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STBMA
– Seminário Teológico Batista do Maranhão |
Teologia Sistemática I |
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A
existência, natureza e obras de Deus |
José Vidigal Queirós Ano 2026 |
SUMÁRIO
Capítulo I – Prolegômena ............................................................................................................. 002
Capítulo II – A Crença em
Deus .................................................................................................. 006
Capítulo III – A Existência
de Deus
............................................................................................ 010
Capítulo IV – A
Cognoscibilidade de Deus
................................................................................ 014
Capítulo V – O Ser de Deus
........................................................................................................ 023
Capítulo VI – Os Atributos de
Deus
........................................................................................... 028
Capítulo VII – A Triunidade
de Deus ......................................................................................... 041
Capítulo VIII – As Eternas
Decisões de Deus ............................................................................ 049
TEOLOGIA
SISTEMÁTICA I
CAPÍTULO I
PROLEGÔMENA
1. A teologia como ciência
Teologia é uma ciência?
Para respondermos tal questão, precisamos, em primeiro lugar, de um conceito de
ciência. O que caracteriza qualquer ramo do conhecimento como uma ciência são
os seguintes elementos: um objeto de estudo, a pesquisa, um método específico
adotado no estudo e a sistematização das informações obtidas como resultado do
processo de investigação. Aplicando à Teologia os elementos que caracterizam o
conhecimento humano como ciência, podemos chegar à seguinte conclusão:
a) O objeto de estudo da
Teologia é a revelação;
b) A fonte de pesquisa é a
Bíblia Sagrada;
c) O método (ou métodos) de
estudo é, preferencialmente, o indutivo;
d) A sistematização consiste
na organização lógica da estrutura temática do conteúdo da investigação que
formulará o corpo doutrinário da Teologia como todo, ou de uma área da mesma.
2. Pressupostos básicos da teologia
a) Todo ser humano, de forma
consciente ou inconsciente, age e se relaciona no contexto em que está inserido
conforme sua visão de mundo. Seus pressupostos fundamentais definem não só sua
cosmovisão como também suas crenças sobre Deus. Desta forma, os ateus e
agnósticos, firmados nos seus respectivos pressupostos da inexistência de Deus
ou da impossibilidade humana de Deus ser conhecido, encaram o mundo, a
humanidade e o futuro modo de forma diversa de um teísta. Se há uma
possibilidade de Deus ser conhecido, então os sistemas formados por tais
concepções caem por terra.
b) O teísta, convicto da
existência de Deus, junta evidências que confirmam e apoiam sua crença. Suas
convicções sobre Deus têm consistência em sua fé.
c) Os trinitarianos (cristãos)
acreditam na existência de um Deus tripessoal, que pode ser conhecido e se
relaciona com os seres humanos. Convictos de que a Bíblia é o registro da
revelação de Deus, os cristãos formam sua cosmovisão a partir dos ensinos das
Sagradas Escrituras.
Estes, portanto, são os
pressupostos iniciais para o estudo da teologia. Se a mensagem da Bíblia não
for verdadeira, então o triunitarismo é falso, Jesus Cristo não é quem afirma
ser, e todos os cristãos estão iludidos, alimentados por falsas esperanças. Não
é possível que tenhamos certeza de que os ensinos da Bíblia sobre Deus (sua
pessoa, suas obras e seus desígnios) sejam verdade a menos que acreditemos que
nossa fonte seja digna de confiança. Por esta razão, o pressuposto básico e
central da teologia é de que a Bíblia é o registro fiel da revelação de Deus.
3. O método teológico
A tarefa do teólogo na
busca da verdade consiste em interpretar com precisão e clareza a revelação
divina, utilizando-se das Escrituras Sagradas como fonte principal de
informação. A abordagem bíblica requer, portanto, instrumentos de investigação
literária, exegética e hermenêutica. Daí a necessidade de um método adequado. O
método indutivo é universalmente utilizado, com poucas exceções. Descrevendo o
método indutivo, Hodge aponta três componentes do processo de investigação que
todo e qualquer cientista segue com rigor: pressupostos básicos, investigação e
deduções.
O cientista, na
investigação do objeto em estudo, pressupõe a fidedignidade tanto de seu senso
perceptivo como também de suas operações mentais e a confiança na
infalibilidade daquelas verdades que são aprendidas da experiência, mas
comunicadas à constituição de nossa natureza. Aqui o cientista, fundamentado em
seus pressupostos básicos, passa a perceber, reunir e combinar seus fatos. Tais
fatos não são manipulados, nem modificados, mas são tomados como realmente são
achados. Apenas, certifica-se, com precaução, da absoluta garantia de que sejam
reais, e dos quais possa fazer alguma inferência ou teoria que sobre eles
elabore. Uma vez completa sua etapa de investigação e análise, o cientista
deduz as leis pelas quais os fatos são determinados. Deve-se observar que essas
leis ou princípios gerais não derivam da mente nem são atribuídos aos objetos,
mas derivam e deduzem-se dos objetos e são impressas na mente.
4. O método indutivo aplicado à teologia
Segundo Hodge, “a Bíblia é
para o teólogo o que a natureza é para o cientista. Ela é seu depósito de
fatos, e seu método de averiguar o que a Bíblia ensina é o mesmo que o filósofo
natural adota para averiguar o que a natureza ensina. O teólogo procede tal
como o cientista no estudo de seu objeto de investigação e conhecimento [...] O
teólogo acredita na validade das leis de crença que Deus imprimiu na natureza
humana. Essas leis, no entanto, não devem ser arbitrariamente pressupostas.
Isto significa que nenhum homem tem o direito de impor suas opiniões pessoais,
por mais seguras que elas pareçam ser, nem as considerar verdades essenciais da
razão e fazer delas fonte ou teste das doutrinas cristãs. Somente aquilo que
seja autoevidente pode ser universalmente crido; e o que é autoevidente se
impõe na mente de todo ser inteligente”.[1]
4.1. A busca dos fatos
Na coleta dos fatos
investigados na Bíblia, o teólogo segue as regras que regem a conduta do
cientista em sua investigação. As duas principais regras que direcionam e
determinam a boa qualidade de um estudo científico sério são:
a) Coleta dos fatos com
diligência e prudência, para que o resultado não incorra em falsas teorias ou
doutrinas derivadas de equívocos.
b) A coleta de fatos deve ser
abrangente e, se possível for, exaustiva, pois uma indução imperfeita ou
parcial conduz a erros graves e imperdoáveis.
4.2. Princípios ou leis que se deduzem dos fatos
Hodge declara que, “tanto
na teologia como na ciência natural, os princípios se derivam de fatos, e não
são impressos sobre eles. As propriedades da matéria, as leis do movimento, do
magnetismo, da luz, etc., não são ordenados pela mente. Não são leis da
imaginação. São deduções de fatos". [2]
O investigador vê, ou averígua pela observação, quais são as leis que
determinam o fenômeno material; ele não inventa essas leis. Suas especulações
sobre questões de ciência não têm valor, a menos que sejam sustentadas pelos
fatos". [3]
No que diz respeito à
Teologia e ao teólogo, os fatos da revelação são registros inalteráveis que
carregam em seu bojo o teor da verdade que tanto se deseja conhecer. Portanto,
o investigador das Escrituras deve lembrar que sua obrigação não é apresentar
seu próprio sistema da verdade (que não tem a menor importância), mas averiguar
e exibir qual é o sistema de Deus que realmente tem valor e utilidade. Se ele
não crê nos fatos que a Bíblia pressupõe serem verdadeiros, ele deve com toda
honestidade confessá-lo. Quando os homens se recusam a aplicar o princípio da
indução no estudo da Palavra de Deus, a Teologia torna-se uma mistura de
especulações humanas inúteis.
5. A semântica e o fundamento da teologia
Etimologicamente, Teologia,
do grego “qeoV”
(Deus) e “logoV”
(palavra, discurso, estudo), significa “um discurso sobre Deus”; ou ainda, “o
estudo cujo objeto é Deus”. Desta forma, a Teologia se apresenta como a ciência
por meio da qual o homem busca conhecer a Deus, no que diz respeito ao que ele
é, o que faz, como se comporta e qual a sua relação como homem e o universo.
Um conceito muito comum é o
que caracteriza a Teologia como a ciência da religião. Isto significa que a
Teologia está diretamente ligada à experiência de relação que o homem mantém
com Deus por meio da fé. Mas aqui há um grande risco de erro: o de se
fundamentar a Teologia na experiência religiosa humana e não na revelação. O
verdadeiro fundamento da Teologia é a Palavra de Deus, à luz da qual a
religiosidade humana é interpretada e julgada; e não o contrário. Para que seja
preservada a integridade da teologia é necessário que sua esfera de domínio
esteja restrita aos fatos da revelação divina, até onde esses fatos dizem
respeito a Deus e à nossa relação com ele.
