mortos são
espíritos humanos desincorporados, mas não aniquilados (não exterminados), e
que estão em algum lugar designado por Deus.
2.1. O
estado dos justos
Onde estão
os justos que morreram? Os santos que “dormem” estão com Cristo. Paulo assegura
que, quando os santos morrem, o lugar para onde vão é o mesmo onde Jesus está
(Fp 1.23). Estar ausente do corpo (morte) é estar presente com o Senhor (2Co
5.8). Jesus prometeu ao malfeitor arrependido: “Hoje estarás comigo no paraíso”
(Lc 23.43). Em 1Ts 4.14, Paulo declarou que, por ocasião da segunda vinda de
Cristo, Deus trará com ele aqueles que já dormiram. Estas passagens asseguram
que os justos, na ocasião da morte, entram imediatamente na presença de Deus.
Em que
estado se encontram os justos que morreram? Os justos desincorporados estão
vivos e conscientes. O Novo Testamento apresenta várias passagens que nos
ajudam a crer nisso. Referindo-se ao Pai, Jesus disse aos saduceus que “Ele não
é Deus de mortos, e sim de vivos” (Mt 22.32). Diante do túmulo de Lázaro,
referindo-se à ressurreição, Jesus declarou: “Quem crê em mim, ainda que morra
viverá; e todo o que vive e crê em mim não morrerá, eternamente” (Jo 11.25-26).
A morte física, para Jesus, não traz uma cessação de existência consciente. Não
há aqui alguma indicação de um estado de inconsciência. Em Lc 16.22-23, Jesus
descreveu Lázaro e Abraão como vivos e conscientes.
2.2. O
estado dos ímpios
Os ímpios
desincorporados estão separados de Deus. A parábola do rico e Lázaro descreve o
rico removido para longe de Lázaro e de Abraão, estando separado deles por “um
grande abismo” (Lc 16.26). De modo nenhum, isto afeta a onipresença de Deus. A
ideia é de um estado em que as almas dos maus estão privadas da bênção e da
comunhão com Deus.
Os ímpios,
após a morte, continuam vivos e conscientes. Na parábola acima mencionada, o
rico tinha consciência do local e da situação em que se encontrava. Os maus
estão em castigo permanente desesperador. Em 2Pe 2.9, é dito que o Senhor sabe “reservar sob castigo, os ímpios para o dia
o juízo”. Em 1Pe 3.19-20, há uma referência aos “espíritos em prisão” identificados como rebeldes. Isto significa
que os injustos, após a morte, entram imediatamente num estado de castigo no
qual permanecem até o dia do juízo.
O lugar
onde os injustos se encontram é designado no Novo Testamento como hades. Este foi o termo grego usado
pelos tradutores da Septuaginta para traduzirem o hebraico sheol (sepultura). Na tradição hebraica, os justos e injustos vão
para o mesmo lugar, o sheol. Mas os
escritores pagãos da antiguidade dividiam o hades
em duas partes: elísio, a habitação
dos justos, e tártaro, a habitação
dos maus.
2.3. O
lugar dos mortos – Sheol
Segundo
Berkhof, os termos sheol (hebraico) e hades (grego) significam
sempre a mesma coisa: o mundo inferior, estado dos mortos, sepultura ou
inferno. Diferentes sentidos são atribuídos ao sheol-hades como segue:
1)
Os
vocábulos sheol e hades nem sempre denotam uma localidade,
mas simplesmente o estado de morte ou simplesmente o sepulcro. Assim sendo,
todos os justos e os ímpios estão, sem distinção, no sheol-hades. Exemplo: 1Sm 2.6 – “O
Senhor é o que tira a vida e a dá; faz descer à sepultura (sheol), e faz
subir”. (cf. Jó 14.13-14; 17.13-14; Sl 89.48; Os 13.14. Algumas passagens
do Novo Testamento descrevem o sheol-hades
não como uma localidade, mas o personificam simbolicamente (Ap 6.8; 20.28).
2)
Quando sheol ou hades designam uma localidade, referem-se ao inferno ou à
sepultura. As seguintes passagens expressam uma advertência e/ou ameaça de
perigo e castigo para os ímpios (Sl 91.17; 49.14; 55.15; Pv 15.11; 15.24; Lc
16.23). Algumas referências bíblicas designam tais termos como a sepultura (Gn
37.25; 42.38; 44.29; 29.31; 1Rs 2.6, 9; Jó 14.13;
No Novo
Testamento, o termo hades é usado
para indicar:
1)
O lugar
para onde os moradores de Cafarnaum seriam precipitados (Mt 11.23; Lc 10.15). O
termo indica o lugar dos maus (Lc 16.23).
2)
O lugar do
cativeiro dos mortos, cujas “portas” não “prevalecerão” contra a igreja de
Cristo (Mt 16.18).
3)
Pedro
interpretou o hades como a habitação temporária dos mortos de onde
o salmista esperava que Deus o removesse (At 2.27). Com respeito a Jesus, Pedro
diz que Deus não deixou a alma de seu Filho no hades nem permitiu que o corpo do seu Santo experimentasse
corrupção (At 2.30).
4)
Em Ap
1.18, é dito que Jesus Cristo tem a chave da morte e do hades. O símbolo da chave sugere que Cristo controla o fluxo de
entrada dos mortos destinados ao hades,
de onde só sairão na ressurreição para o juízo final.
5)
Ap
20.13-14 declara que o hades
devolverá os mortos que nele estiverem retidos para serem julgados e, após sua
sentença, serem lançados no lago de fogo, o qual será o seu destino eterno.
3. A
imortalidade da alma no Antigo Testamento
A doutrina
da imortalidade da alma, no Antigo Testamento, fundamenta-se em:
1)
No poder
soberano e criativo do único Deus que mata e faz viver (Dt 32.39) e que pôs a
eternidade no coração do homem (Ec 3.11).
2)
Na crença
hebraica da existência do Sheol para
onde descem os mortos onde permanecem em estado consciente, embora não goze da
bem-aventurança. O Antigo Testamento alimenta a esperança de uma vida após a
morte (Sl 16.10; 49.14-15).
3)
Nas
advertências e proibições contra a consulta aos mortos ou a espíritos
familiares (Lv 19.31; 20.27; Dt 18.11; Is 8.19; 39.4).
4)
Nos
ensinamentos sobre a ressurreição dos mortos (Jó 19.25-27; Sl 16.9-11; 17.15;
73.23-24, 26; Dn 12.2).
4.
A imortalidade da alma no Novo Testamento
Louis
Berkhof apresenta quatro concepções de imortalidade. A primeira diz respeito à
imortalidade de Deus. Paulo fala, em 1Tm 6.15, a respeito de Deus como o único,
Soberano, Rei dos reis e Senhor dos senhores; o único que possui imortalidade. Tal imortalidade é descrita como
um atributo, “como uma qualidade original, eterna e necessária”, diz Berkhof.
Deus é um ser livre de todas as limitações temporais.
A segunda
concepção diz respeito a todos os espíritos, inclusive a alma humana, do que as
Escrituras dão testemunho, confirmando o estado de sobrevivência consciente
após a morte. A terceira ideia emprega imortalidade na linguagem teológica
“para designar o estado do homem em que ele está inteiramente livre das
sementes da decadência e da morte. Neste sentido da palavra, o homem era
imortal antes da queda”.[13] Por fim, imortalidade, na linguagem da escatologia,
designa o resultado da obra da redenção. Neste sentido, Adão não era imortal
por natureza. A imortalidade do homem é uma conquista do Filho de Deus que
morreu e ressuscitou dentre os mortos. Foi Jesus quem “trouxe à luz a vida e a imortalidade” (2Tm 1.10).
4. A ressurreição dos mortos
O Novo Testamento nos aponta duas
ressurreições como resultado de nossa redenção por meio da fé em Cristo. Ambas
são decorrentes de nossa libertação do poder do pecado e da morte. Uma vez que
o pecado fez o homem morrer espiritualmente e fisicamente, a redenção pela fé
em Jesus produz a ressurreição espiritual e a ressurreição física.
O termo
grego empregado no Novo Testamento que designa a ideia de ressurreição é anastasiv que provém do verbo isthmi que significa fazer
ficar de pé mais a preposição ana
que significa para o meio de, em meio a, no meio de. Assim sendo,
ressurreição corporal é o fenômeno inverso da morte, isto é, consiste
literalmente no soerguimento do corpo dentre os mortos.
4.1. Concepção joanina de ressurreição (Jo 5.24-29)
Duas ressurreições estão
subentendidas nesta passagem, uma espiritual (vv. 24-27), que compreende a
regeneração; e outra corporal ou física, pela qual os mortos serão levantados
dos sepulcros voltando à vida com novo corpo (vv. 28-29), uma ressurreição para
o juízo tanto dos justos como dos injustos. Esta concepção é afirmada em At
24.15 e subentendida em Mt 7.21-23; 13.36-43; 16.24-27 e Ap 20.12-13.
O tempo da
ressurreição é descrito de duas maneiras. O primeiro é “A hora vem e já
chegou” que se refere à ressurreição espiritual (regeneração) na era
presente. A ressurreição do corpo ocorrerá “no último dia” (Jo 6.39, 40,
44 e 50), na consumação do presente aion.
4.2. Concepção paulina de ressurreição (1Co 15.3-38)
A base doutrinária de Paulo para a
ressurreição dos mortos consiste no evento da ressurreição de Jesus. Neste
capítulo, Paulo faz quatro declarações: 1) Jesus morreu, como cumprimento das
Escrituras do Antigo Testamento. 2) Ele foi sepultado. 3) Ele ressuscitou
dentre os mortos, também em cumprimento das Escrituras. 4) Ele foi visto por
muitas pessoas. Os verbos: morreu, foi
sepultado, e apareceu, em grego,
estão todos no aoristo, indicando um ato já realizado. Com referência à
ressurreição de Jesus, o verbo ressuscitou
indica um ato já consumado.
O argumento de Paulo é
que o fato de Cristo ter sido ressuscitado é garantia de que os mortos
ressuscitam, pois se não há ressurreição de mortos, então Cristo não
ressuscitou (1Co 15.13). Sem a ressurreição, o evangelho, a fé, o cristianismo
como todo, são inúteis (vv.16-18) e os cristãos são os mais infelizes de todos
os homens (v. 19). O kerygma destituído da boa nova da ressurreição deixa de
ser euaggelion (boa nova de salvação) para transformar-se num embuste dos mais
perversos (v. 15).
4.3. O corpo da ressurreição (1Co 15.39-50)
O apóstolo, referindo-se
ao corpo da ressurreição, declara que há dois tipos de corpos dados por Deus às
suas criaturas: o natural (yucikoV) e o espiritual (pneumatikoV). Na ordem da existência
da criação, o natural antecede o espiritual. Por esta razão, como ele diz, “Semeia-se corpo natural, ressuscita corpo
espiritual” (v. 44). Tais corpos foram destinados a dois tipos de homens. “Pois assim está escrito: O primeiro homem,
Adão, foi feito alma vivente. O último Adão, porém, é espírito vivificante”
(v. 45).
O corpo terreno foi
adaptado às necessidades do plano físico de existência; e, da mesma forma, o
corpo espiritual ou celestial é adequado às necessidades do plano espiritual da
existência humana. O corpo, tanto o espiritual como o físico, é elemento
constitutivo do homem. Corpo sem espírito é cadáver e espírito sem corpo é
fantasma. O corpo da ressurreição é necessário para a reconstituição de todos
os que já morreram.
Sobre a natureza do
corpo da ressurreição, Paulo nos ensina, em Fp 3.20-21, que todos os que têm
cidadania celeste aguardam a vinda de Jesus do céu, quando, então, ele “transformará o corpo da nossa humilhação
para ser conforme o corpo da sua glória”. O resultado imediato da
ressurreição será o aniquilamento da morte e o fim definitivo do poder do
pecado.
CAPÍTULO
XX
ESCATOLOGIA
GERAL
O
MESSIANISMO NO PLANO ESCATOLÓGICO DIVINO
1. Introdução
Cremos que só pode haver esperança
onde há escatologia. Cremos também que só pode haver escatologia se ela for
bíblica, porque somente a revelação bíblica é que nos oferece o conceito de
tempo como dinamismo histórico que se dirige a uma meta que pode trazer planos
para um futuro, que pode, em certa medida, colaborar com a realização desse
futuro. Efetivamente, só pode haver escatologia onde se espera algo.
O vocábulo ESCATOLOGIA origina-se
do grego: “escatos” que quer dizer
“último” e “logos” que significa
“palavra”, “discurso”, “assunto”. Escatologia é, portanto, a doutrina bíblica
dos acontecimentos dos “últimos dias”. Assim sendo, ao examinarmos este assunto
nas Escrituras pretendemos descobrir o que a Palavra Revelada de Deus tem a nos
dizer sobre o projeto de Deus para o futuro da humanidade e de toda a criação.
A consciência escatológica é vital
para toda atividade genuína da fé cristã. Jesus queria que seus discípulos
vivessem e operassem na ardente expectativa de sua segunda vinda, não
importando quão distante pudesse estar esta “parousía”. A escatologia bíblica
pode assegurar que “Cristo é em vós a esperança da glória” (Cl 1:27). O
problema de toda a cristandade moderna é que ela não vive com a profundidade e
intensidade suficientes a nova vida que recebe “em Cristo”. Por outro lado, a
pluralidade de correntes de pensamento com referência à escatologia tem trazido
muita confusão, fanatismo e desvios que dão origem a seitas extravagantes. A
forma arrogante com que muitos apresentam hoje certas correntes de
interpretação, ou ainda de leitura profética é verdadeiramente lamentável.
A tarefa da teologia evangélica em
nosso século deveria ser, em primeiro lugar, aprender com os erros e excessos
do século passado. Qualquer meditação teológica tem que ser realizada com
responsabilidade. Durante anos a escatologia cedeu seu lugar à soteriologia ou
à eclesiologia. Omitimos os temas proféticos da pregação e assim, mutilamos o
evangelho, deixando de ensinar o que Jesus chamou de “todas as coisas que vos
tenho mandado”. Ao estudarmos escatologia, deparamo-nos com a questão básica:
Que nos trará o futuro? Para onde estamos indo? Estas não são perguntas novas;
centenas de gerações as têm feito antes de nós. Todavia, há Alguém que pode
responder a todas as perguntas do coração humano. As respostas são encontradas
na revelação profética registrada nas Escrituras Sagradas.
Muitos cristãos sabem de que foram
resgatados, mas nunca chegaram a saber para que. Basta-lhes saber que têm a
segurança da salvação, que receberam Cristo; mas não devia ser também sua
ambição conhecerem todas as consequências desta salvação? (Ef. 1:16-19). O
coração humano necessita de um objeto com que se ocupar. Não pode atuar com
respeito ao futuro se não pensar nele. Se um cristão não pensa no futuro, os
seus pensamentos serão concentrados no tempo presente e toda a sua maneira de
viver estará de acordo com este modo de pensar; buscará a sua felicidade na
terra e nas coisas terrenas.
2. O plano escatológico divino
O plano escatológico de Deus foi
prescrito pela aliança da redenção através da qual Deus prometeu a vida eterna
como dádiva de sua graça aos que, pela fé em Cristo, são inclusos entre os
eleitos. Tal promessa foi feita “antes
dos tempos eternos” (Tt 1.2).
Antes dos tempos eternos, Deus
contemplou o início e o fim de nossa história e preparou o nosso destino. Deus
dividiu seu plano em segmentos de tempo de nossa existência. Ele agiu nos
momentos propícios (kairos) da história para
executar seu plano redentivo. A história da salvação é o registro por meio do
qual Deus revelou seu eterno desígnio, ao longo das eras sucessivas, para
fazê-lo se cumprir, intervindo providencialmente nas ocasiões cronológicas da história humana.
