1 de outubro de 2026

QUANDO CRISTO FALA O CORAÇÃO INCENDEIA

 

QUANDO CRISTO FALA O CORAÇÃO INCENDEIA

Texto: Lucas 24.13-35

José Vidigal Queirós

 

Introdução

A expressão poética do tema em abordagem tem origem na narrativa mais relevante do Evangelho de Lucas que descreve a experiência vivenciada por dois discípulos durante sua jornada a caminho de Emaús. Aquele foi o dia mais sombrio de suas vidas; o dia em que seus planos fracassaram e a esperança morreu. Dia de luto e de profunda tristeza; dia em que a decepção com a religião excitou neles a vontade de desistir e debandar. Mas algo extraordinário aconteceu quando Jesus, através do diálogo que teve com eles, incendiou seus corações com as chamas da esperança, ao fazer uma exposição clara, precisa e objetiva das profecias messiânicas contidas nas Sagradas Escrituras.

Os corações daqueles discípulos arderam quando ouviram Jesus expor as Escrituras, explicando as razões de sua morte e ressurreição. Isto nos faz acreditar que, no contexto da igreja atual, o mesmo acontece com cristãos, que se tornam desigrejados, em razão de suas frustrações. O ardor espiritual que ocorreu com os discípulos moradores de Emaús, ainda pode se repetir em nossos dias. O texto nos mostra duas condições para que isto aconteça.

 

1.      Primeira condição: discernimento espiritual da verdade revelada

Este discernimento da verdade é necessário aos que estão imersos numa religiosidade morta, originada por:

1.1.   Pela obscuridade da visão espiritual – “enquanto conversavam e discutiam, o próprio Jesus se aproximou e ia com eles. Os seus olhos, porém, estavam como que impedidos de o reconhecer” (v. 15-16).

1.2.   Pela expectativa adversa à realidade – “o que aconteceu com Jesus, o Nazareno [...] como os principais sacerdotes e as nossas autoridades o entregaram para ser condenado à morte e o crucificaram” (v. 19-20).

1.3.   Pelo desapontamento com Deus – “Ora, nós esperávamos que fosse ele quem havia de redimir a Israel” (v. 21).

 

Aplicação – A perda da sensibilidade espiritual é uma tragédia que surge em razão do desprezo pela leitura e estudo das Sagradas Escrituras. Esta é a razão de existirem crentes de visão obscurecida, desapontados com Deus, com expectativas frustradas diante da realidade em que vivem.

 

2.      Segunda condição: uma fé viva firmada na verdade divina

a)      A primeira atitude de Jesus, para avivar a fé dos discípulos, foi repreender com rigidez o desprezo pelas Sagradas Escrituras – “Ó néscios e tardos de coração para crer tudo o que os profetas disseram!” (v. 25).

b)      A segunda atitude de Jesus não foi uma exibição de sinais miraculosos, mas uma exposição clara e objetiva da revelação profética registrada nas Escrituras – “E, começando por Moisés, discorrendo por todos os Profetas, expunha-lhes o que a seu respeito constava em todas as Escrituras” (v. 27).

c)      Através da exposição das Escrituras, Jesus ascendeu no coração daqueles discípulos as chamas de uma fé viva que os libertou das amarras da religiosidade morta. Este foi o testemunho que eles verbalizaram: “Porventura, não nos ardia o coração, quando ele, pelo caminho, nos falava, quando nos expunha as Escrituras?” (v. 32).

 

Aplicação

Para que experimentemos um ardoroso entusiasmo no coração, Cristo haverá de ser o foco de nossa meditação nas Escrituras; só assim, haveremos de alcançar uma vasta percepção espiritual. A verdadeira espiritualidade não se fundamenta no ver para crer, mas no crer para ver, como disse Jesus: “bem-aventurados são os que não viram, mas creram” (Jo 20.29). Jamais esqueçamos de que “a fé é a certeza de coisas que se esperam, a convicção de fatos que se não vêem” (Hb 11.1).

Grave isso: o coração de um crente incendeia, não por meio de emoções passageiras, mas através de uma fé viva que eclode do conhecimento da verdade revelada por nosso Senhor Jesus Cristo. Ele declarou: “Se permanecerdes na minha palavra, sois verdadeiramente meus discípulos; e conhecereis a verdade e a verdade vos libertará” (Jo 8.31-32).

 

Conclusão

Amados irmãos, o "arder do coração" emerge em um crente, espiritualmente fragilizado, quando a essência da verdadeira fé emana da verdade divina, revelada nos ensinos e nas promessas de Jesus. Semelhante ao fogo, a palavra de Cristo não só incinera a incredulidade e a dúvida, como também ilumina a mente obscurecida, trazendo clareza de entendimento. Portanto, durante a sua peregrinação terrena, mantenha sua mente focada nos ensinos e na pessoa de Jesus, o Rei dos reis e Senhor dos senhores. A ele toda honra e toda glória, pelos séculos dos séculos. Amém.

 

TEOLOGIA SISTEMÁTICA - III

 

STBMA – Seminário Teológico Batista do Maranhão

Teologia Sistemática III

A igreja e o mundo durante a era escatológica

 

 

Prof. Me. José Vidigal Queirós

Ano 2026

 

 


 

SUMÁRIO

 

Capítulo I – Eclesiologia .........................................................................................................       02

 

Capítulo II – Escatologia Individual .......................................................................................       18

 

Capítulo III – Escatologia Geral .............................................................................................        22

 

Capítulo IV – O Reino Escatológico de Cristo .......................................................................       25       

 

Capítulo V – O Reino Milenar de Cristo ................................................................................        36

 

Capítulo VI – A Segunda Vinda de Cristo .............................................................................        44

 

BIBLIOGRAFIA ....................................................................................................................        48

 


 

TEOLOGIA SISTEMÁTICA III

 

CAPÍTULO XVIII – ECLESIOLOGIA

 

 

1. Introdução

O estudo da Eclesiologia consiste na abordagem temática sobre a origem, natureza, essência, governo, ministérios, sacramentos/ordenanças e missão da igreja. O termo deriva do vocábulo ekklesía, que, no grego clássico, designava a assembleia de cidadãos convocada para deliberar. Na Septuaginta, o termo foi usado como tradução do hebraico qahal, o qual, por sua vez, era usado para designar a assembleia de adoradores diante de Deus. Essa dupla raiz — política e cultual-veterotestamentária — já sinaliza uma tensão que atravessará toda a disciplina: a Igreja é comunidade convocada por Deus e, ao mesmo tempo, corpo historicamente situado, com estrutura e visibilidade social.

 

2. Conceito de Igreja

2.1. Conceito etimológico

Embora a eclesiologia seja uma doutrina exclusiva do Novo Testamento, as raízes da igreja estão localizadas em Israel, o povo de Deus do Velho Testamento. No plano salvífico de Deus, a igreja tem o seu lugar como uma agência divina no mundo. Não existe igreja fora da obra redentora de Cristo e, por outro lado, não há execução do plano salvífico de Deus fora da igreja.

O termo igreja, em Português, deriva do latim “ecclesia” que, por sua vez, origina-se do grego ekklesia. O termo grego, por sua vez, deriva de ek (preposição que indica origem procedência = de dentro de, de, de fora) e kaleo (verbo grego que significa chamar, convidar). O significado profano deste vocábulo designa uma assembleia democraticamente convocada. Em suma, o termo ekklesía designa uma assembleia deliberativa (At 19.32,39,41). Buscando apresentar uma definição de igreja, segundo as Escrituras, Thiessen[1] propõe que o significado de igreja diverge de quatro falsas concepções:

1)      Não consiste no judaísmo melhorado e continuado, uma vez que Jesus, quando declarou “sobre esta pedra edificarei a minha igreja” (Mt 16.18), a igreja era um projeto para o futuro.

2)      A igreja não é o reino. A expressão “reino dos céus”, em Mateus, nunca é atribuída à igreja. O reino de Deus é maior que a igreja, embora a igreja seja composta dos súditos do reino.

3)      A igreja não é uma denominação. Embora algumas denominações se identifiquem como “igreja”, nenhum grupo sectário é a igreja, uma vez que o conceito neotestamentário de igreja não tem, sob hipótese nenhuma, a ideia de uma instituição ou organização.

4)      A igreja não é uma confissão de fé. As declarações ou confissões de fé formuladas pela igreja ao longo da história são resultados do esforço eclesiástico de preservar a sã doutrina. Dissidências e divisões surgiram em decorrência do radicalismo de grupos de cristãos dissidentes que formaram comunidades locais adotando para si sua própria confissão de fé; mas nenhuma de per si constitui-se sozinha na igreja de Deus, nem tampouco é a legítima detentora da verdade.

 

2.2. Concepção teológica de igreja

A igreja, sejam quais forem os termos empregados para expressarem seu conceito, sempre será definida como povo de Deus, ou ainda, a congregação dos santos de Deus. No Velho Testamento, há dois vocábulos hebraicos que estão relacionados ao conceito de igreja: qahal, que deriva da raiz "qal", significando "chamar"; e 'edhah, derivado de ya'adh, que significa "indicar" ou "encontrar-se ou reunir-se num lugar indicado". O termo qehal 'edhah significa "assembleia da congregação" (Ex. 12:6; Nm. 14:5; Jr. 26:17). A qehal no Antigo Testamento englobava a assembleia dos homens de Israel, enquanto que o ‘am (povo) designava todo o povo de Israel, a nação como um todo.

Não há de estranhar que, sendo a igreja o novo “Israel de Deus”, as promessas messiânicas feitas a Israel são extensivas à igreja. A igreja dá continuação ao remanescente da nação judaica e, portanto, pode ser identificada como qehal ‘am Elohim, ou seja, a congregação do povo de Deus, como designado em (Jz 20.2).

Na versão grega do Velho Testamento (Septuaginta), qahal, no Pentateuco, e qehal, na maioria dos casos, são traduzidas por synagogé (derivada de syn + ago), significando "reunir-se" ou "reunir". Nos últimos livros do Velho Testamento é usada a palavra ekklesia, termo originado de ek e kaleo, que quer dizer "chamar para fora", "convocar". Desta forma, no que se refere à semântica do termo, podemos afirmar com segurança que igreja é a congregação do povo de Deus. Tal congregação assume vários aspectos que devem ser analisados particularmente.

O conceito teológico de igreja deriva da ideia da “qahal” judaica. Jesus, quando se referiu à fundação da igreja, tinha em mente, sem dúvida, o mesmo conceito da “qahal” de Israel. A “Qehal Yahweh” compunha-se do “povo de Deus”, a congregação dos filhos de Israel. Com respeito à diferença entre a “qahal” judaica e a “ekklesía” cristã, duas são as diferenças mais notáveis entre a congregação da antiga aliança e a congregação da nova aliança:

1)      A qahal limita-se à nação de Israel constituída das doze tribos, enquanto a ekklesia não conhece fronteiras geográficas nem raciais;

2)      A qahal compõe-se dos filhos de Abraão segundo a carne (circuncidados), enquanto a ekklesia é formada pelos filhos de Abraão segundo a fé (judeus e gentios).

 

2.3. Acepções neotestamentárias do termo “ekklesía”

O termo ekklesia no Novo Testamento é usado de três maneiras:

1)      Para significar simplesmente uma assembleia (At 19.32, 39, 41) e equivale ao termo grego synagogé (cf. Mt 4.23; At 13.43; Ap 2.9; 3.9).

2)      Para designar o conjunto dos remidos por Cristo (Ef 5.25-27) que incorpora todos os santos de todos os tempos e todos os lugares do mundo (1Co 15.9; Cl 1.18, 24).

3)      Para designar a comunidade local ou congregação dos santos. Este é o sentido mais corrente no Novo Testamento. Dentre 108 vezes que o termo ekklesia é usado, 90 se refere à igreja local (cf. At 8.1; 13.1; 14.23; 15.41; Rm 16.5; Cl 4.16; 1Pe 5.13, etc.).

 

2.4. A igreja é uma comunidade de santos

Paulo, escrevendo sua Primeira Epístola aos Coríntios, dirige-se aos membros da igreja como “igreja de Deus que está em Corinto”, cujos membros foram “santificados em Cristo Jesus, chamados para ser santos” (1Co 1.2). Tais santos formam uma comunidade.

O estilo de vida da igreja no Novo Testamento é essencialmente comunitário. Lucas, em At 2.44, descreve o estilo de vida da igreja declarando que “todos os que creram estavam juntos e tinham tudo em comum”. Em At 4.32, Lucas declara: “Da multidão dos que creram era um o coração e a alma. Ninguém considerava exclusivamente sua nem uma das coisas que possuía; tudo, porém, lhes era comum”. A vida comunitária da igreja de Jerusalém era definida pelo fato de, sempre juntos, perseverarem:

1)      “Na doutrina dos apóstolos” – reunidos para o estudo da Palavra de Deus;

2)      “Na comunhão” – reuniões familiares para auxílio mútuo;

3)      “No partir do pão” – comendo juntos e celebrando a Ceia do Senhor;

4)      “Nas orações” – o caráter devocional, cultual, destas reuniões exigia a prática da oração, da intercessão.

5)      “Tinham tudo em comum” – todos os bens particulares eram compartilhados por todos.

6)      “Tomavam suas refeições com alegria e singeleza de coração” – a mesa da refeição era a manifestação do amor, da intimidade e da fraternidade.

 

2.5. Igreja é o povo missionário de Deus (1Pe 2.9-10)

Pedro não só definiu a natureza como também a identidade da igreja, a qual tem um propósito exclusivamente missiológico. Através dela Deus pretende restaurar o mundo. A igreja é a herdeira legítima de tudo aquilo que Deus propôs fazer através de Israel na antiga aliança (Ex 19.5-6).

1)      Raça eleita – a igreja é a segunda raça; a primeira é a raça adâmica que herdou a morte; a segunda é a “raça eleita”, gerada em Cristo, o segundo Adão também designado como “espírito vivificante”, do qual herda a vida eterna (Rm 5.12-21; 1Co 15.45-49). Todos os que estão em Cristo são as novas criaturas, uma nova geração, a nova humanidade (2Co 5.17) escolhida, separada e chamada para uma missão no mundo.

2)      Sacerdócio real – a igreja é a comunidade sacerdotal de um reino espiritual que opera no mundo (Ap 5.9-10). Ela é intermediária entre Deus e o mundo. A igreja é identificada como a embaixada do reino de Cristo no mundo e tem a missão de reconciliar o mundo com Deus (2Co 5.15-20).

3)      Nação santa – a igreja é uma nova nação, no sentido de ser outra diferente, santificada e separada das nações do mundo. Está no mundo, por causa de sua missão no mundo, mas não pertence ao mundo (Jo 17.15-18), uma vez que sua pátria está nos céus (Fp 3.20). A igreja, não somente é outra, diferente e separada, mas também é “propriedade exclusiva de Deus” que a “chamou das trevas para a sua maravilhosa luz”.

4)      Povo de propriedade exclusiva de Deus – a igreja é a comunidade dos resgatados que se tornou em possessão de Deus. Essa comunidade é escolhida (raça eleita) e separada (nação santa) como propriedade peculiar para realizar o propósito salvífico de Deus, no exercício da Missio Dei.

5)      Comunidade de vocacionados – As expressões que identificam a igreja a igreja como eleita, santa e propriedade peculiar também designam sua vocação para a missão de proclamar ao mundo as “grandezas de Deus”, isto é, os grandiosos atos redentores divinos. A vocação da comunidade cristã consiste principalmente na proclamação dos atos de Deus para a redenção do mundo - “a fim de proclamardes as grandezas daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz” (1Pe 2.9).

 

2.6. Uma comunidade messiânica (Mt 16.13-19)

A confissão de Pedro foi a razão de Jesus declarar que, em sua obra redentora, ele contemplava a fundação da igreja, que haveria de ser a comunidade dos redimidos, designada como agência de salvação para o mundo. A declaração de Jesus “Também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela” (Mt 16.18) requer as seguintes considerações:

a)       “tu és Pedro” (πέτρος = pedra solta que rola no chão).

b)      “sobre esta pedra” (πέτρᾳ = rocha, penhasco ou cordilheira).

c)       “edificarei” (οἰκοδομέω = construir uma casa; edificar a partir da fundação; erigir uma construção civil).

d)      “minha igreja” (ἐκκλησία = assembleia nos moldes de uma sinagoga).

 

Como o Messias, Jesus veio ao mundo para trazer libertação espiritual (Lc 4.18-19) e instalar seu reino entre os homens (Mc 1.14-15). Jesus, o fundador da igreja, seria também o fundamento sobre o qual, como “pedra angular”, sua igreja seria edificada (At 4.11; Ef 2.19-22; 1P 2.4-8). Como comunidade messiânica, a igreja assume dois aspectos que passaremos a descrever em seguida.

 

a)       Uma agência indestrutível de salvação

“As portas do inferno (hades, em grego = habitação das almas dos mortos, o “reino da morte”) não prevalecerão contra ela” (v. 18). Isto tem dois significados. O primeiro é que a igreja jamais haverá de ser destruída pelo império da morte. A igreja é eterna e sempre triunfará sobre aquele que tem o poder sobre a morte, isto é, o diabo (Hb 2.14-15). “Para isso se manifestou o Filho de Deus: para destruir as obras do diabo” (1Jo 3.8).

O outro significado é que a igreja é uma agência de salvação. O homem, em seu estado de pecado, pertence ao reino da morte que tem Satanás como seu chefe. As portas do reino da morte abrem-se para devorar a humanidade, mas Cristo, por meio de sua igreja, como agência do reino dos céus, libertará os cativos que haverão de nele crer. As “portas do hades” (em hebraico sheol = habitação das almas dos mortos) haverão de ceder à investida da igreja no exercício da missão (At 26.18; Cl 1.13; Ef 2.1-6).

 

b)      Uma agência representativa do reino de Deus

A igreja foi investida de autoridade, pois é portadora das “chaves do reino dos céus”. A ela o Senhor conferiu autoridade para proibir e permitir, restringir e liberar, com referência à disciplina dos seus membros. Embora tais palavras tenham sido ditas a Pedro, elas se referem à igreja – “Em verdade vos digo que tudo o que ligardes na terra terá sido ligado nos céus, e tudo o que desligardes na terra terá sido desligado nos céus” (Mt 18.18).

Uma tradução literal deste versículo haveria de ser a seguinte: “Seja o que for que tiveres amarrado na terra terá sido amarrado nos céus; e seja o que for que tiveres desamarrado na terra terá sido desamarrado nos céus”. Jamais, sob nenhuma hipótese, tais palavras significam uma concessão a Pedro de autoridade absoluta sobre a igreja.

A autoridade absoluta está nos céus. Não é a autoridade dos céus que se submete às decisões da igreja na terra; pelo contrário, a igreja na terra é que executa, como ato de obediência, as decisões tomadas antecipadamente nos céus. Como comunidade messiânica do reino, a igreja age no mundo, libertando pecadores das prisões eternas do reino da morte, os quais são inseridos no reino dos céus; e sobre estes ela exerce sua autoridade para disciplinar, proibindo ou permitindo, restringindo ou liberando.

 

 

 

2.7. A extensão encarnacional de Cristo (Ef 1.22-23)

O apóstolo Paulo, descrevendo a igreja como corpo de Cristo, declara que ela é “a plenitude daquele que a tudo enche em todas as coisas”. Em outras palavras, a igreja é a extensão encarnacional de Cristo. Há três implicações diretas deste fato:

 

1)      A igreja deve manifestar ao mundo o caráter santo da pessoa de Deus

Não é em vão que as Escrituras trazem exortações a que todos os crentes “sejam imitadores de Deus como filhos amados” (Ef 5.1) e que todos vivam em santidade de vida, pois o que Deus exigiu de Israel exige também da igreja: “Sede santos porque eu sou santo” (1Pe 1.15-16; cf. Ef 1.14; 1Ts 4.3, 7; Hb 12.14). Isto pode ser entendido da seguinte forma. Cristo é a reprodução perfeita da natureza e caráter de Deus – Ele é “a imagem do Deus invisível” (Cl 1.15); “Nele habita, corporalmente, toda a plenitude da divindade” Cl 2.19).

Sendo a imagem perfeita de Deus e habitando em cada regenerado (Rm 8.10; 2Co 13.5), Cristo se constitui em padrão de integridade moral e espiritual para todo verdadeiro cristão (Ef 4.13; Rm 8.29). Além do mais, a essência do ser de Deus – Pai, Filho e Espírito Santo – habita nos santos (Jo 14.23; Ef 4.6; 1Co 3.16-17). Por último, a imagem de Deus, avariada pelo pecado, está sendo restaurada em todos os regenerados (2Co 3.19). Portanto, a igreja deve manifestar ao mundo o caráter do Deus santo. Em consequência disso, a conclusão a que se pode chegar é que a igreja, como corpo de Cristo, constitui-se no projeto da habitação da plenitude divina. Quando Deus tiver definido o estado eterno da humanidade e da criação, então, ele será tudo em todos (1Co 15.28).

 

2)      A igreja se torna no mundo a detentora da autoridade divina

A autoridade divina manifesta-se na igreja porque, em primeiro lugar, a igreja é portadora das chaves do reino dos céus (Mt 16.19; 18.18). Em segundo lugar, porque a igreja foi estabelecida como embaixada do reino de Cristo no mundo dos homens (2Co 5.19). Finalmente, porque a igreja foi constituída por Deus como reino sacerdotal no mundo das nações (1Pe 2.9). De tudo isto deriva o fato de que a igreja é instância da autoridade sobrenatural de Deus no mundo. Os principados e potestades, que “capturaram” a humanidade e transformaram o mundo em “império das trevas”, estão subjugados pelo poder do Soberano do Universo que domina sobre tudo e todos como cabeça da igreja, a qual é o seu corpo e “a plenitude daquele que a tudo enche em todas as coisas” (Ef 1.23).

 

3)      A igreja concretiza no mundo o eterno desígnio de Deus

A razão de existir da igreja é a missão que ela exerce no mundo, para concretizar os desígnios de Deus. Isto significa que a igreja deve servir como agência de salvação para o mundo (Mt 16.18), assume em sua vocação a incumbência de mediar a reconciliação do mundo com Deus (2Co 5.18-19) e viabilizar o projeto de reconstrução da humanidade (Ef 4.22-24; Cl 3.9-10).

O grande e eterno desígnio de Deus consiste em reconstruir o universo, isto é, restaurar toda a criação, começando pela humanidade. Na primeira criação, Deus começou com o mundo físico e terminou com o homem; na segunda, ele começa com o homem, uma nova criatura (2Co 5.17) e termina com o novo céu e a nova terra (Is 65.17; 66.22; Ap 21.1, 5).

 

3. Designativos bíblicos da igreja

3.1. Corpo de Cristo

A igreja é um organismo vivo dotado de corpo e espírito. Ela é o corpo cujo espírito no qual habita é o “Espírito de Cristo” (Rm 8.9). Isto designa a união da natureza divina com a natureza humana. Como corpo, é a extensão encarnacional do Verbo divino (Ef 1.23); é uma unidade viva e indivisível, completa em si mesma, uma unidade organizada, uma unidade na diversidade. A expressão “corpo de Cristo” é a metáfora paulina predominante para designar seu conceito de igreja (Ef 1.22-23; 5.23, 30; Cl 1.18, 24; 2.19). G. Milton, dissertando sobre a expressão corpo de Cristo, diz que esta imagem da igreja como corpo tem muitas vantagens sobre as demais metáforas utilizadas no Novo Testamento porque:

1)      Ressalta o ato de que a igreja é uma realidade espiritual viva e formada de membros vivos;

2)      Põe em relevo a diversidade dos membros e suas relações mútuas, preservando a coesão viva do conjunto;

3)      Estabelece a relação do corpo com a cabeça [...] que é Cristo, as noções de vida individual e de vida coletiva; de crescimento até uma meta precisa [...]; crescimento que interessa a cada membro e a todo o corpo;

4)      Evidencia a relação fundamental entre corpo e Espírito e a importância do batismo em um só Espírito.[2]

 

Ao usar esta expressão metafórica, o apóstolo Paulo associa a ela a concepção de que os cristãos são batizados em um só Corpo (1Co 12.13) e que, em Cristo, são constituídos em um só corpo (Rm 12.5). Em consequência disso, todos os que estão em Cristo são membros uns dos outros (Rm 12.5; Ef 4.25). Desta forma, o conceito teológico de igreja como Corpo de Cristo, deve significar que:

1)      A igreja é uma unidade viva, indivisível e completa em si mesmo.

2)      A igreja é uma unidade organizada e em crescimento.

3)      A unidade na diversidade dos membros estabelece o princípio da interdependência.

4)      Há uma relação íntima dos membros com Cristo e dos seus membros uns com os outros (1Co 12.12-27).

5)      A comunhão genuína entre os membros vai além das relações sociais (1Co 12.26; cf. At 4.32-35).

6)      A universalidade e a unidade da igreja eliminam a distinção ou acepção de pessoas (1Co 12.12-13; Ef 1.22-23; Gl 3.27-28; Cl 3.11).

7)      Cristo, como cabeça desse corpo, é o Senhor da igreja sobre a qual ele exerce sua soberania (Cl 1.18).

 

3.2. Templo do Espírito de Deus

A igreja de Corinto é denominada por Paulo de “santuário de Deus” (1Co 3.16). Em Ef 2.21-22, Paulo fala que os crentes crescem “para santuário dedicado ao Senhor” e que são edificados “para habitação de Deus no Espírito”. Pedro diz que os crentes, como pedras vivas, constituem-se em “casa espiritual” (1Pe 2.5).