6. A dogmática cristã[4] – uma
sistematização da teologia
Dogmática
é o empreendimento intelectual, distinto da filosofia, que emergiu da igreja
por necessidade de expressão dos dogmas da fé, visando garantir a
inviolabilidade dos princípios e valores cristãos radicalizados nas Sagradas
Escrituras e propugnados pela teologia cristã. Dogmática é o nome que foi dado
inicialmente à Teologia Sistemática atual. Portanto, a dogmática é uma função
imprescindível da igreja. Significa afirmar que a exclusão da dogmática implica
a perda definitiva da identidade e, consequentemente, da unidade da igreja.
O
conceito de dogmática está despido do aspecto pejorativo associado ao
radicalismo fanático e cego, visando impor domínio sobre os leigos iletrados. O
pressuposto da dogmática não se firma exclusivamente na existência da igreja e
de sua doutrina, mas a vida dentro da igreja em consonância com os princípios e
valores bíblicos. Tudo que a igreja crê é objeto da Dogmática, entendida como
um estudo acadêmico em defesa expressiva da fé cristã. A dogmática emerge de
uma tríplice necessidade eclesiástica:
1)
Combate contra as heresias –
esta é uma função apologética da igreja que se posta em defesa e preservação
dos ensinos de Jesus Cristo e das obras por ele realizadas, no exercício de sua
missão redentora. Esta é uma forma de se fazer a distinção entre a verdade e o
erro e evitar a disseminação e prevalência de um “evangelho substituto”.
2)
Instrução doutrinária – o
objetivo desta instrução é a preparação dos neoconversos para o batismo. O novo
crente não pode ser batizado sem antes tiver um conhecimento adequado e
uma concepção correta das doutrinas que o nortearão no curso da vida
espiritual, em tudo que se refere à adoração e serviço.
3)
Exegese bíblica –
a vivacidade da igreja está fundamentada na autenticidade da fé, alimentada
pelo ensino correto, que produzirá crentes que sentirão a necessidade de
penetrar com mais profundidade no interior das Sagradas Escrituras, para uma
compreensão clara, precisa e objetiva da revelação divina.
7. A
revelação como base da teologia[5]
Revelação
é entendida como o processo pelo qual Deus se tornou conhecido pelo homem. A
realidade divina transcende os limites do ser humano no que se refere ao tempo
e ao espaço. Em outras palavras, Deus está fora do círculo em que o
conhecimento humano, adquirido pelo próprio esforço, tem sua abrangência. Como
Sujeito Absoluto, o ser divino é a fonte exclusiva de toda a revelação que o
faz acessível ao homem, cujo objeto exclusivo do saber é o mundo. Portanto, o
saber sobre Deus só tem legitimidade e credibilidade nos parâmetros da
revelação, cujo registro documental é a Sagrada Escritura.
Deus,
por ser o sujeito da revelação, jamais pode se tornar o objeto da ciência
humana. A revelação bíblica abrange a fé, que inspira a credibilidade, e a
razão, que possibilita o entendimento sobre o significado e propósito do
conhecimento sobre o ser, a natureza e o propósito de Deus. Desta forma, a
revelação é, para a igreja, a base, o conteúdo do ensino e também sua fonte
exclusiva de autoridade. Este é o princípio conceitual de Teologia: um discurso
sobre Deus.
7.1. O
testemunho bíblico da necessidade da revelação
Afirmar
que Deus se revelou não significa que ele se expôs. O testemunho das Escrituras
constata que o Criador é sensorialmente imperceptível – “Não me poderás ver
a face, porquanto homem nenhum verá a minha face e viverá” (Ex 33.20). O
autor do quarto evangelho testifica: “Ninguém jamais viu a Deus...” (Jo
1.18). Conforme as Escrituras, a necessidade do conhecimento de Deus
tornou-se evidente após a queda do homem.
Há
no Novo Testamento alusões aos tempos do Antigo Testamento quando Deus falou “muitas
vezes e de muitas maneiras” através dos profetas e, posteriormente, falou
por meio do Filho (Hb 1.1,2). A afirmação de que a Bíblia é a palavra de Deus
constitui-se em princípio fundamental para o estudo da Teologia. Como já foi
dito, Deus não é, nem pode ser, objeto da ciência; portanto, a Bíblia é a fonte
primária e fundamental da qual emana todo o conteúdo da teologia. Na
perspectiva cristã, ela é o referencial de conhecimento sobre tudo relacionado
ao ser divino.
7.2. Deus se
revelou através de suas obras
As
Escrituras proclamam os “os céus e a terra” como obra da criação de Deus (Gn
1.1). Significa dizer que Deus se revelou através de tudo que fez e ainda faz.
Este fato é confirmado pela declaração de que todo e qualquer ser humano, no
seu estado natural, tem um certo conhecimento de Deus, revelado por meio do mundo
exterior que o cerca: “... porquanto o que de Deus se pode conhecer é
manifesto entre eles, porque Deus lhes manifestou. Porque os atributos
invisíveis de Deus, assim o seu eterno poder, como também a sua própria
divindade, claramente se reconhecem, desde o princípio do mundo, sendo
percebidos por meio das coisas que foram criadas” (Rm 1.19-20).
Toda
verdade sobre a natureza é exibida com alguns detalhes, conforme a descrição
que os salmos 104 e 19 fazem sobre as obras de Deus. A pergunta sobre o conteúdo
da mensagem sobre Deus tem como resposta a grandeza, a honra e a majestade, bem
como a sabedoria e a alegria de Deus por ter criado todas as coisas visíveis ao
homem. Tudo que, segundo as Escrituras, Deus fez na criação do universo,
manifesto nos céus e na terra, inclusive atributos compartilhados com o homem,
é objeto de estudo racional que constitui o âmago da teologia cristã.
8. Os
parâmetros e propósito da teologia
A revelação,
substancializada pela verdade registrada na Escritura, tem base na realidade de
Deus. Portanto, segundo Sturz, “para compreender e pregar a verdade em sua
plenitude, é necessário que a teologia considere a totalidade da revelação
bíblica em Cristo [...]. Isso significa que a pessoa deve estar ciente das
implicações e inter-relações dos conceitos que têm sido proclamados”.[6] Uma vez
que as Escrituras dispõem a verdade e o erro como antagonistas definitivos, o
teólogo jamais deverá esconder ou adulterar a Palavra de Deus; pelo contrário,
deve insistir na declaração da verdade nua e crua. O apóstolo Paulo afirmou com
veemência que, se alguém anunciasse um evangelho diferente daquele que os
gálatas haviam recebido, seria amaldiçoado (Gl 1.6-9).
Durante os séculos XIX e
XX, a modernidade estabeleceu que tudo era relativo (não há absolutos). Agora,
no século XXI, a pós-modernidade definiu que toda verdade é pessoal (concepções
individuais). Em decorrência disso, cada pessoa sente sua própria finitude e a
profundidade da revelação. Mais que isso, o teólogo percebe que sua compreensão
do evangelho é limitada. O grande dilema consiste numa questão: “como ser
firme ao falar a verdade e, ao mesmo tempo, ser cauteloso para
evitar o erro?” [7] Firmeza e
prudência são pertinentes em todos os níveis do conhecimento, não somente no
âmbito acadêmico. A teologia é destinada, simultaneamente, à igreja e o mundo;
e, como disse Sturz, “deve brotar das tradições eclesiásticas da pessoa, seja
para afirmá-las, seja para corrigi-las. É por isso que a teologia deve ser
feita em um ambiente eclesiástico e não numa universidade secular”.[8] Mesmo
assim, ela precisa ser atualizada e contextualizada, para que o leitor
compreenda sua linguagem e a forma de sua mensagem.
A pergunta pelo propósito
(razão de existir) da teologia tem sua resposta no fato de que o conhecimento
de Deus é indispensável. Tal conhecimento não consiste numa lista de fatos a
respeito de Deus, nem tampouco de satisfazer a curiosidade do ser humano.
Conhecer Deus é uma necessidade que move o indivíduo a ouvir e entender a
revelação de Deus em Cristo. A transformação do teólogo e do leitor é,
portanto, o propósito último da teologia. O conhecimento interpessoal de Deus
ocorre como resultado de uma reflexão tão necessária à modelação do homem à
imagem de Cristo.
CAPÍTULO II
A CRENÇA EM DEUS
1. A origem da ideia de Deus
A história da humanidade,
em todas as civilizações, em qualquer região geográfica, registra a crença em
Deus. Diante de tal fato, levanta-se a questão: Qual a origem da ideia de Deus?
No estudo da Teologia, geralmente são sugeridas três propostas: (a) a ideia de
Deus é inata; (b) ela é uma dedução da razão que resulta de um processo de
reflexão filosófica; (c) a concepção que se tem de Deus resulta de uma
revelação.