Várias passagens
bíblicas revelam a ação divina em tempos
oportunos (kairos) que marcaram o final de uma era
(aion), dando origem a outra (Dt 30.1-10; Dn 2.31-45; 7.1-28; 9.24-27; Os
3.4-5; Mt 23.37-25.46; At 15.13-18; Rm 11.13-29). Cristo faz referência ao “tempo dos gentios” (Lc 21.24) como
distinto do tempo dos judeus. Deus já determinou “os últimos dias” de Israel (Os 3.5; Hb 1.2) e os “últimos dias” da igreja (2Tm 3.1-5). As
Escrituras nos falam de outras gerações
(Ef 3.5-9; Cl 1.26), do presente século
(Rm 12.2; Gl 1.4) e dos séculos vindouros
(Ef 2.7; Hb 6.5) e do cumprimento de seu eterno propósito “na dispensação da plenitude dos tempos” (Ef 1.10).
Cristo está situado no centro da
história. O antes e o porvir estão relacionados a ele. Cristo
antecede e perpassa o tempo da existência do universo (Cl 1.17). Em 1Tm 1.17,
Paulo relaciona Cristo ao plano dos séculos da história da salvação e o designa
como “o Rei dos séculos”. João registrou as palavras do próprio Cristo que se
apresenta como o Senhor do tempo e da história da criação nos seguintes termos:
“Eu sou o Alfa e o Ômega, o princípio (arche) e o fim”
(telos). Cristo é o agente divino que, no final do presente aiôn, haverá de consumar o plano
escatológico de Deus (Ap 22.13).
3. O messianismo nas Escrituras
3.1. Conceito de messianismo
“Messianismo” é um termo derivado de
“messias” que, por sua vez, é a transliteração do termo aramaico “meshihâ”,
originado do hebraico “mashiah” = ungir, untar com óleo. Refere-se à unção dos
reis, sacerdotes e profetas de Israel. Tal expressão foi usada por Isaías (Is.
45:1) com referência a Ciro, rei dos persas, conquistador do império
babilônico, a quem Deus havia escolhido para ser libertador de Judá.
Durante o período pós-exílico,
alimentou-se em Israel a esperança de um “libertador” que viria estabelecer um
reino, onde haveria de governar com soberano sobre toda a terra (Dn 7:14-14,
27). Este seria “O Ungido” (em
hebraico, mashiah), da descendência de Davi, o qual traria salvação ao povo de
Israel.
“Messianismo é a espera da salvação
e da libertação que livrará não somente de uma servidão particular e
passageira, mas mudará totalmente a existência humana e suprimirá
definitivamente a distância que separa a condição humana alienada de sua
essência e de seu dever-ser” (J. Doyon).
3.2. A história do messianismo na Bíblia
Dentre todos os temas bíblicos, o
“messianismo” é um dos principais. Este tema é a espinha dorsal da Bíblia
Sagrada; é o ponto central em torno do qual gira toda a história da salvação.
Todo o Velho Testamento é uma revelação progressiva do desejo de salvação que
parta de Deus. O Novo Testamento quer nos mostrar que o personagem histórico,
Jesus de Nazaré, é o Messias prometido por Deus e esperado com grande ansiedade
pelo povo de Deus. A história do messianismo na Bíblia compreende quatro
períodos importantes: das origens à época assíria, época babilônica, época
persa e época greco-romana.
a)
Das
origens à época assíria
Nas Escrituras, a promessa de um
Salvador aparece pela primeira vez em Gn. 3:15. Aqui ele surge como um
libertador (ou ainda um “vingador”) do homem, libertação esta conquistada por
meio de um duelo com o tentador descrito na figura da serpente. Este texto
descreve a figura do libertador da seguinte forma:
1)
Um “descendente” da mulher vencerá o
demônio e esmagar-lhe-á a cabeça, embora seja levemente ferido no calcanhar.
Através dele o homem triunfará sobre o maligno.
2)
Sua ação faz dele uma espécie de
campeão e vencedor que virá em socorro da humanidade decaída para livrá-la da
servidão ao demônio representado pela serpente.
Além do “proto-evangelho”, outra
passagem (Gn. 9:24) anuncia que a salvação para o mundo sairá de Sem. Dentre os
semitas, Abraão é escolhido como portador da promessa, em cuja descendência
serão abençoadas todas as nações da terra (Gn. 12:1-3; 18:18; 22:18). A bênção
de Jacó (Gn. 49:8-12) limita o círculo do autor da salvação à tribo de Judá, o
quarto filho do patriarca, de cuja tribo sairá aquele a quem pertence o cetro e
a quem os povos obedecerão. Nesta passagem, o Messias nos aparece como uma
figura de dominador fortemente caracterizado, cujo reino é descrito como reino
de paz.
O assim chamado “evangelho de Natã”
(aliança davídica), conforme 2Sm. 7:13-16, restringe a esperança do Messias à
casa (dinastia) de Davi. Com base na promessa de Deus a Davi, os profetas
escritores mais antigos (Isaías, Oséias e Amós), anunciaram a vinda do Messias
e a restauração do reino davídico. Amós (9:11-15) anuncia que Javé levantará de
novo o “tabernáculo de Davi” e em lugar do antigo reino nacional surgirá um
reino universal onde a plenitude de bênçãos lembra a volta do paraíso. Oséias
(Os. 3:5), seu contemporâneo, anunciou que no fim dos dias Israel buscará a
Davi de novo e, unido com Judá, o reconhecerá como rei comum.
Isaías, durante o período assírio
(750 a 605 a.C.), falou do Messias não como um guerreiro poderoso que domina as
nações pelas armas e a violência, mas como um ser divino – Emanuel, Deus
conosco – que haveria de nascer de uma virgem (Is. 7:10-17; 9:6-7), o qual
haveria de ser profeta “ungido” com o Espírito Santo (61:1-2), cuja vinda
haveria de ser precedida por um pregador do deserto (Is. 40:3; cf. Mt. 3:1-17).
A salvação viria através do sacrifício da vida do próprio Messias (Is.
52:13-53:12).
b)
Época babilônica
A aprovação do cativeiro babilônico
marcou profundamente o povo judeu como uma catástrofe nacional. Era ao mesmo
tempo o fim do reino, a destruição do templo de Jerusalém e a deportação para
uma terra estranha e infiel.
A pregação de Jeremias (Jr.
33:14-17) alimentou a esperança de um Messias que foi descrito como sendo um
descendente de Davi – “farei brotar a Davi um Renovo de Justiça” – que seria
justo juiz sobre todos os habitantes da terra – “executará juízo e justiça na
terra” – e isto aconteceria como cumprimento da aliança de Deus com Davi
(v.17).
c)
Época
persa
A época persa é a do retorno do
exílio, na alegria geral da reconstrução do templo e da volta às fontes. A
esperança da restauração nacional gerou a expectativa de um Messias-Rei, cujas
características divergem da figura de um monarca tradicional (Zc 9:9-10):
1)
Não teria a imponência e a
ostentação dos monarcas até então conhecidos (v. 9).
2)
Daria fim às guerras (v.10).
3)
Seria pacificador (v.10).
4)
Seu domínio haveria de se estender
até as extremidades da terra (v.10).
d)
Época
greco-romana
Nesta época, acredita-se, surgiu a
literatura apocalíptica caracterizada por visões fantásticas, cuja mensagem
principal é a intervenção poderosa de Deus por meio do Messias, trazendo
libertação ao seu povo, triunfando sobre seus inimigos. O messianismo da maior
parte destes livros reveste-se de duas características básicas:
1)
É
escatológico – a vinda do Messias coincide com o
“fim do mundo” e a renovação de todas as coisas, pondo fim à história e à
sucessão dos reinos da terra com o estabelecimento do reino eterno de Deus (Dn.
2:44; 7:14-18).
2)
É
teocêntrico – tudo que ocorre é resultado da
ação direta de Deus. O Messias é apenas um agente executor do plano divino e,
uma vez concluída sua missão, entrega a Deus o reino e o domínio das nações
(Ap. 5:9-10; 19:1-6).
3.3. As razões para a vinda do Messias
As razões pelas quais Deus prometeu um libertador são três:
1)
A
queda do homem – Neste
episódio, segundo a narrativa do capítulo 3 de Gênesis, o homem, após sua
queda, passou a viver sob a maldição do pecado e o domínio de Satanás. Ao mesmo
tempo em que Deus lançou a maldição também anunciou a vinda de um “descendente”
da mulher que, para socorro da humanidade, haveria de vencer e dominar o
demônio, representado através da serpente, esmagando-lhe a cabeça (v.15). Tal
vitória traria libertação à humanidade.
2)
A
maldição divina – O pecado humano trouxe, como consequência,
a maldição divina que seria removida para, em lugar dela, Deus derramar sua
bênção sobre todas as famílias da terra (Gn. 12:1-3), através do “descendente”
de Abraão que, segundo Paulo em Gl. 3:16-17, é Jesus Cristo.
3)
O
estabelecimento do reino de Deus - Deus
haveria de trazer novamente o homem ao seu domínio e lhe ofereceria uma
oportunidade de entrar em seu reino e desfrutar da vida eterna e do esplendor
da sua glória (Mc 1:14-15; Lc. 17:20-21; Mt. 25:31-34). O Novo Testamento
identifica a pessoa de Jesus com o Messias prometido que haveria de estabelecer
o reino de Deus no mundo.
CAPÍTULO XXI
O REINO ESCATOLÓGICO DE CRISTO
1. Introdução
A expressão chave na escatologia
cósmica é o Reino de Deus, o Reino dos Céus. Segundo os evangelhos sinópticos,
a primeira mensagem de Jesus ao começar seu ministério público tinha que ver
com o “Reino de Deus” (Mc. 1:15). Ainda que ocupe lugar proeminente nos
sinópticos, a ideia do Reino de Deus parece, sem dúvida, ausente do Evangelho
de João. Com exceção de Jo 18:36, o único lugar onde há uma referência clara ao
reino de Deus é em Jo. 3:3, 5. O que nos evangelhos sinópticos corresponde ao
reino de Deus, em João equivale à “vida”, “verdade”, “graça”.
O termo “vida” em João é sinônimo
de Reino de Deus. A equivalência de Reino = Vida é óbvia, já que a figura de
entrada no Reino é paralela à que expressa a entrada na vida, ou ainda, “nascer
de novo”. A mesma equivalência encontramos em Marcos 10:17. A vida é
representada como o estado escatológico da existência. Outra equivalência há em
Lucas 4:19, 43, onde fala do “ano aceitável do Senhor”, isto é, o ano do
Jubileu, em vez da iminente chegada do Reino. Ninguém pode ser cristão sem ser
súdito do reino de Deus e vice-versa.
2. Conceito
geral de reino de Deus no Velho Testamento
No Velho Testamento o Reino de Deus
é um conceito que está unido a duas realidades distintas: a soberania de Deus e
a teocracia em Israel. Em sua soberania Deus estende seu domínio sobre céus e
terra; e na teocracia israelita ele governa Israel com propósito redentor.
2.1. A
soberania de Deus
Esta expressão designa o governo
estabelecido pelo Criador sobre sua criação, o qual é planejado e executado
mediante a ação de sua Providência. Esta ideia do reino, conforme Salmos
103:19, não é especificamente redentora. Relaciona-se com a ordem na criação,
sobre a qual Deus tem absoluto controle. Se bem que a expressão “Reino de Deus”
não ocorra no Velho Testamento, a ideia verifica-se em toda a extensão da
atividade profética. Há uma dupla ênfase sobre a soberania real de Deus. Ele é
frequentemente referido como o Rei, tanto de Israel (Dt 33:5; 1Sm. 12:7; Is.
43.15) como de toda a terra (2Rs. 19:15; Sl 93:1-2; 99:1-4; 103:19-22; Is. 6:5;
Jr 46:18).
Embora haja considerável
diversidade na descrição do Reino no Velho Testamento, este sempre envolve uma
irrupção de Deus na história quando o propósito redentor de Deus será
complemente realizado. O Reino é sempre uma esperança terrena de caráter ético.
Deus agirá no futuro próximo para salvar ou julgar Israel, mas ele também vai
agir em um futuro indeterminado para trazer a esperança escatológica a ponto de
sua plena realização. Os profetas não fazem uma distinção nítida entre o futuro
imediato e o remoto, pois em ambos poder-se-á observar o ato de Deus para com o
seu povo.
O homem foi criado como co-regente
com Deus (Gn. 1:28; Sl. 8:1-8). Ao pecar, o homem ficou destituído da glória
divina (Rm. 3:23) para a qual fora criado, e Satanás usurpou o lugar do homem,
tornando-se o “príncipe deste mundo” (Jo 16:11). Desde então, o “mundo jaz no
maligno” (1Jo. 5:19). Embora o Antigo Testamento enfatize a soberania de Javé
sobre as nações da terra (Ex 15.18; Sl 22.8; 47.8; 146.10), é o Novo Testamento
que proclama o reino de Deus como tema central da mensagem bíblica.
A salvação consiste em o homem ser
resgatado da “potestade de Satanás para Deus” (At. 26:18) e ser “transportado
para o reino do Filho de Deus” (Cl. 1:13), para ocupar seu lugar e destino para
o qual fora criado. Toda a criação terrena, inclusive o homem, ficou sujeita ao
“cativeiro da corrupção” e aguarda o tempo do seu resgate (Rm. 8:19-23), quando
Deus reconstruir o universo, criando “um novo céu e uma nova terra” (Is. 65:17;
66:22; 2Pe. 3:13; Ap. 21:1) onde os remidos “reinarão pelos séculos dos séculos”
livres da maldição do pecado (Ap. 22:3-5).
2.2. A
teocracia em Israel
Junto ao governo providencial de
Deus no universo existe um Reino cuja natureza específica é redentora. Tal
concepção se expressa por meio da “teocracia” em Israel. A primeira referência
explícita a este Reino encontra-se no livro de Êxodo (Ex. 19:6), onde Yahweh
anuncia que Israel deveria ser convertido em um “reino sacerdotal” e “nação
santa”. Isto implica numa eleição e vocação de Israel para o alcance do
propósito salvífico de Deus revelado em sua aliança com Abraão: “de ti farei
uma grande nação... em ti serão benditas todas as famílias da terra” (Gn.
12:2-3).
Estas palavras de Deus apontam para
o futuro. Do ponto de vista do homem, desde quando a Lei foi promulgada no
Sinai, há um reino presente, um reino que começou no Sinai. Mas, ao mesmo
tempo, o Velho Testamento, como um todo, fala de um Reino Messiânico de Deus no
porvir. Embora Israel não tenha compreendido sua identidade para com Deus e seu
papel entre as nações, a salvação do mundo veio por meio de Israel (Jo.
4:21-22).
2.3. Reino
messiânico escatológico
Em uma aliança com Davi, Deus
prometeu fazer dele uma dinastia perpétua, isto é, um de seus descendentes
haveria de estabelecer um reino eterno (2Sm. 7:12-17). Tal dinastia, ao longo
da história, foi interrompida por causa da apostasia de Judá.
Por causa da apostasia, Deus enviou
Israel para o cativeiro e durante o cativeiro Israel alimentou uma esperança de
redenção por meio do “Filho de Davi”, o Messias que viria para restaurar o
reino davídico e a liberdade de Israel. Tal expectativa foi resultado da
revelação profética (Is. 9:6-7; Jr. 23:5; Ez 34:23-24).
2.4. Conceito
veterotestamentário de reino na mensagem de Jesus
Jesus se associa com esta maneira
de falar do Velho Testamento. O reino que ele anuncia é o reino que haveria de
concretizar no futuro todas as perspectivas veterotestamentárias. O reino que
todos esperam é, em definitivo, o “reino de Deus”. O Velho Testamento fala
desta realidade do reino como de uma unidade sem distinção de partes ou etapas.
Mas, à medida que vai se cumprindo o Velho Testamento em Jesus Cristo, faz-se
evidente que a esperança escatológica se divide em duas fases.