 

3.3. Coluna e baluarte da verdade (1Tm 3.15)

A expressão paulina “coluna e baluarte da verdade” significa que, da mesma maneira que os pilares de um edifício sustentam a estrutura e o teto, assim também a igreja há de manter incólume e incorrupta a verdade do Evangelho em sua inteireza e exatidão. Assim sendo a igreja é:

1)      Produto da Verdade – Se somos renascidos pela Palavra de Deus (1Pe 1.23); se “a fé vem pelo ouvir”, pela Palavra de Deus (Rm 10.17); e se os que recebem a Palavra são adicionados à igreja (At 2.41), resulta obviamente que a Igreja é produto da Palavra da Verdade.

2)      Guardiã e arauto da verdade – Na antiga aliança, Deus escolhia quem proclamasse sua mensagem ao povo. O profeta, como assim era chamado, proclamava: “Assim diz o Senhor”. Assim também os enviados de Cristo são chamados a proclamar as grandezas daquele que os chamou das trevas para a sua maravilhosa luz (1Pe 2.9). O conteúdo da pregação cristã (Kerygma) consiste em “todas as coisas” (Mt 28.20) ou ainda “todo o conselho de Deus” (At 28.20).

3)      Intérprete da Verdade – Todo crente estudioso que se deixa conduzir pelo Espírito Santo irá penetrando progressivamente nos tesouros da Palavra. Contudo, a interpretação mais segura da Escritura é fruto de uma tarefa comunitária, isto é, eclesial. Isto só acontecerá por meio da ação unificadora do Espírito Santo por guiar responsável os santos a toda a verdade (Jo 16.13).

 

A igreja é portadora dos oráculos divinos. A ela foi concedida a revelação dos eternos desígnios de Deus, dos mistérios do reino (Mt 13.11; Lc 8.10; 1Co 4.1) e, portanto, a igreja é a guardiã da verdade, defendendo-a das heresias e dos inimigos do reino de Deus.

 

3.4. A noiva de Cristo

No contexto da antiga aliança, conforme descrito no Antigo Testamento, Yahweh é, numa linguagem metafórica, identificado como o esposo de Israel (Is 54.4-5; 62.5; Jr 3.1, 14, 20; Ez 16.8; Os 2.18-21). Nesta imagem do matrimônio de Deus com seu povo apoiam-se as expressões que fazem alusão à infidelidade e ao adultério de Israel. “Geração adúltera e pecadora” (Mc 8.38) foi o termo usado por Jesus ao referir-se aos seus contemporâneos judeus que manifestavam em sua conduta infidelidade a Deus por violarem a aliança. O eco desta expressão parece se ouvir em Tiago 4.4.

No Novo Testamento, especificamente nos Evangelhos Sinópticos, Deus aparece como um Rei que convida Israel para as bodas do seu Filho (Mt 22.1-14). A parábola das dez virgens (Mt 25.1-13) ilustra a celebração das bodas do noivo (o Messias) com os remanescentes fiéis dentre o povo de Deus. O Apocalipse declara: “são chegadas as bodas do Cordeiro, cuja esposa a si mesma já se ataviou” (Ap 19.7). O apóstolo Paulo descreve a igreja como uma virgem imaculada a ser apresentada como esposa para Cristo (2Co 11.2). Tais metáforas com certeza designam a santidade e a pureza de vida da igreja.

 

4. O fundamento e a membresia da igreja

4.1. O fundador da igreja

Jesus, ao declarar: “edificarei a minha igreja”, estava revelando sua função de agente divino para fundar a igreja, assim como foi também agente divino na criação do universo. Mas, em todos os atos do Filho, o Pai e o Espírito Santo estiveram operando também. Desta forma, a fundação da igreja também é obra da Trindade.

a)         O Pai elege e chama – Yahweh (Deus-Pai) para quem Israel era seu povo eleito (Is 45.4) elege, sela e envia seu Filho Jesus Cristo (Jo 3.16; 6.27; 10.36) e Ele, elege, sela e chama os seus escolhidos (Ef 1.3-6, 13; 1Pe 1.2) para formar a igreja.

b)         O Filho redime – sendo o “único mediador entre Deus e os homens” (1Tm 2.5), Cristo é a ponte estabelecida por Deus para nossa salvação e o caminho que nos leva ao Pai (Jo 14.6). Pelo seu sangue todos os eleitos são resgatados (Ef 1.7; 1Pe 1.19).

c)         O Espírito regenera – o Espírito Santo infunde a vida, o movimento e a unidade da igreja. Pelo “novo nascimento” nos dá a vida espiritual em Cristo (Jo 3.3, 5-8); Ef 2.1). Ele preserva a unidade da igreja e reparte os dons espirituais (1Co 12.4; Ef 4.3-4, 7), para a edificação da mesma.

 

No que se refere à “pedra angular da igreja” (Mt 16.18), ao longo dos séculos, a Igreja Romana tem crido e ensinado que o apóstolo Pedro é o fundamento sobre o qual Cristo edificou sua igreja. A declaração de Jesus, em Mt 16.18: “Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha igreja” tem gerado controvérsias, mas, como diz Thiessen, “não devemos permitir que a conveniência da controvérsia religiosa determine nossa interpretação, mas não devemos ignorar o consenso dos escritores bíblicos acerca deste assunto”.[3]

Independentemente das interpretações já conhecidas, Jesus deixou claro que sua igreja seria edificada e teria um fundamento a que ele designou metaforicamente de “petra” (em grego) e não “petros”. O vocábulo petra é empregado dezesseis vezes no Novo Testamento, dentre as quais, onze vezes significa uma porção saliente de uma rocha e cinco vezes, referindo-se a Cristo (Mt 16.18; At 4.11; Rm 9.33; 1Co 10.4; 1Pe 2.8; cf. 1Co 3.11; Ef 2.20-22).

O apóstolo Pedro declarou em sua primeira epístola que Cristo é a “pedra angular” que serve de fundação para a igreja a que ele denomina como “casa espiritual” (1Pe 2.4-8). A “casa edificada sobre a rocha” (Mt 7.24-27) que resiste aos ventos e tempestades é uma referência à vida espiritual daqueles que fazem de Jesus o alicerce de sua fé e de sua salvação. O mesmo é ensinado por Paulo quando diz que Cristo é o fundamento do edifício de Deus (1Co 3.11) e a “pedra angular” (Ef 2.20-22).

A confissão de Pedro “Tu és o Cristo, o Filho do Deus Vivo” expressa o miolo da fé cristã. Mais que isso, é o centro da fé salvífica (cf. Jo 20.31; Rm 10.10). Pedro confessa que Jesus, o homem que está diante dele, é o Cristo, o Ungido de Deus, o verdadeiro Messias enviado por Deus, o Filho Predileto, o Unigênito de Deus, em contraste com todos aqueles que são vazios do poder salvador. Assim, pois, Jesus, o Messias prometido, segundo a confissão de Pedro, é a pedra fundamental do Cristianismo e da própria igreja. A fé em Jesus é o fundamento de nossa salvação. O cristianismo fundamenta-se na confissão de que Jesus é o Salvador do mundo.

 

4.2. A membresia da igreja

Uma vez que cada igreja local não é mais que a concreção espaço-temporal dessa realidade transcendente que chamamos Igreja, então, uma verdadeira membresia na igreja local implica a união vital com Cristo mediante o novo nascimento e conversão. Assim sendo, a igreja é essencialmente a comunidade dos regenerados. Sem dúvida, como o interior dos corações é conhecido somente por Deus (2Tm 2.19), é possível que algum inconverso nela se introduza de forma despercebida, embora nela não permaneça (cf. 1Jo 2.18-19).

 

 

Deduzimos de 1Jo 2.18-19 os seguintes ensinamentos:

1)      “Eles saíram de nosso meio; entretanto, não eram dos nossos;” implica, portanto, que pode dar-se o caso de que alguém esteja conosco na igreja sem que de fato pertença a ela.

2)      “Se tivessem sido dos nossos, teriam permanecido conosco;” deve significar que o verdadeiro crente permanece até o fim, não como mérito para alcançar a salvação final, mas como indício da salvação adquirida. Portanto, a igreja é um corpo espiritual que consta unicamente dos regenerados pelo Espírito de Deus.

 

4.3. As relações da membresia

A noção de membro de igreja comporta a ideia de que o crente é parte do organismo eclesial e, portanto, vive e opera de acordo com este conceito. Por esta razão, ele guarda uma íntima relação com a Cabeça (Cristo) e com os demais membros do corpo; relação que o apóstolo Paulo designa por meio de expressões que indicam que os crentes são co-sepultados, co-plantados, co-crucificados, co-ressuscitados (Rm 6.4-7), co-vivificados e co-assentados nos céus com Cristo (Ef 2.5-6). De tudo isso, deriva a koinonia (comunhão) do corpo de Cristo, isto é, de cada crente com Cristo e com os demais membros da igreja.

As passagens registradas em Ef 1.22; 4.15; 5.23; Cl 1.18; 2.19 declaram de forma explícita que Cristo é cabeça da igreja. Tal declaração estabelece que Cristo não somente constitui-se no seu legítimo mentor, mas principalmente Autoridade Suprema sobre anjos e homens (Hb 1.1-14), o Chefe Soberano e Senhor Proprietário da igreja.

Das passagens acima citadas deriva compreensão de que a relação de cada crente com os demais membros da igreja ocorre de tal forma que a ajuda mútua entre os membros de que fala Ef 4.16 é essencial à noção de co-membro. Isto estabelece uma relação de interdependência que se manifesta por meio dos ministérios específicos exercidos individualmente pelos membros da igreja de acordo com os dons recebidos.

Cada membro tem o direito e a obrigação de manter vivo, isto é, ativo o dom recebido. O direito de exercitar os dons proporciona a cada membro uma parte ativa na edificação da igreja por meio da diversidade de dons e ministérios exercidos em função do proveito comum e não de si mesmo. Portanto, na igreja não pode haver inúteis, pois todos têm algum dom para o exercício de algum ministério; nem ociosos, pois o trabalho nunca acaba e há atividade para todos desenvolverem.

 

4.4. Os nomes dados à membresia

Cada cristão individualmente e todos os crentes coletivamente são designados como:

1)        Discípulos de Jesus – de acordo com Mt 22.16, o discípulo de Jesus era bem conhecido dos judeus. Ser discípulo de Jesus comportava muito mais que ser alguém dentre as massas que o seguiram para ouvir seus ensinos e presenciar seus milagres. O discípulo tinha com Jesus uma relação de compromisso pessoal que exigia renúncia absoluta a tudo e a todos, inclusive sua própria vida (Lc 14.25-27).

2)        Cristãos – At 11.26 nos diz que foi em Antioquia que, pela primeira vez, os seguidores de Cristo foram chamados cristãos. O nome certamente teve logo rápida aceitação, pois vemos em At 26.28 que o rei Agripa disse a Paulo: “Por pouco me persuades a ser cristão”. A terceira passagem bíblica com tal referência é 1Pe 4.16, onde se estimula o crente a não se envergonhar se padece como cristão, para desta forma glorificar a Deus.

3)        Irmãos – O primeiro uso desta palavra em Atos é para designar os coparticipantes das promessas de Yahweh, prescindindo de sua aceitação pessoal e da fé cristã (At 1.16; 2.29, 37; 7.2; 13.15, 26, 38; 15.7, 13; 23.1, 6; 28.17). A partir de Atos 9.30 a palavra irmãos adquire outra concepção. Em At 9.30, indica os fiéis de Jerusalém. Em At 10.23 se aplica aos fiéis de Jope. Posteriormente, o termo designa com frequência a todos os cristãos de qualquer raça (At 11.1, 29; 15.23; 16.40; 17.10; 21.7; 28.14, 15; Rm 14.10, 15; 1Co 5.11; 6.5; 8.11, 13; 16.20, etc.).

4)        Santos – este é o termo frequentemente usado por Paulo na saudação em suas cartas (Rm 1.7; 1Co 1.7; 2Co 1.1; Ef 1.1; Fp 1.1; Cl 1.2; etc.), indicando que o cristão é alguém posto à parte, separado do mundo como possessão exclusiva de Deus, a quem todos consagraram suas vidas e assim viverem para ele.

5)        Filhos de Deus – O apóstolo João (1Jo 3.1) prorrompe em um grito de admiração: “Vede que grande amor nos tem concedido o Pai, a ponto de sermos chamados filhos de Deus; e, de fato, somos filhos de Deus. Por essa razão, o mundo não nos conhece, porquanto não o conheceu a ele mesmo. O termo grego usado é tekna (plural de teknon, que quer dizer criança, menino). Outras passagens bíblicas que indicam tal filiação são Rm 8.14-16; Gl 3.26; Fp 2.15.

6)        Servos de Deus – Tal expressão usada em 1Pe 2.16 (cf. Ap 22.3) nos recorda duas coisas: 1) que a liberdade de filhos de Deus é compatível com o serviço a Deus. A obrigação que nos impõe a lei de Cristo (1Co 9.21) é mais bem uma norma sábia que orienta ao amor; 2) que, ainda que a diakonia haja passado a ser a expressão técnica de um ministério específico, todo membro da igreja é um diákonos, um servidor mediante o uso do carisma peculiar que recebeu do Espírito Santo.

 

5. Os atributos da igreja

5.1. Unidade (Ef. 4:4-6)

Paulo aponta três princípios que definem a unidade da igreja:

1)      A unicidade de Deus – "um só Espírito, um só Senhor, um só Deus e Pai de todos" são as pessoas da Trindade que coexistem simultaneamente no único Deus (1Tm. 2:5; Rm. 3:30).

2)      A unicidade da crença – "uma só fé" como dom do único Deus para a salvação de todos os que creem (Ef. 2:8-9). A meta de nosso crescimento espiritual e de nossa maturidade a alcançarmos é o ponto final de um processo de maturação que durará “até que todos cheguemos à unidade da fé” (Ef 4.13).

3)      A unicidade da missão – "também fostes chamados numa só esperança da vossa vocação" (Ef. 4:4). A missão é única e todos fazem parte dela.

 

A unidade da igreja é de caráter meramente interno e espiritual; é a unidade orgânica do corpo de Cristo, do qual todos os crentes são membros. Este corpo, embora tenha muitos membros, tem uma só cabeça, Jesus Cristo, seu fundador. A concepção de unidade envolve também dois elementos fundamentais: a uniformidade do caráter cristão definida pela Imago Dei restaurada no “novo homem” (2Co 3.18) e a integralidade dos que formam a “geração eleita”, a “nação santa”, ou ainda, “o povo de propriedade exclusiva de Deus” (1Pe 2.9).

Em Cristo, estão desfeitas as distinções, uma vez que todos os que foram batizados em Cristo foram revestidos de Cristo (Gl 3.27) e, “Dessarte, não pode haver judeu nem grego; nem escravo nem liberto; nem homem nem mulher; porque todos vós sois um em Cristo Jesus” (Gálatas 3:28). Charles Van Engen afirma que “o conceito de unidade não significa juntar indivíduos ou denominações como pedaços de um quebra-cabeça, para formar um todo maior. A concepção de Paulo é que o todo define a identidade das partes, sendo mais que a soma delas”. [4]

 

5.2. Santidade (1Co 1:2)

A santidade da igreja deriva da santidade de Deus (1Pe 1.14-15). A igreja é a comunidade dos santificados, que foram chamados para ser santos (1Co 1.2). Ela é separada do mundo, isto é, “das contaminações do mundo” (2Pe 2.20), e não das pessoas do mundo (1Co 5.9-10).

O povo de Deus é "nação santa" (1Pe. 2:9), formada pelos filhos de Deus que devem andar na luz como filhos da luz (Ef 5:8). A santidade da igreja caracteriza-se por ela ser o "templo do Espírito Santo" ou "santuário de Deus" (1Co 3:16-17; 6:19). Tal santidade se caracteriza também por uma plena alienação do mal que marca o caráter de Deus, que é luz e nele não há treva nenhuma (1Jo. 1:5).

A igreja é chamada a manifestar sua santidade nos relacionamentos pessoais dos crentes, que são luz, com o mundo que está em trevas; e nas relações domésticas entre marido e mulher, entre pais e filhos e entre servos e senhores (Ef. 5:3-6:9). Desta forma, a vida santificada dos regenerados influencia a vida no mundo, favorecendo a uma mudança cultural. “Na coletividade, o conjunto de indivíduos transformados faz nascer uma cultura transformada”, declara Van Engen. [5] Paulo apela para o reconhecimento de que o exercício da santidade cristã nas relações cotidianas manifesta a santidade da igreja (Ef 5.6-6.20).

A santidade da igreja na sociedade é a razão dos cristãos lutarem não “contra o sangue e a carne e sim contra os principados e potestades, contra os dominadores deste mundo tenebroso, contra as forças espirituais do mal, nas regiões celestes” (Ef 6.12). Em meio à perversão individual e coletiva alimentada pelos sistemas e estruturas sociais, “a igreja jamais deve pensar que a força política e econômica possa substituir a força da santidade no Senhor”. [6]

 

5.3. Catolicidade (Hb 12:22-23)

Embora o sentido de igreja local implique em uma multiplicidade e diversidade de congregações e, apesar do pluralismo denominacional fazer distinções doutrinárias, litúrgicas e éticas, a unidade da igreja como corpo redunda em sua universalidade. Isto significa que a soma de todas as congregações e de todos os legítimos cristãos formam uma só igreja, uma só "universal assembleia" de todos os súditos do reino celeste (Hb 12:22-23). Segundo a Epístola aos Efésios, a catolicidade da igreja é definida por alguns princípios que não só identificam o caráter da igreja como também definem o seu papel no mundo.

1)        Na plenitude dos tempos toda a criação redimida deverá convergir a Cristo como centro do universo (Ef 1:10).

2)        A igreja, como corpo místico de Cristo, “é a plenitude daquele que a tudo enche em todas as coisas” (Ef 1.23)

3)        Em uma só igreja estão inseridos todos os remidos dentre os judeus e gentios, isto é, remidos dentre toda a humanidade (Ef 2:11-18).

4)        A universalidade do evangelho, fundamentada numa oferta universal de salvação, estabelece o caráter universal da igreja (Ef 3:3-6; cf. Tt 2:11; Mt 28:19; Mc 16:15).

 

5.4. Apostolicidade (1Pe. 2:9)

A igreja é o povo eleito de Deus; e tal eleição implica em vocação, responsabilidade e mandato missionário (1Pe. 2:9). Desta forma, a igreja é a única agência promotora e executora da Missio Dei. A igreja é o povo eleito e vocacionado por Deus para uma missão no mundo (Jo 17.18; 20.21). Não existe igreja sem missão nem missão sem igreja e nisto consiste o princípio de sua apostolicidade. As bases do apostolado da igreja são:

1)      Jesus, o fundador legítimo da igreja, foi o Enviado do Pai que comissionou os seus discípulos como apóstolos (Jo 17.18; 20.21).

2)      A igreja nasceu e se edificou sobre o fundamento dos apóstolos (Ef. 2:20).

3)      A Grande Comissão define não só a missão como também o mandato apostólico da igreja (Mt 28:18-20).

 

5.5. Implicações teológicas

Com respeito à concepção teológica de igreja, Erickson enumera as seguintes implicações teológicas:

1)      “A igreja não deve ser concebida primeiramente como um fenômeno sociológico, mas como uma instituição estabelecida por Deus. Por conseguinte, sua essência deve ser determinada não por uma análise de suas atividades, mas pelas Escrituras”.

2)      “A igreja existe por causa de seu relacionamento com o Deus Triúno. Ela existe para cumprir a vontade do Senhor no poder do Espírito Santo”.

3)      “A igreja é a continuação da presença e do ministério do Senhor no mundo”.

4)      “A igreja deve ser uma comunhão de crentes regenerados que demonstram as qualidades espirituais de seu Senhor. A pureza e a devoção devem receber destaque”.

5)      “Embora seja uma criação divina, a igreja é composta de seres humanos imperfeitos. Ela não alcançará perfeita santificação ou glorificação até o retorno do seu Senhor”.[7]

 

6. Os ministérios da igreja

O exercício dos ministérios eclesiásticos exige governo; por outro lado, o governo na igreja se realiza por meio de ministérios específicos. O poder eclesiástico, segundo Wayne Grudem, consiste “na autoridade dada por Deus para levar a efeito a batalha espiritual, proclamar o evangelho e exercer a disciplina da igreja”.[8] Berkhof, embora não apresente um conceito teológico, descreve o poder da igreja em relação à sua fonte e sua natureza. Em sua concepção, o poder emana diretamente de Jesus Cristo como Cabeça da Igreja, “não apenas no sentido orgânico, mas também no sentido administrativo, isto é, Ele é não somente Cabeça do corpo, mas também Rei da comunidade espiritual”.[9] Em seu lugar, seus ministros exercem autoridade em seu nome.

Os ministérios são exercidos por ministros designados pelo Espírito Santo (1Co 12.1-11). A função que exerce o ministro é seu ministério. No Império Romano, enquanto os magistrados estavam encarregados de administrar a justiça, os ministros estavam a serviço dos magistrados para a execução de suas ordens, fazendo cumprir o que por eles fora determinado.

No Antigo Testamento, o termo hebraico mesharet designa os que prestavam serviço no templo. Os tradutores da Septuaginta usaram o termo grego leiturgós (do qual deriva liturgia) que significa alguém que está a cargo de um serviço público. Portanto, ministério é ofício e ministro é oficial em serviço sob as ordens de um superior.

O Novo Testamento usa três expressões para identificar os ministros da igreja: 1) o termo diákonos = servidor, servente, encarregado de um ofício dentro da igreja (Fp 1.1); 2) o vocábulo hyperétes (termo usado para designar os remadores das galeras romanas subordinados ao comandante da nave) usado por Paulo em At 26.16 e 1Co 4.1 para identificar-se como “criado de Cristo”; 3) o termo leiturgós, para expressar o caráter sacro do ministério como serviço à igreja e culto ao Senhor (Rm 13.6; 16.16, 27; Fp 2.25; Hb 1.14; 8.2).

O termo grego epíscopos, composto de epi (sobre, em cima de) + scopos (observador, guarda, sentinela) foi usado para designar os presbíteros (anciãos) responsáveis pelo pastoreio e supervisão geral da igreja (At 20.28). É tarefa fundamental dos epíscopos apascentar o rebanho (guiar, alimentar, vigiar, proteger e curar). Efetivamente, o Novo Testamento reserva exclusivamente a Cristo os vocábulos técnicos archiereús = sumo sacerdote e hiereús = sacerdote; enquanto que os seus ministros são designados pelos termos: epíscopos = supervisor; presbyteros = ancião; poimén = pastor; diákonos = servidor; e proestôn = presidente.

 

7. A edificação da igreja através de ministérios especiais

Em Efésios 4.11-12, o apóstolo Paulo declara que Cristo “E ele mesmo concedeu uns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas e outros para pastores e mestres, com vistas ao aperfeiçoamento dos santos para o desempenho do seu serviço, para a edificação do corpo de Cristo”. Em suma, Cristo estabeleceu alguns ministérios específicos aos quais designou pessoas específicas para habilitar os santos para o serviço a Deus, visando obter como resultado a edificação completa da igreja. Quatro tipos de ministérios são mencionados por Paulo: apóstolos, profetas, evangelistas, pastores e mestres.

 

7.1. Apóstolos

O nome apóstolo designa primeiramente qualquer dos doze, que foram testemunhas da vida, ministério, morte e ressurreição de Cristo (At 1.21-22). O colegiado apostólico dos doze na igreja primitiva era o mais alto escalão da autoridade eclesiástica. O ministério dos doze não seria repetido, isto é, eles não haveriam de deixar sucessores. A sucessão de Judas Iscariotes ocorreu antes do Pentecostes. Após o Pentecostes ninguém mais é substituído. Exemplo disto é Tiago que não teve substituto após sua morte por Herodes (At 12.2). Os critérios para o exercício do apostolado, de acordo com At 1.21-22, eram três:

1)      Que fosse varão (andrôn) – “dos homens que nos acompanharam todo o tempo” (v. 21). A mulher judia estava excluída dos tribunais e não podiam exercer qualquer função que designasse autoridade de homem (cf. 1Tm 2.12). Assim se explica que, mesmo tendo sido as mulheres as primeiras testemunhas da ressurreição de Jesus, nenhuma foi escolhida para suceder Judas ou Tiago.

2)      Que houvesse acompanhado a Jesus desde o batismo de João até o dia de sua ascensão (v. 22).

3)      Que fosse testemunha da ressurreição – qualificação especial para a proclamação da mensagem (kérygma) centrada na pessoa e obra de Cristo.

 

Em segundo lugar, apóstolo significa simplesmente enviado, comissionado, mensageiro. Paulo vê o apostolado como vocação para a missão de plantar igrejas. Portanto, em sentido mais amplo, qualquer missionário é apóstolo. A figura de um apóstolo na igreja primitiva é a de um mensageiro itinerante, cuja mensagem era ratificada por meio de “sinais e maravilhas” (cf. 2Co 12.12). Exemplo claro disso, é Filipe, diácono da igreja de Jerusalém enviado como apóstolo a Samaria (At 8.5-7).

 

7.2. Profetas

Em grego, o termo usado para designar um profeta é profétes que, literalmente, significa porta-voz de outro; no caso presente, porta-voz de Deus mediante uma peculiar inspiração. A diferença entre os apóstolos e os profetas do Novo Testamento está no fato de que a inspiração destes era ocasional e, por isso, sua autoridade como mestres estava subordinada à dos apóstolos.

O ministério profético exercido pela igreja consiste na proclamação da revelação de Deus ao mundo. Tal ministério tem início no evento histórico do derramamento do Espírito Santo, no dia de Pentecostes. A interpretação que Pedro deu daquele evento estava fundamentada na profecia de Joel. A partir daquele momento, todos na igreja, ungidos com o Espírito Santo, estavam designados como profetas do Senhor, sem distinção de pessoas. De acordo com Atos 2.14-18, a missão profética da igreja haveria de ser realizada por pessoas de todas as idades sem distinção de sexo ou classe social.