2. A necessidade da crença em Deus
A necessidade da crença em
Deus não pode ser confundida com o esforço de provar a sua existência. Mesmo
assim, questiona-se: a existência de Deus pode ser negada? Tentando apresentar
uma resposta, Hodge[9] argumenta
que há diferentes tipos de verdades necessárias:
a) “Aquelas cujo oposto é
absolutamente inconcebível. Que todo efeito deve ter uma causa, que parte de
uma coisa é menor que o todo, são proposições cujos opostos não podem ter
significado algum”.
b) “Há verdades concernentes a
coisas externas ou materiais que possuem o poder de compelir diferente
convicção daquele poder que pertence a verdades concernentes à mente. Uma
pessoa não pode negar que possui um corpo; e não pode racionalmente negar que
possui uma vontade”...
c) “Além disso, há verdades
que não podem ser negadas sem violentar as leis de nossa natureza. Em tais
casos a negação é forçada e pode ser apenas temporária [...]. É igualmente
possível que a mão de uma pessoa fique tão insensível ou cauterizada a ponto de
perder o senso do tato. Mas isso não provaria que a mão dessa pessoa não é
normalmente o principal órgão do tato. Portanto, é possível que a natureza
moral fique tão desorganizada pelos vícios ou por uma falsa filosofia que
silencie a eficácia do testemunho em prol da existência de Deus”.
3. Falsas concepções
de Deus
A concepção que o homem tem
de Deus varia de acordo com as suas crenças e sua cultura. Os que creem na
existência de Deus têm uma ideia pessoal do que ele é. Para os ateus, Deus não
existe e, portanto, ele não passa de um produto da imaginação fantasiosa do
homem. Mas que ideia o homem construiu de Deus? Temos certeza que, qualquer que
seja, tal ideia nunca será correta se não tiver base na revelação registrada
nas Sagradas Escrituras. Muitas ideias foram formadas sobre Deus. Vejamos algumas
delas.
3.1. Deísmo
O
deísmo é uma linha de pensamento essencialmente racional que surgiu na
Inglaterra, na primeira metade do século XVII. O Lord Herbert de Cherbury,
considerado o pai do deísmo, influenciou os escritores John Toland, Mathew
Tindal, Thomas Woolston e Anthony Collins. Estes pensadores desenvolveram a
ideia de Deus da seguinte forma:
a)
Há um Ser Supremo que criou o universo,
dotando-o de recursos e condições para se autodesenvolver sem a intervenção
divina. Deus não se envolve com a criação.
b)
Os propugnadores do deísmo afirmam
categoricamente que não há qualquer intervenção de Deus na ordem natural. Negam
a Trindade, a encarnação, a autoridade da Bíblia, a expiação, os milagres, a
eleição de um povo e qualquer ato redentor sobrenatural na história[10].
c)
O deísmo faz com que os seres humanos sejam
independentes de Deus e do mundo, ensina a autossuficiência da razão e conduz
ao racionalismo. Os deístas repudiam qualquer intolerância religiosa, partindo
do pressuposto de que todas as religiões são iguais.
3.2. Teísmo
Teísmo é apenas uma
antítese do ateísmo. Manifesta-se como a crença em um Deus sem se preocupar com
seus atributos. Por não ser uma corrente doutrinária específica de caráter
dogmático, o teísmo não tem um posicionamento definido sobre Deus. A concepção
de um Deus pessoal não é unânime. A teonomia
é uma linha do pensamento teísta que concebe Deus como apenas um legislador do
universo. “Quaisquer regras da ética, da epistemologia, etc., resultam daquilo
que Deus determinou, e poderiam ser de outra forma se ele assim desejasse.
Nenhuma ação no universo é intrinsecamente boa ou má, nem melhor ou pior, mas
tem seu valor de acordo com o valor que Deus atribui a ela”.[11]
O teísmo se expressa como a
crença na existência de Deus, quer seja pessoal ou impessoal, presente ou
ausente da história. A concepção teística de Deus como um ser transcendente e
imanente, que existe como pessoa única, é propugnada pelo judaísmo e islamismo.
Qualquer concepção não cristã (não bíblica) que se tenha de Deus é considerada
teísta. O deísmo é uma das expressões do teísmo.
3.3. Ateísmo
No mundo sempre existiram
multidões que vivem como se Deus não existisse, sem que cheguem a negar ou
sequer duvidar da existência de Deus. Tal indiferença também é uma forma de
expressão do ateísmo, pois ateísmo, segundo Aurélio Buarque de Holanda
Ferreira, significa “falta de crença em Deus”, ou ainda, “atitude ou doutrina
que dispensa a ideia ou a intuição da divindade, quer no ângulo teórico (não
recorrendo à divindade para se justificar ou fundamentar), quer no ângulo
prático (negando que a existência divina tenha qualquer influência na conduta
humana)”.
O ateísmo não consiste em
um sistema de doutrina; não afirma nada, apenas nega tudo que o teísmo
confessa. Ele é uma forma definida de pensamento que nega expressamente e se
opõe veementemente à crença em Deus. Em Salmos 14:1 e 53:1, encontramos: “Diz o
insensato no seu coração: não há Deus”. Diante disso, o ateísmo é tão antigo
quanto as Escrituras. Desde Aristóteles o homem tem sido definido como anima religiosum e, neste sentido, até o
mais acirrado ateu termina forjando algum tipo de deus. Há duas manifestações
do ateísmo: o teórico e o prático.
3.3.1. O ateísmo teórico
a) Ateísmo ascético – O que procede de uma
atitude filosófica negativa ou de uma reação pessimista ante os males do mundo
e da vida e consiste em um estado de perplexidade, sem decidir-se a admitir nem
a rechaçar a existência de Deus. Há uma completa indiferença quanto a Deus.
Segundo Berkhof, esta forma de expressão do ateísmo “duvida da capacidade da
mente humana de determinar se há ou não um Deus”.[12]
b) Ateísmo agnóstico – É o que procede de um
ponto de vista científico e filosófico, segundo o qual a existência de Deus é
um dado impossível de ser experimentalmente ou racionalmente comprovado. É a
postura de Immanuel Kant, em sua obra “CRÍTICA DA RAZÃO PRÁTICA”, onde afirma a
incognoscibilidade de tudo que não entra pelos sentidos e acata as ideias de
liberdade, imortalidade da alma e a existência de Deus como sendo necessárias
tão somente a que se eleve uma vida moral correta.
c) Ateísmo crítico – postula a ideia de que
não há nenhuma prova válida da existência de Deus. A crença em Deus é uma
ilusão.
d) Ateísmo dogmático – Denomina-se assim, não
porque tenha seus “dogmas de fé”, mas porque afirma positiva e tenazmente, como
um feito científico indubitável e inquestionável, que Deus simplesmente não existe.
Nega veementemente tudo o que o teísmo confessa. O ateísmo dogmático tem suas
raízes no pensamento de Feuerbach, para o qual tudo que consideramos espiritual
é um subproduto do cérebro humano que segrega as ideias assim como o fígado
segrega a bílis. A expressão máxima do ateísmo dogmático foi sistematizada pelo
Marxismo.
3.3.2. O ateísmo prático
Este se manifesta tanto
pela completa indiferença quanto a Deus como também por meio do materialismo.
Este é o ponto de vista filosófico-científico que se propagou e radicou no
mundo contemporâneo com o auxílio do progresso da ciência e da tecnologia.
Encontrou campo fértil na mente de todos os que acham que a ideia de Deus está
inseparavelmente a muitas superstições e tabus. Descreem na vida além-túmulo e
buscam viver em função dos bens materiais, do conforto e do prazer que podem
dispor.
Algumas objeções foram
levantadas contra o ateísmo. Com respeito a este assunto, Francisco Lacueva
declara que as objeções contra a existência de Deus foram reduzidas pelos
teólogos medievais em apenas duas. A primeira consiste na afirmação de que Deus
não é necessário, já que o mundo, a vida e a História podem explicar-se
cientificamente, sem ter que apelar a um Ser Infinito, invisível e
transcendental. A segunda argumenta que a existência de tanto mal no mundo é
incompatível com a existência de um Deus que, ou não é suficientemente bom e
justo para evitar tanta desgraça, ou não é bastante sábio e poderoso para
controlar a marcha de um universo que ele mesmo criou.
No que diz respeito a tais
declarações, buscando formular objeções que sejam racionalmente aceitas,
Lacueva questiona: “É verdade que a ciência faz desnecessária a existência de
Deus?” Ele responde tal questão da seguinte forma:
“A ciência não
pode explicar suficientemente a ordem
do universo, a origem da vida, nem a marcha da História por uma mera evolução dialética em progresso sempre
ascendente e espiral sem a intervenção de uma Inteligência Superior, transcendente e imanente que haja criado a
matéria, haja dotado de energia a esta matéria, lhe haja dado um primeiro
impulso sabiamente dirigido na espiral da evolução, haja dotado aos seres de
vida, instinto que não falha e espírito que pensa, e mantenha em equilíbrio
constante a marcha dos astros, a mútua interação dos seres [...] e as
apropriadas adaptações entre o sujeito e o meio. Em poucas palavras, a qualquer
parte que se olha, obtém-se uma impressão de causalidade e finalidade
que só pode se atribuir a um Ser Supremo que faz convergir tudo harmonicamente.