Jesus está fazendo presente o
futuro do Velho Testamento, mas, em outro sentido, este futuro permanece,
todavia, futuro, inclusive para o Salvador. Logo após o seu batismo por João, o
Batista, Jesus iniciou o ministério de proclamar o Reino de Deus. Marcos
descreve o princípio deste ministério com as palavras: “Ora, depois que João foi entregue, veio Jesus para a Galileia,
pregando o evangelho de Deus dizendo: O tempo está cumprido, e é chegado o
Reino de Deus” (Mc. 1:14-15).
Mateus resume seu ministério com as
palavras: “E percorria Jesus toda a
Galileia, ensinando nas sinagogas, pregando o evangelho do reino, e curando
todas as doenças e enfermidades entre o povo” (Mt. 4:23). Não podemos
compreender a mensagem e milagres de Jesus, a menos que os interpretemos o
contexto de sua perspectiva do mundo e do homem, e a necessidade para a vinda
do Reino.
Jesus considerou seu ministério
como um cumprimento da promessa do Velho Testamento na história, próxima da
consumação apocalíptica. Isto se manifesta de modo particularmente claro em
duas passagens. Na sinagoga de Nazaré, Jesus leu a profecia messiânica de
Isaías 61:1-2 a respeito da vinda de um ungido para proclamar o ano aceitável
do Senhor; e então solenemente declarou: “Hoje
se cumpriu esta escritura aos vossos ouvidos” (Lc. 4:21).
Quando João Batista, em dúvida,
enviou emissários para perguntar a Jesus se ele era realmente Aquele que havia
de vir, Jesus respondeu citando a profecia messiânica de Isaías 35:5-6 e
mandou-os de volta a fim de contarem a João que a profecia estava de fato sendo
cumprida (Mt. 11:2-6).
3. Reino
de Deus na profecia de Daniel
No capítulo dois do livro de
Daniel, Deus revela em uma visão o que há de acontecer no mundo das nações. A
interpretação da visão é clara, à luz da história, que quatro impérios mundiais
haveriam de levantar-se até que o reino de Deus se estabelecesse no mundo: o
império babilônico, o império medo-persa, o império grego fundado por Alexandre
Magno e, finalmente o império romano.
Na interpretação do capítulo dois
de Daniel são destacados quatro itens:
1)
Deus controla a história das nações
(vv. 21-24).
2)
Nabucodonosor detém o poder por
delegação divina (vv. 37-38).
3)
A pedra desprendida sem intervenção
humana (vv. 34-35 e 45) é Cristo que teria de nascer nos dias do quarto
império.
4)
O versículo 44 prefigura o
estabelecimento do reino messiânico eterno estabelecido nos dias do império
romano (cf. Ap. 11:15). O final da
história coincidirá com a vitória de Cristo.
Paralelamente ao capítulo 2, o
capítulo 7 volve outra vez ao tema dos quatro impérios mundiais, a partir de
Nabucodonosor.
|
IMPÉRIOS
MUNDIAIS
|
SONHOS DE
NABUCODONOSOR
|
SONHOS DE DANIEL
|
|
Dn. 2:31-45
|
Dn. 7:1-28
|
Dn. 8:1-27
|
|
Babilônia
|
Cabeça de ouro
|
Leão
|
|
|
Medo-Pérsia
|
Peito e braços de prata
|
Urso
|
Carneiro
|
|
Grécia
|
O ventre e os quadris de bronze
|
Leopardo
|
Bode
|
|
Roma
|
Pernas de ferro
|
Besta (10 chifres)
|
|
|
O Anticristo
|
Pés de barro e de ferro
|
Pequeno chifre
|
|
|
Cristo
|
A Pedra desprendida sem intervenção humana
|
|
|
O Messias devia aparecer nos dias
do quarto império. O Anticristo teria que surgir de alguma classe de continuidade
– e divisão – do mesmo quarto império. Até o final dos tempos, a batalha dos
séculos será o conflito entre o Reino de Cristo e o do Anticristo. Na visão das
quatro bestas, segundo Daniel 7:1-14, podemos destacar dois elementos
importantes:
3.1. Uma
situação que inspira temor (vv. 1-8)
“Grande Mar” (v. 2) é reconhecido
como Mediterrâneo, mas seu uso aqui é obviamente simbólico. Os judeus temiam o
mar e daí que frequentemente serviram-se dele como símbolo de algo espantoso e
anunciador de trágicas experiências (cf. Sl. 42:7). Os quatro ventos do céu que
sopram sugerem uma grande tempestade. Neste pavoroso cenário surge quatro
bestas que representam quatro reis ou impérios (v. 17). Estes monarcas ou
impérios correspondem exatamente à visão do capítulo 2. Assim, vemos que:
1)
A primeira besta corresponde a
Babilônia (v. 4).
2)
A segunda besta corresponde ao
império medo-persa (v. 5). O inclinar-se para um lado indica a hegemonia da
Pérsia sobre a Média. As três costelas entre os dentes são suas principais conquistas:
Babilônia, Lídia e Egito. A “muita carne” é a extensão do império.
3)
A terceira besta corresponde ao
reino grego de Alexandre, dividido entre quatro de seus generais após a sua
morte (v. 6).
4)
A quarta besta corresponde ao
império romano (vv. 8, 23 e ss.); é o maior e mais bestial de todos.
3.2. Uma
visão que restaurou a confiança (vv. 9-14)
Deus não só sabe o que ocorre no
mundo como também controla a história. Os homens podem jactar-se quanto querem
(vv. 8, 11), mas Deus terá a última palavra. Eis aí o segredo da fé e a fonte
permanente de toda consolação, para quando tivermos de enfrentar as
dificuldades que pareçam invencíveis.
3.3. O
quarto império e o reino dos santos do Altíssimo em Dn. 7:13-28
Ao entrar neste tema do livro de
Daniel temos de considerar três questões:
a) A
identidade da quarta besta.
Devemos partir do fato de que os
capítulos 2, 7 e 9 estão intimamente relacionados entre si. Em todos eles,
chega-se ao clímax com a descrição do quarto império, o império romano; o
centro geográfico é o Ocidente. Da mesma forma, os capítulos 8 e 11 têm como
clímax o Império Selêucida que seguiu à morte de Alexandre Magno; o centro
geográfico é o Oriente.
Daniel 7 também corresponde com
Apocalipse 13 (cf. 13:16; 19:20). Assim, a quarta besta tem que ser Roma, em sã
exegese sem prejuízos. É a mais bestial de todas as bestas, espantosa e
diferente (7:7, 23), e seu reino é maior que o das demais bestas. Os dez
chifres (v. 24; cf. Dn. 2:41) expressam poder absoluto de domínio e extensão
territorial do Império Romano na terra. O chifre pequeno (v. 24) é o Anticristo
(cf. 2Ts 2:1-12; 1Jo. 2:18; 4:3).
b) A
identidade do Filho do Homem (v.13)
Lemos em Dn. 7:13: “Eu estava olhando nas minhas visões da
noite, e eis que vinha com as nuvens do céu um como o Filho do Homem, e
dirigiu-se ao Ancião de Dias, e o fizeram chegar até ele”. Trata-se de uma
figura humana, não bestial; celeste, não terrena; internacional, não nacional
ou imperial; com um reino eterno, não temporal (vv. 13 e 14).
c) O
reino dos santos (vv. 18, 27)
Os “santos do Altíssimo” são os
herdeiros do reino eterno. Eles formam o povo santo, eleito e exclusivo de
Deus. Tal reino tem uma dimensão escatológica, pois se consumará após a
manifestação do Anticristo (vv. 25-27).
O final da história está nas mãos
de Deus e seu agente será Cristo. Os reinos deste mundo virão a ser os reinos
de Deus e de seu Ungido, como revela Apocalipse 11:15: “... O reino do mundo se
tornou de nosso Senhor e do seu Cristo, e ele reinará pelos séculos dos
séculos”.
4. O
quarto império e o reino de Deus em Daniel 2
a) A
natureza e significado do quarto império (vv. 40-43)
Afirmamos que o quarto império é
Roma (república, império e despotismo absoluto). Teria “pernas e pés em parte
de ferro e em parte de barro”. Os símbolos do ferro e do barro caracterizam não
só a força e a fragilidade paradoxal do império, mas também a divisão posterior
entre oriente e ocidente (Roma e Bizâncio) que culminou na sua fragmentação
medieval de reinos bárbaros.
No século IV a.C., quando Daniel
escrevia, Roma não era mais que uma cidade-estado. A partir destas humildes,
Roma desenvolver-se-ia, depois de um breve e frágil período monárquico, como
uma república progressivamente forte, e logo se tornaria o maior dos impérios
pela força das armas.
b) A
natureza do reino de Deus (o reino messiânico vv. 44-45. cf. vv. 34-35).
O reino de Deus é comparado a uma
pedra, uma Rocha (Is. 28:16; Mt. 21:44; Lc. 2:1, 2). Aparecerá “nos dias destes
reis”. Que dias e que reis são estes? Vejamos duas interpretações distintas: a
dispensacionalista e a amilenista.
4.1.1. Interpretação
premilenista dispensacionalista
Diz a Bíblia Anotada de Scofield em
nota a Daniel 2:44: “Esta passagem determina de maneira autorizada o TEMPO
relativo a outros eventos proféticos, quando o reino dos céus será estabelecido.
Isto sucederá “nos dias destes reis”, isto é, os dias dos dez reis (comp.
Dn.7:24-27) que são simbolizados pelos dedos da imagem. A situação que estes
reis representam não existia no tempo da primeira vinda do Messias, nem foi
possível sua existência até a desintegração do império romano e o surgimento do
presente sistema nacionalista mundial... O v. 45 repete o MÉTODO pelo qual o
reino será estabelecido”.
5. Interpretação
amilenista
Os dispensacionalistas interpretam
os pés da estátua como fazendo referência a dez dedos (dez reis) em uma época
futura quando o império romano vier a ser restaurado e dividido em dez reinos,
instante no qual aparecerá Cristo para instaurar seu Reino. A diferença desta
interpretação para a interpretação que todos os demais cristãos assumem é que o
Reino Messiânico haveria de aparecer (já apareceu, já veio de fato) com a vinda
de Cristo depois do apogeu dos quatro grandes reinos (impérios) descritos:
Babilônia, Pérsia, Grécia e Roma, mas dentro do tempo de um deles – “nos dias
destes reis”. Dado que o Messias não viria nos dias dos três primeiros
impérios, então, sua vinda aconteceria nos dias do quarto império (Roma).
A pedra cortada não com o auxílio de
mãos (vv. 34, 35) representa o Messias e o poder do reino messiânico, assim
como sua extensão, sua eternidade e sua origem divina (v. 44), em contraste com
os impérios humanos e temporais (cf. Mt 21.42-44). Vejamos:
1)
O reino tem uma dimensão histórica
(vv.44-45) – “nos dias destes reis”;
2)
O reino tem origem divina (vv. 34,
44) - “O Deus do céu suscitará um
reino...” (v.44). “Uma pedra foi
cortada, não com o auxílio de mãos...” (v. 34).
3)
O reino resiste a todas as forças
inimigas – “que não será jamais
destruído”;
4)
Não será jamais conquistado pela
força – “o reino não passará a outro
povo”;
5)
Tem domínio e extensão universal – “esmiuçará e consumirá todos estes reinos”;
6)
Tem duração eterna – “mas ele mesmo subsistirá para sempre”;
7)
O reino tem extensão e
desenvolvimento irresistível (vv. 35, 44) – “Mas
a pedra que feriu a estátua se tornou em grande montanha, que encheu toda a
terra” (v.35). “... o Deus do céu
suscitará um reino que não será jamais destruído; este reino não passará a
outro povo...” (v. 44).
Tudo isto contrasta com os reinos
humanos, que são frágeis e temporais. O Messias esmiuçará todos os demais
reinos, em um processo que vai desde a primeira à segunda vinda de Cristo, cujo
período é denominado na Bíblia de “últimos dias”. Daniel 2:44 tem de ser lido à
luz de Daniel 7:13, 14; o reino virá por meio de “um como um filho de homem”.
Todos os reinos terrenos são temporais em duração, humanos quanto à origem,
frágeis quanto ao poder. O Reino de Deus, ou dos céus, é divino quanto à
origem, eterno quanto à duração, invencível em poder. O Reino de Deus é
apresentado como em perpétuo crescimento, desde algo pequeno até chegar ao
infinito.
5.1. Reino
invencível
Daniel 2 nos revela quatro atos
determinados por Deus sobre o seu Reino que seriam impossível aplicá-los a
qualquer outro reino. Estes atos são confirmados pelo Novo Testamento. Tais
atos são os seguintes: o reino não seria jamais destruído, não será deixado a
outro povo, esmiuçará e consumirá a todos os demais reinos e permanecerá para
sempre. Estes quatro pontos estão confirmados no Novo Testamento:
1)
O Reino Indestrutível - “Por isso, recebendo nós um reino
inabalável...” (Hb. 12:28).
2)
O Reino é esperança perpétua - “Mas os santos do Altíssimo receberão o
reino e o possuirão para todo o sempre, de eternidade em eternidade” (Dn.
7:18). “... edificarei a minha igreja e
as portas do inferno não prevalecerão contra ela” (Mt. 16:18-19).
3)
O Reino obterá a vitória final - “O reino do mundo se tornou de nosso Senhor
e do seu Cristo, e ele reinará pelos séculos dos séculos” (Ap. 11:15).
4)
O Reino é eterno - “Ele reinará para sempre sobre a casa de
Jacó, e o seu reinado não terá fim” (Lc.1:33).
5.2. As
fases do reino de Deus
O Senhor ensinou aos judeus que o
Reino de Deus havia chegado e que estava entre eles; um reino invisível,
espiritual, poderoso e real (Lc. 17:20-21). Este reino está revelado em três
fases de sua manifestação na história. As fases são as seguintes:
1)
O Reino dos céus já se instalou;
veio com o Rei (Mt. 3:2; 4:17; Mc. 1:15). O reino manifestou-se com poder em
Pentecostes (Mc. 9:1; Lc. 24:29; At. 1:6-8; cf. 1Co. 4:20).
2)
O Reino de Deus, embora tenha sido
inaugurado por ocasião da primeira vinda de Cristo, haverá de se consumar com
glória na segunda vinda de Cristo. Na atualidade o Reino é um mistério, mas
também uma força espiritual poderosa; só espera sua plena manifestação em
majestade.
Cristo divide os tempos com a
medida do Reino: “A Lei e os profetas
vigoraram até João; desde esse tempo, vem sendo anunciado o evangelho do reino
de Deus, e todo homem se esforça por entrar nele” (Lc. 16:16).
6. A
profecia das setenta semanas (Dn. 9:1-23)
6.1. A
oração e confissão de Daniel
“No
primeiro ano de Dario, filho de Assuero, da linhagem dos medos, o qual foi
constituído rei sobre o reino dos caldeus, no primeiro ano do seu reinado, eu,
Daniel, entendi, pelos livros, que o número de anos, de que falara o Senhor ao
profeta Jeremias, que haviam de durar as assolações de Jerusalém, era de
setenta anos” (vv. 1-2). Pelo estudo de
Jeremias, Daniel sabe que o período do exílio durará 70 anos. Ele se volve,
então, ao Senhor em súplica intercessória pelo pecado do seu povo entre o qual
ele próprio se inclui (vv. 4-14), e apela pela graça e misericórdia divinas
(vv. 15-19).
Enquanto ora, Gabriel acode para
dar-lhe sabedoria e entendimento (vv. 20-23): “No princípio das tuas súplicas, saiu a ordem, e eu vim, para to
declarar, porque és mui amado; considera, pois, a coisa e entende a visão”
(v. 23). A que princípio de súplicas ele se refere? Os versículos 1 e 2 mostram
claramente a preocupação de Daniel com a assolação de Jerusalém e seu término.
Tal preocupação foi resultado de seu exame das profecias de Jeremias (Jr.