O versículo 17 declara: “vossos filhos e vossas filhas profetizarão, vossos jovens terão visões, e sonharão vossos velhos; até sobre os meus servos e sobre as minhas servas derramarei do meu Espírito naqueles dias, e profetizarão”. Isto significa que na igreja todos os crentes foram designados como mensageiros de Deus no mundo, tanto jovens como velhos, homens e mulheres e pessoas de todas as classes sociais, inclusive os escravos. Todos eles profetizarão. Não se trata aqui do dom da profecia exercido no culto como dom concedido pelo Espírito de Deus a alguns, mas da ministração da Palavra de Deus aos pecadores inconversos.

O propósito deste ministério é restabelecer a paz entre o mundo e Deus, como diz Paulo em 2Co 5.17-20: “E, assim, se alguém está em Cristo, é nova criatura; as coisas antigas já passaram; eis que se fizeram novas. Ora, tudo provém de Deus, que nos reconciliou consigo mesmo por meio de Cristo e nos deu o ministério da reconciliação, a saber, que Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, não imputando aos homens as suas transgressões, e nos confiou a palavra da reconciliação. De sorte que somos embaixadores em nome de Cristo, como se Deus exortasse por nosso intermédio”.

Desta forma, a voz de Deus deve ser ouvida no mundo por meio da igreja como detentora dos oráculos divinos e dos mistérios do reino dos céus. Deus fala ao mundo através da igreja, que se apresenta como embaixada de Cristo na terra.

 

7.3. Evangelistas

Esta palavra “evangelista” significa anunciador de boas novas. São pois os proclamadores da mensagem de salvação, o verdadeiro kerygma. Desta forma, todo apóstolo é evangelista, mas nem todo evangelista é apóstolo. Os evangelistas parecem ser pessoas comuns dentre o rebanho que testemunham de Jesus sem, contudo, exercer cargo de liderança ou governo na igreja.

Talvez tenha sido por isso que os apóstolos Pedro e João foram a Samaria confirmar o ministério de Filipe, intitulado em At 21.8 de evangelista, o qual era também um simples diácono da mesma igreja que ao se dispersar por causa da perseguição, proclamava a palavra a todos os que encontravam pelo caminho (At 8.4-17).

 

7.4. Pastores e mestres

Calvino interpretou estes termos como sendo diferentes funções para pessoas diferentes. Mas biblicamente, não há razões para que se reconheça a exclusividade da função pastoral isoladamente, isto é, separada da exortação e do ensino das Escrituras. Paulo exorta a Timóteo, um dos aspirantes ao episcopado, a não só fazer o trabalho de evangelista e cumprir cabalmente o seu ministério (2Tm 4.5), mas também a dedicar-se à leitura, à exortação e ao ensino (1Tm 4.13). É critério para a eleição de bispos (epíscopos) o ser “apto para ensinar” (1Tm 3.2; Tt 1.9). Assim sendo, todo pastor é mestre, embora a recíproca não seja verdadeira.

Por outro lado, com base em Romanos 12.7, o ensino não é prerrogativa exclusiva do ministério pastoral. Isto significa que nem todos os que ensinam (didaskalos) são pastores (poimén). Exemplo disso, pode ser visto em At 13.1 com respeito à igreja de Antioquia, onde havia pessoas que, segundo parece, exerciam a atividade profética distinta da atividade docente. Em 1Co 12.28, Paulo, usando a expressão “primeiramente, apóstolos; em segundo lugar, profetas; em terceiro lugar, mestres; depois, operadores de milagres; depois, dons de curar,...” faz explícita distinção de pessoas e seus respectivos ministérios.

 

8. O governo na igreja

8.1. Noção de autoridade

Há, em grego, duas classes de autoridade: krátos (poder absoluto, majestade, soberania), próprio do kyrios, o Senhor; e a exousia (poder para governar, domínio, jurisdição) próprio do magistrado que exerce justiça para fazer cumprir a lei. O primeiro termo indica a soberania exercida por quem tem o poder absoluto (monarca); o segundo designa o poder delegado a alguém. De um modo geral, autoridade é o poder que cria e mantém a ordem.

Na igreja, a autoridade suprema (krátos) reside em uma única pessoa: Deus. No que se refere ao governo eclesiástico, há três autoridades na igreja: a Palavra de Deus, como única norma impecável; o Filho de Deus, Jesus Cristo, como único Senhor de tudo e de todos; e o Espírito de Deus, como único princípio vital, o verdadeiro Vigário de Cristo na terra. Aqueles a quem o Espírito Santo separou e habilitou com dons para a liderança da igreja são ministros a serviço de Cristo que, em seu nome e com a autoridade que lhe foi delegada (comissionados) cumprem e fazem cumprir a vontade soberana de Deus.

 

 

8.2. O ofício de governar

Em sua Primeira Epístola a 1Timóteo 5.17, o apóstolo Paulo diz: “Devem ser considerados merecedores de dobrados honorários os presbíteros que presidem bem, com especialidade os que se afadigam na palavra e no ensino”. O termo grego aqui usado para designar a tarefa de presidir exercida na igreja pelos presbíteros é proistemi, que indica a função de presidir, superintender, exercer chefia. Este termo era usado na Antiga Grécia para designar os prefeitos e presidentes ou chefes de partido ou de grupo.

O fato de que o único Chefe e Governador da igreja, com autoridade própria e domínio sobre as comunidades locais, seja Jesus Cristo, não é obstáculo para que haja nas igrejas o ofício de governo exercido pelos líderes da comunidade local. De acordo com 1Co 12.28, o Espírito concede a alguns crentes o dom de governar.

Na igreja, a autoridade para governar está concedida diretamente aos pastores a quem o rebanho deve prestar obediência e submissão. “Obedecei aos vossos guias e sede submissos para com eles; pois velam por vossa alma, como quem deve prestar contas, para que façam isto com alegria e não gemendo; porque isto não aproveita a vós outros" (Hb 13.17).

 

8.3. O exercício do poder eclesiástico

O exercício do poder através da igreja ocorre no aspecto espiritual e na instância do sobrenatural. Em nome de Jesus, a igreja usa da autoridade que lhe foi outorgada para derrotar as forças demoníacas que a ela se opõem (Ef 6.10-12); para proclamar o evangelho como manifestação do “poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê” (Rm 1.16) cujo resultado é a conversão do pecador “das trevas para a luz e da potestade de Satanás para Deus” (At 26.18). A igreja detém o poder divino também para derrotar a oposição não só contra os de fora da igreja (At 13.8-11) como também os de dentro, que se manifestam como opositores ativos do ministério apostólico (1Co 4.18-21; 2Co13.1-3, 10).

Por outro lado, a autoridade para o governo e exercício da disciplina, simbolizada pelas “chaves do reino dos céus” (Mt 16.19; 18.18), é o meio pelo qual a igreja cumpre na terra as determinações procedentes da soberania divina. Como agência do reino dos céus, a igreja impõe-se contra as forças do pecado para disciplinar e livrar da disciplina. “Ligar” e “desligar”, em Mt 16.19 e 18.18, significam respectivamente o ato de restringir a conduta, impondo uma pena disciplinar (ligar), e liberar da punição imposta (desligar). A disciplina é aplicada em situações e relacionamentos (cf. Mt 18.15-20).

 

1)      A necessidade da disciplina

Disciplina é o meio pelo qual se busca o ajuste do caráter e do comportamento humano ao padrão estabelecido por meio de normas e preceitos. Segundo o texto de Hebreus 12.4-17, a disciplina é tanto um ato como uma exigência de Deus. Por meio dela, cada discípulo de Jesus aprende a viver de acordo com o padrão de conduta definido pelas Escrituras. Há, pelo menos, quatro razões pelas quais a disciplina é necessária: (a) para corrigir as distorções de conduta; (b) para aperfeiçoamento do caráter; (c) para o ajustamento da relação com o próximo e com Deus; (d) para restaurar o crente que cai em pecado.

 

2)      O propósito da disciplina

A aplicação da disciplina, em toda e qualquer circunstância, procura levar a efeito a lei de Cristo concernente a admissão e exclusão de membros. Tem como objetivo central promover a edificação espiritual dos membros da igreja, assegurando a sua obediência às leis de Cristo e, acima de tudo, a manutenção da santidade da igreja. A aplicação da disciplina também visa: a) manter a ordem e o respeito na igreja (2Ts 3.6; Rm 16.17); b) restaurar a comunhão e a paz entre irmãos dissidentes (Mt 18.15-19); c) dissuadir outras pessoas de seguirem o exemplo dos que vivem em pecado (1Tm 5.20); d) preservar a integridade e a pureza da igreja (1Co 5.6-11);

 

8.4. Os modelos de disciplina

1)      A disciplina preventiva

No exercício da disciplina, medidas preventivas são adotadas, visando eliminar por antecipação as possíveis causas de queda no pecado. Tais medidas são: a admoestação que consiste na advertência quanto ao perigo e as consequências de cair em pecado. (1Tm 1.18-20; 2Tm 2.16-18; Tt 1.10-14; Hb 3.12-19.); e exortação, que é a palavra de encorajamento, de incentivo, que estimula a prática dos bons costumes (Rm 12.16-21; Ef 4.25-32; Cl 3.5-9; 1Ts 5.12-15).

 

 

 

2)      A disciplina corretiva

Esta é a disciplina terapêutica (Gl 6.1), cujo propósito visa corrigir as distorções do comportamento e os desvios do caráter. Normalmente, os procedimentos adotados são a repreensão e a punição. A primeira visa convencer o irmão infrator da culpa e da gravidade da falta cometida. Exemplos: Mt 18.15-17; Gl 2.11-14; 1Tm 5.20. A segunda implica em submeter o infrator a uma pena imposta por deliberação da igreja (2Co 2.5-6; 1Co 6.4-5). O apóstolo Paulo recomenda privar o infrator de manter contato com os demais crentes (2Ts 3.14-15).

 

3)      A excomunhão

A excomunhão ocorre em situações extremas que se caracterizam por situações reconhecidas como intoleráveis para o padrão ético da igreja. As situações mais frequentes ocorrem quando:

a)       o amor cristão for violado por um irmão dissidente que recusa a retratar-se (Mt 18.15-18);

b)      quando a unidade da igreja for violada por causadores de facção e semeadores de contenda (Rm 16.17-18; Tt 3.10-11);

c)       quando a santidade da igreja for maculada por causadores de escândalos (1Co 5.1-5, 9-11; 2Co 6.3; Rm 16.17);

d)      quando a doutrina da igreja for violada por quem semeia heresias e perverte a fé (1Tm 1.18-20; 2Tm 2.16-18;2Pe 3.15-17).

 

8.5. Formas de governo da igreja

A grande questão relacionada à forma de governo da igreja deve julgar se ela é compatível com as Escrituras ou não. “Uma forma ideal de governo eclesiástico obedecerá aos princípios bíblicos de ordem e de sacerdócio de todos os crentes”, diz Erickson.[10] Dentre os modelos eclesiásticos de governo, três são os principais, mesmo havendo em cada um algumas variações: episcopal, presbiteriano e congregacional.

 

1)      Episcopal

Na forma episcopal de governo, a autoridade reside no bispo, em seus diversos níveis de episcopado. A forma mais simples é encontrada na Igreja Metodista que estabelece apenas um nível de bispos. Nas demais igrejas, como Católica Romana e a Anglicana, o episcopado é hierárquico e mais complexo.

No sistema episcopal, há diversos níveis de ministério ou diferentes graus de ordenação. O primeiro é o do ministro ou sacerdote comum. Este se subdivide em diáconos e presbíteros (no catolicismo, a função de presbítero é exercida pelo pároco, ou vigário paroquial). Estes estão sob a regência de um bispo regional o qual é investido do poder de Deus (teocracia centralizada no bispo). Como representantes de Deus, governam um grupo de igrejas locais (diocese) e ordenam os ministros ou sacerdotes locais. Na escala de ascendência, a Igreja Romana conta com os arcebispos (governantes das arquidioceses), os cardeais e, finalmente, o papa, o qual acumula a função de bispo de Roma.

 

2)      Presbiteriano

O sistema presbiteriano é menos centralizador que o episcopal. Nele a autoridade é exercida pelo oficial principal, o presbítero (posição que remonta à sinagoga judaica). No Novo Testamento, os presbíteros eram ministros eleitos pela igreja local para o ministério pastoral e o governo da igreja (At 14.23; 20.28). Neste sistema, entende-se que a autoridade de Cristo é delegada aos presbíteros eleitos, aos quais os demais crentes se submetem. Por meio deles é que a autoridade divina é de fato exercida na igreja.

A autoridade eclesiástica é exercida numa série de concílios. O Conselho (ou consistório) é o grupo responsável pelas decisões, no âmbito da igreja local. As igrejas locais são, por sua vez, administradas pelo Presbitério (igual número de presbíteros leigos e clérigos). No nível mais alto, a igreja Presbiteriana possui uma assembleia geral, o Supremo Concílio, que também se constitui de leigos e clérigos eleitos dentre os presbíteros. A constituição da denominação define as prerrogativas de cada um desses concílios. No sistema presbiteriano, o presbítero docente ou regente é o pastor local. Não existem níveis mais altos, como o de bispo.

 

3)      Congregacional

No sistema congregacional, a igreja é o centro da autoridade, que é exercida seguindo dois princípios: a autonomia e a democracia. Pelo princípio da autonomia, a igreja local é livre e independente, não estando subordinada a nenhuma instituição ou outra igreja. Por ser democrática, cada indivíduo tem direito à voz em todos assuntos tratados em assembleia geral dos membros, reconhecida como seu poder máximo.

No sistema congregacional, cada igreja local escolhe seu próprio ministro a quem delega a responsabilidade do ofício pastoral, mas sem nenhum poder decisório. Outras pessoas, dentre os leigos, são eleitas para cargos de cunho administrativo, de acordo com a estrutura local definida pela assembleia dos membros. Embora não tenha mandato determinado, o ministro, a critério da igreja, pode ser substituído a qualquer tempo.

 

8.6. Os oficiais do ministério e do governo eclesiástico

O Novo Testamento estabelece que, em cada igreja local, um grupo de presbíteros formava a liderança maior. Um colegiado pastoral, composto por presbíteros, era eleito por cada igreja (At 14.23; Tt 1.5). Não há nenhuma evidência no Novo Testamento de que alguma igreja, por menor que fosse, estivesse sob o comando de um único presbítero. O único exemplo de que uma igreja esteve sob a direção ou influência maior de uma só pessoa é o exemplo negativo de Diótrefes (3Jo 9-10), mas, mesmo assim, não está claro que, em sua igreja ele fosse o único presbítero. A pluralidade de presbíteros era padrão para todas as igrejas neotestamentárias.

Os presbíteros são também chamados “bispos” e sua função principal é “pastorear a igreja de Deus” (At 20.28; 1Pe 5.2). A ação pastoral está diretamente relacionada com o ensino da Palavra de Deus (1Tm 3.2; 5.17). Além do ensino, os bispos (ou presbíteros) estavam encarregados da ministração aos enfermos (Tg 5.14); do governo do rebanho (1Tm 3.4-5; Hb 13.17) e da ordenação de ministros eleitos pela igreja (1Tm 4.14). A partir de 1Tm 5.17, é possível deduzir é que o presbitério, em cada igreja, era presidido temporariamente por um dos bispos locais. Os ministros auxiliares são os diáconos. As referências aos diáconos são poucas, as principais são: Fp 1.1 e 1Tm 3.8-13. Desta última, a respeito dos diáconos, Wayne Grudem propõe o seguinte:

 

Parecem ter tido alguma responsabilidade no cuidado com as finanças da igreja, já que tinham de ser ‘não cobiçosos de sórdida ganância’ (v. 8). Talvez tivessem alguma função administrativa em outras atividades da igreja também, porque deviam governar bem seus filhos e sua própria casa (v. 12). Podem ter também atendido às necessidades físicas dos que eram da igreja ou da comunidade que necessitava de ajuda [...] Além disso, o versículo 11 fala de suas esposas (e creio que fala), é provável que também estivessem envolvidos em algum tipo de visitação de porta em porta e em aconselhamento, pois as esposas não devem ser ‘maldizentes’.[11]

 

8.7. O poder da igreja e do Estado

Tanto a igreja como o Estado são instâncias da autoridade divina. “O Estado representa o governo de Deus sobre a condição externa e temporal do homem, ao passo que a igreja representa o seu governo sobre a condição interna e espiritual do homem”, declara Berkhof.[12] O Estado assegura a posse e o gozo dos direitos civis; a igreja exerce o poder em oposição às forças do mal com o propósito de livrar o homem da escravidão espiritual, submetendo-o aos preceitos divinos.

No exercício da autoridade, as armas da igreja são diferentes das armas do Estado. Este faz uso da espada para agir como representante de Deus para “castigar o que pratica o mal” (Rm 13.4). A igreja usa armas que “não são carnais” (2Co 10.4), também denominadas por Paulo como “armadura de Deus” (Ef 6.10-12). As armas da igreja são espirituais e destinam-se às batalhas “contra os principados e potestades, contra os dominadores deste mundo tenebroso, contra as formas espirituais no mal”. Isto significa que a ação beligerante da igreja não está direcionada a pessoas ou instituições humanas. Somente ao Estado foi outorgado o direito de usar a força; à igreja, jamais (Mt 26.51-53).

 

9. O batismo cristão

9.1. O selo do arrependimento

O batismo é uma ordenança de obrigação perpétua que se fundamenta principalmente no fato de Cristo ter se submetido ao batismo para que desse cumprimento a toda a justiça (Mt 3.13-15). O verbo grego usado em Mateus e traduzido como cumprir é (plhrow) que significa literalmente encher a ponto de transbordar, dar plenitude ou acabamento, cumprir (no sentido de satisfazer por completo).

Segundo os profetas veterotestamentários, especialmente Daniel 9.24, o propósito divino com respeito a Israel teria cumprimento em um tempo específico quando Deus haveria de “dar fim aos pecados, expiar a iniquidade” e, acima de tudo, “trazer a justiça eterna” por meio do Messias. Jesus veio para satisfazer plenamente, encher por completo a medida da justiça de Deus.

A obra messiânica de Jesus teria de ir além da experiência do pecado. Cristo veio implantar o reino messiânico no mundo, um reino que traria justiça e paz sem fim (Is 9.7). O regime da lei chegara ao fim para dar lugar à nova ordem do reino escatológico divino. Todos são chamados ao arrependimento, sujeitando-se à vontade soberana de Deus, e o batismo era o selo da regeneração. O batizado é um pecador justificado, pois toda pendência para com a lei de Deus está quitada pelo perdão mediante o arrependimento e a fé em Jesus, confirmados no batismo.

Por que Jesus se submeteu ao batismo, uma vez que ele não tinha pecado? Embora não seja dito explicitamente pelas Escrituras, estas subentendem que a obra expiatória de Cristo é um sacrifício de substituição pelo qual a vítima sem mácula oferecida no atar era o meio de propiciação pelos pecados para o resgate da vida do pecador.

Embora Jesus não fosse pecador, ele veio para substituí-lo e representá-lo perante Deus, cumprindo toda a lei e submetendo-se completa e totalmente à vontade soberana de Deus. Somente desta forma o homem, por meio de Jesus, é realmente recebido como justo por Deus. O batismo é o pacto da obediência a Deus que somente os pecadores arrependidos podem firmar.

 

9.2. Símbolo da morte e ressurreição do pecador

A obra da expiação do pecado realizada por Cristo foi um sacrifício vicário. Portanto, todo pecador arrependido que nele crê está justificado, isto é, não pesa mais sobre ele as razões para que seja condenado à morte, pois seus pecados foram perdoados e Deus, por sua graça, lhe concedeu o dom da vida eterna. Assim sendo, todo verdadeiro cristão é um regenerado que, depois de morto pelo pecado, foi ressuscitado, passando da morte para a vida.

Em Cl 2.12, Paulo assegura que os santos “tendo sido sepultados, juntamente com ele (Cristo), n batismo” também foram igualmente “ressuscitados mediante a fé no poder de Deus que o ressuscitou dentre os mortos”. Tal ressurreição tem natureza estritamente espiritual. Em Romanos 6.1-11, Paulo ensina que o batismo consiste no sepultamento de um pecador que ressuscita para uma nova vida, uma vida de santidade e obediência a Deus. Por esta razão, ele levanta a questão: “Como viveremos ainda no pecado, nós os que para ele morremos? Ou, porventura, ignorais que todos nós que fomos batizados em Cristo Jesus, fomos batizados na sua morte?” (vv. 2-3).

Ao ser batizado “em Cristo”, todo mortal arrependido tem sua sentença cumprida por Jesus; de modo que, em Cristo, os santos, por meio do batismo, foram sepultados. Mas como a morte já não tem poder sobre ele, uma vez que “quem morreu está justificado do pecado” (v. 7), nem pode mantê-lo sob seu domínio, o pecador justificado pela fé em Jesus ressuscita espiritualmente para viver para Deus (vv. 10-11), para andar em novidade de vida (cf. vv. 4-5).

 

10. A ceia do Senhor

10.1. Um rito de celebração

A ceia do Senhor é um rito praticado pela igreja em memória da morte de Cristo. Na instituição da Ceia por meio de Cristo, a nova aliança foi selada pelo sacrifício de sua vida que estava na iminência de ser realizado. De acordo com 1Coríntios 11.23-26, o rito é simbólico e representa três fatos fundamentais que envolvem a relação entre Deus e a igreja: (1) Uma aliança eterna foi firmada entre Deus e a igreja, tendo Cristo como mediador; (2) O sangue de Jesus derramado para expiação dos nossos pecados é o preço do resgate de nossas vidas pago a Deus Pai; (3) O Senhor está vivo, ressuscitado dentre os mortos, e um dia vai voltar para consumar o eterno desígnio de Deus.

 

10.2. Um rito de comunhão

A mesa, na cultura hebraica, era o lugar de comunhão do povo de Deus durante as refeições comunitárias realizadas após o sacrifício de animais oferecidos em “ofertas pacíficas” (Lv 3.1-17; 1Sm 9.12-13; 16.3-5). A vítima do sacrifício era consumida numa refeição de comunhão sob a bênção de Deus. O Salmo 23 expressa a declaração de Davi que somente Deus poderia propiciar-lhe a oportunidade de sentar-se à mesa com os seus adversários onde o seu cálice de comunhão transbordava (v. 5).

A ceia do Senhor é o rito que celebra a paz entre Deus e o homem. A mesa da cerimônia pascal foi o lugar onde Deus, por meio de seu Filho, celebrou com os homens uma aliança de paz selada com o sangue precioso de Jesus para remissão de pecados por meio dos quais os homens haviam se tornado inimigos de Deus. O “cálice da aliança” é o cálice da reconciliação, por meio do qual é celebrada a comunhão restaurada entre o homem e Deus. Acusado pelos fariseus de sentar-se na mesa de publicanos e pecadores e comer e beber com eles, Jesus respondeu: “Os sãos não precisam de médico, e sim os doentes. Não vim chamar justos, mas pecadores ao arrependimento” (Lc 5.31-32). A mesa para Jesus era o lugar oportuno para reconciliar pecadores com Deus. Portanto, a ceia do Senhor é o lugar da comunhão dos crentes com Deus por meio de Jesus, o mediador da eterna aliança.


 

CAPÍTULO XIX

ESCATOLOGIA INDIVIDUAL

 

 

Introdução

Escatologia, termo derivado do grego (último, sentido de extremo), logosV (palavra, discurso), é a parte da teologia que expressa a doutrina dos fatos e fenômenos dos últimos dias da história da salvação. Os temas centrais de que trata a escatologia são: a morte, a ressurreição, o estado da alma entre a morte e a ressurreição, o reino escatológico messiânico, a segunda vinda de Cristo, o juízo final e o destino eterno da humanidade.

A escatologia é o desfecho da teologia cristã, em ambos os Testamentos do cânon bíblico. Ela exprime a resposta divina à esperança última do homem. Toda a mensagem da salvação declara o fim do mundo atual, onde reina o pecado e a morte, o início do século eterno, durante o qual a nova criação gozará da harmonia, da paz e da perfeita comunhão com Deus.

 

1. A morte física

Em sentido geral, morte significa a cessação de qualquer forma de vida. O vocábulo grego qanatoV (morte) significa, no sentido natural da existência, o fenômeno da separação da alma do corpo, pela qual cessa a vida no mundo atual. Este é o conceito de morte física.

No reino animal, a morte é o extermínio, o aniquilamento e o fim da existência dos seres desprovidos de alma ou espírito. Para os seres humanos, a experiência da morte tem outro significado. A morte não faz cessar a existência, ela consiste numa disjunção das relações naturais da vida. Ao sair o espírito (natureza imaterial) do corpo (natureza material), a vida prossegue seu curso por toda a eternidade; apenas ocorrem as mudanças de nível e forma de vida, em uma nova dimensão e novo ambiente de existência. O corpo perece, deixa de existir, morre. Morte é a desintegração do homem.

Tiago declara: “O corpo sem espírito está morto” (Tg 2.26). A vida do corpo cessa com a separação da alma (Gn 35.18). Pedro descreveu a morte física como o abandono do corpo que ele chama de “meu tabernáculo” (2Pe 1.14-15). Jesus, ao passar pela morte, orou: “Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito” (Lc 23.46).