A pura causalidade não explica o universo”.
“A ciência não
pode dar, por si só, uma resposta satisfatória aos grandes porquês do homem:
Quem sou? De onde venho? Para onde vou? Se não existe um Deus Criador, [...] se
não existe outra vida em que os insatisfeitos anelos do homem obtenham
satisfação cumprida, se não existe uma norma moral superior que sancione a
conduta humana, então o homem é um aborto da natureza que lhe nega o que
concede ao mamífero e ao infusório (ciliado); um ser autônomo, escravizado por
sua própria ignorância e por seu egoísmo, [...]. Em uma palavra, o homem é um
engendro monstruoso de um gigantesco pesadelo cósmico. Em troca, a existência
de um Deus infinitamente justo, bom e poderoso, que tudo o que tem previsto e
provisto (provido), que nos dá uma resposta cumprida a todos os nossos anelos
de luz, de vida e de imortalidade, é uma solução mais científica e, sobretudo,
mais humana”.[13]
3.4. Hilozoísmo
A palavra hilozoísmo
vem do grego antigo e é formada pela junção de três elementos: (ὕλη = hýlē)
que significa "matéria", "substância" ou originalmente
"madeira/floresta"; (ζωή = zōē)/(ζῷον = zōıon)
que significa "vida" / "ser vivo" ou "animal"; e (ισμός,
-ismós = ismo) um sufixo
que indica uma doutrina, sistema filosófico ou teoria. Etimologicamente, o
termo significa a "doutrina da
matéria viva", uma ideia filosófica de que a matéria não é inerte,
mas sim dotada de vida, sensibilidade ou força vital própria.
Embora a ideia remonte aos
filósofos pré-socráticos da Grécia Antiga (como Tales de Mileto e Anaxímenes,
que viam a natureza como um organismo vivo), a palavra “hilozoísmo” foi criada bem mais tarde. O termo foi convencionado
em 1678 pelo filósofo platônico inglês Ralph Cudworth através de sua obra The True
Intellectual System of the Universe, onde ele buscava classificar as
diferentes correntes filosóficas sobre a natureza da matéria e do espírito.
O significado comum do
termo designa um sistema que admite a distinção entre mente e matéria e, ao
mesmo tempo, a união inseparável entre ambas, assim como o corpo e a alma que
compõem o ser humano. Segundo o pensamento hilozoista, Deus é a alma do universo;
é um poder inteligente que age como fonte de todas as suas estruturas e
atividades. O universo é vivo, imortal, racional e perfeito. A alma dos homens
é da mesma natureza da alma do mundo.
3.5. O Maniqueísmo
O termo deriva diretamente
do nome do seu fundador, Mani (ou Manes / Manichaeus), um
profeta e líder religioso persa que viveu no século III d.C. (aproximadamente
entre 216 e 274 d.C.). Historicamente, o termo também passou a ser usado de
forma pejorativa (pela Igreja Católica e por filósofos posteriores) para
criticar qualquer visão de mundo excessivamente rígida e dualista. No âmbito da
religião, o Maniqueísmo foi uma das maiores correntes globais da Antiguidade e
Idade Média, que se expandiu desde a Pérsia, Império Romano e até a China.
Teologicamente,
o Maniqueísmo propõe uma cosmovisão dualista e gnosticista, ou seja, a coexistência
de princípios absolutos, afirmando que o universo não foi criado por um
único Deus sumamente bom (como no Cristianismo ou Judaísmo), mas é o campo de
batalha entre duas forças coeternas, incriadas e de igual poder.
O
pensamento maniqueísmo pode ser sistematizado da seguinte forma:
a) A coexistência de dois princípios absolutos – ORMUZ,
deus do Bem da Luz e do Espírito, identificado
como o Pai da Grandeza; e AHRITAN, deus do Mal identificado como o Príncipe das Trevas.
b) A Mistura do Bem e do Mal – Em um determinado momento
mítico, o Reino das Trevas invadiu o Reino da Luz. O mundo físico e a
humanidade nasceram dessa fusão. O corpo humano pertence às trevas/matéria,
enquanto a alma humana é uma "centelha de luz" aprisionada na
matéria.
c) A Salvação por meio da Gnose (Conhecimento)
– A
salvação não ocorre por um sacrifício ou graça no sentido tradicional, mas pelo
despertar do conhecimento divino (gnose). A missão do crente é libertar
as partículas de luz presas na matéria através do ascetismo rigoroso.
No campo da filosofia e da
ética, o conceito se desdobra em duas dimensões principais:
a) O Problema do Mal (Teodiceia) – através do qual o
Maniqueísmo tenta resolver o dilema da existência do mal sem culpar um Deus
bom. Enquanto Santo Agostinho (maniqueísta convertido ao Cristianismo) definiu
o mal como a ausência do bem (privatio boni), o Maniqueísmo
afirma que o mal é uma substância/força real e ativa por si só.
b) O Dualismo Simplista (Uso Moderno) que na filosofia política,
ética e na linguagem cotidiana, refere-se uma atitude ou pensamento
"maniqueísta" que reduz situações complexas a uma oposição bizarra e
moralista sem nuances, expressa em termos semelhantes a "nós somos os
bons, eles são os maus".
De acordo com a ideologia
de Manes, o homem primitivo foi criado pelo deus bom, mas o homem atual é obra
do deus mau. Só pela iluminação e pelo ascetismo o homem pode voltar ao seu
estado original.
3.6. Gnosticismo
Anterior ao dualismo
maniqueísta, o gnosticismo é mais sutil. Nele o Supremo Princípio é bom, mas
incognoscível. O mundo teria sido criado por um Princípio Inferior, o DEMIURGO.
Para Platão o Demiurgo é o mesmo Deus, enquanto Ordenador Supremo do Universo.
Plotino faz dele o Espírito ou Alma Universal, que organiza o mundo do
material.
O
Gnosticismo divide a realidade em dois polos opostos: (a) O Mundo Espiritual (Pleroma)
que consiste na plenitude, na
luz, no bem e no mundo do Deus Inefável e Transcendente (o Deus Verdadeiro);
(b) O Mundo Material (Matéria), que é visto como mau, imperfeito, ilusório e uma espécie de
"prisão" para o espírito humano. A ideia de que a matéria é impura,
originada por um princípio maléfico fez com que os adeptos do gnosticismo
negassem a encarnação e a ressurreição de Jesus. Esta corrente filosófica
abrange duas categorias:
a) A primeira é que o homem se
espiritualiza, não pela fé nem pelas obras, mas pela “iluminação” espontânea e
definitiva reservada a um grupo de “iniciados”. Daí, seu hermetismo que perdura
até hoje nas seitas e Sociedades Secretas.
b) A segunda propugna que os
“iniciados” que tiverem atingido a “gnosiV” (conhecimento) salvadora
estão por cima das normas éticas do bem e do mal.
3.7. Panteísmo
É uma doutrina que, em
geral, faz de Deus e do mundo uma mesma coisa. Existem diversas formas de
expressão do panteísmo, as quais estão classificadas em três categorias:
emanatístico, evolucionístico e gnosiológico (ou idealístico). Vejamos um de
cada vez:
a) Emanatístico – doutrina panteísta
segundo a qual TUDO que existe é uma EMANAÇÃO da única substância eterna e
infinita que possui dois atributos: mente e matéria. Os seres só podem existir
como participação do único Ser. São expoentes desta doutrina: Giordano Bruno,
Baruch Spinoza, F. W. J. Shelling, etc.
b) Evolucionístico - sustentado especialmente
por um grupo de filósofos franceses do século XIX. Segundo eles, o universo vai
se evoluindo até chegar a possuir atributos divinos, ou seja, que Deus está em
processo de formação evolutiva à medida que o existente ascenda à culminância
suprema do ser.
c) Gnosiológico ou Idealístico
– doutrina segundo a qual tudo o que existe tem consistência unicamente na
IDEIA ABSOLUTA (teoria de George W. F. Hegel). Ou seja, tudo que existe é uma
externalização inacabada da Ideia Absoluta. A natureza não é o fim; é o
processo de extensão da Ideia Absoluta.
Há filosofias panteístas
que, sem afirmar uma identificação total das coisas com Deus, enfatizam
demasiadamente a imanência divina com menoscabo de sua transcendência. Entre
tais filosofias podemos destacar as seguintes:
a) O pampsiquismo – segundo o qual só existe
uma Mente Universal da qual participam todas as consciências individuais.
b) O naturalismo – originado do filósofo
alemão Goethe, para quem a natureza seria como uma unidade viva, consciente,
dotada de atributos quase divinos que se manifestam quando entramos em
“comunhão” com as coisas.
c) Teosofismo e outras seitas secretas – segundo as quais Deus é
o ÉTER que tudo permeia ou o CÓSMICO UNIVERSAL com que nós chegamos a nos
identificar por meio de nossa mente superior, com o êxtase (saída do corpo
astral) e mediante a sacralização da matéria (daí, a importância que dão à
alquimia. ALQUIMIA – ciência da Idade Média que buscava descobrir o elixir da
longa vida, que traria a cura para todos os males; e a Pedra Filosofal, que
transformaria todos os metais ordinários em ouro e prata).