25:12; 29:9-10). Daniel ora com a carga do povo em seu coração: confessa os
pecados de Israel e suplica misericórdia. Daniel busca saber sobre o destino do
seu povo.
6.2. As
setenta semanas (vv. 24-27)
Uma observação: o original em
hebraico não diz “semanas”, mas “setes”. Literalmente, o texto poderia ser
traduzido assim: “Setenta setes estão
determinados sobre o teu povo”. Os setes representam períodos de tempo
divididos em frações de sete. Não é dito que cada “sete” durará 7 anos, mas
deve significar um tempo determinado por Deus. Durante esse tempo Deus
realizará a redenção messiânica. “Setenta setes estão determinados...” Por
quem? Por Deus, obviamente. “... sobre teu povo e sobre a tua santa cidade”
(Jerusalém). Daniel, preocupado com seu povo, recebe contestação a dita
inquietude. A revelação tem que ver com a súplica. O tempo do exílio chegara a
seu fim. Que será do seu povo? Em resposta é dito que em meio do seu povo e de sua
santa cidade serão feitas coisas gloriosas:
|
TRÊS CONSEQUÊNCIAS NEGATIVAS
|
TRÊS CONSEQUÊNCIAS POSITIVAS
|
|
1) Para
fazer cessar a transgressão
2) Dar fim
aos pecados
3) Expiar a
iniquidade
|
4) Trazer a
justiça eterna
5) Selar a
visão e a profecia
6) Ungir o
Santo dos santos
|
a) "Para
fazer cessar a transgressão..."
Por esta transgressão tiveram que
sofrer o exílio. Mas este exílio está chegando ao final. Deus quer terminar com
a prevaricação e com seus resultados. Em sua oração, Daniel confessou esta prevaricação
(v. 12). Agora é dito que as consequências da mesma irão ter fim. Esta é a
vontade de Deus.
b) "...
Para dar fim aos pecados e expiar a iniquidade...”.
Deus odeia o pecado, mas ama o
pecador. Como pôr fim ao primeiro sem destruir o segundo? A justiça de Deus não
pode passar em branco, mas esta justiça se manifestará sem detrimento do amor
(este é o tema de Romanos). A linguagem indica claramente que se requer um
sacrifício expiatório, sobre cuja base poderá ser perdoada a iniquidade, isto
é: o pecado terá seu fim.
c) "...
Para trazer a justiça eterna..."
A justiça eterna é a justiça que
vem de Deus; é exterior a nós, vem de fora, do Senhor mesmo, por meio do
Messias. A transgressão será substituída pela justiça eterna e perfeita. O Novo
Testamento nos ensina que o crente é justificado por Deus pela sua fé em Cristo
mediante o arrependimento dos seus pecados e não por sua própria justiça (Rm.
1:17; Rm. 5:1-2; Gl. 3:11).
d) "...
Para selar a visão e a profecia..."
Isto constitui uma clara referência
ao fim da dispensação do Velho Testamento, na qual viveu Daniel. O profeta,
segundo Nm 12:5, era o representante de Deus e seu mensageiro perante o povo; e
Deus lhe falava por meio de sonhos e visões. O período destas revelações teria
fim quando as profecias se cumprissem e, assim, seriam confirmadas, isto é,
autenticadas – “selar a profecia” – ao término da dispensação do Velho
Testamento e início da era messiânica.
e) "...
Para ungir o Santo dos santos"
Literalmente: “ungir uma santidade
de santidades”, ou seja, o mais santo dentre os santos. Esta é, sem dúvida, uma
referência à unção do Messias com o Espírito Santo que teve cumprimento por
ocasião do batismo de Jesus por João no Rio Jordão (Mt. 3:13-17; cf. Is. 42:1;
61:1). Os seis objetivos das setenta semanas são todos messiânicos e todos já
se cumpriram.
6.3. As
setenta semanas em detalhes
Em Daniel 9:25-27 são nos dados
detalhes do período das setenta semanas. Lemos no versículo 25: “Sabe e
entende: ...”. A Daniel é comunicado que preste atenção e se esforce por
entender os detalhes seguintes:
a) “...
desde a saída da ordem para restaurar e para edificar Jerusalém, (isto é, desde
o final do exílio) até ao Ungido, ao Príncipe (o Ungido do versículo 24) sete
semanas e sessenta e duas semanas; ...”
Isto teve cumprimento no primeiro
ano do reinado de Ciro, por seu decreto libertador promulgado em 538 a.C. e que
permitiu os judeus regressarem a Jerusalém. O ponto de partida da contagem é a
data da ordem imperial (Ed 3:1-3), que tinha como propósito a restauração da
cidade e do templo de Jerusalém.
b) “...
as praças e as circunvalações se reedificarão, mas em tempos angustiosos...”
As sete semanas constituem o
período entre o primeiro retorno dos judeus do exílio, sob a liderança de
Zorobabel, segundo relatos de Esdras e Neemias, e a conclusão das obras destes
servos de Deus, quando Jerusalém foi reedificada “em tempos angustiosos”.
c) “Depois
das sessenta e duas semanas, será morto o Ungido e já não estará;...”.
As sessenta e duas semanas abarcam
o tempo entre o término da reconstrução de Jerusalém e do templo até a
manifestação do Messias. Desta forma, o tempo da primeira vinda de nosso Senhor
foi expressamente marcado, sendo equivalente a 69 semanas (7 + 62). Surge,
então, uma questão: E a septuagésima semana, cumpriu-se ou ainda se cumprirá?
Cremos que a septuagésima semana teve cumprimento durante o ministério de Jesus
que durou 3 anos e 6 meses (metade de 7 anos), no fim dos quais, Jesus foi
crucificado por ordem de Pôncio Pilatos.
d) “...
e o povo de um príncipe que há de vir destruirá a cidade e o santuário, e o seu
fim será num dilúvio, e até o fim haverá guerra; desolações estão
determinadas...”.
Esta é uma referência clara à
destruição de Jerusalém no ano 70 d.C. pelo general Tito. Isto deveria
acontecer depois da morte do Messias, isto é, depois das 70 semanas, em um
prazo não determinado.
e) “...
Ele fará firme aliança...”
Em hebraico, significa
literalmente: “Ele confirmará a aliança”. Uma aliança a ser confirmada é uma
aliança já existente. Com certeza, esta é uma referência à “Nova e Eterna
Aliança”, a Aliança da Graça. Os termos, as condições e o propósito redentor de
Deus na antiga aliança são confirmados no novo pacto. O responsável por
confirmar tal pacto foi o Messias (Mt. 26:26-28).
f) “...
na metade da semana fará cessar o sacrifício e a oferta de manjares...”.
Esta é uma referência ao tempo
determinado por Deus em que o Messias seria morto, oferecendo-se como
sacrifício expiatório para remissão de pecados. (Observação: o ministério de
Jesus, o Messias, durou exatamente 3 anos e 6 meses - metade de 7 anos – findo
o qual Jesus foi crucificado). Ele foi o último sacrifício; daí para a frente,
os sacrifícios de animais não mais foram aceitos por Deus.
g) “...
sobre a asa das abominações virá o assolador...”.
O sacrifício do Messias
substituiria definitivamente todos os sacrifícios de animais. Desta forma, o
templo e o sacerdócio levítico perderiam sua utilidade, sua razão de existir;
e, por isso, seu fim foi anunciado. Embora os sacerdotes tivessem continuado a
realizar sacrifícios de animais e apresentarem ofertas de manjares, tais
sacrifícios e ofertas, após o sacrifício de Cristo, não foram aceitos por Deus
e não tiveram nenhum valor. O templo e o sacerdócio levítico não mais serviam
aos propósitos de Deus. Além disso, a destruição de Jerusalém e do templo,
dando fim ao sistema religioso sacerdotal, foi também uma manifestação do juízo
de Deus sobre Israel por ter rejeitado o Messias.
7. Reino
de Deus nos evangelhos
Antes da manifestação de Jesus como
o Messias, João Batista pregava: “Arrependei-vos,
porque está próximo o reino dos céus” (Mt. 3:2). A expressão “Reino dos
Céus” no judaísmo contemporâneo de João e de Jesus trazia consigo a expectativa
de um futuro no qual, mediante a intervenção decisiva de Deus, Israel seria
liberto de seus inimigos e restaurado à “Terra da Promessa”. A vinda do Reino é
a grande esperança do futuro que virá com a pessoa do Messias. O povo judeu
aguardava o “Filho de Davi” que haveria de trazer de volta os tempos de glória
do Reino de Judá. Assim sendo, sua concepção de Reino de Deus era
essencialmente política, material e terrena.
7.1. Reino de Deus na pregação de João
Batista
Na narrativa de Mateus 3:1-12, João
Batista, em sua pregação profética, anunciava a vinda do Reino de Deus e do
Messias. Seu ministério consistia em chamar os judeus ao arrependimento
urgente, porque o Reino de Deus estava na iminência de ser instalado. Sua
mensagem dava ênfase à “ira vindoura” que haveria de ser derramada sobre os impenitentes.
“Já está posto o machado à raiz das árvores; toda árvore, pois, que não produz
bom fruto é cortada e lançada ao fogo”, bradava João no deserto da Judéia. O
juízo divino estava para se manifestar através do Messias que estava às portas.
O Messias viria para derramar sobre os rebeldes a ira de Deus.
A vinda do Reino traria separação
entre salvos e perdidos. O Messias, que já estava às portas, haveria de se
manifestar imediatamente após seu ministério, “trazendo em sua mão a pá com a
qual haveria de limpar complemente a sua eira” – referência à restauração
espiritual de Israel, cujos remanescentes fiéis, simbolizados pelo “trigo a ser
recolhido no celeiro”, haveriam de participar do reino, ficando de fora os
infiéis, simbolizados pela “palha que seria queimada em fogo inextinguível”.
Para João o reino do Messias era essencialmente judaico.
Não há na pregação de João nenhuma
evidência ou conotação de inclusão dos gentios no reino messiânico. Os gentios
não eram os destinatários de sua mensagem e, por isso, ele entendia que o
propósito de Deus era estabelecer seu reino por meio do seu povo eleito. Para
João, o eschaton havia chegado e os desígnios de Deus para com Israel haveriam
de se cumprir imediatamente. Israel estava diante de sua última chance de arrependimento
para escapar da ira divina e participar do reino do Messias.
7.2. Reino
de Deus na pregação de Jesus
Jesus deu continuidade à mensagem
de João quanto a vinda do reino de Deus, sem, contudo, dar ênfase ao juízo, mas
ao arrependimento como critério decisivo para o ingresso no Reino, que estava
sendo estabelecido a partir dos judeus, o povo da aliança. Jesus deu ênfase a
dois aspectos do Reino de Deus: um presente e outro futuro.
7.2.1. O
aspecto presente do reino
Sua pregação do “Evangelho do Reino”
era acompanhada de sinais que manifestavam o poder ativo e redentor de Deus no
estabelecimento do seu reino no mundo que havia se tornado hostil a Deus. Os
milagres, principalmente os exorcismos, comprovavam que o reino estava presente
no mundo pela atuação do Messias (Mt. 12:22-29).
Satanás, que mantinha cativos os
homens e tornara-se “o príncipe deste mundo”, estava agora sob o domínio do
Messias e seu “reino” estava sendo saqueado (Mt. 12:28-29). Os reinos do mundo
haviam se tornado em reino de Satanás. Durante a tentação no deserto, Satanás
havia oferecido “a glória destes reinos” a Jesus mas na condição de que a ele
Jesus se sujeitasse (Lc. 4:5-8). Satanás estava disposto a “negociar” sua
“autoridade” com o “Invasor Celestial” antes que seu reino fosse totalmente
saqueado.
A vinda de Cristo trouxe a ruína
definitiva de Satanás. O Reino dos Céus havia invadido o domínio do maligno.
Jesus o vê como um raio caído do céu (Lc. 10:17-20). Nesta passagem Jesus fala
da autoridade concedida (delegação de autoridade) aos seus discípulos, como
agentes do Reino dos Céus, sobre todas as forças espirituais do mal.
O ministério apostólico é
caracterizado pela autoridade espiritual outorgada diretamente dos céus sobre
os poderes e forças espirituais do mal que dominam este mundo tenebroso (Mt
10.1). À sua igreja, que haveria de ser edificada, Jesus prometeu “as chaves do
reino dos céus”, como garantia de que o Reino dos Céus estava presente no mundo
(Mt. 16:18-19; 18:18-20).
7.2.2. O
aspecto futuro do reino
A concepção teológica de reino de
Deus foi descrita por Jesus no tribunal de Pilatos pelas seguintes palavras: “O
meu reino não é deste mundo; se o
meu reino fosse deste mundo, pelejariam os meus servos, para que eu não
fosse entregue aos judeus; entretanto o
meu reino não é daqui” (Jo 18.36). Estas palavras de Jesus nos levam
a entender o seguinte:
1)
O reino de Deus tem origem
celestial e não terrena.
2)
Não se constitui em um sistema
político e de relações econômicas.
3)
Não conquista o mundo pelas armas,
mas por meio do evangelho.
Embora o reino celestial esteja
presente no mundo e se manifeste através da pregação e vivência do Evangelho, é
evidente que o mesmo ainda não está consumado. Os milagres são para nós sinais
de outra ordem de coisas muito distintas da realidade presente, que já entraram
em ação no mundo. Mesmo assim, ainda não chegou o tempo em que os demônios
devam ser lançados definitivamente às trevas eternas (Mt. 8:29).
O Evangelho do Reino é, todavia, uma
semente que se semeia. Ainda não chegou o tempo em que o joio deva ser retirado
do meio do trigo e lançado ao fogo e o trigo ser recolhido no celeiro. Tal fato
ocorrerá na ceifa, que a consumação do século (Mt. 13:36-43).
Mas, como e quando virá o reino?
Jesus responde em Lc. 17:20-21, dizendo: “Não
vem o reino de Deus com visível aparência. Nem dirão: Ei-lo aqui! Ou: Lá está!
Porque o reino de Deus está dentro de vós”. Isto quer dizer que o Reino de
Deus é inteiramente espiritual e não político e terreno. O Reino de Deus é o
governo de Deus no coração do homem; e tal governo só consumará quando a
soberania de Deus for reconhecida no universo.
Embora Jesus já esteja reinando - “convém que ele reine até que haja posto
todos os inimigos debaixo dos pés. O último inimigo a ser destruído é a morte”
(1Co. 15:25-26) – e tenha recebido “toda autoridade no céu e na terra” (Mt.
28:18), nem todo joelho ainda se dobrou e nem toda língua ainda confessou que
“Jesus Cristo é Senhor para a glória de Deus Pai” (Fp. 2:9-11). Embora Cristo
tenha triunfado sobre os principados e potestades, ainda há um clima de
hostilidade e focos de resistência. Mesmo assim, o mal está sob controle no
mundo.
8. Povo
de Deus e sua relação com o reino
Algumas questões têm sido
levantadas pelas diversas correntes escatológicas quanto a relação existente
entre o povo de Deus e o reino prometido: a) Quem é o povo de Deus hoje? b)
Israel como nação tem alguma ligação com o reino de Deus? c) Terá Deus hoje
dois povos escolhidos: judeus e cristãos? Três declarações irão responder estas
questões como segue.
8.1. Deus
tem um só povo
O Novo Testamento nos revela
claramente que Deus tem um só povo e esse povo é a igreja formada de judeus e
gentios; são todos os que estão em Cristo Jesus. Diversas passagens das
Escrituras no Novo Testamento comprovam que o povo de Deus é um só: os
cristãos.
1)
“Porque todos quantos fostes
batizados em Cristo vos revestistes de Cristo. Não há judeu, nem grego...
porque todos vós sois um em Cristo Jesus. E, se sois de Cristo, então sois
descendência de Abraão e herdeiros conforme a promessa” (Gl. 3:27-28).
2)
“Pois em um só Espírito fomos todos
nós batizados em um só corpo, quer judeus, quer gregos...” (1Co. 12:13).