 

1.1. O conceito de Jesus sobre a morte

Na concepção de Jesus, morte não é o fim, mas um estado da alma separada do corpo. Na ressurreição da filha de Jairo, declarou a respeito dela: “Ela não está morta, mas dorme” (Mc 5.39; Mt 9.24; Lc 8.52). A mesma ideia é revelada pela narrativa da morte de Lázaro: “Nosso amigo Lázaro adormeceu, mas vou para despertá-lo” (Jo 11.11; cf. 11.14).

O conceito que Jesus deu de morte nada tem a ver com a teoria do sono da alma. Para Jesus, na morte, a existência continua e a alma apenas muda de ambiente, permanecendo em estado de consciência. O estado de consciência da alma é descrito por Jesus na parábola do rico e Lázaro, em Lc 16.19-31, onde Abraão e o homem rico conversam sobre a situação e o destino dos mortos.

 

1.2. O conceito de Paulo sobre a morte

Paulo se valeu da mesma terminologia de Jesus para expressar seu conceito de morte. Em 1Ts 4.13, ele se refere aos mortos como “os que dormem” que haverão de ser trazidos por Jesus novamente à vida em um novo corpo durante a ressurreição, em sua segunda vinda (1Ts 4.14-15).

Conforme Paulo, o corpo está sujeito à morte, mas o espírito não o está (Rm 8.10). O tipo de corpo de nossa atual forma de existência não se adapta à habitação eterna devido à sua natureza mortal (1Co 15.50-53). Por isso, o corpo corruptível é provisório e ele o designa como “tabernáculo”, o qual haverá de ser desfeito e substituído por outro que ele chama de “habitação celestial” (2Co 5.1-4). Paulo entendia que, por ser resgatado por Jesus, morrer significa partir desta vida e estar com Cristo (Fp 1.21-23).

 

1.3. A natureza da morte

Em Mt 10.28, Jesus diz: “Não temais os que matam o corpo e não podem matar a alma; temei, antes, aquele que pode fazer perecer no inferno tanto a alma como o corpo”. A morte se manifesta sob três formas: morte física, morte espiritual e morte eterna. A morte espiritual consiste na separação entre a pessoa e Deus, que se caracteriza por uma degeneração (perda total da vitalidade) espiritual (Ef 2.1-2). A morte eterna consiste na consolidação do estado de separação entre a pessoa e Deus, definido por toda a eternidade. Designada como “segunda morte” em Ap 21.8, a morte eterna caracteriza-se por um estado de separação de Deus durante um período infinito de punição ininterrupto.

 

2. O estado intermediário

As Escrituras falam da sobrevivência da alma e da ressurreição dos mortos. A questão a ser tratada é a seguinte: Onde e como vivem as almas dos mortos? De acordo com Ec 12.7, quando o homem morre, o corpo volta à terra de onde se originou e o espírito retorna a Deus. Isto implica em dizer que os mortos são espíritos humanos desincorporados, mas não aniquilados (não exterminados), e que estão em algum lugar designado por Deus.

 

2.1. O estado dos justos

Onde estão os justos que morreram? Os santos que “dormem” estão com Cristo. Paulo assegura que, quando os santos morrem, o lugar para onde vão é o mesmo onde Jesus está (Fp 1.23). Estar ausente do corpo (morte) é estar presente com o Senhor (2Co 5.8). Jesus prometeu ao malfeitor arrependido: “Hoje estarás comigo no paraíso” (Lc 23.43). Em 1Ts 4.14, Paulo declarou que, por ocasião da segunda vinda de Cristo, Deus trará com ele aqueles que já dormiram. Estas passagens asseguram que os justos, na ocasião da morte, entram imediatamente na presença de Deus.

Em que estado se encontram os justos que morreram? Os justos desincorporados estão vivos e conscientes. O Novo Testamento apresenta várias passagens que nos ajudam a crer nisso. Referindo-se ao Pai, Jesus disse aos saduceus que “Ele não é Deus de mortos, e sim de vivos” (Mt 22.32). Diante do túmulo de Lázaro, referindo-se à ressurreição, Jesus declarou: “Quem crê em mim, ainda que morra viverá; e todo o que vive e crê em mim não morrerá, eternamente” (Jo 11.25-26). A morte física, para Jesus, não traz uma cessação de existência consciente. Não há aqui alguma indicação de um estado de inconsciência. Em Lc 16.22-23, Jesus descreveu Lázaro e Abraão como vivos e conscientes.

 

2.2. O estado dos ímpios

Os ímpios desincorporados estão separados de Deus. A parábola do rico e Lázaro descreve o rico removido para longe de Lázaro e de Abraão, estando separado deles por “um grande abismo” (Lc 16.26). De modo nenhum, isto afeta a onipresença de Deus. A ideia é de um estado em que as almas dos maus estão privadas da bênção e da comunhão com Deus.

Os ímpios, após a morte, continuam vivos e conscientes. Na parábola acima mencionada, o rico tinha consciência do local e da situação em que se encontrava. Os maus estão em castigo permanente desesperador. Em 2Pe 2.9, é dito que o Senhor sabe “reservar sob castigo, os ímpios para o dia o juízo”. Em 1Pe 3.19-20, há uma referência aos “espíritos em prisão” identificados como rebeldes. Isto significa que os injustos, após a morte, entram imediatamente num estado de castigo no qual permanecem até o dia do juízo.

O lugar onde os injustos se encontram é designado no Novo Testamento como hades. Este foi o termo grego usado pelos tradutores da Septuaginta para traduzirem o hebraico sheol (sepultura). Na tradição hebraica, os justos e injustos vão para o mesmo lugar, o sheol. Mas os escritores pagãos da antiguidade dividiam o hades em duas partes: elísio, a habitação dos justos, e tártaro, a habitação dos maus.

 

2.3. O lugar dos mortos – Sheol

Segundo Berkhof, os termos sheol (hebraico) e hades (grego) significam sempre a mesma coisa: o mundo inferior, estado dos mortos, sepultura ou inferno. Diferentes sentidos são atribuídos ao sheol-hades como segue:

1)      Os vocábulos sheol e hades nem sempre denotam uma localidade, mas simplesmente o estado de morte ou simplesmente o sepulcro. Assim sendo, todos os justos e os ímpios estão, sem distinção, no sheol-hades. Exemplo: 1Sm 2.6 – “O Senhor é o que tira a vida e a dá; faz descer à sepultura (sheol), e faz subir”. (cf. Jó 14.13-14; 17.13-14; Sl 89.48; Os 13.14. Algumas passagens do Novo Testamento descrevem o sheol-hades não como uma localidade, mas o personificam simbolicamente (Ap 6.8; 20.28).

2)      Quando sheol ou hades designam uma localidade, referem-se ao inferno ou à sepultura. As seguintes passagens expressam uma advertência e/ou ameaça de perigo e castigo para os ímpios (Sl 91.17; 49.14; 55.15; Pv 15.11; 15.24; Lc 16.23). Algumas referências bíblicas designam tais termos como a sepultura (Gn 37.25; 42.38; 44.29; 29.31; 1Rs 2.6, 9; Jó 14.13;

 

No Novo Testamento, o termo hades é usado para indicar:

1)      O lugar para onde os moradores de Cafarnaum seriam precipitados (Mt 11.23; Lc 10.15). O termo indica o lugar dos maus (Lc 16.23).

2)      O lugar do cativeiro dos mortos, cujas “portas” não “prevalecerão” contra a igreja de Cristo (Mt 16.18).

3)      Pedro interpretou o hades como a habitação temporária dos mortos de onde o salmista esperava que Deus o removesse (At 2.27). Com respeito a Jesus, Pedro diz que Deus não deixou a alma de seu Filho no hades nem permitiu que o corpo do seu Santo experimentasse corrupção (At 2.30).

4)      Em Ap 1.18, é dito que Jesus Cristo tem a chave da morte e do hades. O símbolo da chave sugere que Cristo controla o fluxo de entrada dos mortos destinados ao hades, de onde só sairão na ressurreição para o juízo final.

5)      Ap 20.13-14 declara que o hades devolverá os mortos que nele estiverem retidos para serem julgados e, após sua sentença, serem lançados no lago de fogo, o qual será o seu destino eterno.

 

3. A imortalidade da alma no Antigo Testamento

A doutrina da imortalidade da alma, no Antigo Testamento, fundamenta-se em:

1)      No poder soberano e criativo do único Deus que mata e faz viver (Dt 32.39) e que pôs a eternidade no coração do homem (Ec 3.11).

2)      Na crença hebraica da existência do Sheol para onde descem os mortos onde permanecem em estado consciente, embora não goze da bem-aventurança. O Antigo Testamento alimenta a esperança de uma vida após a morte (Sl 16.10; 49.14-15).

3)      Nas advertências e proibições contra a consulta aos mortos ou a espíritos familiares (Lv 19.31; 20.27; Dt 18.11; Is 8.19; 39.4).

4)      Nos ensinamentos sobre a ressurreição dos mortos (Jó 19.25-27; Sl 16.9-11; 17.15; 73.23-24, 26; Dn 12.2).

 

4. A imortalidade da alma no Novo Testamento

Louis Berkhof apresenta quatro concepções de imortalidade. A primeira diz respeito à imortalidade de Deus. Paulo fala, em 1Tm 6.15, a respeito de Deus como o único, Soberano, Rei dos reis e Senhor dos senhores; o único que possui imortalidade. Tal imortalidade é descrita como um atributo, “como uma qualidade original, eterna e necessária”, diz Berkhof. Deus é um ser livre de todas as limitações temporais.

A segunda concepção diz respeito a todos os espíritos, inclusive a alma humana, do que as Escrituras dão testemunho, confirmando o estado de sobrevivência consciente após a morte. A terceira ideia emprega imortalidade na linguagem teológica “para designar o estado do homem em que ele está inteiramente livre das sementes da decadência e da morte. Neste sentido da palavra, o homem era imortal antes da queda”.[13] Por fim, imortalidade, na linguagem da escatologia, designa o resultado da obra da redenção. Neste sentido, Adão não era imortal por natureza. A imortalidade do homem é uma conquista do Filho de Deus que morreu e ressuscitou dentre os mortos. Foi Jesus quem “trouxe à luz a vida e a imortalidade” (2Tm 1.10).

 

4. A ressurreição dos mortos

O Novo Testamento nos aponta duas ressurreições como resultado de nossa redenção por meio da fé em Cristo. Ambas são decorrentes de nossa libertação do poder do pecado e da morte. Uma vez que o pecado fez o homem morrer espiritualmente e fisicamente, a redenção pela fé em Jesus produz a ressurreição espiritual e a ressurreição física.

O termo grego empregado no Novo Testamento que designa a ideia de ressurreição é anastasiv que provém do verbo isthmi que significa fazer ficar de pé mais a preposição ana que significa para o meio de, em meio a, no meio de. Assim sendo, ressurreição corporal é o fenômeno inverso da morte, isto é, consiste literalmente no soerguimento do corpo dentre os mortos.

 

 

 

 

4.1. Concepção joanina de ressurreição (Jo 5.24-29)

Duas ressurreições estão subentendidas nesta passagem, uma espiritual (vv. 24-27), que compreende a regeneração; e outra corporal ou física, pela qual os mortos serão levantados dos sepulcros voltando à vida com novo corpo (vv. 28-29), uma ressurreição para o juízo tanto dos justos como dos injustos. Esta concepção é afirmada em At 24.15 e subentendida em Mt 7.21-23; 13.36-43; 16.24-27 e Ap 20.12-13.

O tempo da ressurreição é descrito de duas maneiras. O primeiro é “A hora vem e já chegou” que se refere à ressurreição espiritual (regeneração) na era presente. A ressurreição do corpo ocorrerá “no último dia” (Jo 6.39, 40, 44 e 50), na consumação do presente aion.

 

4.2. Concepção paulina de ressurreição (1Co 15.3-38)

A base doutrinária de Paulo para a ressurreição dos mortos consiste no evento da ressurreição de Jesus. Neste capítulo, Paulo faz quatro declarações: 1) Jesus morreu, como cumprimento das Escrituras do Antigo Testamento. 2) Ele foi sepultado. 3) Ele ressuscitou dentre os mortos, também em cumprimento das Escrituras. 4) Ele foi visto por muitas pessoas. Os verbos: morreu, foi sepultado, e apareceu, em grego, estão todos no aoristo, indicando um ato já realizado. Com referência à ressurreição de Jesus, o verbo ressuscitou indica um ato já consumado.

O argumento de Paulo é que o fato de Cristo ter sido ressuscitado é garantia de que os mortos ressuscitam, pois se não há ressurreição de mortos, então Cristo não ressuscitou (1Co 15.13). Sem a ressurreição, o evangelho, a fé, o cristianismo como todo, são inúteis (vv.16-18) e os cristãos são os mais infelizes de todos os homens (v. 19). O kerygma destituído da boa nova da ressurreição deixa de ser euaggelion (boa nova de salvação) para transformar-se num embuste dos mais perversos (v. 15).

 

4.3. O corpo da ressurreição (1Co 15.39-50)

O apóstolo, referindo-se ao corpo da ressurreição, declara que há dois tipos de corpos dados por Deus às suas criaturas: o natural (yucikoV) e o espiritual (pneumatikoV). Na ordem da existência da criação, o natural antecede o espiritual. Por esta razão, como ele diz, “Semeia-se corpo natural, ressuscita corpo espiritual” (v. 44). Tais corpos foram destinados a dois tipos de homens. “Pois assim está escrito: O primeiro homem, Adão, foi feito alma vivente. O último Adão, porém, é espírito vivificante” (v. 45).

O corpo terreno foi adaptado às necessidades do plano físico de existência; e, da mesma forma, o corpo espiritual ou celestial é adequado às necessidades do plano espiritual da existência humana. O corpo, tanto o espiritual como o físico, é elemento constitutivo do homem. Corpo sem espírito é cadáver e espírito sem corpo é fantasma. O corpo da ressurreição é necessário para a reconstituição de todos os que já morreram.

Sobre a natureza do corpo da ressurreição, Paulo nos ensina, em Fp 3.20-21, que todos os que têm cidadania celeste aguardam a vinda de Jesus do céu, quando, então, ele “transformará o corpo da nossa humilhação para ser conforme o corpo da sua glória”. O resultado imediato da ressurreição será o aniquilamento da morte e o fim definitivo do poder do pecado.

 

 

 

 


CAPÍTULO XX

ESCATOLOGIA GERAL

O MESSIANISMO NO PLANO ESCATOLÓGICO DIVINO

 

 

1. Introdução

Cremos que só pode haver esperança onde há escatologia. Cremos também que só pode haver escatologia se ela for bíblica, porque somente a revelação bíblica é que nos oferece o conceito de tempo como dinamismo histórico que se dirige a uma meta que pode trazer planos para um futuro, que pode, em certa medida, colaborar com a realização desse futuro. Efetivamente, só pode haver escatologia onde se espera algo.

O vocábulo ESCATOLOGIA origina-se do grego: “escatos” que quer dizer “último” e “logos” que significa “palavra”, “discurso”, “assunto”. Escatologia é, portanto, a doutrina bíblica dos acontecimentos dos “últimos dias”. Assim sendo, ao examinarmos este assunto nas Escrituras pretendemos descobrir o que a Palavra Revelada de Deus tem a nos dizer sobre o projeto de Deus para o futuro da humanidade e de toda a criação.

A consciência escatológica é vital para toda atividade genuína da fé cristã. Jesus queria que seus discípulos vivessem e operassem na ardente expectativa de sua segunda vinda, não importando quão distante pudesse estar esta “parousía”. A escatologia bíblica pode assegurar que “Cristo é em vós a esperança da glória” (Cl 1:27). O problema de toda a cristandade moderna é que ela não vive com a profundidade e intensidade suficientes a nova vida que recebe “em Cristo”. Por outro lado, a pluralidade de correntes de pensamento com referência à escatologia tem trazido muita confusão, fanatismo e desvios que dão origem a seitas extravagantes. A forma arrogante com que muitos apresentam hoje certas correntes de interpretação, ou ainda de leitura profética é verdadeiramente lamentável.

A tarefa da teologia evangélica em nosso século deveria ser, em primeiro lugar, aprender com os erros e excessos do século passado. Qualquer meditação teológica tem que ser realizada com responsabilidade. Durante anos a escatologia cedeu seu lugar à soteriologia ou à eclesiologia. Omitimos os temas proféticos da pregação e assim, mutilamos o evangelho, deixando de ensinar o que Jesus chamou de “todas as coisas que vos tenho mandado”. Ao estudarmos escatologia, deparamo-nos com a questão básica: Que nos trará o futuro? Para onde estamos indo? Estas não são perguntas novas; centenas de gerações as têm feito antes de nós. Todavia, há Alguém que pode responder a todas as perguntas do coração humano. As respostas são encontradas na revelação profética registrada nas Escrituras Sagradas.

Muitos cristãos sabem de que foram resgatados, mas nunca chegaram a saber para que. Basta-lhes saber que têm a segurança da salvação, que receberam Cristo; mas não devia ser também sua ambição conhecerem todas as consequências desta salvação? (Ef. 1:16-19). O coração humano necessita de um objeto com que se ocupar. Não pode atuar com respeito ao futuro se não pensar nele. Se um cristão não pensa no futuro, os seus pensamentos serão concentrados no tempo presente e toda a sua maneira de viver estará de acordo com este modo de pensar; buscará a sua felicidade na terra e nas coisas terrenas.

 

2. O plano escatológico divino

O plano escatológico de Deus foi prescrito pela aliança da redenção através da qual Deus prometeu a vida eterna como dádiva de sua graça aos que, pela fé em Cristo, são inclusos entre os eleitos. Tal promessa foi feita “antes dos tempos eternos” (Tt 1.2).

Antes dos tempos eternos, Deus contemplou o início e o fim de nossa história e preparou o nosso destino. Deus dividiu seu plano em segmentos de tempo de nossa existência. Ele agiu nos momentos propícios (kairos) da história para executar seu plano redentivo. A história da salvação é o registro por meio do qual Deus revelou seu eterno desígnio, ao longo das eras sucessivas, para fazê-lo se cumprir, intervindo providencialmente nas ocasiões cronológicas da história humana.

Várias passagens bíblicas revelam a ação divina em tempos oportunos (kairos) que marcaram o final de uma era (aion), dando origem a outra (Dt 30.1-10; Dn 2.31-45; 7.1-28; 9.24-27; Os 3.4-5; Mt 23.37-25.46; At 15.13-18; Rm 11.13-29). Cristo faz referência ao “tempo dos gentios” (Lc 21.24) como distinto do tempo dos judeus. Deus já determinou “os últimos dias” de Israel (Os 3.5; Hb 1.2) e os “últimos dias” da igreja (2Tm 3.1-5). As Escrituras nos falam de outras gerações (Ef 3.5-9; Cl 1.26), do presente século (Rm 12.2; Gl 1.4) e dos séculos vindouros (Ef 2.7; Hb 6.5) e do cumprimento de seu eterno propósito “na dispensação da plenitude dos tempos” (Ef 1.10).

Cristo está situado no centro da história. O antes e o porvir estão relacionados a ele. Cristo antecede e perpassa o tempo da existência do universo (Cl 1.17). Em 1Tm 1.17, Paulo relaciona Cristo ao plano dos séculos da história da salvação e o designa como “o Rei dos séculos”. João registrou as palavras do próprio Cristo que se apresenta como o Senhor do tempo e da história da criação nos seguintes termos: “Eu sou o Alfa e o Ômega, o princípio (arche) e o fim” (telos). Cristo é o agente divino que, no final do presente aiôn, haverá de consumar o plano escatológico de Deus (Ap 22.13).

 

3. O messianismo nas Escrituras

3.1. Conceito de messianismo

“Messianismo” é um termo derivado de “messias” que, por sua vez, é a transliteração do termo aramaico “meshihâ”, originado do hebraico “mashiah” = ungir, untar com óleo. Refere-se à unção dos reis, sacerdotes e profetas de Israel. Tal expressão foi usada por Isaías (Is. 45:1) com referência a Ciro, rei dos persas, conquistador do império babilônico, a quem Deus havia escolhido para ser libertador de Judá.

Durante o período pós-exílico, alimentou-se em Israel a esperança de um “libertador” que viria estabelecer um reino, onde haveria de governar com soberano sobre toda a terra (Dn 7:14-14, 27).   Este seria “O Ungido” (em hebraico, mashiah), da descendência de Davi, o qual traria salvação ao povo de Israel.

“Messianismo é a espera da salvação e da libertação que livrará não somente de uma servidão particular e passageira, mas mudará totalmente a existência humana e suprimirá definitivamente a distância que separa a condição humana alienada de sua essência e de seu dever-ser” (J. Doyon).

 

3.2. A história do messianismo na Bíblia

Dentre todos os temas bíblicos, o “messianismo” é um dos principais. Este tema é a espinha dorsal da Bíblia Sagrada; é o ponto central em torno do qual gira toda a história da salvação. Todo o Velho Testamento é uma revelação progressiva do desejo de salvação que parta de Deus. O Novo Testamento quer nos mostrar que o personagem histórico, Jesus de Nazaré, é o Messias prometido por Deus e esperado com grande ansiedade pelo povo de Deus. A história do messianismo na Bíblia compreende quatro períodos importantes: das origens à época assíria, época babilônica, época persa e época greco-romana.

 

a)      Das origens à época assíria

Nas Escrituras, a promessa de um Salvador aparece pela primeira vez em Gn. 3:15. Aqui ele surge como um libertador (ou ainda um “vingador”) do homem, libertação esta conquistada por meio de um duelo com o tentador descrito na figura da serpente. Este texto descreve a figura do libertador da seguinte forma:

1)      Um “descendente” da mulher vencerá o demônio e esmagar-lhe-á a cabeça, embora seja levemente ferido no calcanhar. Através dele o homem triunfará sobre o maligno.

2)      Sua ação faz dele uma espécie de campeão e vencedor que virá em socorro da humanidade decaída para livrá-la da servidão ao demônio representado pela serpente.

 

Além do “proto-evangelho”, outra passagem (Gn. 9:24) anuncia que a salvação para o mundo sairá de Sem. Dentre os semitas, Abraão é escolhido como portador da promessa, em cuja descendência serão abençoadas todas as nações da terra (Gn. 12:1-3; 18:18; 22:18). A bênção de Jacó (Gn. 49:8-12) limita o círculo do autor da salvação à tribo de Judá, o quarto filho do patriarca, de cuja tribo sairá aquele a quem pertence o cetro e a quem os povos obedecerão. Nesta passagem, o Messias nos aparece como uma figura de dominador fortemente caracterizado, cujo reino é descrito como reino de paz.

O assim chamado “evangelho de Natã” (aliança davídica), conforme 2Sm. 7:13-16, restringe a esperança do Messias à casa (dinastia) de Davi. Com base na promessa de Deus a Davi, os profetas escritores mais antigos (Isaías, Oséias e Amós), anunciaram a vinda do Messias e a restauração do reino davídico. Amós (9:11-15) anuncia que Javé levantará de novo o “tabernáculo de Davi” e em lugar do antigo reino nacional surgirá um reino universal onde a plenitude de bênçãos lembra a volta do paraíso. Oséias (Os. 3:5), seu contemporâneo, anunciou que no fim dos dias Israel buscará a Davi de novo e, unido com Judá, o reconhecerá como rei comum.

Isaías, durante o período assírio (750 a 605 a.C.), falou do Messias não como um guerreiro poderoso que domina as nações pelas armas e a violência, mas como um ser divino – Emanuel, Deus conosco – que haveria de nascer de uma virgem (Is. 7:10-17; 9:6-7), o qual haveria de ser profeta “ungido” com o Espírito Santo (61:1-2), cuja vinda haveria de ser precedida por um pregador do deserto (Is. 40:3; cf. Mt. 3:1-17). A salvação viria através do sacrifício da vida do próprio Messias (Is. 52:13-53:12).

 

b)      Época babilônica

A aprovação do cativeiro babilônico marcou profundamente o povo judeu como uma catástrofe nacional. Era ao mesmo tempo o fim do reino, a destruição do templo de Jerusalém e a deportação para uma terra estranha e infiel.

A pregação de Jeremias (Jr. 33:14-17) alimentou a esperança de um Messias que foi descrito como sendo um descendente de Davi – “farei brotar a Davi um Renovo de Justiça” – que seria justo juiz sobre todos os habitantes da terra – “executará juízo e justiça na terra” – e isto aconteceria como cumprimento da aliança de Deus com Davi (v.17).

 

c)       Época persa

A época persa é a do retorno do exílio, na alegria geral da reconstrução do templo e da volta às fontes. A esperança da restauração nacional gerou a expectativa de um Messias-Rei, cujas características divergem da figura de um monarca tradicional (Zc 9:9-10):

1)      Não teria a imponência e a ostentação dos monarcas até então conhecidos (v. 9).

2)      Daria fim às guerras (v.10).

3)      Seria pacificador (v.10).

4)      Seu domínio haveria de se estender até as extremidades da terra (v.10).

 

d)      Época greco-romana

Nesta época, acredita-se, surgiu a literatura apocalíptica caracterizada por visões fantásticas, cuja mensagem principal é a intervenção poderosa de Deus por meio do Messias, trazendo libertação ao seu povo, triunfando sobre seus inimigos. O messianismo da maior parte destes livros reveste-se de duas características básicas:

1)      É escatológico – a vinda do Messias coincide com o “fim do mundo” e a renovação de todas as coisas, pondo fim à história e à sucessão dos reinos da terra com o estabelecimento do reino eterno de Deus (Dn. 2:44; 7:14-18).

2)      É teocêntrico – tudo que ocorre é resultado da ação direta de Deus. O Messias é apenas um agente executor do plano divino e, uma vez concluída sua missão, entrega a Deus o reino e o domínio das nações (Ap. 5:9-10; 19:1-6).