4. Concepção monoteística de Deus
Em suas três ramificações
(Judaísmo, Cristianismo e Islamismo) o monoteísmo tem uma concepção de Deus que
pode ser expressa da seguinte forma:
a) Deus é um ser singular – é único, não há outro
igual nem diferente dele;
b) Deus é um ser pessoal – por ser pessoa ele tem
nome, identidade, caráter, inteligência, vontade própria, autogoverno e
relaciona-se com o homem;
c) Deus é um ser supremo – criador, sustentador,
soberano, legislador e juiz do universo;
d) Deus é um ser transcendente – situa-se na dimensão do
invisível e do sobrenatural, além dos limites do tempo, do espaço e da
percepção sensorial humana.
CAPÍTULO III
A EXISTÊNCIA DE DEUS
1. Introdução
Na busca ansiosa pelas provas da existência de Deus o homem percorreu
dois caminhos: o da razão e o da revelação. Pelo caminho da razão o homem
chegou aos limites do seu potencial crítico e desembocou em frustrações que o
levaram a negar ou manter uma atitude de completa indiferença com respeito à
existência de Deus. Pelo caminho da revelação o homem procurou formular seu
conhecimento de Deus, utilizando-se das Escrituras como fonte principal de
informação e dos poderes do espírito instrumentalizados pela fé.
A finitude da razão humana não permite ao homem penetrar no infinito e
desvendar seus mistérios. Segundo Berkhof, aqui há duas correntes de
pensamento: o da "docta ignorantia" (a "ignorância culta")
que admite a realidade do transcendental e infinito, mas reconhece também sua
incapacidade de compreendê-la e expressá-la em termos do conhecimento racional
limitado (Nicolau de Cusa); e o da "ignorância crítica" que descreve
a finitude da razão como delimitação da área do conhecimento na qual o homem
conhece apenas seu mundo, a totalidade dos fenômenos que aparecem a ele e que
constituem sua experiência atual, mas não pode romper os limites da sua
finitude e alcançar o eterno; nem tampouco pode romper os limites da
causalidade, espaço e substância para alcançar a causa primeira, o espaço
absoluto e a substância universal (Immanuel Kant).
O caminho da razão é científico e técnico e se fundamenta no
"experimental" (testado), enquanto que o conhecimento da revelação
está alicerçado no "experiencial" (vivenciado). O primeiro segue o
método da especulação; o segundo, o da análise sistemática do revelado. Pela
razão o homem utiliza-se do conhecimento natural construído pelo próprio homem;
pela revelação o homem recorre à fé e ao conhecimento adquirido pelos poderes do
espírito, de origem sobrenatural.
2. Teorias
racionais sobre a existência de Deus
2.1.
Argumento ontológico
Anselmo de Canterbury propugnou que o homem tem a ideia
de um ser absolutamente perfeito; que a existência é atributo da perfeição; e
que um ser absolutamente perfeito tem de existir. Esta tese é falha porque se
fundamenta numa ideia abstrata, a qual não pode servir de prova para a
existência de algo concreto. O fato de termos uma ideia de Deus não pode servir
de prova de sua existência objetiva.
Anselmo considerava, a negação da existência de Deus totalmente
impossível, diz Hodge[14], pois
Deus é a verdade mais elevada, o ser mais elevado, o bem mais elevado, de quem
todas as demais verdades e bens são manifestações. Para Anselmo, existência é
um atributo da perfeição. Daí deriva-se que a existência dos seres,
especialmente o homem, são dotados de uma perfeição
relativa, mas não absoluta. A perfeição relativa humana requer uma Perfeição Absoluta que só um ser pode
ter: Deus.
Criticando a teoria de Anselmo, Lacueva assim se expressa: “...
Prescindindo do contexto em que Anselmo situa este raciocínio, a falácia deste
argumento é evidente ao comprovar que Anselmo dá um salto indevido da ordem lógica das ideias (o que podemos
conceber) ao ôntico dos seres (o que
existe). Numa palavra, respondemos: se Deus existe (é o que se pretende
provar), há de ser o mais perfeito possível dos seres, mas o fato de que o
concebemos assim não lhe confere o fato de existir”.[15]
2.2.
Argumento psicológico – natureza humana
Este argumento, também chamado "Moral", origina-se daquilo que
chamamos "Voz da Consciência". A consciência nos intima à observação
de uma Lei Moral comum a todos os homens, que se impõe ao indivíduo como uma
norma anterior e superior a ele. Toda lei universal superior ao indivíduo
implica a existência de um Legislador. A esse Legislador chamamos Deus. Todo
ser humano é dotado de consciência; é um ser inteligente; tem personalidade e
individualidade distintas dos demais seres humanos. Sua personalidade não
reside em seu corpo, mas na sua alma.
Cada criança gerada e
nascida é uma nova alma que vem a existir. Cada alma humana tem seu início de
existência e, como não é matéria corruptível, a continuidade de sua existência
não depende da referida matéria. É convicção geral da humanidade que a mente não
pode ser produto da matéria. A matéria inerte e sem vida própria não cria, não
gera, nada produz por si mesma. Desta forma, como nossa mente não é
autoexistente nem eterna, concluímos que sua origem está em um Ser Supremo
dotado de imensurável poder e inteligência: Deus.
2.3.
Argumento causal ou cosmológico – a causa primeira
O argumento cosmológico tem origem em Tomás de Aquino. Sua proposição
parte da existência do mundo. “Tudo que existe é contingente” (isto é, não tem
em si mesmo a razão de sua existência; do contrário, não poderia deixar de
existir). “Portanto, é necessária, em última instância, a existência de um ser
que tenha em si mesmo a razão do seu existir e que pode trazer à existência
todos os seres que não existem por si mesmos. A esse ser necessário chamamos
Deus”. [16] Em outras
palavras, Tomas de Aquino quer frisar que tudo que existe tem uma causa; assim
sendo, o universo também tem uma causa adequada. A essa causa da existência do
universo chamamos Deus.
Tal argumento, por si só, não produz convicção, pois, segundo Hume, a
lei da causa e efeito é questionável. Kant argumenta que se tudo que existe tem
uma causa, isto também deve se aplicar a Deus. B. P. Bowne argumentou que o
universo material aparece como um sistema interativo e, portanto, como uma
unidade que consiste de várias partes. Daí, é necessário que exista um Agente
Integrante que veicule a interação das várias partes ou constitua a base da
existência delas. [17]
Hodge argumenta que o mundo é um efeito e a prova disso é que tudo que o
compõe é dependente mutável. Portanto, não pode ser autoexistente nem eterno.
Uma totalidade não pode ser diferente em essência de suas partes constituintes.
Outrossim, uma série infinita de efeitos não pode ser autoexistente. Portanto,
devido às leis da nossa natureza racional, há que se pressupor a existência de
uma causa autoexistente, isto é, um ser munido de poder adequado para produzir
este mundo.
2.4.
Argumento teleológico
Este argumento é assim chamado, porque se baseia na causalidade final.
(Teleologia – do grego “teleioV", no fim, final + "logoV", discurso, palavra =
estudo da finalidade, doutrina que considera o mundo como um sistema de
relações entre meios e fins. Seus argumentos relacionam um fato com sua causa
final). Tal argumento procede assim: "O universo apresenta uma ordem e uma
esquisita adaptação progressiva dos sujeitos aos objetos, dos órgãos às suas
funções, dos meios aos fins. Isto supõe a existência de uma Inteligência
anterior e superior ao mundo que tem programado tal ordem; do contrário, tudo
que existe seria um absurdo produto do azar".[18]
Sem dúvida, para um cientista não crente, este argumento carece de força
convincente porque: (a) Primeiro, todo processo evolutivo poderia ser explicado
mediante uma dialética de mútua adaptação entre o ser e o seu meio em
determinadas circunstâncias que hão permitido o salto do inorgânico para o
orgânico, da matéria para a vida...; (b) Em segundo lugar, porque tal escala
cósmica poderia explicar-se com a existência de uma causa imanente como
"alma do mundo", sem identificação possível com o verdadeiro Deus.
Hodge apresenta tal argumento declarando que "um desígnio pressupõe
um designador. Por toda parte o mundo exibe marcas de desígnio. Portanto, o
mundo deve sua existência a um autor inteligente".[19]
Um desígnio requer três elementos fundamentais: um fim ou propósito, meios para
alcançá-lo e o emprego de tais meios para que se alcance e se concretize. Por
esta razão, todo desígnio é produto de uma inteligência e só um ser inteligente
tem intenções e propósito.