3)
“Onde não há grego nem judeu,
circuncisão nem incircuncisão... mas Cristo é tudo em todos” (Cl. 3:11).
4)
"Não que a palavra de Deus
haja falhado. Porque nem todos os que são de Israel são israelitas; nem por
serem descendência de Abraão são todos filhos; mas: Em Isaque será chamada a
tua descendência. Isto é, não são os filhos da carne que são filhos de Deus;
mas os filhos da promessa são contados como descendência (Rm. 9:6-8).
5)
“Sabei, pois, que os que são da fé,
esses são filhos de Abraão” (Gl. 3:7).
6)
"Porque não é judeu o que o é
exteriormente, nem é circuncisão a que o é exteriormente na carne. Mas é judeu
aquele que o é interiormente, e circuncisão é a do coração, no espírito, e não
na letra; cujo louvor não provém dos homens, mas de Deus (Rm. 2:28-29).
7)
“Portanto, não há distinção entre
judeu e grego; porque o mesmo Senhor o é de todos” (Rm. 10:12).
8)
“Porque ele é a nossa paz, o qual
de ambos os povos fez um; e, derrubando a parede de separação que estava no
meio...” (Ef. 2:14).
9)
“Vós, porém, sois raça eleita,
sacerdócio real, nação santa, povo de propriedade exclusiva de Deus, a fim de
proclamardes as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua
maravilhosa luz; vós, sim, que, antes, não éreis povo de Deus, que não tínheis
alcançado misericórdia, mas, agora, alcançastes misericórdia” (1Pe. 2:9-10).
8.2. Os
judeus, como nação, povo, raça, não são mais povo de Deus
Israel, como nação, mediante seus
dirigentes e a grande massa de povo, rejeitou tanto a Jesus como a sua mensagem
do Reino. Até o final de seu ministério Jesus estava chamando “as ovelhas
perdidas da casa de Israel”, mas o povo não o quis aceitar como Messias. “Ele
veio para o que era seu e os seus não os receberam” (Jo. 1:11).
Na última semana de seu ministério
em Jerusalém, dirigindo-se aos principais sacerdotes e aos anciãos que estavam
presentes como representantes da nação e o povo judaico, Jesus contou a
Parábola dos Lavradores Maus, para anunciar o juízo de Deus sobre os judeus que
o rejeitaram como o Filho de Deus. Jesus encerrou a parábola dizendo: “Nunca lestes nas
Escrituras: A pedra que os construtores rejeitaram, essa veio a ser a principal
pedra, angular; isto procede do Senhor e é maravilhoso aos nossos olhos?
Portanto, vos digo que O REINO DE DEUS VOS SERÁ TIRADO e será entregue a um
povo que lhe produza os respectivos frutos.” (Mt. 21:42-43).
A rejeição de Israel como povo de
Deus foi ensinada por Jesus em sua profecia referente ao juízo de Deus sobre
Israel e Jerusalém (Lc. 13:34-35; 19:41-44; 23:27-31). Sobre aquela má geração
haveria de vir o castigo divino (Mt. 11:16-19; Lc. 13:1-5). Uma das parábolas
que Jesus proferiu para anunciar o juízo de Deus sobre o povo que ele rejeitou
termina com as seguintes palavras: “Que
fará, pois, o senhor da vinha? Virá, exterminará aqueles lavradores e passará a
vinha a outros” (Mc. 12:9).
No capítulo 8 de João, lemos de uma
polêmica que os judeus tiveram com Jesus. A certa altura da discussão, os
judeus disseram: “Nosso pai é Abraão” e, em seguida, Jesus disse: “Se sois
filhos de Abraão, fazei as obras de Abraão. Mas agora procurais matar-me... Vós
fazeis as obras de vosso pai”. Eles, então, replicaram: “Nós não somos
bastardos; temos um Pai, que é Deus”. Então, Jesus acrescentou severamente: “Vós tendes por pai o diabo, e quereis
satisfazer os desejos de vosso pai; ele é homicida desde o princípio” (Jo.
8:39-44).
Em 1Ts. 2:14-16, Paulo, falando do
juízo de Deus que fez cessar a aliança de Deus com Israel como nação, declara: “Pois vós, irmãos, vos haveis feito
imitadores das igrejas de Deus em Cristo Jesus que estão na Judéia... porque
também padecestes de vossos próprios concidadãos o mesmo que elas padeceram dos
judeus; os quais mataram o Senhor Jesus, bem como aos profetas, e a nós nos
perseguiram, e não agradam a Deus, e são contrários a todos os homens, e nos
impedem de falar aos gentios para que sejam salvos; de modo que enchem sempre a
medida de seus pecados; mas a ira caiu sobre eles afinal”.
8.3. Terá
Deus rejeitado seu povo?
Esta pergunta foi feita pelo
apóstolo Paulo e ele mesmo deu a resposta adequada: “De modo nenhum”
(Rm. 11:1). Ao dizer isso, Paulo se referia aos remanescentes dentre Israel que
creram em Cristo e, por esta razão, foram eleitos segundo a graça. Ele declara
que Deus reservou para si um remanescente, assim como, no tempo de Elias,
reservou para si sete mil varões que não dobraram seus joelhos diante de Baal
(Rm. 11:4). “Assim, pois, também agora
sobrevive um remanescente segundo a eleição da graça” (Rm. 11:5).
Citando o profeta Isaías, o apóstolo
Paulo diz: “Mas, relativamente a Israel,
dele clama Isaías: Ainda que o número dos filhos de Israel seja como a areia do
mar, o remanescente é que será salvo” (Rm. 9:27). Com isto, Paulo quer
ensinar que a rejeição atingiu somente aqueles que, dentre os judeus,
rejeitaram o Messias. Mesmo assim, Israel, como descendência de Abraão segundo
a carne, não tem mais nenhuma aliança com Deus. Nenhum judeu pode arrogar-se ao
direito de participar do Reino de Deus simplesmente por ser filho de Abraão.
Paulo diz: “E não pensemos que a palavra
de Deus haja falhado, porque nem todos os de Israel são, de fato, israelitas;
nem por serem descendência de Abraão são todos seus filhos; mas: Em Isaque será
chamada a tua descendência. Isto é, estes filhos de Deus não são propriamente
os da carne, mas devem ser considerados como descendência os filhos da
promessa” (Rm. 9:6-8).
Os remanescentes dentre Israel
atingiram o número de dezenas de milhares de judeus que se tornaram cristãos
(At. 21:20). Estes perpetuaram o Israel verdadeiro que, na linguagem figurada
de Paulo, formavam a verdadeira oliveira, da qual os ramos endurecidos “foram
quebrados pela sua incredulidade” (Rm. 11:20) e na qual os gentios,
conforme iam crendo em Jesus, estavam sendo enxertados, tornando-se “participantes
da raiz e da seiva da oliveira” (Rm. 11:17). Os demais judeus, que, como
ramos, foram quebrados, poderiam também ainda ser enxertados, se não
permanecessem na incredulidade (Rm. 11:23). Paulo era um desses ramos que foram
quebrados, por sua incredulidade, mas que foi enxertado na oliveira verdadeira,
quando se converteu, e assim esperava ver se, de algum modo, poderia incitar à
emulação os do seu povo e salvar alguns deles (Rm. 11:14).
Harald Schaly, comentando sobre a
rejeição dos judeus, declara:
Deus não rejeita os judeus que não permanecem na
incredulidade, mesmo depois de terem-se fechado ao cristianismo. Aqui temos
nomes de judeus convertidos que se destacaram na história até os nossos dias:
Os primeiros quatorze bispos da igreja em Jerusalém foram judeus convertidos.
Hegésipo, o historiador do segundo século, era um judeu convertido. Nicolau de
Lyra, do décimo quinto século, era um judeu convertido. Neander, famoso
historiador eclesiástico, era um judeu convertido. Helmuth Huron, filho de um
rico banqueiro, e que muito contribuiu para a promoção da educação, era um
judeu convertido. O bispo anglicano Schereschewsky, que se tornou um destacado
missionário na China, tradutor e inventor de uma máquina de escrever chinesa,
era um judeu convertido. Ginsburg, o hebraísta; Pascal, o cientista; Edersheim,
o comentarista bíblico, eram judeus convertidos (...) Mendelssohn, Meyerbeer,
Offenbach, Rubinstein, músicos famosos, eram judeus convertidos. Herschell,
astrônomo; Rosa Bohneur, pintora; Lord Beaconsfield e Lord Herschell, Primeiro
Ministro e Chanceler Britânico, respectivamente; Joseph Pulitzer, e muitos
outros. Ainda que desses talvez nem todos fossem genuinamente convertidos, eram
judeus que professavam o cristianismo.[14]
Temos agora uma questão: Se Israel,
como nação, não tem mais aliança com Deus, não é mais povo de Deus, então,
quando Paulo diz em Romanos 11:26 – “E
assim todo o Israel será salvo” - o que ele quis dizer com isso? Devemos
lembrar que nunca o verdadeiro Israel de Deus foi a totalidade dos israelitas, “porque nem todos os que são de Israel são
israelitas” (Rm. 9:6).
Quando Paulo fala da plenitude dos
israelitas não está se referindo à totalidade da nação hebraica ou dos judeus
especificamente, mas da “plenitude dos
israelitas segundo a eleição da graça”, pela qual “os eleitos o alcançaram e os outros foram endurecidos” (Rm. 11:5,
7). Mais adiante, no versículo 25, ele diz: “...
até que a plenitude dos gentios haja entrado”. Isto, por outro lado, não
deve significar que a plenitude dos gentios se converterá, mas, também aqui, só
pode significar a plenitude dos gentios eleitos segundo a graça.
CAPÍTULO
XXII
REINO
MILENAR DE CRISTO
1. Introdução
Há em toda a Bíblia somente uma
passagem onde é feita uma referência ao Reino Milenar de Cristo e esta passagem
está em Apocalipse 20:1-6. A interpretação desta passagem tem causado muita
polêmica e dividido a igreja, dando origem a seitas e denominações
extravagantes onde predomina o fanatismo. As diversas interpretações deste
texto, geraram três correntes de pensamento: o posmilenismo, o premilenismo
(histórico e dispensacionalista), e o amilenismo.
2. Esquema
doutrinário do posmilenismo
O
posmilenismo não mais é uma escola escatológica atual. Seu esquema doutrinário
caiu em descrédito, dando lugar ao dispensacionalismo que tem invadido a igreja
nestes últimos dias. Para o posmilenismo o futuro é assim descrito:
1)
O reino de Deus é uma realidade
presente na história; está aqui na Terra. Não consiste em um império ou domínio
onde Cristo reina. Significa o governo de Cristo nos corações dos homens. Onde
quer que haja homens que sejam crentes fiéis que obedeçam a Cristo o seu reino
está presente. Não será introduzido de modo cataclísmico no futuro, mas se
expandirá no mundo através da evangelização dos povos.
2)
O mundo será conquistado pelo poder
do Evangelho. Todas as nações se converterão a Cristo, embora nem todos os
homens se tornem cristãos. Haverá uma conversão nacional de todos os judeus do
mundo. A pregação do evangelho será eficaz, não se efetuando por meio de grande
perícia ou metodologia requintada. Não será uma realização puramente humana,
mas uma atuação poderosa de Deus por meio do Espírito Santo em convencer e
regenerar os homens. Haverá uma reavivamento em escala mundial e todos os povos
serão cristianizados.
3)
Todas as nações das Terra, ao
tornarem-se cristãs, se empenharão em promover e preservar uma perfeita paz no
mundo. Todos os governos serão regidos pelo princípio da perfeita justiça.
Todos os homens adotarão e viverão sinceramente os valores morais e espirituais
do Evangelho de Cristo. Haverá perfeita harmonia entre as raças e as classes
sociais. Todos serão felizes, porque a justiça reinará no mundo. Este é o Reino
Milenar de Cristo que durará por um período longo e indefinido de tempo, não
necessariamente mil anos medidos pelo calendário.
4)
Antes da “parousía” e após o
milênio virá a apostasia em escala mundial que provocará uma explosão de
iniquidade que culminará com a manifestação do Anticristo que durará até a
segunda vinda de Cristo. O milênio terminará com a volta pessoal e física de
Cristo em glória. A volta de Cristo será imediatamente seguida da ressurreição
de todos os mortos, salvos e perdidos, sem exceção, e do julgamento que
definirá o destino e estado eterno de toda a humanidade.
5)
A Vinda de Cristo ocorrerá
imediatamente após a ressurreição física de todos os mortos, justos e injustos,
os quais contemplarão Cristo vindo nas nuvens com todos os anjos. Seguirá
imediatamente o juízo final que definirá o destino eterno da humanidade.
2.1. Aspectos
positivos do posmilenismo
1)
A dimensão presente do reino de
Deus em expansão no mundo.
2)
Encoraja a ação missionária da
igreja e o ativismo individual dos crentes.
3)
Reconhece que o reino de Deus tem
um escopo mais amplo do que a igreja.
2.2. Aspectos
negativos do posmilenismo
1)
O otimismo quanto à conversão de
todas as nações da Terra.
2)
Ignora passagens bíblicas (como,
por exemplo, Mt. 24:9-14) que retratam uma piora das condições espirituais da
humanidade no tempo do fim.
3. Esquema
doutrinário do premilenismo histórico
1)
O reino de Deus é terreno e será
estabelecido por ocasião da Vinda Gloriosa de Cristo. Terá uma duração de mil
anos. Tal como o posmilenismo, o premilenismo afirma que, durante o milênio, a
vontade soberana de Deus será feita plenamente na Terra. Haverá perfeita paz,
retidão e justiça entre todos os homens. Cristo, fisicamente presente no mundo,
assentado no “trono de Davi”, na cidade de Jerusalém, governará politicamente
as nações. Literalmente, será o “Soberano dos reis da Terra”, “o Rei dos reis e
o Senhor dos senhores”.
2)
O reino milenar de Cristo deverá
ser inaugurado em sua segunda vinda de forma dramática e cataclísmica. O
milênio será precedido por uma deterioração das condições espirituais, morais e
sociais que caracterizarão a desordem mundial à qual Cristo dará fim e
estabelecerá uma nova ordem no mundo e no universo. No período imediatamente
antes da segunda vinda de Cristo a igreja estará passando por um esfriamento
espiritual generalizado. Para realizar os seus propósitos, Deus usará seu
próprio poder e não os meios humanos.
3)
Os acontecimentos que precederão a
vinda gloriosa de Cristo serão: a manifestação e império do Anticristo, a
Grande Tribulação, o arrebatamento secreto da igreja e a conversão nacional dos
judeus restaurados à “Terra da Promessa”. Os premilenistas divergem entre si
quanto à presença da igreja na terra durante a grande tribulação. Alguns, os
pré-tribulacionistas, acreditam que a igreja será arrebatada antes da
tribulação; outros, os pós-tribulacionistas, afirmam que a igreja estará
presente no mundo durante a referida tribulação.
4)
A vinda gloriosa de Cristo
estabelecerá definitivamente o fim da era da graça e o encerramento da missão
da igreja no mundo. Aqueles que, arrependidos dos seus pecados, tiverem crido
no Messias e no Evangelho do Reino terão parte no reino milenar de Cristo; os
demais aguardarão o julgamento que será realizado no fim do milênio.
5)
Durante o milênio Satanás estará
literalmente preso, acorrentado e trancafiado no “abismo” (Ap. 20:1-3). Tal
prisão terá a finalidade de impedir que ele seduza e engane as nações para
mobilizá-las a uma rebeldia contra Cristo e seu povo. Perto do final do milênio
ele será solto novamente e reunirá todos os ímpios para uma batalha final
contra Cristo. Ele será derrotado com todas as suas hostes e lançado no lago de
fogo preparado para eles.
6)
Haverá duas ressurreições
corporais. A primeira somente dos remidos para reinarem com Cristo durante o
milênio. A segunda do restante dos mortos no fim do milênio para o julgamento
do último dia.