 

3.3. As razões para a vinda do Messias

As razões pelas quais Deus prometeu um libertador são três:

1)      A queda do homem – Neste episódio, segundo a narrativa do capítulo 3 de Gênesis, o homem, após sua queda, passou a viver sob a maldição do pecado e o domínio de Satanás. Ao mesmo tempo em que Deus lançou a maldição também anunciou a vinda de um “descendente” da mulher que, para socorro da humanidade, haveria de vencer e dominar o demônio, representado através da serpente, esmagando-lhe a cabeça (v.15). Tal vitória traria libertação à humanidade.

2)      A maldição divina – O pecado humano trouxe, como consequência, a maldição divina que seria removida para, em lugar dela, Deus derramar sua bênção sobre todas as famílias da terra (Gn. 12:1-3), através do “descendente” de Abraão que, segundo Paulo em Gl. 3:16-17, é Jesus Cristo.

3)      O estabelecimento do reino de Deus - Deus haveria de trazer novamente o homem ao seu domínio e lhe ofereceria uma oportunidade de entrar em seu reino e desfrutar da vida eterna e do esplendor da sua glória (Mc 1:14-15; Lc. 17:20-21; Mt. 25:31-34). O Novo Testamento identifica a pessoa de Jesus com o Messias prometido que haveria de estabelecer o reino de Deus no mundo.

 


CAPÍTULO XXI

O REINO ESCATOLÓGICO DE CRISTO

 

 

1. Introdução

A expressão chave na escatologia cósmica é o Reino de Deus, o Reino dos Céus. Segundo os evangelhos sinópticos, a primeira mensagem de Jesus ao começar seu ministério público tinha que ver com o “Reino de Deus” (Mc. 1:15). Ainda que ocupe lugar proeminente nos sinópticos, a ideia do Reino de Deus parece, sem dúvida, ausente do Evangelho de João. Com exceção de Jo 18:36, o único lugar onde há uma referência clara ao reino de Deus é em Jo. 3:3, 5. O que nos evangelhos sinópticos corresponde ao reino de Deus, em João equivale à “vida”, “verdade”, “graça”.

O termo “vida” em João é sinônimo de Reino de Deus. A equivalência de Reino = Vida é óbvia, já que a figura de entrada no Reino é paralela à que expressa a entrada na vida, ou ainda, “nascer de novo”. A mesma equivalência encontramos em Marcos 10:17. A vida é representada como o estado escatológico da existência. Outra equivalência há em Lucas 4:19, 43, onde fala do “ano aceitável do Senhor”, isto é, o ano do Jubileu, em vez da iminente chegada do Reino. Ninguém pode ser cristão sem ser súdito do reino de Deus e vice-versa.

 

2. Conceito geral de reino de Deus no Velho Testamento

No Velho Testamento o Reino de Deus é um conceito que está unido a duas realidades distintas: a soberania de Deus e a teocracia em Israel. Em sua soberania Deus estende seu domínio sobre céus e terra; e na teocracia israelita ele governa Israel com propósito redentor.

 

2.1. A soberania de Deus

Esta expressão designa o governo estabelecido pelo Criador sobre sua criação, o qual é planejado e executado mediante a ação de sua Providência. Esta ideia do reino, conforme Salmos 103:19, não é especificamente redentora. Relaciona-se com a ordem na criação, sobre a qual Deus tem absoluto controle. Se bem que a expressão “Reino de Deus” não ocorra no Velho Testamento, a ideia verifica-se em toda a extensão da atividade profética. Há uma dupla ênfase sobre a soberania real de Deus. Ele é frequentemente referido como o Rei, tanto de Israel (Dt 33:5; 1Sm. 12:7; Is. 43.15) como de toda a terra (2Rs. 19:15; Sl 93:1-2; 99:1-4; 103:19-22; Is. 6:5; Jr 46:18).

Embora haja considerável diversidade na descrição do Reino no Velho Testamento, este sempre envolve uma irrupção de Deus na história quando o propósito redentor de Deus será complemente realizado. O Reino é sempre uma esperança terrena de caráter ético. Deus agirá no futuro próximo para salvar ou julgar Israel, mas ele também vai agir em um futuro indeterminado para trazer a esperança escatológica a ponto de sua plena realização. Os profetas não fazem uma distinção nítida entre o futuro imediato e o remoto, pois em ambos poder-se-á observar o ato de Deus para com o seu povo.

O homem foi criado como co-regente com Deus (Gn. 1:28; Sl. 8:1-8). Ao pecar, o homem ficou destituído da glória divina (Rm. 3:23) para a qual fora criado, e Satanás usurpou o lugar do homem, tornando-se o “príncipe deste mundo” (Jo 16:11). Desde então, o “mundo jaz no maligno” (1Jo. 5:19). Embora o Antigo Testamento enfatize a soberania de Javé sobre as nações da terra (Ex 15.18; Sl 22.8; 47.8; 146.10), é o Novo Testamento que proclama o reino de Deus como tema central da mensagem bíblica.

A salvação consiste em o homem ser resgatado da “potestade de Satanás para Deus” (At. 26:18) e ser “transportado para o reino do Filho de Deus” (Cl. 1:13), para ocupar seu lugar e destino para o qual fora criado. Toda a criação terrena, inclusive o homem, ficou sujeita ao “cativeiro da corrupção” e aguarda o tempo do seu resgate (Rm. 8:19-23), quando Deus reconstruir o universo, criando “um novo céu e uma nova terra” (Is. 65:17; 66:22; 2Pe. 3:13; Ap. 21:1) onde os remidos “reinarão pelos séculos dos séculos” livres da maldição do pecado (Ap. 22:3-5).

 

2.2. A teocracia em Israel

Junto ao governo providencial de Deus no universo existe um Reino cuja natureza específica é redentora. Tal concepção se expressa por meio da “teocracia” em Israel. A primeira referência explícita a este Reino encontra-se no livro de Êxodo (Ex. 19:6), onde Yahweh anuncia que Israel deveria ser convertido em um “reino sacerdotal” e “nação santa”. Isto implica numa eleição e vocação de Israel para o alcance do propósito salvífico de Deus revelado em sua aliança com Abraão: “de ti farei uma grande nação... em ti serão benditas todas as famílias da terra” (Gn. 12:2-3).

Estas palavras de Deus apontam para o futuro. Do ponto de vista do homem, desde quando a Lei foi promulgada no Sinai, há um reino presente, um reino que começou no Sinai. Mas, ao mesmo tempo, o Velho Testamento, como um todo, fala de um Reino Messiânico de Deus no porvir. Embora Israel não tenha compreendido sua identidade para com Deus e seu papel entre as nações, a salvação do mundo veio por meio de Israel (Jo. 4:21-22).

 

2.3. Reino messiânico escatológico

Em uma aliança com Davi, Deus prometeu fazer dele uma dinastia perpétua, isto é, um de seus descendentes haveria de estabelecer um reino eterno (2Sm. 7:12-17). Tal dinastia, ao longo da história, foi interrompida por causa da apostasia de Judá.

Por causa da apostasia, Deus enviou Israel para o cativeiro e durante o cativeiro Israel alimentou uma esperança de redenção por meio do “Filho de Davi”, o Messias que viria para restaurar o reino davídico e a liberdade de Israel. Tal expectativa foi resultado da revelação profética (Is. 9:6-7; Jr. 23:5; Ez 34:23-24).

 

2.4. Conceito veterotestamentário de reino na mensagem de Jesus

Jesus se associa com esta maneira de falar do Velho Testamento. O reino que ele anuncia é o reino que haveria de concretizar no futuro todas as perspectivas veterotestamentárias. O reino que todos esperam é, em definitivo, o “reino de Deus”. O Velho Testamento fala desta realidade do reino como de uma unidade sem distinção de partes ou etapas. Mas, à medida que vai se cumprindo o Velho Testamento em Jesus Cristo, faz-se evidente que a esperança escatológica se divide em duas fases.

Jesus está fazendo presente o futuro do Velho Testamento, mas, em outro sentido, este futuro permanece, todavia, futuro, inclusive para o Salvador. Logo após o seu batismo por João, o Batista, Jesus iniciou o ministério de proclamar o Reino de Deus. Marcos descreve o princípio deste ministério com as palavras: “Ora, depois que João foi entregue, veio Jesus para a Galileia, pregando o evangelho de Deus dizendo: O tempo está cumprido, e é chegado o Reino de Deus” (Mc. 1:14-15).

Mateus resume seu ministério com as palavras: “E percorria Jesus toda a Galileia, ensinando nas sinagogas, pregando o evangelho do reino, e curando todas as doenças e enfermidades entre o povo” (Mt. 4:23). Não podemos compreender a mensagem e milagres de Jesus, a menos que os interpretemos o contexto de sua perspectiva do mundo e do homem, e a necessidade para a vinda do Reino.

Jesus considerou seu ministério como um cumprimento da promessa do Velho Testamento na história, próxima da consumação apocalíptica. Isto se manifesta de modo particularmente claro em duas passagens. Na sinagoga de Nazaré, Jesus leu a profecia messiânica de Isaías 61:1-2 a respeito da vinda de um ungido para proclamar o ano aceitável do Senhor; e então solenemente declarou: “Hoje se cumpriu esta escritura aos vossos ouvidos” (Lc. 4:21).

Quando João Batista, em dúvida, enviou emissários para perguntar a Jesus se ele era realmente Aquele que havia de vir, Jesus respondeu citando a profecia messiânica de Isaías 35:5-6 e mandou-os de volta a fim de contarem a João que a profecia estava de fato sendo cumprida (Mt. 11:2-6).

 

3. Reino de Deus na profecia de Daniel

No capítulo dois do livro de Daniel, Deus revela em uma visão o que há de acontecer no mundo das nações. A interpretação da visão é clara, à luz da história, que quatro impérios mundiais haveriam de levantar-se até que o reino de Deus se estabelecesse no mundo: o império babilônico, o império medo-persa, o império grego fundado por Alexandre Magno e, finalmente o império romano.

Na interpretação do capítulo dois de Daniel são destacados quatro itens:

1)      Deus controla a história das nações (vv. 21-24).

2)      Nabucodonosor detém o poder por delegação divina (vv. 37-38).

3)      A pedra desprendida sem intervenção humana (vv. 34-35 e 45) é Cristo que teria de nascer nos dias do quarto império.

4)      O versículo 44 prefigura o estabelecimento do reino messiânico eterno estabelecido nos dias do império romano (cf. Ap. 11:15).  O final da história coincidirá com a vitória de Cristo.

 

 

 

 

 

Paralelamente ao capítulo 2, o capítulo 7 volve outra vez ao tema dos quatro impérios mundiais, a partir de Nabucodonosor.

 

IMPÉRIOS

MUNDIAIS

SONHOS DE NABUCODONOSOR

SONHOS DE DANIEL

Dn. 2:31-45

Dn. 7:1-28

Dn. 8:1-27

Babilônia

Cabeça de ouro

Leão

 

Medo-Pérsia

Peito e braços de prata

Urso

Carneiro

Grécia

O ventre e os quadris de bronze

Leopardo

Bode

Roma

Pernas de ferro

Besta (10 chifres)

 

O Anticristo

Pés de barro e de ferro

Pequeno chifre

 

Cristo

A Pedra desprendida sem intervenção humana

 

 

 

O Messias devia aparecer nos dias do quarto império. O Anticristo teria que surgir de alguma classe de continuidade – e divisão – do mesmo quarto império. Até o final dos tempos, a batalha dos séculos será o conflito entre o Reino de Cristo e o do Anticristo. Na visão das quatro bestas, segundo Daniel 7:1-14, podemos destacar dois elementos importantes:

 

3.1. Uma situação que inspira temor (vv. 1-8)

“Grande Mar” (v. 2) é reconhecido como Mediterrâneo, mas seu uso aqui é obviamente simbólico. Os judeus temiam o mar e daí que frequentemente serviram-se dele como símbolo de algo espantoso e anunciador de trágicas experiências (cf. Sl. 42:7). Os quatro ventos do céu que sopram sugerem uma grande tempestade. Neste pavoroso cenário surge quatro bestas que representam quatro reis ou impérios (v. 17). Estes monarcas ou impérios correspondem exatamente à visão do capítulo 2. Assim, vemos que:

1)      A primeira besta corresponde a Babilônia (v. 4).

2)      A segunda besta corresponde ao império medo-persa (v. 5). O inclinar-se para um lado indica a hegemonia da Pérsia sobre a Média. As três costelas entre os dentes são suas principais conquistas: Babilônia, Lídia e Egito. A “muita carne” é a extensão do império.

3)      A terceira besta corresponde ao reino grego de Alexandre, dividido entre quatro de seus generais após a sua morte (v. 6).

4)      A quarta besta corresponde ao império romano (vv. 8, 23 e ss.); é o maior e mais bestial de todos.

 

3.2. Uma visão que restaurou a confiança (vv. 9-14)

Deus não só sabe o que ocorre no mundo como também controla a história. Os homens podem jactar-se quanto querem (vv. 8, 11), mas Deus terá a última palavra. Eis aí o segredo da fé e a fonte permanente de toda consolação, para quando tivermos de enfrentar as dificuldades que pareçam invencíveis.

 

3.3. O quarto império e o reino dos santos do Altíssimo em Dn. 7:13-28

Ao entrar neste tema do livro de Daniel temos de considerar três questões:

 

a) A identidade da quarta besta.

Devemos partir do fato de que os capítulos 2, 7 e 9 estão intimamente relacionados entre si. Em todos eles, chega-se ao clímax com a descrição do quarto império, o império romano; o centro geográfico é o Ocidente. Da mesma forma, os capítulos 8 e 11 têm como clímax o Império Selêucida que seguiu à morte de Alexandre Magno; o centro geográfico é o Oriente.

Daniel 7 também corresponde com Apocalipse 13 (cf. 13:16; 19:20). Assim, a quarta besta tem que ser Roma, em sã exegese sem prejuízos. É a mais bestial de todas as bestas, espantosa e diferente (7:7, 23), e seu reino é maior que o das demais bestas. Os dez chifres (v. 24; cf. Dn. 2:41) expressam poder absoluto de domínio e extensão territorial do Império Romano na terra. O chifre pequeno (v. 24) é o Anticristo (cf. 2Ts 2:1-12; 1Jo. 2:18; 4:3).

 

b) A identidade do Filho do Homem (v.13)

Lemos em Dn. 7:13: “Eu estava olhando nas minhas visões da noite, e eis que vinha com as nuvens do céu um como o Filho do Homem, e dirigiu-se ao Ancião de Dias, e o fizeram chegar até ele”. Trata-se de uma figura humana, não bestial; celeste, não terrena; internacional, não nacional ou imperial; com um reino eterno, não temporal (vv. 13 e 14).

 

c) O reino dos santos (vv. 18, 27)

Os “santos do Altíssimo” são os herdeiros do reino eterno. Eles formam o povo santo, eleito e exclusivo de Deus. Tal reino tem uma dimensão escatológica, pois se consumará após a manifestação do Anticristo (vv. 25-27).

O final da história está nas mãos de Deus e seu agente será Cristo. Os reinos deste mundo virão a ser os reinos de Deus e de seu Ungido, como revela Apocalipse 11:15: “... O reino do mundo se tornou de nosso Senhor e do seu Cristo, e ele reinará pelos séculos dos séculos”.

 

4. O quarto império e o reino de Deus em Daniel 2

a) A natureza e significado do quarto império (vv. 40-43)

Afirmamos que o quarto império é Roma (república, império e despotismo absoluto). Teria “pernas e pés em parte de ferro e em parte de barro”. Os símbolos do ferro e do barro caracterizam não só a força e a fragilidade paradoxal do império, mas também a divisão posterior entre oriente e ocidente (Roma e Bizâncio) que culminou na sua fragmentação medieval de reinos bárbaros.

No século IV a.C., quando Daniel escrevia, Roma não era mais que uma cidade-estado. A partir destas humildes, Roma desenvolver-se-ia, depois de um breve e frágil período monárquico, como uma república progressivamente forte, e logo se tornaria o maior dos impérios pela força das armas.

 

b) A natureza do reino de Deus (o reino messiânico vv. 44-45. cf. vv. 34-35).

O reino de Deus é comparado a uma pedra, uma Rocha (Is. 28:16; Mt. 21:44; Lc. 2:1, 2). Aparecerá “nos dias destes reis”. Que dias e que reis são estes? Vejamos duas interpretações distintas: a dispensacionalista e a amilenista.

 

4.1.1. Interpretação premilenista dispensacionalista

Diz a Bíblia Anotada de Scofield em nota a Daniel 2:44: “Esta passagem determina de maneira autorizada o TEMPO relativo a outros eventos proféticos, quando o reino dos céus será estabelecido. Isto sucederá “nos dias destes reis”, isto é, os dias dos dez reis (comp. Dn.7:24-27) que são simbolizados pelos dedos da imagem. A situação que estes reis representam não existia no tempo da primeira vinda do Messias, nem foi possível sua existência até a desintegração do império romano e o surgimento do presente sistema nacionalista mundial... O v. 45 repete o MÉTODO pelo qual o reino será estabelecido”.

 

5. Interpretação amilenista

Os dispensacionalistas interpretam os pés da estátua como fazendo referência a dez dedos (dez reis) em uma época futura quando o império romano vier a ser restaurado e dividido em dez reinos, instante no qual aparecerá Cristo para instaurar seu Reino. A diferença desta interpretação para a interpretação que todos os demais cristãos assumem é que o Reino Messiânico haveria de aparecer (já apareceu, já veio de fato) com a vinda de Cristo depois do apogeu dos quatro grandes reinos (impérios) descritos: Babilônia, Pérsia, Grécia e Roma, mas dentro do tempo de um deles – “nos dias destes reis”. Dado que o Messias não viria nos dias dos três primeiros impérios, então, sua vinda aconteceria nos dias do quarto império (Roma).

A pedra cortada não com o auxílio de mãos (vv. 34, 35) representa o Messias e o poder do reino messiânico, assim como sua extensão, sua eternidade e sua origem divina (v. 44), em contraste com os impérios humanos e temporais (cf. Mt 21.42-44). Vejamos:

1)      O reino tem uma dimensão histórica (vv.44-45) – “nos dias destes reis”;

2)      O reino tem origem divina (vv. 34, 44) - “O Deus do céu suscitará um reino...” (v.44). “Uma pedra foi cortada, não com o auxílio de mãos...” (v. 34).

3)      O reino resiste a todas as forças inimigas – “que não será jamais destruído”;

4)      Não será jamais conquistado pela força – “o reino não passará a outro povo”;

5)      Tem domínio e extensão universal – “esmiuçará e consumirá todos estes reinos”;

6)      Tem duração eterna – “mas ele mesmo subsistirá para sempre”;

7)      O reino tem extensão e desenvolvimento irresistível (vv. 35, 44) – “Mas a pedra que feriu a estátua se tornou em grande montanha, que encheu toda a terra” (v.35). “... o Deus do céu suscitará um reino que não será jamais destruído; este reino não passará a outro povo...” (v. 44).

 

Tudo isto contrasta com os reinos humanos, que são frágeis e temporais. O Messias esmiuçará todos os demais reinos, em um processo que vai desde a primeira à segunda vinda de Cristo, cujo período é denominado na Bíblia de “últimos dias”. Daniel 2:44 tem de ser lido à luz de Daniel 7:13, 14; o reino virá por meio de “um como um filho de homem”. Todos os reinos terrenos são temporais em duração, humanos quanto à origem, frágeis quanto ao poder. O Reino de Deus, ou dos céus, é divino quanto à origem, eterno quanto à duração, invencível em poder. O Reino de Deus é apresentado como em perpétuo crescimento, desde algo pequeno até chegar ao infinito.

 

5.1. Reino invencível

Daniel 2 nos revela quatro atos determinados por Deus sobre o seu Reino que seriam impossível aplicá-los a qualquer outro reino. Estes atos são confirmados pelo Novo Testamento. Tais atos são os seguintes: o reino não seria jamais destruído, não será deixado a outro povo, esmiuçará e consumirá a todos os demais reinos e permanecerá para sempre. Estes quatro pontos estão confirmados no Novo Testamento:

1)      O Reino Indestrutível - “Por isso, recebendo nós um reino inabalável...” (Hb. 12:28).

2)      O Reino é esperança perpétua - “Mas os santos do Altíssimo receberão o reino e o possuirão para todo o sempre, de eternidade em eternidade” (Dn. 7:18). “... edificarei a minha igreja e as portas do inferno não prevalecerão contra ela” (Mt. 16:18-19).

3)      O Reino obterá a vitória final - “O reino do mundo se tornou de nosso Senhor e do seu Cristo, e ele reinará pelos séculos dos séculos” (Ap. 11:15).

4)      O Reino é eterno - “Ele reinará para sempre sobre a casa de Jacó, e o seu reinado não terá fim” (Lc.1:33).

 

5.2. As fases do reino de Deus

O Senhor ensinou aos judeus que o Reino de Deus havia chegado e que estava entre eles; um reino invisível, espiritual, poderoso e real (Lc. 17:20-21). Este reino está revelado em três fases de sua manifestação na história. As fases são as seguintes:

1)      O Reino dos céus já se instalou; veio com o Rei (Mt. 3:2; 4:17; Mc. 1:15). O reino manifestou-se com poder em Pentecostes (Mc. 9:1; Lc. 24:29; At. 1:6-8; cf. 1Co. 4:20).

2)      O Reino de Deus, embora tenha sido inaugurado por ocasião da primeira vinda de Cristo, haverá de se consumar com glória na segunda vinda de Cristo. Na atualidade o Reino é um mistério, mas também uma força espiritual poderosa; só espera sua plena manifestação em majestade.

 

Cristo divide os tempos com a medida do Reino: “A Lei e os profetas vigoraram até João; desde esse tempo, vem sendo anunciado o evangelho do reino de Deus, e todo homem se esforça por entrar nele” (Lc. 16:16).

 

6. A profecia das setenta semanas (Dn. 9:1-23)

6.1. A oração e confissão de Daniel

“No primeiro ano de Dario, filho de Assuero, da linhagem dos medos, o qual foi constituído rei sobre o reino dos caldeus, no primeiro ano do seu reinado, eu, Daniel, entendi, pelos livros, que o número de anos, de que falara o Senhor ao profeta Jeremias, que haviam de durar as assolações de Jerusalém, era de setenta anos” (vv. 1-2). Pelo estudo de Jeremias, Daniel sabe que o período do exílio durará 70 anos. Ele se volve, então, ao Senhor em súplica intercessória pelo pecado do seu povo entre o qual ele próprio se inclui (vv. 4-14), e apela pela graça e misericórdia divinas (vv. 15-19).

Enquanto ora, Gabriel acode para dar-lhe sabedoria e entendimento (vv. 20-23): “No princípio das tuas súplicas, saiu a ordem, e eu vim, para to declarar, porque és mui amado; considera, pois, a coisa e entende a visão” (v. 23). A que princípio de súplicas ele se refere? Os versículos 1 e 2 mostram claramente a preocupação de Daniel com a assolação de Jerusalém e seu término. Tal preocupação foi resultado de seu exame das profecias de Jeremias (Jr. 25:12; 29:9-10). Daniel ora com a carga do povo em seu coração: confessa os pecados de Israel e suplica misericórdia. Daniel busca saber sobre o destino do seu povo.

 

6.2. As setenta semanas (vv. 24-27)

Uma observação: o original em hebraico não diz “semanas”, mas “setes”. Literalmente, o texto poderia ser traduzido assim: “Setenta setes estão determinados sobre o teu povo”. Os setes representam períodos de tempo divididos em frações de sete. Não é dito que cada “sete” durará 7 anos, mas deve significar um tempo determinado por Deus. Durante esse tempo Deus realizará a redenção messiânica. “Setenta setes estão determinados...” Por quem? Por Deus, obviamente. “... sobre teu povo e sobre a tua santa cidade” (Jerusalém). Daniel, preocupado com seu povo, recebe contestação a dita inquietude. A revelação tem que ver com a súplica. O tempo do exílio chegara a seu fim. Que será do seu povo? Em resposta é dito que em meio do seu povo e de sua santa cidade serão feitas coisas gloriosas:

 

TRÊS CONSEQUÊNCIAS NEGATIVAS

TRÊS CONSEQUÊNCIAS POSITIVAS

1) Para fazer cessar a transgressão

2) Dar fim aos pecados

3) Expiar a iniquidade

4) Trazer a justiça eterna

5) Selar a visão e a profecia

6) Ungir o Santo dos santos

 

a) "Para fazer cessar a transgressão..."

Por esta transgressão tiveram que sofrer o exílio. Mas este exílio está chegando ao final. Deus quer terminar com a prevaricação e com seus resultados. Em sua oração, Daniel confessou esta prevaricação (v. 12). Agora é dito que as consequências da mesma irão ter fim. Esta é a vontade de Deus.

 

b) "... Para dar fim aos pecados e expiar a iniquidade...”.

Deus odeia o pecado, mas ama o pecador. Como pôr fim ao primeiro sem destruir o segundo? A justiça de Deus não pode passar em branco, mas esta justiça se manifestará sem detrimento do amor (este é o tema de Romanos). A linguagem indica claramente que se requer um sacrifício expiatório, sobre cuja base poderá ser perdoada a iniquidade, isto é: o pecado terá seu fim.

 

c) "... Para trazer a justiça eterna..."

A justiça eterna é a justiça que vem de Deus; é exterior a nós, vem de fora, do Senhor mesmo, por meio do Messias. A transgressão será substituída pela justiça eterna e perfeita. O Novo Testamento nos ensina que o crente é justificado por Deus pela sua fé em Cristo mediante o arrependimento dos seus pecados e não por sua própria justiça (Rm. 1:17; Rm. 5:1-2; Gl. 3:11).