No que se refere à inteligência, a mente impregnada nas páginas de um
livro, por exemplo, não é própria do livro, mas do seu autor. A memória
inteligente de uma calculadora não é própria dela, mas do seu fabricante. Da
mesma forma, a mente manifestada na estrutura das plantas e dos animais também
não está nelas, mas naquele que lhes deu a origem primária. Em última análise,
a mente (ou inteligência) que se percebe no mundo deve estar num ser distinto
dele.
Cícero, em sua obra De
Natura Deorum, diz que é impossível que um mundo bem ordenado pudesse ser
formado pela concorrência fortuita dos átomos, como se um livro pudesse ser
composto simplesmente amontoando-se letras ao acaso. Comentando tal citação,
Trendelenburg diz: “Talvez seja mais difícil pressupor que, pela cega
combinação de elementos e forças químicas e físicas, mesmo algum dos órgãos do
corpo pudesse ser formado – o olho, por exemplo, tão nítido, penetrante e
todo-vidente, - muito menos a harmoniosa união de órgãos que compõem o corpo,
do que um livro ser feito no acaso, espalhando letras e mais letras”.[20]
No que se refere à ordem lógica de todas as coisas que compõem o
universo, esta segue um padrão, um conjunto de leis estáveis, não estabelecidas
pelas próprias coisas que compõem o universo. Tais leis mantêm não só a
harmonia do todo, como também estabelecem e especificam a finalidade da
existência de cada ser. Assim sendo, as leis da natureza não foram
estabelecidas pelos seres que a constituem, mas por um agente externo
inteligente que produziu tudo que existe para um determinado fim, de acordo com
seus desígnios. Este agente não é outro, senão, Deus.
2.5.
Argumento histórico ou do consenso universal
Todos os povos, dentre os mais antigos que já foram identificados, têm
crido, com raríssimas exceções, na existência de um Ser Supremo, Criador do
Universo, como única explicação possível para os fenômenos naturais da
meteorologia, da fertilidade, etc. É certo que, em muitos casos, o politeísmo
tem obscurecido a crença em um único Deus, mas não a tem suprimido. As
investigações mais imparciais têm demonstrado, com suficiente evidência, que o
monoteísmo é anterior ao politeísmo. Tal argumento pode ser usado como
fundamento para admitir-se ter havido um relacionamento entre o homem e um Ser
Superior que o antecedeu ou que o tenha originado.
3. Teoria
bíblica sobre a existência de Deus
Partindo do pressuposto básico de que a Bíblia é, como disse Karl Barth,
o testemunho da revelação de Deus,
então nela há de se achar o caminho da fé que nos leve à comprovação da
realidade do ser de Deus. No entanto, necessário é que se faça uma distinção
entre a revelação e a própria Bíblia. Entendemos que a Bíblia é o registro humano do que Deus revelou de si mesmo aos que originalmente foram
as testemunhas diretas dessa revelação. Assim sendo, a Bíblia deve ser encarada
como “uma palavra humana relativa à
revelação”, a qual, por sua vez, consiste na “substância dessa palavra humana”.[21]
A realidade da revelação não só pressupõe, mas confirma a realidade do Ser Supremo que se revelou. Nisto reside a
autoridade das Escrituras para responder com credibilidade à indagação humana a
respeito da existência de Deus. Assim sendo, ela é a única fonte de
conhecimento do homem sobre o ser e a obra de Deus.
Não há, em toda a Bíblia, uma teoria intencionalmente
formulada sobre a existência de Deus. A Bíblia não faz nenhum esforço para demonstrar a existência de Deus; ela
simplesmente a pressupõe. A
mentalidade semita que deu origem à Bíblia não se ajusta às abstrações lógicas,
mas se expõe de forma sumamente prática e concreta, inclinada a fixar as ideias
em atos, os sentidos em símbolos, as normas em atitudes. Por isso, as
Escrituras não começam com uma exposição teórica, mas com um ato, uma atividade de Deus: “No princípio criou Deus os céus e a terra” (Gn
1.1). As Escrituras corroboram com o argumento teleológico do desígnio.
O Antigo Testamento apela para o céu e para a terra como que revelando o
Ser e as perfeições de Deus. O apóstolo Paulo diz que o Deus vivo, que criou
céu e terra, bem como o mar e tudo o que nele há não ficou sem testemunha (At
14.15-17). Ele demonstrou aos atenienses a natureza de Deus à luz de suas obras
e de nossa relação com ele como sua geração (At 17.23-31). Para os romanos ele
disse que o eterno poder e a eterna deidade do Ser Supremo são claramente
percebidos, estando subentendidos nas coisas criadas (Rm 1.20).
Mas, apesar de todas essas declarações, é notório o fato de que a Bíblia
não manifesta propositalmente a
intenção de provar a existência de Deus; não se esforça, através de argumentos
racionais, para alcançar tal propósito, pois ela não é um produto do raciocínio
filosófico humano, não é um manual da metafísica; ela é o registro da revelação
de Deus ao homem e declara ser fruto da inspiração divina (2Tm 3:16; 2Pe
2:20-21).
Nas
Escrituras, Deus não é visto como um objeto de análise por parte do homem ao
alcance de nossa mente a quem se possa ir por meio de intuições ou raciocínios;
pelo contrário, Deus é descrito como um ser que sai ao encontro do homem ao
qual se revela e lhe dá capacidade para penetrar no espaço divino com os olhos
da fé. Encontra-se com frequência na Bíblia a expressão "ver Deus face a
face" (Gn 32:30; Ex 33:11; Nm 14:14; Dt 5:4; 34:10; 1Co 13:12). Todo o
contexto dessas expressões, dentro de seu peculiar estilo literário, indica que
se trata de uma "comunhão familiar com Deus" de cuja presença
amistosa e protetora se desfruta.[22] Apesar disso, está claro na Palavra de
Deus, como em Ex. 33:18-23, que nenhum mortal está apto a ter uma visão
objetiva de Deus. Pelo contrário, a Bíblia testifica que "ninguém jamais
viu a Deus" (Jo 1:18). Em 1Tm. 6:16, Paulo assegura que Deus "habita em luz inacessível a quem homem
algum jamais viu, nem é capaz de ver". "Diz o insensato no seu coração: não há Deus" (Sl 14:1;
53:1).
No que diz respeito a tal afirmação, a Bíblia considera insensatez a
descrença em Deus. Tal declaração não se constitui em si mesmo uma prova da
existência de Deus, pois os autores bíblicos não intentavam com seus escritos
apresentar argumentos teológicos como provas da existência divina, mas
registrar com fidelidade e clareza os atos de Deus pelos quais tem se revelado
na história.
Nas Escrituras, Deus é um ser transcendente que se revelou ao homem,
dando-se a conhecer como criador, sustentador e redentor de toda a sua criação,
que jamais foi visto por alguém, mas que comprovou sua existência através dos
seus atos milagrosos, manifestando sua glória e seu poder. A revelação é um
fenômeno espiritual e exige fé. Sem ela não se pode conhecer a Deus. Diante de
tal concepção, temos uma questão a levantar: A fé é um conhecimento? O fato de
que o crente consegue saber sobre Deus por meio da fé não quer dizer que a fé
seja algo que resulta de uma instrução irracional, isto é, de um cego
pressentimento da obscuridade.
A fé não nos mostra Deus racionalmente,
mas nos faz concebê-lo razoavelmente. A
fé também consiste num ato vital de nossa faculdade mental e, portanto, é um
conhecimento desenvolvido pela percepção
espiritual estimulada pela revelação
divina. Andamos por fé e não por vista (2Co 5.7). Desta forma, tudo que
conhecemos por meio da fé não se pode obter pelo empirismo que se prende aos
fenômenos sensoriais. A fé, segundo nos diz o autor de Hebreus, é a base de sustentação das coisas que
esperamos e argumento convincente das
coisas que não vemos (Hb 11.1). O autor da Epístola aos Hebreus escreve: "De fato, sem fé é impossível agradar a
Deus, porquanto é necessário que aquele que se aproxima de Deus, creia que ele
existe e que é galardoador dos que o buscam" (Hb 11:6).
É certo que o escritor não está querendo aqui convencer os leitores de
que Deus existe e sim, explicar o conceito de fé. Fé, segundo ele, "é a certeza de coisas que se esperam,
a convicção de fatos que não se veem" (Hb 11:1). Isto, portanto, nos
leva a concluir que a existência de Deus não é algo que o homem comprove
cientificamente, pois Deus não é perceptível sensorialmente; mas que aquele que
crê em Deus, mesmo que não o veja, terá, ao aproximar-se dele, a prova cabal de
sua existência.