4. Esquema
doutrinário do dispensacionalismo
O
Premilenismo Dispensacionalista é uma escola escatológica ultra radical que
adota uma interpretação literal das Escrituras e sua escatologia é totalmente
futurista. A escatologia dispensacionalista originou-se de uma pretensa
“Revelação” que uma jovem escocesa de 15 anos, Margaret McDonald, teve no mês
de abril de 1830 em Port Glasgow, sua cidade natal.
As “visões” de Margaret McDonald
foram notórias em toda a Escócia, e mui especialmente entre os grupos
interessados nos fenômenos “carismáticos” que ali se manifestavam. Atualmente,
todas as denominações pentecostais e carismáticas seguem tal corrente
escatológica, a qual já tem se infiltrado nas igrejas históricas. Segundo o
dispensacionalismo, há sete dispensações na história bíblica:
1)
O homem em inocência;
2)
O homem sob a consciência;
3)
O homem em autoridade sobre a
terra;
4)
O homem sob a promessa;
5)
O homem sob a lei;
6)
O homem sob a graça;
7)
O homem sob o reinado pessoal de
Cristo.
Segundo o premilenismo
dispensacionalista, a chave imprescindível para compreender o futuro
encontra-se em Dn. 9:24-27. As setenta semanas se referem a 490 anos (70 x7) e
estão ligadas diretamente ao povo judeu reconhecido até hoje como povo eleito
de Deus. O esquema escatológico do dispensacionalismo compreende as seguintes
etapas:
Primeira:
Durante as sete primeiras semanas de
anos Jerusalém foi reconstruída. Depois de tal período, houve o tempo das 62
semanas durante o qual houve o que chamam de “silêncio profético”. Esse foi o
período interbíblico no fim do qual, durante a 69ª semana, veio o Messias para
estabelecer em Israel o reino prometido. Por causa da rejeição israelita ao
Messias, Deus teve que transferir o cumprimento da 70ª semana para o futuro,
fazendo o “relógio profético” parar, para só voltar a funcionar no início da 70ª
semana porvir. Um intervalo de tempo, mesmo não tendo sido previsto pelos
profetas e que já dura quase dois mil anos, foi intercalado por Deus na
história. Trata-se da era da igreja, durante a qual os gentios estão sendo
evangelizados.
Segunda:
Após o tempo reservado para a igreja
realizar seu programa missionário de evangelização mundial o “relógio
profético” voltará a funcionar, fazendo cumprir-se a septuagésima semana, o
tempo da manifestação do Anticristo e a vinda da “Grande Tribulação”. Os
acontecimentos desse período serão os seguintes:
1)
Israel, que sempre esteve no centro
do plano de Deus, voltará, por meio de uma intervenção divina, à sua terra de
herança, reconstruirá o templo e restabelecerão os sacrifícios e o sacerdócio
levítico.
2)
O poder político e econômico
internacional estará nas mãos do Anticristo, a “Besta” ou o “Homem da
Iniquidade”.
3)
O Catolicismo Romano, unido à
Igreja Ortodoxa e ao Modernismo Protestante, será a religião promovida no mundo
pelo Anticristo, simbolizada no Apocalipse pela “grande meretriz”.
4)
O pecado aumentará e atingirá
níveis insuportáveis.
5)
Cristo voltará secretamente para
arrebatar a sua igreja e para poupá-la da “Grande Tribulação” que o Anticristo
moverá no mundo. Por ocasião desta vinda secreta de Cristo, todos os fiéis que
morreram desde a era apostólica ressuscitarão corporalmente. Os fiéis vivos
terão seus corpos transformados e, juntamente com os ressuscitados, serão
arrebatados. O Espírito Santo será retirado do mundo que ficará entregue ao
poder do Anticristo durante sete anos (70ª semana de Daniel 9). Tal
acontecimento mundial provocará a conversão em massa de muitos judeus e de
todos os cristãos nominais que não tiverem sido arrebatados. Todos os crentes
que não foram arrebatados atravessarão a “Grande Tribulação”. Os judeus
convertidos pregarão o Evangelho do Reino (não o evangelho da era cristã).
Enquanto ocorre no mundo a Grande Tribulação, a igreja arrebatada celebra nos
céus as “bodas do Cordeiro”.
6)
A ira de Deus se derramará através
de juízos apocalípticos sobre a terra.
7)
Uma aliança feita com a nação de
Israel será quebrada pelo Anticristo e isso provocará uma crise internacional
que culminará na guerra do “Armagedom”.
8)
No fim dos 7 anos, Jesus virá em
glória trazendo consigo sua igreja que fora antes arrebatada e todos os demais
judeus se converterão. Nesta mesma ocasião Cristo destruirá o Anticristo. Os
santos da “primeira ressurreição”, que antes haviam sido arrebatados com os
fiéis vivos, agora de volta à terra, reinarão com Cristo durante mil anos.
9)
O milênio, na concepção
dispensacionalista, será um reino judaico. Durante o milênio, cumprir-se-ão
todas as profecias do Velho Testamento, segundo eles, “ainda não foram
cumpridas”, especificamente Isaías 11 e Miquéias 4.
10) Findo
os mil anos, Satanás será solto e seduzirá as nações do mundo, reunindo-as para
uma batalha final contra Cristo e a igreja. Satanás será derrotado, haverá a
segunda ressurreição (corporal) da qual participarão somente os ímpios e todos
os crentes que morreram durante a “Grande Tribulação”. Todos estes, juntamente
com todos os que tiverem permanecido na incredulidade durante o milênio, o
comparecerão ao juízo do grande tribunal. Satanás e os ímpios irão para o “lago
de fogo” e os remidos glorificados habitarão na nova Jerusalém eternamente.
A interpretação que os
dispensacionalistas fazem da septuagésima semana de Daniel 9 e da segunda vinda
de Cristo é contraditória ao pensamento geral do Novo Testamento e
fundamenta-se em textos extraídos do contexto. Isto nos leva a muitas objeções.
Objeções ao premilenismo dispensacionalista:
1)
Os judeus não são mais, com
exclusividade, o povo eleito de Deus, nem as atenções de Deus estão
centralizadas na nação israelita.
·
Deus não tem na terra dois povos
escolhidos, mas um só, a igreja (1Pe. 2:9-10). A igreja foi formada
originalmente, e ainda hoje é também, de dois povos: judeus e gentios (Ef.
2:11-18; Gl. 3:26-29; Cl. 3:11-12a; 1Co. 12:13; Rm. 9:22-27; Rm. 10:12-13).
·
Os judeus, como descendentes de
Abraão, não são mais o povo de Deus em virtude de terem rejeitado o Messias
(Mt. 21:33-43; Jo 8.41-44).
2)
Não há previsão bíblica de uma
religião a ser promovida pelo Anticristo no mundo.
·
No Novo Testamento há apenas o
registro da apostasia que antecederá à manifestação do Anticristo, “homem do pecado”
(2Ts. 2:3).
·
Tal Anticristo ou “homem do pecado”
se manifestará como oponente declarado contra todo e qualquer sistema
religioso, pois ele se opõe “contra tudo
que se chama deus” (2Ts. 2:4).
3)
Não há previsão bíblica de um
arrebatamento secreto da igreja três anos e meio antes da “parousia”.
Os
textos que narram o arrebatamento da igreja, que são Mt. 24:29-31 e 1Ts.
4:13-17. Ao contrário do que afirmam os premilenistas, estas passagens
descrevem o arrebatamento da igreja da seguinte forma:
·
Não ocorrerá 3 anos e meio antes,
mas simultaneamente à manifestação de Jesus em glória, vindo nas nuvens do céu
(Mt. 24:30-31 e 1Ts. 4:15-17);
·
Não será secreto, pois “todos os
povos se lamentarão e verão...” (Mt. 24:30);
·
Não será secreto, porque todos
ouvirão “grande clangor de trombetas” (Mt. 24:31; 1Ts. 4:16-17).
4)
Não há previsão bíblica de um reino
de Cristo na terra com os crentes ressuscitados corporalmente em uma “primeira
ressurreição”.
·
Jesus afirma categoricamente que o
reino de Deus não é visível, pois não tem natureza material, não é terreno ou
político, mas sim, um reino espiritual e eterno (Lc. 17:20-24; Jo. 18:36).
·
O único texto onde menciona o reino
milenar de Cristo (Ap. 20:1-10) não declara que o seu reinado será na terra.
·
Não há previsão de uma ressurreição
física em duas etapas ou dois períodos diferentes, mas todos ressuscitarão por
ocasião da vinda de Cristo em glória para o juízo final (Mt. 25:31-32; 1Co.
15:50-54; Jo. 6:39, 40, 44, 54).
5)
Não há previsão bíblica da
conversão de toda a nação israelita após a segunda vinda de Cristo.
Não há possibilidade de salvação
após a segunda vinda de Cristo por duas razões:
·
HOJE é o tempo da salvação (2Co.
6:2; Hb. 3:7-15).
·
Após o período da evangelização do
mundo, que antecede a segunda vinda de Cristo, “virá o fim” (Mt. 24:14).
5. Esquema
doutrinário do amilenismo
O
amilenismo surgiu com Agostinho que, diante da carnalidade dos premilenistas da
sua época, abandonou tal corrente doutrinária. Influenciado por Ticônio, um
donatista do século IV, Agostinho concluiu que o capítulo 20 de Apocalipse
tratava do intervalo entre a primeira e a segunda vinda de Cristo. A ênfase
amilenista é: não haverá um milênio literal de reinado de Cristo na terra.
Os principais postulados do
amilenismo são os seguintes:
1)
A segunda vinda de Cristo
inaugurará o estado final e a era eterna tanto para os crentes como para os
incrédulos.
2)
A época do retorno de Cristo será
anunciada pelo aumento intenso da iniquidade, das falsas doutrinas, crise
econômica mundial, cataclismas intensos e cada vez mais frequentes na natureza,
o anúncio do evangelho a todas as nações da terra e, por fim, “o sinal do Filho
do Homem” (Mt. 24:1-30; 2Pe. 3:3-10).
3)
A segunda vinda de Cristo será
seguida imediatamente pela ressurreição dos mortos, o juízo final e o destino
eterno dos crentes e incrédulos (Mt. 25:31-46; At. 17:30-31; Hb. 9:27; 2Co.
5:10; Jo. 5:27-29).
4)
A passagem bíblica de Ap. 20:1-15 é
simbólica e não pode ser interpretada literalmente.
·
Não faz sentido interpretar
literalmente mil anos de prisão de Satanás com correntes, lançado no “abismo”
selado, enquanto Cristo, juntamente com os crentes ressuscitados fisicamente,
reina na terra, convivendo simultaneamente com pecadores mortais, enquanto os
demais mortos – os ímpios – aguardam a “segunda ressurreição” para o julgamento
final.
·
Não faz sentido interpretar
literalmente a soltura de Satanás para enganar todas as nações a fim de
invadirem Jerusalém onde Cristo reina com sua igreja, pois que pessoa, depois
de ver com seus próprios olhos Cristo, anjos e os santos glorificados habitando
na terra, ainda permanecerá incrédula e perversamente capaz de crer no diabo a
ponto de se unir ao seu exército para uma batalha física contra Cristo, seus
anjos e sua igreja?
·
Não faz sentido (nem há respaldo
bíblico) haver em um mundo corrompido pelo pecado um reinado de Cristo com
anjos e santos glorificados, residindo na terra onde o pecado e a morte não
tenham sido erradicados definitivamente.
5)
O capítulo 20 de Apocalipse, como
todos os demais, é simbólico e deve ser interpretado à luz da Bíblia como um
todo.
·
O reino de Cristo não é terreno,
material, visível; isto é, não tem as características dos reinos dos homens,
mas é divino, espiritual e celeste (Jo. 18:36; Lc. 17:20-21).
·
A morada dos remidos glorificados é
o céu e não a terra (Jo. 14:1-3; Fp. 3:20-21; 2Tm. 4:18).
·
O reino de Cristo já existe desde a
sua primeira vinda e ele está reinando com os santos no céu e na terra (Mt.
12:28; 28:18; Rm. 5:17; 1Co. 15:20-28; Cl. 1:12-13; 1Pe. 3:22; Ef. 1:20-22).
“Mil anos” deve ser entendido como o longo tempo da era presente do reino de
Cristo e de sua igreja.
·
A “primeira ressurreição” deve ser
compreendida como ressurreição do espírito e a segunda, como ressurreição do
corpo. A primeira ressurreição está diretamente relacionada no texto às almas
dos DECAPITADOS (referência aos mártires que sofreram a pena de morte por
decapitação “por causa do testemunho de Jesus, bem como por causa da Palavra de
Deus”). As almas dos decapitados “viveram e reinaram com Cristo durante mil
anos” (Ap. 20:4) é uma expressão usada para descrever que, apesar de terem
morrido fisicamente como mártires na terra, estão redivivos no céu reinando com
Cristo (Jo. 5:24-29; Jo. 11:25-26; Ef. 2:1-6; Cl. 3:1).
·
A segunda ressurreição, descrita
como “o restante dos mortos não reviveram até que os mil anos se completassem”,
deve ser compreendida como a ressurreição física de todos os que morreram na
incredulidade e que, pelo fato de não terem sido regenerados, são mortos
espirituais que serão ressuscitados fisicamente, para comparecerem como réus
diante do grande tribunal, para serem julgados um por um e receberem como
destino eterno o “lago de fogo, a segunda morte” (vv. 11-15).
5.1. O
milênio na concepção amilenista
O
livro do Apocalipse é um livro de símbolos; uma série de “cenários dramáticos”
típicos de um estilo literário judaico que denominamos hoje de “escritos
apocalípticos”. Tal estilo era próprio da época denominada pelos atuais
estudiosos de período interbíblico, durante o qual se fortaleceu intensamente a
esperança messiânica entre os judeus. As figuras dos símbolos são tomadas do
Velho Testamento, em particular dos livros de Ezequiel e Daniel. Os escritos
apocalípticos eram produzidos em época de perseguição.
O livro, em resumo, consiste em
duas principais divisões, que descrevem, em linguagem simbólica, a luta entre a
Igreja e o mundo (caps. 1 a 11), e o grande conflito espiritual entre a Igreja
e Satanás (caps. 12 a 22). Nestas duas grandes divisões vemos em contraste o
Grande Livro Selado (5:1) e o Livrinho Aberto (10:2).
O Livro Grande é o conselho secreto
de Deus a respeito do julgamento de um mundo pecador. Envolve o destino de todo
o gênero humano. Está “selado”, é segredo, só conhecido de Jesus Cristo, em
cujas mãos o Pai entregou todas as coisas. Nesta seção os homens não lutam
contra Deus, estão sem recursos, desarmados. O Livrinho contém revelações
concernentes à Igreja Cristã e seu conflito com seus adversários. O grande
assunto da segunda divisão é o que a Igreja é, faz e sofre, e não o que Deus é
e faz, como se vê na primeira divisão principal.
Na divisão do Grande Livro, o
Cordeiro é a figura dominante; na divisão do Livrinho, os principais
personagens são a Mulher e o Dragão. As duas seções são as duas partes de um
todo quando, vencidos o Dragão e seus aliados, o Cordeiro desposa a Mulher e
vive com ela para sempre num lindo lar. Nestas duas grandes divisões, há sete
seções; cada qual compreendendo toda a era do Novo Testamento, do Primeiro ao
Segundo Advento de Cristo, terminando cada seção com Cristo e sua Igreja
triunfantes na Segunda Vinda, que serve de introdução à eternidade. As sete
subdivisões são:
1)
Cristo supremo em sua Igreja (caps.
1 a 3);
2)
A Igreja sob provação (caps. 4 a
7);
3)
A Igreja vindicada (caps. 8 a 11);
4)
Cristo combatido por Satanás e seus
ajudantes (caps. 12 e 13);
5)
A ira de Deus contra os
impenitentes (caps. 15-16);
6)
A queda de Babilônia e as bestas
(caps. 17 a 19);
7)
Cristo e sua Igreja vitoriosos
(caps. 20 a 22).