 

d) "... Para selar a visão e a profecia..."

Isto constitui uma clara referência ao fim da dispensação do Velho Testamento, na qual viveu Daniel. O profeta, segundo Nm 12:5, era o representante de Deus e seu mensageiro perante o povo; e Deus lhe falava por meio de sonhos e visões. O período destas revelações teria fim quando as profecias se cumprissem e, assim, seriam confirmadas, isto é, autenticadas – “selar a profecia” – ao término da dispensação do Velho Testamento e início da era messiânica.

 

e) "... Para ungir o Santo dos santos"

Literalmente: “ungir uma santidade de santidades”, ou seja, o mais santo dentre os santos. Esta é, sem dúvida, uma referência à unção do Messias com o Espírito Santo que teve cumprimento por ocasião do batismo de Jesus por João no Rio Jordão (Mt. 3:13-17; cf. Is. 42:1; 61:1). Os seis objetivos das setenta semanas são todos messiânicos e todos já se cumpriram.

 

6.3. As setenta semanas em detalhes

Em Daniel 9:25-27 são nos dados detalhes do período das setenta semanas. Lemos no versículo 25: “Sabe e entende: ...”. A Daniel é comunicado que preste atenção e se esforce por entender os detalhes seguintes:

a) “... desde a saída da ordem para restaurar e para edificar Jerusalém, (isto é, desde o final do exílio) até ao Ungido, ao Príncipe (o Ungido do versículo 24) sete semanas e sessenta e duas semanas; ...”

Isto teve cumprimento no primeiro ano do reinado de Ciro, por seu decreto libertador promulgado em 538 a.C. e que permitiu os judeus regressarem a Jerusalém. O ponto de partida da contagem é a data da ordem imperial (Ed 3:1-3), que tinha como propósito a restauração da cidade e do templo de Jerusalém.

 

b) “... as praças e as circunvalações se reedificarão, mas em tempos angustiosos...”

As sete semanas constituem o período entre o primeiro retorno dos judeus do exílio, sob a liderança de Zorobabel, segundo relatos de Esdras e Neemias, e a conclusão das obras destes servos de Deus, quando Jerusalém foi reedificada “em tempos angustiosos”.

 

c) “Depois das sessenta e duas semanas, será morto o Ungido e já não estará;...”.

As sessenta e duas semanas abarcam o tempo entre o término da reconstrução de Jerusalém e do templo até a manifestação do Messias. Desta forma, o tempo da primeira vinda de nosso Senhor foi expressamente marcado, sendo equivalente a 69 semanas (7 + 62). Surge, então, uma questão: E a septuagésima semana, cumpriu-se ou ainda se cumprirá? Cremos que a septuagésima semana teve cumprimento durante o ministério de Jesus que durou 3 anos e 6 meses (metade de 7 anos), no fim dos quais, Jesus foi crucificado por ordem de Pôncio Pilatos.

 

d) “... e o povo de um príncipe que há de vir destruirá a cidade e o santuário, e o seu fim será num dilúvio, e até o fim haverá guerra; desolações estão determinadas...”.

Esta é uma referência clara à destruição de Jerusalém no ano 70 d.C. pelo general Tito. Isto deveria acontecer depois da morte do Messias, isto é, depois das 70 semanas, em um prazo não determinado.

 

e) “... Ele fará firme aliança...”

Em hebraico, significa literalmente: “Ele confirmará a aliança”. Uma aliança a ser confirmada é uma aliança já existente. Com certeza, esta é uma referência à “Nova e Eterna Aliança”, a Aliança da Graça. Os termos, as condições e o propósito redentor de Deus na antiga aliança são confirmados no novo pacto. O responsável por confirmar tal pacto foi o Messias (Mt. 26:26-28).

 

f) “... na metade da semana fará cessar o sacrifício e a oferta de manjares...”.

Esta é uma referência ao tempo determinado por Deus em que o Messias seria morto, oferecendo-se como sacrifício expiatório para remissão de pecados. (Observação: o ministério de Jesus, o Messias, durou exatamente 3 anos e 6 meses - metade de 7 anos – findo o qual Jesus foi crucificado). Ele foi o último sacrifício; daí para a frente, os sacrifícios de animais não mais foram aceitos por Deus.

 

g) “... sobre a asa das abominações virá o assolador...”.

O sacrifício do Messias substituiria definitivamente todos os sacrifícios de animais. Desta forma, o templo e o sacerdócio levítico perderiam sua utilidade, sua razão de existir; e, por isso, seu fim foi anunciado. Embora os sacerdotes tivessem continuado a realizar sacrifícios de animais e apresentarem ofertas de manjares, tais sacrifícios e ofertas, após o sacrifício de Cristo, não foram aceitos por Deus e não tiveram nenhum valor. O templo e o sacerdócio levítico não mais serviam aos propósitos de Deus. Além disso, a destruição de Jerusalém e do templo, dando fim ao sistema religioso sacerdotal, foi também uma manifestação do juízo de Deus sobre Israel por ter rejeitado o Messias.

 

7. Reino de Deus nos evangelhos

Antes da manifestação de Jesus como o Messias, João Batista pregava: “Arrependei-vos, porque está próximo o reino dos céus” (Mt. 3:2). A expressão “Reino dos Céus” no judaísmo contemporâneo de João e de Jesus trazia consigo a expectativa de um futuro no qual, mediante a intervenção decisiva de Deus, Israel seria liberto de seus inimigos e restaurado à “Terra da Promessa”. A vinda do Reino é a grande esperança do futuro que virá com a pessoa do Messias. O povo judeu aguardava o “Filho de Davi” que haveria de trazer de volta os tempos de glória do Reino de Judá. Assim sendo, sua concepção de Reino de Deus era essencialmente política, material e terrena.

 

7.1. Reino de Deus na pregação de João Batista

Na narrativa de Mateus 3:1-12, João Batista, em sua pregação profética, anunciava a vinda do Reino de Deus e do Messias. Seu ministério consistia em chamar os judeus ao arrependimento urgente, porque o Reino de Deus estava na iminência de ser instalado. Sua mensagem dava ênfase à “ira vindoura” que haveria de ser derramada sobre os impenitentes. “Já está posto o machado à raiz das árvores; toda árvore, pois, que não produz bom fruto é cortada e lançada ao fogo”, bradava João no deserto da Judéia. O juízo divino estava para se manifestar através do Messias que estava às portas. O Messias viria para derramar sobre os rebeldes a ira de Deus.

A vinda do Reino traria separação entre salvos e perdidos. O Messias, que já estava às portas, haveria de se manifestar imediatamente após seu ministério, “trazendo em sua mão a pá com a qual haveria de limpar complemente a sua eira” – referência à restauração espiritual de Israel, cujos remanescentes fiéis, simbolizados pelo “trigo a ser recolhido no celeiro”, haveriam de participar do reino, ficando de fora os infiéis, simbolizados pela “palha que seria queimada em fogo inextinguível”. Para João o reino do Messias era essencialmente judaico.

Não há na pregação de João nenhuma evidência ou conotação de inclusão dos gentios no reino messiânico. Os gentios não eram os destinatários de sua mensagem e, por isso, ele entendia que o propósito de Deus era estabelecer seu reino por meio do seu povo eleito. Para João, o eschaton havia chegado e os desígnios de Deus para com Israel haveriam de se cumprir imediatamente. Israel estava diante de sua última chance de arrependimento para escapar da ira divina e participar do reino do Messias.

 

7.2. Reino de Deus na pregação de Jesus

Jesus deu continuidade à mensagem de João quanto a vinda do reino de Deus, sem, contudo, dar ênfase ao juízo, mas ao arrependimento como critério decisivo para o ingresso no Reino, que estava sendo estabelecido a partir dos judeus, o povo da aliança. Jesus deu ênfase a dois aspectos do Reino de Deus: um presente e outro futuro.

 

7.2.1. O aspecto presente do reino

Sua pregação do “Evangelho do Reino” era acompanhada de sinais que manifestavam o poder ativo e redentor de Deus no estabelecimento do seu reino no mundo que havia se tornado hostil a Deus. Os milagres, principalmente os exorcismos, comprovavam que o reino estava presente no mundo pela atuação do Messias (Mt. 12:22-29).

Satanás, que mantinha cativos os homens e tornara-se “o príncipe deste mundo”, estava agora sob o domínio do Messias e seu “reino” estava sendo saqueado (Mt. 12:28-29). Os reinos do mundo haviam se tornado em reino de Satanás. Durante a tentação no deserto, Satanás havia oferecido “a glória destes reinos” a Jesus mas na condição de que a ele Jesus se sujeitasse (Lc. 4:5-8). Satanás estava disposto a “negociar” sua “autoridade” com o “Invasor Celestial” antes que seu reino fosse totalmente saqueado.

A vinda de Cristo trouxe a ruína definitiva de Satanás. O Reino dos Céus havia invadido o domínio do maligno. Jesus o vê como um raio caído do céu (Lc. 10:17-20). Nesta passagem Jesus fala da autoridade concedida (delegação de autoridade) aos seus discípulos, como agentes do Reino dos Céus, sobre todas as forças espirituais do mal.

O ministério apostólico é caracterizado pela autoridade espiritual outorgada diretamente dos céus sobre os poderes e forças espirituais do mal que dominam este mundo tenebroso (Mt 10.1). À sua igreja, que haveria de ser edificada, Jesus prometeu “as chaves do reino dos céus”, como garantia de que o Reino dos Céus estava presente no mundo (Mt. 16:18-19; 18:18-20).

 

7.2.2. O aspecto futuro do reino

A concepção teológica de reino de Deus foi descrita por Jesus no tribunal de Pilatos pelas seguintes palavras: “O meu reino não é deste mundo; se o meu reino fosse deste mundo, pelejariam os meus servos, para que eu não fosse entregue aos judeus; entretanto o meu reino não é daqui” (Jo 18.36). Estas palavras de Jesus nos levam a entender o seguinte:

1)      O reino de Deus tem origem celestial e não terrena.

2)      Não se constitui em um sistema político e de relações econômicas.

3)      Não conquista o mundo pelas armas, mas por meio do evangelho.

 

Embora o reino celestial esteja presente no mundo e se manifeste através da pregação e vivência do Evangelho, é evidente que o mesmo ainda não está consumado. Os milagres são para nós sinais de outra ordem de coisas muito distintas da realidade presente, que já entraram em ação no mundo. Mesmo assim, ainda não chegou o tempo em que os demônios devam ser lançados definitivamente às trevas eternas (Mt. 8:29).

O Evangelho do Reino é, todavia, uma semente que se semeia. Ainda não chegou o tempo em que o joio deva ser retirado do meio do trigo e lançado ao fogo e o trigo ser recolhido no celeiro. Tal fato ocorrerá na ceifa, que a consumação do século (Mt. 13:36-43).

Mas, como e quando virá o reino? Jesus responde em Lc. 17:20-21, dizendo: “Não vem o reino de Deus com visível aparência. Nem dirão: Ei-lo aqui! Ou: Lá está! Porque o reino de Deus está dentro de vós”. Isto quer dizer que o Reino de Deus é inteiramente espiritual e não político e terreno. O Reino de Deus é o governo de Deus no coração do homem; e tal governo só consumará quando a soberania de Deus for reconhecida no universo.

Embora Jesus já esteja reinando - “convém que ele reine até que haja posto todos os inimigos debaixo dos pés. O último inimigo a ser destruído é a morte” (1Co. 15:25-26) – e tenha recebido “toda autoridade no céu e na terra” (Mt. 28:18), nem todo joelho ainda se dobrou e nem toda língua ainda confessou que “Jesus Cristo é Senhor para a glória de Deus Pai” (Fp. 2:9-11). Embora Cristo tenha triunfado sobre os principados e potestades, ainda há um clima de hostilidade e focos de resistência. Mesmo assim, o mal está sob controle no mundo.

 

8. Povo de Deus e sua relação com o reino

Algumas questões têm sido levantadas pelas diversas correntes escatológicas quanto a relação existente entre o povo de Deus e o reino prometido: a) Quem é o povo de Deus hoje? b) Israel como nação tem alguma ligação com o reino de Deus? c) Terá Deus hoje dois povos escolhidos: judeus e cristãos? Três declarações irão responder estas questões como segue.

 

8.1. Deus tem um só povo

O Novo Testamento nos revela claramente que Deus tem um só povo e esse povo é a igreja formada de judeus e gentios; são todos os que estão em Cristo Jesus. Diversas passagens das Escrituras no Novo Testamento comprovam que o povo de Deus é um só: os cristãos.

1)      “Porque todos quantos fostes batizados em Cristo vos revestistes de Cristo. Não há judeu, nem grego... porque todos vós sois um em Cristo Jesus. E, se sois de Cristo, então sois descendência de Abraão e herdeiros conforme a promessa” (Gl. 3:27-28).

2)      “Pois em um só Espírito fomos todos nós batizados em um só corpo, quer judeus, quer gregos...” (1Co. 12:13).

3)      “Onde não há grego nem judeu, circuncisão nem incircuncisão... mas Cristo é tudo em todos” (Cl. 3:11).

4)      "Não que a palavra de Deus haja falhado. Porque nem todos os que são de Israel são israelitas; nem por serem descendência de Abraão são todos filhos; mas: Em Isaque será chamada a tua descendência. Isto é, não são os filhos da carne que são filhos de Deus; mas os filhos da promessa são contados como descendência (Rm. 9:6-8).

5)      “Sabei, pois, que os que são da fé, esses são filhos de Abraão” (Gl. 3:7).

6)      "Porque não é judeu o que o é exteriormente, nem é circuncisão a que o é exteriormente na carne. Mas é judeu aquele que o é interiormente, e circuncisão é a do coração, no espírito, e não na letra; cujo louvor não provém dos homens, mas de Deus (Rm. 2:28-29).

7)      “Portanto, não há distinção entre judeu e grego; porque o mesmo Senhor o é de todos” (Rm. 10:12).

8)      “Porque ele é a nossa paz, o qual de ambos os povos fez um; e, derrubando a parede de separação que estava no meio...” (Ef. 2:14).

9)      “Vós, porém, sois raça eleita, sacerdócio real, nação santa, povo de propriedade exclusiva de Deus, a fim de proclamardes as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz; vós, sim, que, antes, não éreis povo de Deus, que não tínheis alcançado misericórdia, mas, agora, alcançastes misericórdia” (1Pe. 2:9-10).

 

8.2. Os judeus, como nação, povo, raça, não são mais povo de Deus

Israel, como nação, mediante seus dirigentes e a grande massa de povo, rejeitou tanto a Jesus como a sua mensagem do Reino. Até o final de seu ministério Jesus estava chamando “as ovelhas perdidas da casa de Israel”, mas o povo não o quis aceitar como Messias. “Ele veio para o que era seu e os seus não os receberam” (Jo. 1:11).

Na última semana de seu ministério em Jerusalém, dirigindo-se aos principais sacerdotes e aos anciãos que estavam presentes como representantes da nação e o povo judaico, Jesus contou a Parábola dos Lavradores Maus, para anunciar o juízo de Deus sobre os judeus que o rejeitaram como o Filho de Deus. Jesus encerrou a parábola dizendo: “Nunca lestes nas Escrituras: A pedra que os construtores rejeitaram, essa veio a ser a principal pedra, angular; isto procede do Senhor e é maravilhoso aos nossos olhos? Portanto, vos digo que O REINO DE DEUS VOS SERÁ TIRADO e será entregue a um povo que lhe produza os respectivos frutos.” (Mt. 21:42-43).

A rejeição de Israel como povo de Deus foi ensinada por Jesus em sua profecia referente ao juízo de Deus sobre Israel e Jerusalém (Lc. 13:34-35; 19:41-44; 23:27-31). Sobre aquela má geração haveria de vir o castigo divino (Mt. 11:16-19; Lc. 13:1-5). Uma das parábolas que Jesus proferiu para anunciar o juízo de Deus sobre o povo que ele rejeitou termina com as seguintes palavras: “Que fará, pois, o senhor da vinha? Virá, exterminará aqueles lavradores e passará a vinha a outros” (Mc. 12:9).

No capítulo 8 de João, lemos de uma polêmica que os judeus tiveram com Jesus. A certa altura da discussão, os judeus disseram: “Nosso pai é Abraão” e, em seguida, Jesus disse: “Se sois filhos de Abraão, fazei as obras de Abraão. Mas agora procurais matar-me... Vós fazeis as obras de vosso pai”. Eles, então, replicaram: “Nós não somos bastardos; temos um Pai, que é Deus”. Então, Jesus acrescentou severamente: “Vós tendes por pai o diabo, e quereis satisfazer os desejos de vosso pai; ele é homicida desde o princípio” (Jo. 8:39-44).

Em 1Ts. 2:14-16, Paulo, falando do juízo de Deus que fez cessar a aliança de Deus com Israel como nação, declara: “Pois vós, irmãos, vos haveis feito imitadores das igrejas de Deus em Cristo Jesus que estão na Judéia... porque também padecestes de vossos próprios concidadãos o mesmo que elas padeceram dos judeus; os quais mataram o Senhor Jesus, bem como aos profetas, e a nós nos perseguiram, e não agradam a Deus, e são contrários a todos os homens, e nos impedem de falar aos gentios para que sejam salvos; de modo que enchem sempre a medida de seus pecados; mas a ira caiu sobre eles afinal”.

 

8.3. Terá Deus rejeitado seu povo?

Esta pergunta foi feita pelo apóstolo Paulo e ele mesmo deu a resposta adequada: “De modo nenhum” (Rm. 11:1). Ao dizer isso, Paulo se referia aos remanescentes dentre Israel que creram em Cristo e, por esta razão, foram eleitos segundo a graça. Ele declara que Deus reservou para si um remanescente, assim como, no tempo de Elias, reservou para si sete mil varões que não dobraram seus joelhos diante de Baal (Rm. 11:4). “Assim, pois, também agora sobrevive um remanescente segundo a eleição da graça” (Rm. 11:5).

Citando o profeta Isaías, o apóstolo Paulo diz: “Mas, relativamente a Israel, dele clama Isaías: Ainda que o número dos filhos de Israel seja como a areia do mar, o remanescente é que será salvo” (Rm. 9:27). Com isto, Paulo quer ensinar que a rejeição atingiu somente aqueles que, dentre os judeus, rejeitaram o Messias. Mesmo assim, Israel, como descendência de Abraão segundo a carne, não tem mais nenhuma aliança com Deus. Nenhum judeu pode arrogar-se ao direito de participar do Reino de Deus simplesmente por ser filho de Abraão. Paulo diz: “E não pensemos que a palavra de Deus haja falhado, porque nem todos os de Israel são, de fato, israelitas; nem por serem descendência de Abraão são todos seus filhos; mas: Em Isaque será chamada a tua descendência. Isto é, estes filhos de Deus não são propriamente os da carne, mas devem ser considerados como descendência os filhos da promessa” (Rm. 9:6-8).

Os remanescentes dentre Israel atingiram o número de dezenas de milhares de judeus que se tornaram cristãos (At. 21:20). Estes perpetuaram o Israel verdadeiro que, na linguagem figurada de Paulo, formavam a verdadeira oliveira, da qual os ramos endurecidos “foram quebrados pela sua incredulidade” (Rm. 11:20) e na qual os gentios, conforme iam crendo em Jesus, estavam sendo enxertados, tornando-se “participantes da raiz e da seiva da oliveira” (Rm. 11:17). Os demais judeus, que, como ramos, foram quebrados, poderiam também ainda ser enxertados, se não permanecessem na incredulidade (Rm. 11:23). Paulo era um desses ramos que foram quebrados, por sua incredulidade, mas que foi enxertado na oliveira verdadeira, quando se converteu, e assim esperava ver se, de algum modo, poderia incitar à emulação os do seu povo e salvar alguns deles (Rm. 11:14).

Harald Schaly, comentando sobre a rejeição dos judeus, declara:

 

Deus não rejeita os judeus que não permanecem na incredulidade, mesmo depois de terem-se fechado ao cristianismo. Aqui temos nomes de judeus convertidos que se destacaram na história até os nossos dias: Os primeiros quatorze bispos da igreja em Jerusalém foram judeus convertidos. Hegésipo, o historiador do segundo século, era um judeu convertido. Nicolau de Lyra, do décimo quinto século, era um judeu convertido. Neander, famoso historiador eclesiástico, era um judeu convertido. Helmuth Huron, filho de um rico banqueiro, e que muito contribuiu para a promoção da educação, era um judeu convertido. O bispo anglicano Schereschewsky, que se tornou um destacado missionário na China, tradutor e inventor de uma máquina de escrever chinesa, era um judeu convertido. Ginsburg, o hebraísta; Pascal, o cientista; Edersheim, o comentarista bíblico, eram judeus convertidos (...) Mendelssohn, Meyerbeer, Offenbach, Rubinstein, músicos famosos, eram judeus convertidos. Herschell, astrônomo; Rosa Bohneur, pintora; Lord Beaconsfield e Lord Herschell, Primeiro Ministro e Chanceler Britânico, respectivamente; Joseph Pulitzer, e muitos outros. Ainda que desses talvez nem todos fossem genuinamente convertidos, eram judeus que professavam o cristianismo.[14]

 

Temos agora uma questão: Se Israel, como nação, não tem mais aliança com Deus, não é mais povo de Deus, então, quando Paulo diz em Romanos 11:26 – “E assim todo o Israel será salvo” - o que ele quis dizer com isso? Devemos lembrar que nunca o verdadeiro Israel de Deus foi a totalidade dos israelitas, “porque nem todos os que são de Israel são israelitas” (Rm. 9:6).

Quando Paulo fala da plenitude dos israelitas não está se referindo à totalidade da nação hebraica ou dos judeus especificamente, mas da “plenitude dos israelitas segundo a eleição da graça”, pela qual “os eleitos o alcançaram e os outros foram endurecidos” (Rm. 11:5, 7). Mais adiante, no versículo 25, ele diz: “... até que a plenitude dos gentios haja entrado”. Isto, por outro lado, não deve significar que a plenitude dos gentios se converterá, mas, também aqui, só pode significar a plenitude dos gentios eleitos segundo a graça.

 


CAPÍTULO XXII

REINO MILENAR DE CRISTO

 

1. Introdução

Há em toda a Bíblia somente uma passagem onde é feita uma referência ao Reino Milenar de Cristo e esta passagem está em Apocalipse 20:1-6. A interpretação desta passagem tem causado muita polêmica e dividido a igreja, dando origem a seitas e denominações extravagantes onde predomina o fanatismo. As diversas interpretações deste texto, geraram três correntes de pensamento: o posmilenismo, o premilenismo (histórico e dispensacionalista), e o amilenismo.

 

2. Esquema doutrinário do posmilenismo

            O posmilenismo não mais é uma escola escatológica atual. Seu esquema doutrinário caiu em descrédito, dando lugar ao dispensacionalismo que tem invadido a igreja nestes últimos dias. Para o posmilenismo o futuro é assim descrito:

1)      O reino de Deus é uma realidade presente na história; está aqui na Terra. Não consiste em um império ou domínio onde Cristo reina. Significa o governo de Cristo nos corações dos homens. Onde quer que haja homens que sejam crentes fiéis que obedeçam a Cristo o seu reino está presente. Não será introduzido de modo cataclísmico no futuro, mas se expandirá no mundo através da evangelização dos povos.

2)      O mundo será conquistado pelo poder do Evangelho. Todas as nações se converterão a Cristo, embora nem todos os homens se tornem cristãos. Haverá uma conversão nacional de todos os judeus do mundo. A pregação do evangelho será eficaz, não se efetuando por meio de grande perícia ou metodologia requintada. Não será uma realização puramente humana, mas uma atuação poderosa de Deus por meio do Espírito Santo em convencer e regenerar os homens. Haverá uma reavivamento em escala mundial e todos os povos serão cristianizados.

3)      Todas as nações das Terra, ao tornarem-se cristãs, se empenharão em promover e preservar uma perfeita paz no mundo. Todos os governos serão regidos pelo princípio da perfeita justiça. Todos os homens adotarão e viverão sinceramente os valores morais e espirituais do Evangelho de Cristo. Haverá perfeita harmonia entre as raças e as classes sociais. Todos serão felizes, porque a justiça reinará no mundo. Este é o Reino Milenar de Cristo que durará por um período longo e indefinido de tempo, não necessariamente mil anos medidos pelo calendário.

4)      Antes da “parousía” e após o milênio virá a apostasia em escala mundial que provocará uma explosão de iniquidade que culminará com a manifestação do Anticristo que durará até a segunda vinda de Cristo. O milênio terminará com a volta pessoal e física de Cristo em glória. A volta de Cristo será imediatamente seguida da ressurreição de todos os mortos, salvos e perdidos, sem exceção, e do julgamento que definirá o destino e estado eterno de toda a humanidade.

5)      A Vinda de Cristo ocorrerá imediatamente após a ressurreição física de todos os mortos, justos e injustos, os quais contemplarão Cristo vindo nas nuvens com todos os anjos. Seguirá imediatamente o juízo final que definirá o destino eterno da humanidade.

 

2.1. Aspectos positivos do posmilenismo

1)      A dimensão presente do reino de Deus em expansão no mundo.

2)      Encoraja a ação missionária da igreja e o ativismo individual dos crentes.

3)      Reconhece que o reino de Deus tem um escopo mais amplo do que a igreja.

 

2.2. Aspectos negativos do posmilenismo

1)      O otimismo quanto à conversão de todas as nações da Terra.

2)      Ignora passagens bíblicas (como, por exemplo, Mt. 24:9-14) que retratam uma piora das condições espirituais da humanidade no tempo do fim.