CAPÍTULO IV
A COGNOSCIBILIDADE DE DEUS
1. A possibilidade
de conhecermos Deus
Tendo como pressuposto a realidade misteriosa de Deus, a teologia
demanda por descobrir o que dele pode ser conhecido. As questões emanentes da
fé, excitada pela razão, buscam por respostas que especifiquem os pilares da teologia
sobre os quais uma concepção correta de Deus possa ser edifica, designando o
seu ser, suas obras, propósitos e suas relações com toda a realidade externa
(fora de Deus). Em resposta à pergunta sobre a possibilidade de se conhecer
Deus, Francisco Lacueva[23] afirma:
a)
Sim, porque nossa razão pode demonstrar sua existência;
b)
Sim, porque em nossa mente há uma capacidade inata que nos faz intuir
sua existência;
c)
Sim, mas só na medida em que Ele mesmo se revela a nós.
Partindo da ideia de que Deus pode ser conhecido, questionamos: Como tal
conhecimento pode chegar até nós? Em outras palavras, como podemos saber que
Deus é realmente aquilo que cremos que ele seja? Estas questões são respondidas
distintamente pelo racionalismo, semi-racionalismo, a igreja romana e a Bíblia
Sagrada.
2. O que diz
o racionalismo
Na concepção dos racionalistas, a razão humana pode conhecer com certeza
tudo quanto existe e defendem a capacidade da razão para penetrar profundamente
toda realidade, incluindo Deus e a autonomia da razão a respeito da fé e da
revelação. Segundo os semi-racionalistas, a razão humana pode conhecer tudo,
ainda que tenha de deter-se ante o mistério, ao qual Deus está
reservado. Uma vez que Deus revela a existência de um mistério, a razão humana
tem em si a capacidade necessária para desentranhar sua essência.
A igreja romana, no Concílio Vaticano I, definiu que a razão humana
pode, por suas próprias forças, conhecer com certeza a Deus pelas obras da
criação, de tal modo que a revelação especial não é absolutamente necessária,
ainda que sem ela não poderia conhecer o conjunto de verdades divinas não
misteriosas sem obstáculos, com firme certeza e sem mescla de erro. A
transcendência absoluta de Deus impede o homem de conhecê-lo?
2.1. A
concepção do agnosticismo
A pergunta pela possibilidade de se conhecer Deus é respondida por
Agostinho de Hipona de forma radical: Não! Os gnósticos de todos os tempos
arrogam um conhecimento penetrante de Deus, reservado somente aos lúcidos
iniciados nos mistérios do gnosticismo (gnose mística, esotérica). Por
outro lado, os agnósticos, em contrário, afirmam a impossibilidade de Deus ser
conhecido.
Ao se afirmar que Deus pode ser conhecido não se pretende com isso dizer
que podemos saber tudo o que é verdadeiro com respeito a Deus. Também não está
em vista a ideia de que Deus pode ser concebido, isto é, não podemos formar uma
imagem mental de Deus. “Conceber é pensar. Portanto, uma concepção é um
pensamento, e não necessariamente uma imagem. Dizer, pois, que Deus é
inconcebível, na linguagem popular, é simplesmente dizer que ele é
inimaginável...”. [24] Em outras
palavras, qualquer ideia humana de Deus sempre haverá de portar alguma distorção
da realidade do ser divino.
2.2. Deus, um
ser incompreensível
No que se refere à cognoscibilidade de Deus, reconhecemos que, embora
Deus possa ser conhecido, no entanto, não podemos compreendê-lo. Conhecer Deus
é requisito fundamental para a salvação – "E
a vida eterna é esta: que te conheçam a ti, o único Deus verdadeiro, e a Jesus
Cristo, a quem enviaste" (Jo 17.3). Os tradicionalmente reconhecidos
como pais da igreja "falavam do Deus invisível como um Ser não gerado,
indenominável, eterno, incompreensível,
imutável”. Os escolásticos sustentavam que "não sabemos o que Deus é em
seu Ser essencial, mas podemos saber algo da sua natureza, daquilo que ele é
para nós, como ele se revela em seus atributos divinos”.
O que significa
compreender? “Compreender é ter um completo e exaustivo conhecimento de um
objeto. É entender sua natureza e suas relações. Não podemos compreender a
energia, especialmente a energia vital. Vemos seus efeitos, mas não podemos
entender sua natureza ou modo em que ela age. Seria estranho que conhecêssemos
mais de Deus do que de nós mesmos, ou dos objetos mais familiares do sentido”.[25]
Não se pode compreender o que não se conhece, mas também nem tudo que se
conhece pode ser compreendido. A
exemplo disso, temos a vida. Ela é um mistério para o homem; é algo que
possuirmos, mas que transcende nossa compreensão de existência. Nós conhecemos
e comprovamos a sua realidade, mas ninguém consegue explicar racionalmente sua
consistência, nem mantê-la sob o controle de quem a possui.
Conhecimento, diz Hodge, “é a percepção da verdade. Tudo o que a mente
percebe, intuitiva ou racionalmente, ser verídico, isso ela conhece”. Com
respeito ao que está fora de nós, quando nossas ideias ou convicções acerca
disso correspondem ao que a coisa realmente é, então a conhecemos. Nosso
conhecimento de Deus é parcial e inadequado. Para explicar o sentido da
parcialidade do nosso conhecimento de Deus, Hodge diz: “Há infinitamente mais
em Deus do que podemos saber; e o que conhecemos, conhecemos imperfeitamente
[...]. Sabemos que ele age; mas não sabemos como ele o faz, nem a relação que
sua atividade tem com o tempo ou com as coisas fora dele”.[26]
Na tentativa de nos esclarecer essa verdade, o apóstolo Paulo, diante da
perplexidade humana ao questionar os atos e a vontade soberana de Deus,
pergunta a cada um de nós: “Quem és tu, ó homem, para discutires com Deus?!
Porventura, pode o objeto perguntar a quem o fez: Por que me fizeste assim?”
(Rm 9.20).
Buscando provar que o pecado danificou a natureza humana, Paulo
testifica de sua própria incapacidade de conhecer a si mesmo, ao declarar:
“Porque nem mesmo compreendo o meu
próprio modo de agir, pois não faço o que prefiro, e sim o que detesto” (Rm
7.15). Se o homem, por mais espiritual que seja, não sabe explicar o mistério
do pecado na vida do regenerado, como poderá compreender Deus?
3. As
características do conhecimento de Deus
Sendo a teologia o discurso sobre Deus,
o conhecimento que se tem do ser divino oriundo da revelação só pode ser
expresso e discernido de forma sistematizada. Por esta razão, é de fundamental
importância que sejam considerados na estruturação do corpo doutrinário os
seguintes elementos:
a) A
fonte – Deus é a fonte do conhecimento que temos dele.
b) O
conteúdo – tudo que sabemos de Deus diz respeito à sua
natureza, suas obras, seus desígnios e seu caráter.
c) A
progressão – o conhecimento de Deus chegou até o homem
por meio da autorrevelação divina de forma progressiva, ao longo da história.
d) Os
propósitos – sendo Deus a fonte e o sujeito da
revelação, é de se esperar que tal revelação contém tudo que diz respeito às
intenções de Deus para com aqueles a quem ele se revelou.
No que se refere à fonte, tudo que sabemos de
Deus deriva dele próprio. O grande clichê teológico expressa que toda
verdade é a verdade de Deus, mas isso deveria ser considerado com mais
cuidado. Somente a verdade absoluta tem procedência divina, porque, depois
de arruinada pelo pecado, a humanidade tem criado aquilo que chama de
verdade, mas que, de fato, não é. Depravado pelo pecado, o homem tem
pervertido, alterado, diluído e corrompido o que originalmente, em sua
essência, era a verdade absoluta proveniente do próprio Deus. Por esta
razão, no contexto contemporâneo, a Palavra de Deus é a medida infalível para
determinação da verdade.
Mesmo tendo havido um desenvolvimento
progressivo da razão, a mente humana é limitada e está obscurecida. Toda
experiência humana, até no campo da religião, necessita de credibilidade como
fonte do verdadeiro conhecimento de Deus, sob a única condição de que o mesmo
seja compatível com a Bíblia. Isto suscita uma questão sobre a identificação da
religião verdadeira.
O
judaísmo, mesmo tendo sido a raiz do cristianismo, não pode ser considerado a
verdadeira religião. A razão disso é que a igreja, e somente a igreja, o povo
da nova e eterna aliança, foi designada como “coluna e baluarte da verdade” (1Tm
3.15); e somente os apóstolos de Cristo devem ser considerados como “despenseiros
dos mistérios de Deus” (1Co 4.1). Isto significa dizer que a igreja, e não
a sinagoga judaica, é a legítima detentora dos oráculos divinos.
No que se refere ao
conteúdo, o conhecimento de Deus é, simultaneamente, factual e pessoal.
Tratando-se do conhecimento de uma pessoa, é razoável pensar que conhecer os
fatos a respeito de uma pessoa sem conhecer sua personalidade é algo limitado.