O capítulo 20 de Apocalipse
divide-se em quatro parágrafos naturais:
1)
A prisão de Satanás (vv.1-3);
2)
O reinado dos santos (vv. 4-6);
3)
A soltura de Satanás (vv.7-10);
4)
O Juízo do Grande Tribunal
(vv.11-15).
5.2. A
prisão de Satanás
O primeiro parágrafo contém sete
símbolos: uma chave, um poço (“abismo”), grande cadeia, um dragão, uma
serpente, um milênio e um selo. O Espírito Santo interpreta dois destes
símbolos e assim nos dá a entender a interpretação dos demais.
Os símbolos do “dragão” e da
“serpente” referem-se ao “Diabo, Satanás” (20:2; cf. 12:9). O “poço do abismo”
interpreta-se como sendo a “prisão” de Satanás (20:7). A figura de “prisão”
traz a ideia de justiça divina dominando e restringindo as forças do mal por
decreto e propósito. “Abismo”, profundidade sem termo, sugere um afastamento
irremediável, contínuo da presença de Deus. Se o poço é simbólico, não é
possível abri-lo com uma chave literal. Daí, a chave como símbolo sugere o que
solta, ou fecha, ou restringe. A não ser que a coisa a ser ligada ou presa seja
de substância material, uma chave literal será de pouco proveito, e uma vez que
Satanás é um espírito, nenhuma cadeia material pode prendê-lo. A cadeia sugere
o decreto e o poder divinos, que detêm e submetem o réu no abismo, enquanto que
o “selo” é símbolo da autoridade divina (5:2-3). Satanás é apresentado sob os
símbolos descritivos de “dragão”, animal feroz; de “serpente” astuta; de
“diabo”, que significa difamador, falso acusador, caluniador, e “Satanás”,
oponente e adversário de Deus e do seu Cristo.
“Mil” é no Apocalipse um número
simbólico como todos os demais e faz parte dos mistérios da numerologia
hebraica. Como exemplos disso, temos o número 7, que tem o sentido de
plenitude, totalidade, todo, completo. Um cordeiro com 7 chifres e 7 olhos,
“que são os sete espíritos de Deus”, é visto como símbolo da onipotência e
onisciência do Cristo glorificado e do Espírito Santo (Ap. 5:6).
Outro exemplo é o número 10, que tem
o sentido de amplitude e extensão. Uma besta com 10 chifres e 10 diademas
identifica Roma e a extensão do seu poderio imperial no mundo da era
apostólica. O número 40 relaciona-se à angústia, juízo divino, provação, etc.
(Gn. 7:17; Nm. 14:35; Lc. 4:1-2). Como os demais números, 40 é também
simbólico. O número 4 é o número do universo (4 pontos cardeais: norte, sul,
leste e oeste). O número 12 é o número do povo de Deus (12 patriarcas, filhos
de Jacó, 12 tribos de Israel, 12 apóstolos; a igreja que nasceu no dia de
Pentecostes com 120 membros = 12 x 10, para designar a multiplicação indefinida
do número de discípulos. Os 144.000 selados = 12 x 12 x 1000, equivalem à
multidão que ninguém podia contar de toda tribo, língua, povo e nação).
Os “mil anos”, de igual modo, devem
ser entendidos simbolicamente. O número 1000 é o produto de 10 x 10 x 10. O
número 10 (que significa intensidade, amplitude, grandeza e imensidão) está
relacionado a potência mundana, poder governamental intenso (Ap. 13:1; cf. Dn.
7:19-24). O número 1000 tem sido usado em toda a Bíblia simbolicamente para
transmitir a ideia de imensidão, intensidade, grandeza de extensão indefinida,
tanto referente ao tempo como a quantidade (Exemplos: Dt. 1:10-11; 7:9; Ex.
20:5; Jz 15:14-16; Ec 7:28; Sl. 90:4; 2Pe. 3:8). Desta forma, “mil anos” deve
significar um tempo muito longo de duração indefinida, conhecido somente por
Deus e desconhecido pelo homem. É o tempo do reino de Cristo com sua igreja que
compreende o período entre sua primeira e sua segunda vinda, durante o qual
Satanás está “amarrado” (Mt. 12:22-29). A doutrina central de Ap. 20:1-3 é que
Satanás está preso durante toda a era cristã, ou “dia da salvação”, até pouco
antes da Segunda Vinda de Cristo (Ap. 20:2). Isto pode ser melhor observado da
seguinte forma:
1)
Cristo prendeu Satanás em sua
primeira vinda. Ele foi a semente prometida da mulher que haveria de esmagar a
cabeça da serpente (Gn. 3:15). Ele é o mais forte que entrou na casa do valente
e o amarrou (Mt. 12:29).
2)
Cristo venceu Satanás por sua morte
na Cruz e por levantar-se do túmulo, tirando-lhe a armadura em que confiava e
dividindo os despojos (Lc. 11:22).
3)
Cristo foi manifestado em sua
encarnação “para destruir as obras do diabo” (1Jo. 3:8), “... para destruir
aquele que tem poder sobre a morte, a saber, o diabo...” (Hb. 2:14).
4)
O Espírito Santo revela em Ap. 20:3
que a prisão de Satanás durante esta era do Evangelho limita-se apenas em
privá-lo de “enganar as nações”.
O significado desta parte da visão
que se refere ao reinado dos santos obtém-se através de três perguntas: Quem
são estes santos? Que se deve compreender por esse reinado deles? Por que são
bem-aventurados os que tomam parte na primeira ressurreição? A resposta destas
perguntas segue abaixo.
5.3. O
reinado dos santos
“Vi também tronos e nestes
sentaram-se...” (v.4). O trono de Cristo e do seu povo, no livro do Apocalipse,
apresenta-se como estando no céu (1:4; 3:21; 4:2, 3, 5, 6, 9, 10; 5:6, 7, 11,
13; 6:16; 7:9, 10, 11, 15, 17; 8:3; 12:5; 14:3, 5; 16:17; 19:4, 5; 20:4, 11;
21:5; 22:1, 3).
Trono é símbolo de autoridade e
governo. Alguns são vistos pelo apóstolo João “sentados” nestes tronos e deles
se diz serem “as almas dos decapitados por causa do testemunho de Jesus, como
por causa da palavra de Deus, tantos quantos não adoraram a besta, nem tão
pouco, a sua imagem, e não receberam a sua marca na fronte e na mão; e viveram
e reinaram com Cristo durante mil anos” (20:4).
O
apóstolo diz: “vi as almas”, não diz que viu os CORPOS. Temos aqui outra
refutação da interpretação premilenista que supõe ser futura a primeira
ressurreição (corporal) dos santos somente. Além disso, o Apóstolo está falando
do começo da era cristã, visto que emprega a palavra DECAPITADOS, o que aponta
para o tempo dos que sofreram como mártires às mãos da Besta em sua forma
imperial, Roma pagã, que executava as punições da lei pelo machado, que era a
insígnia do poder romano.
Estes
santos que morreram decapitados “viveram e reinaram com Cristo durante mil
anos”. Com respeito ao restante dos mortos “não reviveram até que se
completassem os mil anos. Esta é a primeira ressurreição”. O apóstolo João, menciona os ensinos de Jesus
sobre a ressurreição como havendo duas ressurreições:
1)
A primeira ressurreição é
espiritual – “Eu sou a ressurreição e a vida, quem crê em mm, ainda que MORRA
(fisicamente), VIVERÁ (espiritualmente); e todo o que VIVE (fisicamente) e crê
em mim não MORRERÁ ETERNAMENTE (segunda morte) – Jo. 11:25-26. “Se alguém
guardar a minha palavra não VERÁ A MORTE (segunda morte) – Jo. 8:51. Todo
crente verdadeiro passou de um estado de morte espiritual (Ef. 2:1) para outro
de vida espiritual (Jo. 5:24). “Em verdade, em verdade vos digo que vem a hora
e já chegou, em que os MORTOS (espirituais) ouvirão a vós do Filho de Deus; e
os que a ouvirem VIVERÃO (espiritualmente)” – Jo. 5:25. “Portanto, se FOSTES
RESSUSCITADOS (espiritualmente) juntamente com Cristo, buscai as coisas lá do alto,
onde Cristo vive, assentado à direita de Deus” (Cl. 3:1).
2)
A segunda ressurreição é corporal –
“Não vos maravilheis disto, porque vem a hora (mas ainda não chegou) em que
TODOS OS QUE SE ACHAM NOS TÚMULOS (mortos fisicamente) ouvirão a sua voz e
sairão (ressurreição física): os que tiverem feito o bem, para a ressurreição
da vida (eterna); e os que tiverem praticado o mal, para a ressurreição do
JUÍZO (morte eterna, segunda morte)” – Jo. 5:28-29. Isto implica em dizer que a
primeira ressurreição é espiritual e, por esta razão, sobre os que a
experimentaram a segunda morte não tem autoridade (Ap. 20:6); e a segunda
ressurreição é física que abrangerá todos, tanto os salvos como os perdidos. Os
perdidos ressuscitarão (fisicamente) para o juízo de condenação (segunda morte,
o lago de fogo).
3)
Com referência aos “mil anos”,
estes tornaram-se o símbolo dos “últimos dias”, A ERA MESSIÂNICA (do domínio do
Messias como Soberano do Universo, cf. Mt. 28:18; 1Co. 15:25-28), o longo tempo
de espera (parece demorada para alguns) que antecede ao “Dia do Senhor” (2Pd.
3:3-10). Isto nos faz identificar os mil anos de Ap. 20:1-3 com a era em que
Satanás está, desde a primeira vinda de Cristo, vencido, despojado, reduzido à
condição de prisioneiro – “amarrado” – e em que o reino de Cristo se
estabeleceu no mundo (Lc. 11:20-22; Cl. 2:15; 1:13). Não devemos nos esquecer
que a igreja é portadora das “chaves do reino dos céus” (Mt. 16:18), que a
Cristo foi dada “toda autoridade nos céus e na terra” (Mt. 28:18), que a igreja
é um “reino sacerdotal” e, como tal, está reinando espiritualmente no mundo
(Ap. 5:9-10; Rm. 5:17; Cl. 1:13). Todos os que já são novas criaturas são
também “embaixadores em nome de Cristo” (representantes legais do reino dos
céus na Terra) – 2Co. 5:17-20.
5.4. A
soltura de Satanás
Quando
esta era do Evangelho, o último período da história humana, chegar perto do seu
termo, Satanás será solto de sua prisão por “pouco tempo” (20:3, 7). Aqui é
revelado o motivo da prisão e da soltura de Satanás, para “enganar as nações”
(20:3, 8). Isto concorda com o que Paulo ensina em 2Ts. 2:11-12 que diz: “É por
este motivo, pois, que Deus lhes manda a operação do erro, para darem crédito à
mentira, a fim de serem julgados todos quantos não deram crédito à verdade;
antes, pelo contrário, deleitaram-se com a injustiça”.
A
soltura de Satanás, para seduzir as nações, é uma decepção total e universal ,
tendo-se em vista a única coisa pela qual fora preso, a saber, “reunir as
nações para a peleja” (20:28). Esta última batalha do conflito espiritual das
eras vem mencionada em Ap. 16:12-16; 17:9-11; 14:18; 19:11-21 e 20:7-10.
A igreja aparece nestes versos sob
os símbolos de “acampamento” e “cidade querida”. O apóstolo João fala de “Gogue
e Magogue”, que não são os mesmos a quem Ezequiel se refere (Ez. 38 e 39).
Gogue e Magogue da referência de Ezequiel foram a última tentativa de
destruição do Judaísmo antes do primeiro advento de Cristo, ao passo que Gogue
e Magogue do Apocalipse são a última e final tentativa de eliminar da terra o
Cristianismo Bíblico e histórico, ANTES DO SEGUNDO ADVENTO DE CRISTO. Mas fogo
cairá do céu, da parte de Deus, e os devorará. Fogo acompanha a volta de
Cristo, segundo o testemunho de Paulo e Pedro (2Ts. 1:7; 2Pe. 3:10-12), com os
quais João concorda.
CAPÍTULO
XXIII
A
SEGUNDA VINDA DE CRISTO
1. Significado
do evento
A segunda vinda de cristo é a base
da esperança cristã, o evento que marcará o início da complementação do plano
de Deus. Neste evento todos os propósitos divinos haverão de ser alcançados,
concretizando-se, assim, os eternos desígnios de Deus. Vários termos são usados
para designar este grande evento:
a)
Apocalypsis
(revelação, desvendamento) – que indica a remoção daquilo que agora obstrui a
nossa visão de Cristo (1Co. 1:7; 2Ts. 1:7; 1Pe. 1:7, 13; 4:13).
b)
Epiphaneia
(aparecimento, manifestação) – refere-se à vinda de Cristo
trazendo as bênçãos da salvação (2Ts. 2:8; 1Tm. 6:14; 2Tm. 4:1, 8; Tt 2:13).
c)
Parousia
(literalmente, presença) – que significa a manifestação de Cristo no esplendor
de sua glória, em sua volta triunfante (Mt. 24:3, 27, 37; 1Co. 15:23; 1Ts.
2:19; 3:13; 4:15; 5:23; 2Ts. 2:1-9; Tg. 5:7-8; 2Pe. 1:16; 3:4, 12; 1Jo. 2:28).
1.1. A
segunda vinda de Cristo, um único evento
Uma das correntes da Escatologia, o
Premilenismo Dispensacionalista, declara categoricamente que haverá no futuro
duas vindas de Cristo. A primeira, sendo secreta, para o arrebatamento da
igreja. A segunda, que ocorrerá três anos e meio depois, será a vinda em glória
para o reino milenar de Cristo na terra; ocasião em que ocorrerá a primeira
ressurreição de todos os remidos, os quais haverão de reinar com Cristo por mil
anos na terra, tempo em que Satanás estará preso. As Escrituras ensinam que
haverá um único evento:
1.1.1. O
que disse Jesus
a)
Respondendo à pergunta dos seus
discípulos em Mt. 24:3, Jesus fez referência a “um dia” e “hora” (Mt 24:36).
b)
Em momento nenhum Jesus se referiu
a um suposto arrebatamento secreto da igreja. Jesus declarou que sua vinda será
tão visível que “todos os povos da terra se lamentarão e VERÃO o Filho do Homem
vindo sobre as nuvens...” (Mt. 24:30).
c)
Ao se referir ao arrebatamento da
igreja Jesus declarou que o mesmo será visível e ocorrerá no dia da “parousía”
(Mt. 24:30-31).
1.1.2. O
que disse Paulo
a)
Paulo faz referência à segunda
vinda de Cristo como um único evento ao citar que “o dia do Senhor vem como
ladrão de noite” (1Ts. 5:1).
b)
Paulo diz que a “vinda de nosso
Senhor Jesus Cristo e nossa união com ele – arrebatamento da igreja –
acontecerão no “Dia do Senhor” (2Ts 2:1-2).
c)
O apóstolo Paulo declara
explicitamente que tudo isso acontecerá “quando do céu se manifestar o Senhor
Jesus com os anjos do seu poder... quando vier para ser glorificado nos seus
santos e ser admirado em todos os que creram naquele dia” (2Ts. 1:7-10).
1.2. A
segunda vinda de Cristo será pessoal e física
O Novo Testamento é enfático quanto
ao caráter desse evento. Em primeiro lugar, é dito explicitamente que “o Senhor
mesmo [...] descerá dos céus” (1Ts. 4:16). Isto significa que Jesus em pessoa,
de forma visível e física virá dos céus. O próprio Jesus disse: “E, quando eu
for e vos preparar lugar, voltarei e vos receberei para mim mesmo, para que,
onde eu estou, estejais vós também” (Jo. 14:2).