 

3. Esquema doutrinário do premilenismo histórico

1)      O reino de Deus é terreno e será estabelecido por ocasião da Vinda Gloriosa de Cristo. Terá uma duração de mil anos. Tal como o posmilenismo, o premilenismo afirma que, durante o milênio, a vontade soberana de Deus será feita plenamente na Terra. Haverá perfeita paz, retidão e justiça entre todos os homens. Cristo, fisicamente presente no mundo, assentado no “trono de Davi”, na cidade de Jerusalém, governará politicamente as nações. Literalmente, será o “Soberano dos reis da Terra”, “o Rei dos reis e o Senhor dos senhores”.

2)      O reino milenar de Cristo deverá ser inaugurado em sua segunda vinda de forma dramática e cataclísmica. O milênio será precedido por uma deterioração das condições espirituais, morais e sociais que caracterizarão a desordem mundial à qual Cristo dará fim e estabelecerá uma nova ordem no mundo e no universo. No período imediatamente antes da segunda vinda de Cristo a igreja estará passando por um esfriamento espiritual generalizado. Para realizar os seus propósitos, Deus usará seu próprio poder e não os meios humanos.

3)      Os acontecimentos que precederão a vinda gloriosa de Cristo serão: a manifestação e império do Anticristo, a Grande Tribulação, o arrebatamento secreto da igreja e a conversão nacional dos judeus restaurados à “Terra da Promessa”. Os premilenistas divergem entre si quanto à presença da igreja na terra durante a grande tribulação. Alguns, os pré-tribulacionistas, acreditam que a igreja será arrebatada antes da tribulação; outros, os pós-tribulacionistas, afirmam que a igreja estará presente no mundo durante a referida tribulação.

4)      A vinda gloriosa de Cristo estabelecerá definitivamente o fim da era da graça e o encerramento da missão da igreja no mundo. Aqueles que, arrependidos dos seus pecados, tiverem crido no Messias e no Evangelho do Reino terão parte no reino milenar de Cristo; os demais aguardarão o julgamento que será realizado no fim do milênio.

5)      Durante o milênio Satanás estará literalmente preso, acorrentado e trancafiado no “abismo” (Ap. 20:1-3). Tal prisão terá a finalidade de impedir que ele seduza e engane as nações para mobilizá-las a uma rebeldia contra Cristo e seu povo. Perto do final do milênio ele será solto novamente e reunirá todos os ímpios para uma batalha final contra Cristo. Ele será derrotado com todas as suas hostes e lançado no lago de fogo preparado para eles.

6)      Haverá duas ressurreições corporais. A primeira somente dos remidos para reinarem com Cristo durante o milênio. A segunda do restante dos mortos no fim do milênio para o julgamento do último dia.

 

4. Esquema doutrinário do dispensacionalismo

            O Premilenismo Dispensacionalista é uma escola escatológica ultra radical que adota uma interpretação literal das Escrituras e sua escatologia é totalmente futurista. A escatologia dispensacionalista originou-se de uma pretensa “Revelação” que uma jovem escocesa de 15 anos, Margaret McDonald, teve no mês de abril de 1830 em Port Glasgow, sua cidade natal. 

As “visões” de Margaret McDonald foram notórias em toda a Escócia, e mui especialmente entre os grupos interessados nos fenômenos “carismáticos” que ali se manifestavam. Atualmente, todas as denominações pentecostais e carismáticas seguem tal corrente escatológica, a qual já tem se infiltrado nas igrejas históricas. Segundo o dispensacionalismo, há sete dispensações na história bíblica:

1)      O homem em inocência;

2)      O homem sob a consciência;

3)      O homem em autoridade sobre a terra;

4)      O homem sob a promessa;

5)      O homem sob a lei;

6)      O homem sob a graça;

7)      O homem sob o reinado pessoal de Cristo.

 

Segundo o premilenismo dispensacionalista, a chave imprescindível para compreender o futuro encontra-se em Dn. 9:24-27. As setenta semanas se referem a 490 anos (70 x7) e estão ligadas diretamente ao povo judeu reconhecido até hoje como povo eleito de Deus. O esquema escatológico do dispensacionalismo compreende as seguintes etapas:

 

Primeira:

Durante as sete primeiras semanas de anos Jerusalém foi reconstruída. Depois de tal período, houve o tempo das 62 semanas durante o qual houve o que chamam de “silêncio profético”. Esse foi o período interbíblico no fim do qual, durante a 69ª semana, veio o Messias para estabelecer em Israel o reino prometido. Por causa da rejeição israelita ao Messias, Deus teve que transferir o cumprimento da 70ª semana para o futuro, fazendo o “relógio profético” parar, para só voltar a funcionar no início da 70ª semana porvir. Um intervalo de tempo, mesmo não tendo sido previsto pelos profetas e que já dura quase dois mil anos, foi intercalado por Deus na história. Trata-se da era da igreja, durante a qual os gentios estão sendo evangelizados.

 

Segunda:

Após o tempo reservado para a igreja realizar seu programa missionário de evangelização mundial o “relógio profético” voltará a funcionar, fazendo cumprir-se a septuagésima semana, o tempo da manifestação do Anticristo e a vinda da “Grande Tribulação”. Os acontecimentos desse período serão os seguintes:

1)      Israel, que sempre esteve no centro do plano de Deus, voltará, por meio de uma intervenção divina, à sua terra de herança, reconstruirá o templo e restabelecerão os sacrifícios e o sacerdócio levítico.

2)      O poder político e econômico internacional estará nas mãos do Anticristo, a “Besta” ou o “Homem da Iniquidade”.

3)      O Catolicismo Romano, unido à Igreja Ortodoxa e ao Modernismo Protestante, será a religião promovida no mundo pelo Anticristo, simbolizada no Apocalipse pela “grande meretriz”.

4)      O pecado aumentará e atingirá níveis insuportáveis.

5)      Cristo voltará secretamente para arrebatar a sua igreja e para poupá-la da “Grande Tribulação” que o Anticristo moverá no mundo. Por ocasião desta vinda secreta de Cristo, todos os fiéis que morreram desde a era apostólica ressuscitarão corporalmente. Os fiéis vivos terão seus corpos transformados e, juntamente com os ressuscitados, serão arrebatados. O Espírito Santo será retirado do mundo que ficará entregue ao poder do Anticristo durante sete anos (70ª semana de Daniel 9). Tal acontecimento mundial provocará a conversão em massa de muitos judeus e de todos os cristãos nominais que não tiverem sido arrebatados. Todos os crentes que não foram arrebatados atravessarão a “Grande Tribulação”. Os judeus convertidos pregarão o Evangelho do Reino (não o evangelho da era cristã). Enquanto ocorre no mundo a Grande Tribulação, a igreja arrebatada celebra nos céus as “bodas do Cordeiro”.

6)      A ira de Deus se derramará através de juízos apocalípticos sobre a terra.

7)      Uma aliança feita com a nação de Israel será quebrada pelo Anticristo e isso provocará uma crise internacional que culminará na guerra do “Armagedom”.

8)      No fim dos 7 anos, Jesus virá em glória trazendo consigo sua igreja que fora antes arrebatada e todos os demais judeus se converterão. Nesta mesma ocasião Cristo destruirá o Anticristo. Os santos da “primeira ressurreição”, que antes haviam sido arrebatados com os fiéis vivos, agora de volta à terra, reinarão com Cristo durante mil anos.

9)      O milênio, na concepção dispensacionalista, será um reino judaico. Durante o milênio, cumprir-se-ão todas as profecias do Velho Testamento, segundo eles, “ainda não foram cumpridas”, especificamente Isaías 11 e Miquéias 4.

10)  Findo os mil anos, Satanás será solto e seduzirá as nações do mundo, reunindo-as para uma batalha final contra Cristo e a igreja. Satanás será derrotado, haverá a segunda ressurreição (corporal) da qual participarão somente os ímpios e todos os crentes que morreram durante a “Grande Tribulação”. Todos estes, juntamente com todos os que tiverem permanecido na incredulidade durante o milênio, o comparecerão ao juízo do grande tribunal. Satanás e os ímpios irão para o “lago de fogo” e os remidos glorificados habitarão na nova Jerusalém eternamente.

 

A interpretação que os dispensacionalistas fazem da septuagésima semana de Daniel 9 e da segunda vinda de Cristo é contraditória ao pensamento geral do Novo Testamento e fundamenta-se em textos extraídos do contexto. Isto nos leva a muitas objeções. Objeções ao premilenismo dispensacionalista:

 

1)      Os judeus não são mais, com exclusividade, o povo eleito de Deus, nem as atenções de Deus estão centralizadas na nação israelita.

·         Deus não tem na terra dois povos escolhidos, mas um só, a igreja (1Pe. 2:9-10). A igreja foi formada originalmente, e ainda hoje é também, de dois povos: judeus e gentios (Ef. 2:11-18; Gl. 3:26-29; Cl. 3:11-12a; 1Co. 12:13; Rm. 9:22-27; Rm. 10:12-13).

·         Os judeus, como descendentes de Abraão, não são mais o povo de Deus em virtude de terem rejeitado o Messias (Mt. 21:33-43; Jo 8.41-44).

 

2)      Não há previsão bíblica de uma religião a ser promovida pelo Anticristo no mundo.

·         No Novo Testamento há apenas o registro da apostasia que antecederá à manifestação do Anticristo, “homem do pecado” (2Ts. 2:3).

·         Tal Anticristo ou “homem do pecado” se manifestará como oponente declarado contra todo e qualquer sistema religioso, pois ele se opõe “contra tudo que se chama deus” (2Ts. 2:4).

 

3)      Não há previsão bíblica de um arrebatamento secreto da igreja três anos e meio antes da “parousia”.

Os textos que narram o arrebatamento da igreja, que são Mt. 24:29-31 e 1Ts. 4:13-17. Ao contrário do que afirmam os premilenistas, estas passagens descrevem o arrebatamento da igreja da seguinte forma:

·         Não ocorrerá 3 anos e meio antes, mas simultaneamente à manifestação de Jesus em glória, vindo nas nuvens do céu (Mt. 24:30-31 e 1Ts. 4:15-17);

·         Não será secreto, pois “todos os povos se lamentarão e verão...” (Mt. 24:30);

·         Não será secreto, porque todos ouvirão “grande clangor de trombetas” (Mt. 24:31; 1Ts. 4:16-17).

 

4)      Não há previsão bíblica de um reino de Cristo na terra com os crentes ressuscitados corporalmente em uma “primeira ressurreição”.

·         Jesus afirma categoricamente que o reino de Deus não é visível, pois não tem natureza material, não é terreno ou político, mas sim, um reino espiritual e eterno (Lc. 17:20-24; Jo. 18:36).

·         O único texto onde menciona o reino milenar de Cristo (Ap. 20:1-10) não declara que o seu reinado será na terra.

·         Não há previsão de uma ressurreição física em duas etapas ou dois períodos diferentes, mas todos ressuscitarão por ocasião da vinda de Cristo em glória para o juízo final (Mt. 25:31-32; 1Co. 15:50-54; Jo. 6:39, 40, 44, 54).

 

5)      Não há previsão bíblica da conversão de toda a nação israelita após a segunda vinda de Cristo.

Não há possibilidade de salvação após a segunda vinda de Cristo por duas razões:

·         HOJE é o tempo da salvação (2Co. 6:2; Hb. 3:7-15).

·         Após o período da evangelização do mundo, que antecede a segunda vinda de Cristo, “virá o fim” (Mt. 24:14).

 

5. Esquema doutrinário do amilenismo

            O amilenismo surgiu com Agostinho que, diante da carnalidade dos premilenistas da sua época, abandonou tal corrente doutrinária. Influenciado por Ticônio, um donatista do século IV, Agostinho concluiu que o capítulo 20 de Apocalipse tratava do intervalo entre a primeira e a segunda vinda de Cristo. A ênfase amilenista é: não haverá um milênio literal de reinado de Cristo na terra.

Os principais postulados do amilenismo são os seguintes:

1)      A segunda vinda de Cristo inaugurará o estado final e a era eterna tanto para os crentes como para os incrédulos.

2)      A época do retorno de Cristo será anunciada pelo aumento intenso da iniquidade, das falsas doutrinas, crise econômica mundial, cataclismas intensos e cada vez mais frequentes na natureza, o anúncio do evangelho a todas as nações da terra e, por fim, “o sinal do Filho do Homem” (Mt. 24:1-30; 2Pe. 3:3-10).

3)      A segunda vinda de Cristo será seguida imediatamente pela ressurreição dos mortos, o juízo final e o destino eterno dos crentes e incrédulos (Mt. 25:31-46; At. 17:30-31; Hb. 9:27; 2Co. 5:10; Jo. 5:27-29).

4)      A passagem bíblica de Ap. 20:1-15 é simbólica e não pode ser interpretada literalmente.

·         Não faz sentido interpretar literalmente mil anos de prisão de Satanás com correntes, lançado no “abismo” selado, enquanto Cristo, juntamente com os crentes ressuscitados fisicamente, reina na terra, convivendo simultaneamente com pecadores mortais, enquanto os demais mortos – os ímpios – aguardam a “segunda ressurreição” para o julgamento final.

·         Não faz sentido interpretar literalmente a soltura de Satanás para enganar todas as nações a fim de invadirem Jerusalém onde Cristo reina com sua igreja, pois que pessoa, depois de ver com seus próprios olhos Cristo, anjos e os santos glorificados habitando na terra, ainda permanecerá incrédula e perversamente capaz de crer no diabo a ponto de se unir ao seu exército para uma batalha física contra Cristo, seus anjos e sua igreja?

·         Não faz sentido (nem há respaldo bíblico) haver em um mundo corrompido pelo pecado um reinado de Cristo com anjos e santos glorificados, residindo na terra onde o pecado e a morte não tenham sido erradicados definitivamente.

5)      O capítulo 20 de Apocalipse, como todos os demais, é simbólico e deve ser interpretado à luz da Bíblia como um todo.

·         O reino de Cristo não é terreno, material, visível; isto é, não tem as características dos reinos dos homens, mas é divino, espiritual e celeste (Jo. 18:36; Lc. 17:20-21).

·         A morada dos remidos glorificados é o céu e não a terra (Jo. 14:1-3; Fp. 3:20-21; 2Tm. 4:18).

·         O reino de Cristo já existe desde a sua primeira vinda e ele está reinando com os santos no céu e na terra (Mt. 12:28; 28:18; Rm. 5:17; 1Co. 15:20-28; Cl. 1:12-13; 1Pe. 3:22; Ef. 1:20-22). “Mil anos” deve ser entendido como o longo tempo da era presente do reino de Cristo e de sua igreja.

·         A “primeira ressurreição” deve ser compreendida como ressurreição do espírito e a segunda, como ressurreição do corpo. A primeira ressurreição está diretamente relacionada no texto às almas dos DECAPITADOS (referência aos mártires que sofreram a pena de morte por decapitação “por causa do testemunho de Jesus, bem como por causa da Palavra de Deus”). As almas dos decapitados “viveram e reinaram com Cristo durante mil anos” (Ap. 20:4) é uma expressão usada para descrever que, apesar de terem morrido fisicamente como mártires na terra, estão redivivos no céu reinando com Cristo (Jo. 5:24-29; Jo. 11:25-26; Ef. 2:1-6; Cl. 3:1).

·         A segunda ressurreição, descrita como “o restante dos mortos não reviveram até que os mil anos se completassem”, deve ser compreendida como a ressurreição física de todos os que morreram na incredulidade e que, pelo fato de não terem sido regenerados, são mortos espirituais que serão ressuscitados fisicamente, para comparecerem como réus diante do grande tribunal, para serem julgados um por um e receberem como destino eterno o “lago de fogo, a segunda morte” (vv. 11-15).

 

5.1. O milênio na concepção amilenista

            O livro do Apocalipse é um livro de símbolos; uma série de “cenários dramáticos” típicos de um estilo literário judaico que denominamos hoje de “escritos apocalípticos”. Tal estilo era próprio da época denominada pelos atuais estudiosos de período interbíblico, durante o qual se fortaleceu intensamente a esperança messiânica entre os judeus. As figuras dos símbolos são tomadas do Velho Testamento, em particular dos livros de Ezequiel e Daniel. Os escritos apocalípticos eram produzidos em época de perseguição.

O livro, em resumo, consiste em duas principais divisões, que descrevem, em linguagem simbólica, a luta entre a Igreja e o mundo (caps. 1 a 11), e o grande conflito espiritual entre a Igreja e Satanás (caps. 12 a 22). Nestas duas grandes divisões vemos em contraste o Grande Livro Selado (5:1) e o Livrinho Aberto (10:2).

O Livro Grande é o conselho secreto de Deus a respeito do julgamento de um mundo pecador. Envolve o destino de todo o gênero humano. Está “selado”, é segredo, só conhecido de Jesus Cristo, em cujas mãos o Pai entregou todas as coisas. Nesta seção os homens não lutam contra Deus, estão sem recursos, desarmados. O Livrinho contém revelações concernentes à Igreja Cristã e seu conflito com seus adversários. O grande assunto da segunda divisão é o que a Igreja é, faz e sofre, e não o que Deus é e faz, como se vê na primeira divisão principal.

Na divisão do Grande Livro, o Cordeiro é a figura dominante; na divisão do Livrinho, os principais personagens são a Mulher e o Dragão. As duas seções são as duas partes de um todo quando, vencidos o Dragão e seus aliados, o Cordeiro desposa a Mulher e vive com ela para sempre num lindo lar. Nestas duas grandes divisões, há sete seções; cada qual compreendendo toda a era do Novo Testamento, do Primeiro ao Segundo Advento de Cristo, terminando cada seção com Cristo e sua Igreja triunfantes na Segunda Vinda, que serve de introdução à eternidade. As sete subdivisões são:

1)      Cristo supremo em sua Igreja (caps. 1 a 3);

2)      A Igreja sob provação (caps. 4 a 7);

3)      A Igreja vindicada (caps. 8 a 11);

4)      Cristo combatido por Satanás e seus ajudantes (caps. 12 e 13);

5)      A ira de Deus contra os impenitentes (caps. 15-16);

6)      A queda de Babilônia e as bestas (caps. 17 a 19);

7)      Cristo e sua Igreja vitoriosos (caps. 20 a 22).

 

O capítulo 20 de Apocalipse divide-se em quatro parágrafos naturais:

1)      A prisão de Satanás (vv.1-3);

2)      O reinado dos santos (vv. 4-6);

3)      A soltura de Satanás (vv.7-10);

4)      O Juízo do Grande Tribunal (vv.11-15).

 

5.2. A prisão de Satanás

O primeiro parágrafo contém sete símbolos: uma chave, um poço (“abismo”), grande cadeia, um dragão, uma serpente, um milênio e um selo. O Espírito Santo interpreta dois destes símbolos e assim nos dá a entender a interpretação dos demais.

Os símbolos do “dragão” e da “serpente” referem-se ao “Diabo, Satanás” (20:2; cf. 12:9). O “poço do abismo” interpreta-se como sendo a “prisão” de Satanás (20:7). A figura de “prisão” traz a ideia de justiça divina dominando e restringindo as forças do mal por decreto e propósito. “Abismo”, profundidade sem termo, sugere um afastamento irremediável, contínuo da presença de Deus. Se o poço é simbólico, não é possível abri-lo com uma chave literal. Daí, a chave como símbolo sugere o que solta, ou fecha, ou restringe. A não ser que a coisa a ser ligada ou presa seja de substância material, uma chave literal será de pouco proveito, e uma vez que Satanás é um espírito, nenhuma cadeia material pode prendê-lo. A cadeia sugere o decreto e o poder divinos, que detêm e submetem o réu no abismo, enquanto que o “selo” é símbolo da autoridade divina (5:2-3). Satanás é apresentado sob os símbolos descritivos de “dragão”, animal feroz; de “serpente” astuta; de “diabo”, que significa difamador, falso acusador, caluniador, e “Satanás”, oponente e adversário de Deus e do seu Cristo.

“Mil” é no Apocalipse um número simbólico como todos os demais e faz parte dos mistérios da numerologia hebraica. Como exemplos disso, temos o número 7, que tem o sentido de plenitude, totalidade, todo, completo. Um cordeiro com 7 chifres e 7 olhos, “que são os sete espíritos de Deus”, é visto como símbolo da onipotência e onisciência do Cristo glorificado e do Espírito Santo (Ap. 5:6).

Outro exemplo é o número 10, que tem o sentido de amplitude e extensão. Uma besta com 10 chifres e 10 diademas identifica Roma e a extensão do seu poderio imperial no mundo da era apostólica. O número 40 relaciona-se à angústia, juízo divino, provação, etc. (Gn. 7:17; Nm. 14:35; Lc. 4:1-2). Como os demais números, 40 é também simbólico. O número 4 é o número do universo (4 pontos cardeais: norte, sul, leste e oeste). O número 12 é o número do povo de Deus (12 patriarcas, filhos de Jacó, 12 tribos de Israel, 12 apóstolos; a igreja que nasceu no dia de Pentecostes com 120 membros = 12 x 10, para designar a multiplicação indefinida do número de discípulos. Os 144.000 selados = 12 x 12 x 1000, equivalem à multidão que ninguém podia contar de toda tribo, língua, povo e nação).

Os “mil anos”, de igual modo, devem ser entendidos simbolicamente. O número 1000 é o produto de 10 x 10 x 10. O número 10 (que significa intensidade, amplitude, grandeza e imensidão) está relacionado a potência mundana, poder governamental intenso (Ap. 13:1; cf. Dn. 7:19-24). O número 1000 tem sido usado em toda a Bíblia simbolicamente para transmitir a ideia de imensidão, intensidade, grandeza de extensão indefinida, tanto referente ao tempo como a quantidade (Exemplos: Dt. 1:10-11; 7:9; Ex. 20:5; Jz 15:14-16; Ec 7:28; Sl. 90:4; 2Pe. 3:8). Desta forma, “mil anos” deve significar um tempo muito longo de duração indefinida, conhecido somente por Deus e desconhecido pelo homem. É o tempo do reino de Cristo com sua igreja que compreende o período entre sua primeira e sua segunda vinda, durante o qual Satanás está “amarrado” (Mt. 12:22-29). A doutrina central de Ap. 20:1-3 é que Satanás está preso durante toda a era cristã, ou “dia da salvação”, até pouco antes da Segunda Vinda de Cristo (Ap. 20:2). Isto pode ser melhor observado da seguinte forma:

1)      Cristo prendeu Satanás em sua primeira vinda. Ele foi a semente prometida da mulher que haveria de esmagar a cabeça da serpente (Gn. 3:15). Ele é o mais forte que entrou na casa do valente e o amarrou (Mt. 12:29).

2)      Cristo venceu Satanás por sua morte na Cruz e por levantar-se do túmulo, tirando-lhe a armadura em que confiava e dividindo os despojos (Lc. 11:22).

3)      Cristo foi manifestado em sua encarnação “para destruir as obras do diabo” (1Jo. 3:8), “... para destruir aquele que tem poder sobre a morte, a saber, o diabo...” (Hb. 2:14).

4)      O Espírito Santo revela em Ap. 20:3 que a prisão de Satanás durante esta era do Evangelho limita-se apenas em privá-lo de “enganar as nações”.

 

O significado desta parte da visão que se refere ao reinado dos santos obtém-se através de três perguntas: Quem são estes santos? Que se deve compreender por esse reinado deles? Por que são bem-aventurados os que tomam parte na primeira ressurreição? A resposta destas perguntas segue abaixo.

 

5.3. O reinado dos santos

“Vi também tronos e nestes sentaram-se...” (v.4). O trono de Cristo e do seu povo, no livro do Apocalipse, apresenta-se como estando no céu (1:4; 3:21; 4:2, 3, 5, 6, 9, 10; 5:6, 7, 11, 13; 6:16; 7:9, 10, 11, 15, 17; 8:3; 12:5; 14:3, 5; 16:17; 19:4, 5; 20:4, 11; 21:5; 22:1, 3).

Trono é símbolo de autoridade e governo. Alguns são vistos pelo apóstolo João “sentados” nestes tronos e deles se diz serem “as almas dos decapitados por causa do testemunho de Jesus, como por causa da palavra de Deus, tantos quantos não adoraram a besta, nem tão pouco, a sua imagem, e não receberam a sua marca na fronte e na mão; e viveram e reinaram com Cristo durante mil anos” (20:4).

            O apóstolo diz: “vi as almas”, não diz que viu os CORPOS. Temos aqui outra refutação da interpretação premilenista que supõe ser futura a primeira ressurreição (corporal) dos santos somente. Além disso, o Apóstolo está falando do começo da era cristã, visto que emprega a palavra DECAPITADOS, o que aponta para o tempo dos que sofreram como mártires às mãos da Besta em sua forma imperial, Roma pagã, que executava as punições da lei pelo machado, que era a insígnia do poder romano.

            Estes santos que morreram decapitados “viveram e reinaram com Cristo durante mil anos”. Com respeito ao restante dos mortos “não reviveram até que se completassem os mil anos. Esta é a primeira ressurreição”.  O apóstolo João, menciona os ensinos de Jesus sobre a ressurreição como havendo duas ressurreições:

1)      A primeira ressurreição é espiritual – “Eu sou a ressurreição e a vida, quem crê em mm, ainda que MORRA (fisicamente), VIVERÁ (espiritualmente); e todo o que VIVE (fisicamente) e crê em mim não MORRERÁ ETERNAMENTE (segunda morte) – Jo. 11:25-26. “Se alguém guardar a minha palavra não VERÁ A MORTE (segunda morte) – Jo. 8:51. Todo crente verdadeiro passou de um estado de morte espiritual (Ef. 2:1) para outro de vida espiritual (Jo. 5:24). “Em verdade, em verdade vos digo que vem a hora e já chegou, em que os MORTOS (espirituais) ouvirão a vós do Filho de Deus; e os que a ouvirem VIVERÃO (espiritualmente)” – Jo. 5:25. “Portanto, se FOSTES RESSUSCITADOS (espiritualmente) juntamente com Cristo, buscai as coisas lá do alto, onde Cristo vive, assentado à direita de Deus” (Cl. 3:1).

2)      A segunda ressurreição é corporal – “Não vos maravilheis disto, porque vem a hora (mas ainda não chegou) em que TODOS OS QUE SE ACHAM NOS TÚMULOS (mortos fisicamente) ouvirão a sua voz e sairão (ressurreição física): os que tiverem feito o bem, para a ressurreição da vida (eterna); e os que tiverem praticado o mal, para a ressurreição do JUÍZO (morte eterna, segunda morte)” – Jo. 5:28-29. Isto implica em dizer que a primeira ressurreição é espiritual e, por esta razão, sobre os que a experimentaram a segunda morte não tem autoridade (Ap. 20:6); e a segunda ressurreição é física que abrangerá todos, tanto os salvos como os perdidos. Os perdidos ressuscitarão (fisicamente) para o juízo de condenação (segunda morte, o lago de fogo).

3)      Com referência aos “mil anos”, estes tornaram-se o símbolo dos “últimos dias”, A ERA MESSIÂNICA (do domínio do Messias como Soberano do Universo, cf. Mt. 28:18; 1Co. 15:25-28), o longo tempo de espera (parece demorada para alguns) que antecede ao “Dia do Senhor” (2Pd. 3:3-10). Isto nos faz identificar os mil anos de Ap. 20:1-3 com a era em que Satanás está, desde a primeira vinda de Cristo, vencido, despojado, reduzido à condição de prisioneiro – “amarrado” – e em que o reino de Cristo se estabeleceu no mundo (Lc. 11:20-22; Cl. 2:15; 1:13). Não devemos nos esquecer que a igreja é portadora das “chaves do reino dos céus” (Mt. 16:18), que a Cristo foi dada “toda autoridade nos céus e na terra” (Mt. 28:18), que a igreja é um “reino sacerdotal” e, como tal, está reinando espiritualmente no mundo (Ap. 5:9-10; Rm. 5:17; Cl. 1:13). Todos os que já são novas criaturas são também “embaixadores em nome de Cristo” (representantes legais do reino dos céus na Terra) – 2Co. 5:17-20.

 

5.4. A soltura de Satanás

            Quando esta era do Evangelho, o último período da história humana, chegar perto do seu termo, Satanás será solto de sua prisão por “pouco tempo” (20:3, 7). Aqui é revelado o motivo da prisão e da soltura de Satanás, para “enganar as nações” (20:3, 8). Isto concorda com o que Paulo ensina em 2Ts. 2:11-12 que diz: “É por este motivo, pois, que Deus lhes manda a operação do erro, para darem crédito à mentira, a fim de serem julgados todos quantos não deram crédito à verdade; antes, pelo contrário, deleitaram-se com a injustiça”.

            A soltura de Satanás, para seduzir as nações, é uma decepção total e universal , tendo-se em vista a única coisa pela qual fora preso, a saber, “reunir as nações para a peleja” (20:28). Esta última batalha do conflito espiritual das eras vem mencionada em Ap. 16:12-16; 17:9-11; 14:18; 19:11-21 e 20:7-10.

A igreja aparece nestes versos sob os símbolos de “acampamento” e “cidade querida”. O apóstolo João fala de “Gogue e Magogue”, que não são os mesmos a quem Ezequiel se refere (Ez. 38 e 39). Gogue e Magogue da referência de Ezequiel foram a última tentativa de destruição do Judaísmo antes do primeiro advento de Cristo, ao passo que Gogue e Magogue do Apocalipse são a última e final tentativa de eliminar da terra o Cristianismo Bíblico e histórico, ANTES DO SEGUNDO ADVENTO DE CRISTO. Mas fogo cairá do céu, da parte de Deus, e os devorará. Fogo acompanha a volta de Cristo, segundo o testemunho de Paulo e Pedro (2Ts. 1:7; 2Pe. 3:10-12), com os quais João concorda.

 


CAPÍTULO XXIII

A SEGUNDA VINDA DE CRISTO

 

 

1. Significado do evento

A segunda vinda de cristo é a base da esperança cristã, o evento que marcará o início da complementação do plano de Deus. Neste evento todos os propósitos divinos haverão de ser alcançados, concretizando-se, assim, os eternos desígnios de Deus. Vários termos são usados para designar este grande evento:

a)       Apocalypsis (revelação, desvendamento) – que indica a remoção daquilo que agora obstrui a nossa visão de Cristo (1Co. 1:7; 2Ts. 1:7; 1Pe. 1:7, 13; 4:13).

b)      Epiphaneia (aparecimento, manifestação) – refere-se à vinda de Cristo trazendo as bênçãos da salvação (2Ts. 2:8; 1Tm. 6:14; 2Tm. 4:1, 8; Tt 2:13).

c)       Parousia (literalmente, presença) – que significa a manifestação de Cristo no esplendor de sua glória, em sua volta triunfante (Mt. 24:3, 27, 37; 1Co. 15:23; 1Ts. 2:19; 3:13; 4:15; 5:23; 2Ts. 2:1-9; Tg. 5:7-8; 2Pe. 1:16; 3:4, 12; 1Jo. 2:28).

 

1.1. A segunda vinda de Cristo, um único evento

Uma das correntes da Escatologia, o Premilenismo Dispensacionalista, declara categoricamente que haverá no futuro duas vindas de Cristo. A primeira, sendo secreta, para o arrebatamento da igreja. A segunda, que ocorrerá três anos e meio depois, será a vinda em glória para o reino milenar de Cristo na terra; ocasião em que ocorrerá a primeira ressurreição de todos os remidos, os quais haverão de reinar com Cristo por mil anos na terra, tempo em que Satanás estará preso. As Escrituras ensinam que haverá um único evento:

 

1.1.1. O que disse Jesus

a)       Respondendo à pergunta dos seus discípulos em Mt. 24:3, Jesus fez referência a “um dia” e “hora” (Mt 24:36).

b)      Em momento nenhum Jesus se referiu a um suposto arrebatamento secreto da igreja. Jesus declarou que sua vinda será tão visível que “todos os povos da terra se lamentarão e VERÃO o Filho do Homem vindo sobre as nuvens...” (Mt. 24:30).

c)       Ao se referir ao arrebatamento da igreja Jesus declarou que o mesmo será visível e ocorrerá no dia da “parousía” (Mt. 24:30-31).

 

1.1.2. O que disse Paulo

a)       Paulo faz referência à segunda vinda de Cristo como um único evento ao citar que “o dia do Senhor vem como ladrão de noite” (1Ts. 5:1).

b)      Paulo diz que a “vinda de nosso Senhor Jesus Cristo e nossa união com ele – arrebatamento da igreja – acontecerão no “Dia do Senhor” (2Ts 2:1-2).

c)       O apóstolo Paulo declara explicitamente que tudo isso acontecerá “quando do céu se manifestar o Senhor Jesus com os anjos do seu poder... quando vier para ser glorificado nos seus santos e ser admirado em todos os que creram naquele dia” (2Ts. 1:7-10).

 

1.2. A segunda vinda de Cristo será pessoal e física

O Novo Testamento é enfático quanto ao caráter desse evento. Em primeiro lugar, é dito explicitamente que “o Senhor mesmo [...] descerá dos céus” (1Ts. 4:16). Isto significa que Jesus em pessoa, de forma visível e física virá dos céus. O próprio Jesus disse: “E, quando eu for e vos preparar lugar, voltarei e vos receberei para mim mesmo, para que, onde eu estou, estejais vós também” (Jo. 14:2).

Em segundo lugar, o Novo Testamento declara que a forma como Jesus virá será física e visível “... Varões galileus, [...] Esse Jesus que dentre vós foi assunto ao céu virá do modo como o vistes subir” (At. 1:11). Em Ap. 1:7 é dito: “Eis que vem com as nuvens e todo olho o verá, até quantos o traspassaram. Certamente. Amém”.

 

2. Os acontecimentos dos últimos dias

Antes de tudo, é necessário sabermos o que significam “os últimos dias” na profecia bíblica. Os últimos dias, segundo as Escrituras, formam o período que se estende da primeira à segunda vinda de Cristo. Vejamos algumas passagens bíblicas: a) Is. 9:1-7 – a vinda do Messias e do reino a partir da Galileia; b) At. 2:17 – a era do derramamento do Espírito Santo e da salvação; c) 1Tm. 4:1 – era da apostasia da igreja.

 

2.1. A rejeição dos incrédulos de Israel e o chamamento dos gentios

A primeira vinda de Cristo teve o propósito de estabelecer o reino de Deus anunciado pelos profetas (Dn. 2:44; 7:18, 27; Jr. 23:5-6; cf. Mc. 1:14-15), estabelecido por Jesus (Mt. 12:28; Jo. 18:36-37), presente na história (Lc. 17:20-21; Mt. 28:18; cf. 1Co. 15:24-25), mas que só será consumado, isto é, complementado na parolais (Mt. 13:40-43; 25:34, 41).

Em sua primeira vinda, Jesus veio iniciar a implementação do reino de Deus em e por meio de Israel que, devido à sua concepção distorcida do reino de Deus, rejeitou Jesus como o Messias. “As ovelhas perdidas da casa de Israel” que tinham sido a prioridade do ministério de Jesus (Mt. 15:24; 10:6) tornaram-se, pela rejeição a Cristo, um povo destituído do reino (Mt. 8:11-12; 21:43; Jo. 8:41-47). Por esta razão, Jesus anunciou o fim da religião judaica (Mt. 24:1-12; Jo. 4:19-24) e Israel e Jerusalém tornaram-se o alvo da ira de Deus (Lc. 19:41-44; 21:20-24).

A antiga aliança de Deus com Israel deu lugar à “nova e eterna aliança” firmada por Jesus com o novo povo de Deus, a igreja, que herdou todas as promessas de Deus para com Israel (1Pe. 2:9-10; cf. Ex. 19:5-6). O lugar de Israel no reino é oferecido aos gentios de todas as nações e raças as quais são chamadas através da pregação do “Evangelho do Reino” (Mt. 24:14; 28:19; At. 1:6-8).

 

2.2. A grande tribulação e a apostasia da igreja

            Outro acontecimento dos últimos dias é a apostasia da igreja durante o período da grande tribulação. Tal apostasia haveria de se manifestar na igreja e o mundo (Mt. 24:4-12). Nesta passagem Jesus menciona três causas da apostasia:

1)      A proliferação e engano de seitas e falsos profetas (vv. 4, 5, 11, 24);

2)      A vida carnal da igreja manifestada por meio de escândalos (v. 10);

3)      A perda da espiritualidade e do temor a Deus (v. 12).

 

Apesar de tudo isso, “será pregado este evangelho do reino por todo o mundo, para testemunho a todas as nações. Então, virá o fim” (v. 14). A grande tribulação ocorre em todo o período da história da igreja no mundo. Ela começa com a perseguição da igreja, o juízo de Deus sobre Israel e a destruição de Jerusalém (Mt. 24:9, 15-22; Lc. 21:20-24); se intensificará ao longo da história (Mt. 24:8), trazendo destruições e grande morticínio por meio de guerras, fome, pestes, terremotos e maremotos (Lc. 21:7-11, 25, 26) e findará com a parolais (Mt. 24:29).

 

2.2.1. A manifestação do anticristo

Louis Berkhof, ao falar sobre o termo “antichristos”, diz que tal termo só apareceu nas epístolas de João (1Jo. 2:18, 22; 4:3; 2Jo. 7) e pode significar alguém que toma o lugar de Cristo, ou ainda, alguém que, embora assumindo a aparência de Cristo, opõe-se a ele.

Na linguagem do apóstolo João (1Jo. 4:3) o “espírito do anticristo” que havia de vir “já está no mundo” e manifesta-se em todo falso profeta. Os “pseudoprophetai” e “pseudochistoi” tomam posição contra Cristo e contra seu reino (Mt. 7:15; 24:5, 24; Mc. 13:21-22; Lc. 17:23).

            Na concepção de Paulo, embora o espírito do anticristo já esteja no mundo – “o mistério da iniquidade já opera” (2Ts. 2:7) – o anticristo é personificado no que Paulo chama de “o homem da iniquidade, o filho da perdição” (2Ts. 2:3) e “o iníquo” (2Ts. 2:9), cujo caráter revela-se como:

1)      Oponente declarado de Deus e de todo sistema religioso (v. 4);

2)      Alguém que atribui divindade a si próprio (v. 4);

3)      Age segundo a eficácia de Satanás (v. 9);

4)      É perito na arte de enganar (v. 10).

5)      Com respeito ao anticristo podemos declarar que:

6)      O espírito do anticristo já estava em ação nos dias de Paulo e João;

7)      Ele alcançará o seu poder supremo nas proximidades do fim da era presente;

8)      Que provavelmente esse poder afinal se concentrará num só indivíduo, vindo a ser a encarnação da iniquidade.

 

3. A “Parousia”

            A segunda vinda de Cristo é tão necessária quanto foi a sua primeira vinda, pois nela haverá de se concretizar todo o desígnio de Deus para com a sua criação. O plano da redenção não se consumará enquanto não houver a erradicação plena de todo o “império das trevas” e a criação de “um novo céu e uma nova terra”.

 

3.1. Propósito da “Parousía”

            Cristo voltará no fim da era presente para introduzir a era vindoura na qual será determinado o estado eterno de toda a criação. Para que isso aconteça, alguns eventos deverão ocorrer: a ressurreição dos mortos, o juízo final e a criação de um novo céu e uma nova terra.

 

3.1.1. A ressurreição dos mortos

            A restauração do homem, segundo o Novo Testamento, realiza-se em duas etapas: a redenção da alma e/ou espírito e a redenção do corpo. O pecado trouxe, como recompensa para o homem, a morte em duas dimensões: espiritual e física, nessa ordem. A redenção do homem, por sua vez, ocorre também em ambas dimensões: espiritual e física, nessa ordem. Portanto, a ressurreição ocorre em duas etapas: a primeira ressurreição é a do espírito (Jo. 5:24-25; Rm. 6:1-11; 8:1-2; Ef. 2:1-7; Cl. 3:1-3); a segunda ressurreição é a do corpo (Dn. 12:2; Jo. 5:28-29; 6:39-40, 54; 1Co. 15:35-54). Sem a ressurreição do corpo não há erradicação do império da morte prometida em Ap. 21:4.

 

3.1.2. O juízo final

            O juízo final é também chamado de “ira vindoura” (Mt. 3:7) no qual Deus manifestará sua justiça retributiva “vingança” contra os rebeldes contra Deus (2Ts. 1:7-9; Rm. 12:19; Ap. 6:10; 19:2). O juízo final trará:

1)      Julgamento da humanidade – salvos e perdidos (Mt. 25: 31-46; 2Co. 5:10; 2Tm. 4:1; Ap. 20:11-15);

2)      Destruição de todos os poderes hostis ao reino de Deus (2Ts. 1:8; Ap. 20:14).

 

No que se refere ao julgamento da humanidade as Escrituras dizem que tal julgamento ocorrerá segundo as obras de cada um. “Para todos os homens a entrada no céu, ou a exclusão dele, dependerá da questão se estão revestidos da justiça de Cristo. Mas haverá diferentes graus, tanto de ventura no céu como de castigo no inferno. E esses graus serão determinados pelo que é feito quando na carne, Mt. 11:22, 24; Lc. 12:47, 48; 20:47; Dn. 12:3; 2Co. 9:6”. (Louis Berkhof).

 

3.1.3. A nova criação do universo (Ap. 21:1-5; cf. Is. 65:17; 66:22)

            A vinda triunfante de Cristo com poder e grande glória não somente trará uma nova ordem ao universo, mas restaurá-lo-á complemente. A natureza, afetada pelo pecado humano, ficou sujeita ao “cativeiro da corrupção” e, portanto, aguarda “gemendo” sua redenção vindoura (Rm. 8:19-25). Mas, antes da nova criação, o juízo de fogo destruidor virá sobre a terra e tudo que nela há (2Pe. 3:7-12). Então, somente depois, segundo a promessa de Deus, haverão “novos céus e nova terra, nos quais habita a justiça” (2Pe. 3:13).

 

3.1.4. Definição do estado eterno da humanidade

            O juízo final determinará o estado final e eterno de todos os que haverão de comparecer perante o tribunal de Cristo. Tal estado é definido pelo lugar e pela forma de vida que terão como destino e condição eterna.

 

a) O estado eterno dos ímpios

            Os ímpios sofrerão a penalidade de sua condenação no inferno. Em hebraico, a palavra que traduz inferno “geena” (“ge” = terra ou vale e “hinnom” = Hinom ou “beney hinnom” = filhos de Hinom) foi dado ao lugar a sudoeste de Jerusalém onde os ímpios idólatras sacrificavam seus filhos a Moloque, fazendo-os passar pelo fogo. Fogueiras ardiam ali constantemente, para consumir o lixo de Jerusalém. Como resultado, veio a ser símbolo do lugar de tormento eterno.

Expressões como “fornalha acesa” (Mt. 13:42) e “lago de fogo” (Ap. 20:14-15) também são usadas para se referirem ao destino eterno dos ímpios. Com referência à punição dos ímpios, é impossível determinar precisamente o que constituirá a punição eterna deles. Positivamente, podemos dizer que consistirá em:

a)       Ausência total do favor de Deus;

b)      Uma interminável perturbação da vida, resultante do domínio completo do pecado;

c)       Dores e sofrimentos positivos no corpo e na alma;

d)      Castigos subjetivos como agonias da consciência, angústia, desespero, “choro e ranger de dentes” (Mt. 8:12; 13:50; Mc. 9:43, 44, 47, 48; Lc. 16:23, 28; Ap. 14:10; 21:8). Haverá graus de punição dos ímpios (Mt. 11:22, 24; Lc. 12:47, 48; 20:17). O “abismo” que separará os ímpios dos santos é intransponível e inalterável (Lc. 16:26).

 

b) O estado eterno dos justos

            O estado final dos remidos será precedido pela nova criação que em Mt. 19:28 é chamada de “regeneração” e em At. 3:28 é denominada de “restauração de todas as coisas”. Pedro diz: “Nós, porém, segundo a sua promessa, esperamos novos céus e nova terra, nos quais habita a justiça” (2Pe. 3:13).

            As Escrituras testificam que há um lugar para a habitação dos remidos (Jo. 14:1-3) que não é outro senão a “glória” divina (Jo. 17:24), ou “reino celeste” (2Tm. 4:18), “pátria” celestial (Fp. 3:20). Os salvos herdarão, não somente o céu, mas também a nova criação inteira (Mt. 5:5; Ap. 21:1-3).

            A recompensa dos justos é descrita como vida eterna que significa, não somente vida sem fim, mas vida em toda a sua plenitude, sem nenhuma das imperfeições e dos distúrbios da presente vida (Mt. 25:46; Rm. 2:7). A plenitude dessa vida é desfrutada na comunhão com Deus. A medida da recompensa de cada um é definida pelas suas obras (Dn. 12:3; Mt. 25:21, 23). A vida no céu é caracterizada por:

a)       Descanso (Hb. 4:9-11; Ap. 14:13);

b)      Adoração (Ap. 7:9-12; 19:1-5);

c)       Serviço (Lc. 22:28-30; Ap. 22:3);

d)      Vida em comunidade (Hb. 12:22-24).

 

RESUMO DA POSIÇÃO DOS BATISTAS[15]

 

1.       Deus só tem um povo escolhido e este é composto dos verdadeiros crentes; e também um só plano de salvação, que é pela fé no sacrifício expiatório de Cristo (Gl. 3:7, 26-29; 1Co. 12:13; Cl. 3:11; Ef. 2:14; 1Pe. 2:9).

2.       Os judeus, como tais, não são mais o povo de Deus (Mt. 21:33-45; Jo. 8:47; Gl. 3:16, 22-29; 4:21-30; 1Ts. 2:14-16).

3.       Só um remanescente israelita que se converteu perpetuou o verdadeiro Israel, a verdadeira “oliveira” na qual foram e são “enxertados” os gentios crentes e também judeus convertidos (Is. 10:22; Rm. 9:27; 11:17, 23).

4.       Promessas proféticas ao povo de Israel:

a)       Condicionais (Ex. 19:5; Dt. 28:15).

b)      Já cumpridas (Js 21:43-45; 23:11-16). O texto de Ne 9:7-8 é uma confirmação do cumprimento da promessa de Deus em ter devolvido Israel à sua terra, cuja restauração fora prevista por Ezequiel antes do retorno do cativeiro babilônico.

5.       Reino de Deus e Reino dos Céus – são sinônimos perfeitos e referem-se ao reino espiritual que Cristo estabeleceu na sua primeira vinda (Dn. 2:44; cf. Mt. 4:17 e Mc. 1:14-15; Mt. 5:3 e Lc. 6:20; Mt. 11:11 e Lc. 7:28; Mt. 13:11 e Mc. 4:11 e Mt. 19:23-24).

6.       A volta de Cristo

a)       O arrebatamento dos verdadeiros crentes não será secreto, mas público e notório (Mt. 24:27, 30-31; 1Ts. 4:16-17; 1Co. 15:52). O arrebatamento terá a finalidade de recepcionar a Jesus e para formar o cortejo glorioso na sua volta (Jd. 14).

b)      A ressurreição será uma só e simultânea, tanto dos justos como dos ímpios (Dn. 12:2; Jo. 5:28-29). A primeira ressurreição mencionada em Ap. 20:6 refere-se à conversão (Jo. 5:24-25) em contraste com a ressurreição dos corpos mencionados em Jo. 5:28-29; Cl. 3:1; Rm. 6:4, 11; Ef. 2:1, 6; 1Jo. 3:1-4).

7.       O juízo final – será universal e incluirá tanto os justos como os ímpios (Mt. 25:31-46; Mt. 12:41-42; 2Tm. 4:1; Ap. 20:11-15).

8.       O milênio – profetizado em Dn. 2:44, já iniciado com o ministério de Jesus (Mt. 3:2; Mt. 10:7; Lc. 17:20-21; Mt. 12:28), estabelecido em sua ascensão, quando todo o poder lhe foi dado no céu e na terra (Mt. 28:18), será consumado com a volta de Jesus. Os salvos mortos estão reinando com Cristo nos céus e os vivos, aqui na Terra (Rm. 5:17; Cl. 1:13).

a)       “Mil anos” é um número simbólico de um longo período. O simbolismo do número “mil” (1000) pode ser visto em Dt. 1:11; 7:9; 32:30; Js. 23:10; Ec. 6:6; Sl. 90:4 e 2Pe. 3:8. Portanto, o Milênio simboliza o período da graça.

b)      Satanás está derrotado, vencido, cerceado e reduzido à condição de prisioneiro – “amarrado” – (Mt. 12:28-29; Lc. 10:17-18; 11:20-22; Cl. 2:14-16; Hb. 2:14; 1Co. 10:13; Ap. 12:10).

 

 

BIBLIOGRAFIA BÁSICA

BERKHOF, Louis. Teologia Sistemática. São Paulo: Cultura Cristã, 2012.

FERREIRA, Franklin; MYATT, Alan. Teologia Sistemática: uma análise histórica, bíblica e apologética para o contexto atual. São Paulo: Vida Nova, 2007.

GRUDEM, Wayne. Teologia Sistemática. São Paulo: Vida Nova, 1999.

 

BIBLIOGRAFIA COMPLEMENTAR

BAVINCK, Herman. Dogmática Reformada. Trad. Vagner Barbosa. Vol. 1 a 4. São Paulo: Cultura Cristã, 2012.

CHAFER, Lewis Sperry. Teologia Sistemática. São Paulo: Hagnos, 2003.

ERICKSON, Millard J. Teologia Sistemática. São Paulo: Vida Nova, 2015.

GEISLER, Norman. Teologia Sistemática. Volumes I e II. Trad. Marcelo Gonçalves e Luis Aaron de Macedo. Rio de Janeiro: CPAD, 2010.

HODGE, Charles. Teologia Sistemática. São Paulo: Hagnos, 2001.

THIESSEN, Henry C. Palestras introdutórias à teologia sistemática. São Paulo: Batista Regular, 2014.

URETA, Floreal. Elementos de Teologia Cristã. Rio de Janeiro: JUERP, 1995.

 



[1] Henry C. THIESSEN. Palestras em teologia sistemática, p. 290.

[2] Francisco LACUEVA. Curso de formacion evangélica. Vol. 6, p. 74.

[3] Henry C. THIESSEN. Palestras em teologia sistemática, p. 295.

[4] Charles Van ENGEN. Povo missionário, povo de Deus, p. 61.

[5] Charles Van ENGEN. Ibdem, p. 65.

[6] Charles Van ENGEN. Ibdem, p. 66.

[7] Millard J. ERICKSON. Introdução à teologia sistemática, p. 444.

[8] Wayne GRUDEM. Teologia sistemática, p. 744.

[9] Louis BERKHOF. Teologia sistemática, p. 598.

[10] Millard J. ERICKSON. Ibdem, p. 454.

[11] Wayne GRUDEM. Teologia sistemática, p. 770.

[12] Louis BERKHOF. Ibdem, p. 599).

[13] Louis BERKHOF. Ibdem, p. 678.

[14] Harald SCHALY. O premilenismo dispensacionalista à luz do amilenismo. Rio de Janeiro: JUERP, 1984, pp. 21 a 22.

[15] Conteúdo extraído do livro O PREMILENISMO DISPENSACIONALISTA À LUZ DO AMILENISMO Autor: Prof. Harald Schaly.