Em segundo lugar, o Novo Testamento
declara que a forma como Jesus virá será física e visível “... Varões galileus,
[...] Esse Jesus que dentre vós foi assunto ao céu virá do modo como o vistes
subir” (At. 1:11). Em Ap. 1:7 é dito: “Eis que vem com as nuvens e todo olho o
verá, até quantos o traspassaram. Certamente. Amém”.
2. Os
acontecimentos dos últimos dias
Antes de tudo, é necessário
sabermos o que significam “os últimos dias” na profecia bíblica. Os últimos
dias, segundo as Escrituras, formam o período que se estende da primeira à
segunda vinda de Cristo. Vejamos algumas passagens bíblicas: a) Is. 9:1-7 – a
vinda do Messias e do reino a partir da Galileia; b) At. 2:17 – a era do
derramamento do Espírito Santo e da salvação; c) 1Tm. 4:1 – era da apostasia da
igreja.
2.1. A
rejeição dos incrédulos de Israel e o chamamento dos gentios
A primeira vinda de Cristo teve o
propósito de estabelecer o reino de Deus anunciado pelos profetas (Dn. 2:44;
7:18, 27; Jr. 23:5-6; cf. Mc. 1:14-15), estabelecido por Jesus (Mt. 12:28; Jo.
18:36-37), presente na história (Lc. 17:20-21; Mt. 28:18; cf. 1Co. 15:24-25),
mas que só será consumado, isto é, complementado na parolais (Mt. 13:40-43;
25:34, 41).
Em sua primeira vinda, Jesus veio
iniciar a implementação do reino de Deus em e por meio de Israel que, devido à
sua concepção distorcida do reino de Deus, rejeitou Jesus como o Messias. “As
ovelhas perdidas da casa de Israel” que tinham sido a prioridade do ministério
de Jesus (Mt. 15:24; 10:6) tornaram-se, pela rejeição a Cristo, um povo
destituído do reino (Mt. 8:11-12; 21:43; Jo. 8:41-47). Por esta razão, Jesus
anunciou o fim da religião judaica (Mt. 24:1-12; Jo. 4:19-24) e Israel e
Jerusalém tornaram-se o alvo da ira de Deus (Lc. 19:41-44; 21:20-24).
A antiga aliança de Deus com Israel
deu lugar à “nova e eterna aliança” firmada por Jesus com o novo povo de Deus,
a igreja, que herdou todas as promessas de Deus para com Israel (1Pe. 2:9-10;
cf. Ex. 19:5-6). O lugar de Israel no reino é oferecido aos gentios de todas as
nações e raças as quais são chamadas através da pregação do “Evangelho do
Reino” (Mt. 24:14; 28:19; At. 1:6-8).
2.2. A
grande tribulação e a apostasia da igreja
Outro
acontecimento dos últimos dias é a apostasia da igreja durante o período da
grande tribulação. Tal apostasia haveria de se manifestar na igreja e o mundo
(Mt. 24:4-12). Nesta passagem Jesus menciona três causas da apostasia:
1)
A proliferação e engano de seitas e
falsos profetas (vv. 4, 5, 11, 24);
2)
A vida carnal da igreja manifestada
por meio de escândalos (v. 10);
3)
A perda da espiritualidade e do
temor a Deus (v. 12).
Apesar de tudo isso, “será pregado
este evangelho do reino por todo o mundo, para testemunho a todas as nações.
Então, virá o fim” (v. 14). A grande tribulação ocorre em todo o período da
história da igreja no mundo. Ela começa com a perseguição da igreja, o juízo de
Deus sobre Israel e a destruição de Jerusalém (Mt. 24:9, 15-22; Lc. 21:20-24);
se intensificará ao longo da história (Mt. 24:8), trazendo destruições e grande
morticínio por meio de guerras, fome, pestes, terremotos e maremotos (Lc.
21:7-11, 25, 26) e findará com a parolais (Mt. 24:29).
2.2.1. A
manifestação do anticristo
Louis Berkhof, ao falar sobre o
termo “antichristos”, diz que tal termo só apareceu nas epístolas de João (1Jo.
2:18, 22; 4:3; 2Jo. 7) e pode significar alguém que toma o lugar de Cristo, ou
ainda, alguém que, embora assumindo a aparência de Cristo, opõe-se a ele.
Na linguagem do apóstolo João (1Jo.
4:3) o “espírito do anticristo” que havia de vir “já está no mundo” e
manifesta-se em todo falso profeta. Os “pseudoprophetai” e “pseudochistoi”
tomam posição contra Cristo e contra seu reino (Mt. 7:15; 24:5, 24; Mc.
13:21-22; Lc. 17:23).
Na
concepção de Paulo, embora o espírito do anticristo já esteja no mundo – “o
mistério da iniquidade já opera” (2Ts. 2:7) – o anticristo é personificado no
que Paulo chama de “o homem da iniquidade, o filho da perdição” (2Ts. 2:3) e “o
iníquo” (2Ts. 2:9), cujo caráter revela-se como:
1)
Oponente declarado de Deus e de
todo sistema religioso (v. 4);
2)
Alguém que atribui divindade a si
próprio (v. 4);
3)
Age segundo a eficácia de Satanás
(v. 9);
4)
É perito na arte de enganar (v.
10).
5) Com
respeito ao anticristo podemos declarar que:
6)
O espírito do anticristo já estava
em ação nos dias de Paulo e João;
7)
Ele alcançará o seu poder supremo
nas proximidades do fim da era presente;
8)
Que provavelmente esse poder afinal
se concentrará num só indivíduo, vindo a ser a encarnação da iniquidade.
3. A
“Parousia”
A
segunda vinda de Cristo é tão necessária quanto foi a sua primeira vinda, pois
nela haverá de se concretizar todo o desígnio de Deus para com a sua criação. O
plano da redenção não se consumará enquanto não houver a erradicação plena de
todo o “império das trevas” e a criação de “um novo céu e uma nova terra”.
3.1. Propósito
da “Parousía”
Cristo
voltará no fim da era presente para introduzir a era vindoura na qual será
determinado o estado eterno de toda a criação. Para que isso aconteça, alguns
eventos deverão ocorrer: a ressurreição dos mortos, o juízo final e a criação
de um novo céu e uma nova terra.
3.1.1. A
ressurreição dos mortos
A
restauração do homem, segundo o Novo Testamento, realiza-se em duas etapas: a
redenção da alma e/ou espírito e a redenção do corpo. O pecado trouxe, como
recompensa para o homem, a morte em duas dimensões: espiritual e física, nessa
ordem. A redenção do homem, por sua vez, ocorre também em ambas dimensões:
espiritual e física, nessa ordem. Portanto, a ressurreição ocorre em duas
etapas: a primeira ressurreição é a do espírito (Jo. 5:24-25; Rm. 6:1-11;
8:1-2; Ef. 2:1-7; Cl. 3:1-3); a segunda ressurreição é a do corpo (Dn. 12:2;
Jo. 5:28-29; 6:39-40, 54; 1Co. 15:35-54). Sem a ressurreição do corpo não há
erradicação do império da morte prometida em Ap. 21:4.
3.1.2. O
juízo final
O
juízo final é também chamado de “ira vindoura” (Mt. 3:7) no qual Deus
manifestará sua justiça retributiva “vingança” contra os rebeldes contra Deus
(2Ts. 1:7-9; Rm. 12:19; Ap. 6:10; 19:2). O juízo final trará:
1)
Julgamento da humanidade – salvos e
perdidos (Mt. 25: 31-46; 2Co. 5:10; 2Tm. 4:1; Ap. 20:11-15);
2)
Destruição de todos os poderes
hostis ao reino de Deus (2Ts. 1:8; Ap. 20:14).
No que se refere ao julgamento da
humanidade as Escrituras dizem que tal julgamento ocorrerá segundo as obras de
cada um. “Para todos os homens a entrada no céu, ou a exclusão dele, dependerá
da questão se estão revestidos da justiça de Cristo. Mas haverá diferentes
graus, tanto de ventura no céu como de castigo no inferno. E esses graus serão
determinados pelo que é feito quando na carne, Mt. 11:22, 24; Lc. 12:47, 48;
20:47; Dn. 12:3; 2Co. 9:6”. (Louis Berkhof).
3.1.3. A
nova criação do universo (Ap. 21:1-5; cf. Is. 65:17; 66:22)
A
vinda triunfante de Cristo com poder e grande glória não somente trará uma nova
ordem ao universo, mas restaurá-lo-á complemente. A natureza, afetada pelo
pecado humano, ficou sujeita ao “cativeiro da corrupção” e, portanto, aguarda
“gemendo” sua redenção vindoura (Rm. 8:19-25). Mas, antes da nova criação, o
juízo de fogo destruidor virá sobre a terra e tudo que nela há (2Pe. 3:7-12).
Então, somente depois, segundo a promessa de Deus, haverão “novos céus e nova
terra, nos quais habita a justiça” (2Pe. 3:13).
3.1.4. Definição
do estado eterno da humanidade
O
juízo final determinará o estado final e eterno de todos os que haverão de
comparecer perante o tribunal de Cristo. Tal estado é definido pelo lugar e
pela forma de vida que terão como destino e condição eterna.
a) O
estado eterno dos ímpios
Os
ímpios sofrerão a penalidade de sua condenação no inferno. Em hebraico, a
palavra que traduz inferno “geena” (“ge” = terra ou vale e “hinnom” = Hinom ou
“beney hinnom” = filhos de Hinom) foi dado ao lugar a sudoeste de Jerusalém
onde os ímpios idólatras sacrificavam seus filhos a Moloque, fazendo-os passar
pelo fogo. Fogueiras ardiam ali constantemente, para consumir o lixo de
Jerusalém. Como resultado, veio a ser símbolo do lugar de tormento eterno.
Expressões como “fornalha acesa”
(Mt. 13:42) e “lago de fogo” (Ap. 20:14-15) também são usadas para se referirem
ao destino eterno dos ímpios. Com referência à punição dos ímpios, é impossível
determinar precisamente o que constituirá a punição eterna deles.
Positivamente, podemos dizer que consistirá em:
a)
Ausência total do favor de Deus;
b)
Uma interminável perturbação da
vida, resultante do domínio completo do pecado;
c)
Dores e sofrimentos positivos no
corpo e na alma;
d)
Castigos subjetivos como agonias da
consciência, angústia, desespero, “choro e ranger de dentes” (Mt. 8:12; 13:50;
Mc. 9:43, 44, 47, 48; Lc. 16:23, 28; Ap. 14:10; 21:8). Haverá graus de punição
dos ímpios (Mt. 11:22, 24; Lc. 12:47, 48; 20:17). O “abismo” que separará os
ímpios dos santos é intransponível e inalterável (Lc. 16:26).
b) O
estado eterno dos justos
O
estado final dos remidos será precedido pela nova criação que em Mt. 19:28 é
chamada de “regeneração” e em At. 3:28 é denominada de “restauração de todas as
coisas”. Pedro diz: “Nós, porém, segundo a sua promessa, esperamos novos céus e
nova terra, nos quais habita a justiça” (2Pe. 3:13).
As
Escrituras testificam que há um lugar para a habitação dos remidos (Jo. 14:1-3)
que não é outro senão a “glória” divina (Jo. 17:24), ou “reino celeste” (2Tm.
4:18), “pátria” celestial (Fp. 3:20). Os salvos herdarão, não somente o céu,
mas também a nova criação inteira (Mt. 5:5; Ap. 21:1-3).
A
recompensa dos justos é descrita como vida eterna que significa, não somente
vida sem fim, mas vida em toda a sua plenitude, sem nenhuma das imperfeições e
dos distúrbios da presente vida (Mt. 25:46; Rm. 2:7). A plenitude dessa vida é
desfrutada na comunhão com Deus. A medida da recompensa de cada um é definida
pelas suas obras (Dn. 12:3; Mt. 25:21, 23). A vida no céu é caracterizada por:
a)
Descanso (Hb. 4:9-11; Ap. 14:13);
b)
Adoração (Ap. 7:9-12; 19:1-5);
c)
Serviço (Lc. 22:28-30; Ap. 22:3);
d)
Vida em comunidade (Hb. 12:22-24).
RESUMO DA POSIÇÃO DOS BATISTAS[15]
1.
Deus só tem um povo escolhido e
este é composto dos verdadeiros crentes; e também um só plano de salvação, que
é pela fé no sacrifício expiatório de Cristo (Gl. 3:7, 26-29; 1Co. 12:13; Cl.
3:11; Ef. 2:14; 1Pe. 2:9).
2.
Os judeus, como tais, não são mais
o povo de Deus (Mt. 21:33-45; Jo. 8:47; Gl. 3:16, 22-29; 4:21-30; 1Ts.
2:14-16).
3.
Só um remanescente israelita que se
converteu perpetuou o verdadeiro Israel, a verdadeira “oliveira” na qual foram
e são “enxertados” os gentios crentes e também judeus convertidos (Is. 10:22;
Rm. 9:27; 11:17, 23).
4.
Promessas proféticas ao povo de
Israel:
a)
Condicionais (Ex. 19:5; Dt. 28:15).
b)
Já cumpridas (Js 21:43-45;
23:11-16). O texto de Ne 9:7-8 é uma confirmação do cumprimento da promessa de
Deus em ter devolvido Israel à sua terra, cuja restauração fora prevista por
Ezequiel antes do retorno do cativeiro babilônico.
5.
Reino de Deus e Reino dos Céus –
são sinônimos perfeitos e referem-se ao reino espiritual que Cristo estabeleceu
na sua primeira vinda (Dn. 2:44; cf. Mt. 4:17 e Mc. 1:14-15; Mt. 5:3 e Lc.
6:20; Mt. 11:11 e Lc. 7:28; Mt. 13:11 e Mc. 4:11 e Mt. 19:23-24).
6.
A volta de Cristo
a)
O arrebatamento dos verdadeiros
crentes não será secreto, mas público e notório (Mt. 24:27, 30-31; 1Ts.
4:16-17; 1Co. 15:52). O arrebatamento terá a finalidade de recepcionar a Jesus
e para formar o cortejo glorioso na sua volta (Jd. 14).
b)
A ressurreição será uma só e
simultânea, tanto dos justos como dos ímpios (Dn. 12:2; Jo. 5:28-29). A
primeira ressurreição mencionada em Ap. 20:6 refere-se à conversão (Jo.
5:24-25) em contraste com a ressurreição dos corpos mencionados em Jo. 5:28-29;
Cl. 3:1; Rm. 6:4, 11; Ef. 2:1, 6; 1Jo. 3:1-4).
7.
O juízo final – será universal e
incluirá tanto os justos como os ímpios (Mt. 25:31-46; Mt. 12:41-42; 2Tm. 4:1;
Ap. 20:11-15).
8.
O milênio – profetizado em Dn. 2:44,
já iniciado com o ministério de Jesus (Mt. 3:2; Mt. 10:7; Lc. 17:20-21; Mt.
12:28), estabelecido em sua ascensão, quando todo o poder lhe foi dado no céu e
na terra (Mt. 28:18), será consumado com a volta de Jesus. Os salvos mortos
estão reinando com Cristo nos céus e os vivos, aqui na Terra (Rm. 5:17; Cl.
1:13).
a)
“Mil anos” é um número simbólico de
um longo período. O simbolismo do número “mil” (1000) pode ser visto em Dt.
1:11; 7:9; 32:30; Js. 23:10; Ec. 6:6; Sl. 90:4 e 2Pe. 3:8. Portanto, o Milênio
simboliza o período da graça.
b)
Satanás está derrotado, vencido,
cerceado e reduzido à condição de prisioneiro – “amarrado” – (Mt. 12:28-29; Lc.
10:17-18; 11:20-22; Cl. 2:14-16; Hb. 2:14; 1Co. 10:13; Ap. 12:10).
BIBLIOGRAFIA
BÁSICA
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Franklin; MYATT, Alan. Teologia Sistemática: uma análise histórica, bíblica e
apologética para o contexto atual. São Paulo: Vida Nova, 2007.
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São Paulo: Vida Nova, 1999.
BIBLIOGRAFIA
COMPLEMENTAR
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