Por outro lado, conhecer sua personalidade sem conhecer os fatos a respeito
dela é algo superficial. Os fatos revelados a respeito de Deus são importantes
para um relacionamento íntimo, inteligente e útil com ele. O relacionamento
humano com Deus requer, imprescindivelmente, o conhecimento de algumas verdades
a respeito de ambos.
A obtenção progressiva do conhecimento de
Deus é um fato inegável. Tudo que sabemos da pessoa e das obras de Deus foi
obtido através de uma revelação progressiva, ao longo da história. Neste
sentido, pode-se afirmar que a teologia cristã suplementa a teologia judaica e
isto pode ser comprovado pelo conteúdo doutrinário sobre Trindade, cristologia,
pneumatologia, ressurreição e escatologia. É tarefa precípua da teologia
bíblica registrar essa progressão.
Segundo as Escrituras, ninguém conhece as coisas de Deus, a não ser o
Espírito de Deus; o homem natural não percebe as coisas que são do Espírito de
Deus, porque para ele são loucura (1Co 2.11, 14). Mesmo assim aqueles que não
conhecem a Deus são inexcusáveis, porque o universo criado comporta uma revelação
do poder eterno e da deidade do Criador. Isso acontece porque o coração
corrompido do homem caído obscurece a razão com suas próprias trevas, fazendo
vãos os raciocínios de forma que não se traduzam as atitudes corretas a
respeito da genuína ideia de Deus (Rm 1.18-21).
Qual o propósito ou necessidade do conhecimento de Deus? A igreja postula que,
embora Deus seja incompreensível, ele
pode ser conhecido e que este
conhecimento é necessário à salvação (Jo 17.3), à verdadeira adoração (Jo
4.22-24; Rm 11.33-36), a uma relação correta com Deus (Os 6.6) e à repressão à
impiedade (Os 4.1-6). Ainda mais, o crescimento cristão (2Pe 3.8) é estimulado
pelo conhecimento doutrinário (Jo 7.17; Rm 6.9,16; Ef 1.8) e produz um estilo
de vida com discernimento (Fp 1.9-10; 2Pe 1.5). Finalmente, o conhecimento de
Deus alerta sobre o juízo vindouro (Os 4.6; Hb 10.26-27).
As Escrituras, mesmo afirmando que Deus pode ser conhecido, afirma
questionando que:
a) Deus não pode ser sondado: “Porventura, desvendarás os arcanos de Deus
ou penetrarás até a perfeição do Todo-Poderoso?” (Jó 11.7; 1Co 2.11).
b) O homem depende totalmente
do Espírito de Deus - “o homem natural
não aceita as coisas do Espírito de Deus... e não pode entendê-las, porque elas
se discernem espiritualmente” (1Co 2.14) e levanta a questão: “Pois quem conheceu a mente do Senhor...?”
(1Co 2.16).
O que Paulo pretende deixar claro é que o homem depende do Espírito de
Deus para que lhe possa interpretar o sentido real de tudo que conhece de Deus
e não compreende. Concluímos, portanto, que Deus pode ser conhecido, mas não
compreendido.
4. Teorias
racionais sobre a cognoscibilidade de Deus[27]
Tomamos conhecimento das
coisas pelos seguintes meios: (a) Percepção
dos sentidos (empirismo); (b) Razão
(capacidade inata, alicerçada nos poderes mentais) que transcende a percepção
dos sentidos; (c) Intuição, com base
nas ideias inatas e nos poderes espirituais do homem, capaz de ficar sabendo
das coisas acima da percepção dos sentidos e da razão; (d) Experiências místicas, que envolvem o conhecimento através de
poderes espirituais.
As experiências místicas
são uma subcategoria da revelação. Em primeiro lugar, temos as visões dos
profetas; em segundo lugar, a concretização dessas visões em forma escrita,
depois esses escritos se tornam livros sagrados. É evidente que a revelação
divina não pode chegar até o homem sem estar maculada por problemas,
debilidades e erros por omissão, mesmo porque o ser humano não compreenderia
uma revelação completa, conforme Deus a entende.
4.1. A teoria
do conhecimento inato
Existe em nossa mente uma
capacidade inata para intuir Deus? Os grandes filósofos, teólogos e apologistas
de todos os tempos têm reconhecido no homem uma intuição ou capacidade
congênita, afincada no inconsciente, de pressentir a Deus como uma realidade
suprema na qual “vivemos e nos movemos” (At. 17:28). É no passo do
inconsciente, através do “coração entenebrecido” de Romanos 1:21, à consciência
do homem caído, onde a ideia de Deus se perverte. Calvino a chama de “um certo
sentimento da divindade... por instinto natural”. Também compara tal intuição a
uma semente ou “ideia congênita” como a chamaram os primeiros escritores
eclesiásticos. Sem dúvida, este inatismo (doutrina que admite a existência de
ideias inatas), eleva-se à ideia consciente e demonstrável, nos leva ao falso
argumento ontológico ou demonstração a priori da existência de Deus.
O método com que Descartes
pretendeu provar que a ideia de Deus é congênita é falso. Ele disse que “Nossa
mente possui uma ideia clara e distinta do infinito: esta ideia não pode
proceder da mesma mente finita; logo foi implantada por Deus”. A isto
respondemos que a mente humana não chega ao conceito de infinito por intuição
deste, senão por uma abstração mental mediante a qual despoja o limitado de
seus limites, fabricando-se assim, mediante uma negação, um conceito positivo
aproximado do ilimitado. Chafer advoga que as verdades intuitivas devem ser
testadas por certos fatores. As verdades intuitivas são caracterizadas pelos
seguintes aspectos:
a) Universais – comuns a todos os homens que, consciente ou inconscientemente, agem
sobre elas;
b) Necessárias – elas são operadas na constituição de toda pessoa normal;
c) Autoevidentes e autodeterminativas – não
estão sujeitas a quaisquer outras verdades para a cognição delas. [28]
O conhecimento inato resulta da constituição humana como ser sensitivo,
racional e moral. Tal conhecimento não é adquirido pelo processo de
aprendizagem nem se fundamenta na experiência. O conhecimento inato consiste na
percepção que a alma humana tem da veracidade das coisas sem que haja
necessidade de provas. Isto não quer dizer que todo ser humano, ao nascer, já
tenha conhecimento em exercício consciente das verdades intuitivas.
O conhecimento inato,
segundo Hodge, opõe-se ao empirismo, à aprendizagem por instrução e ao processo
de reflexão. A fonte do conhecimento inato é a nossa natureza. Isto significa
que a mente humana é capaz de perceber que certas coisas são verdadeiras sem
necessidade de prova e instrução.
Todas as nossas percepções
intuitivas são de domínio de nossa estrutura psicofísica, isto é, dos sentidos,
do entendimento e de nossa natureza moral. Aqui cabe uma pergunta: Deus pode
ser percebido por esses elementos de nossa constituição psicossomática? Seja
qual for a resposta, podemos afirmar com segurança que a existência de Deus
independe de ele ser ou não percebido pelo homem. Isto significa que a
realidade de Deus independe tanto de nossa percepção como de nossa imaginação.
A crença intuitiva em Deus
não está associada nem à imaginação, nem à percepção sensorial. Situa-se no
âmbito da experiência mística, dos poderes do espírito. Ela consiste na
convicção interior (espiritual) inexplicável e injustificável da realidade da
pessoa de Deus de quem o homem reconhece sua dependência e perante o qual
sente-se responsável.
4.2. A teoria
do conhecimento universal
A universalidade do conhecimento de Deus é uma proposição tanto bíblica
como histórica. As Escrituras propõem um conhecimento universal de Deus por
meio da revelação divina através da natureza (Rm 1.19-21). Mesmo distorcida, a
ideia de Deus, no mundo pagão, tem abrangência universal. Ela consiste na
crença em um Ser Supremo que manipula os poderes da natureza e do universo como
um todo, impondo temor no homem, o qual reconhece que está sujeito ao seu
governo moral. A história tem registrado que o sentimento e a prática religiosa
do ser humano tanto é universal quanto racional ou social. A ideia de Deus está
impregnada na mente e na cultura de todos os povos, em todo o mundo.
4.3.
Racionalismo
Segundo Hodge, “por
racionalismo entende-se o sistema ou teoria que atribui à razão autoridade
indevida em questões de religião”. Entende-se como razão a capacidade cognitiva da mente humana para refletir,
analisar, comparar, julgar e inferir sobre o objeto do conhecimento. Há duas
correntes do racionalismo: a teísta e a deísta. O racionalismo teísta (doutrina que admite a existência
de Deus como pessoa e causa do universo) admite a existência de um Ser Supremo
pessoal que transcende o universo. O racionalismo deísta é uma doutrina filosófica que, embora rejeitando toda
espécie de revelação divina e a autoridade de qualquer igreja, aceita a ideia
da existência de Deus, mas destituído de atributos morais e intelectuais e que
poderá ou não ter influído na criação do universo.
4.3.1. Uma controvérsia com o racionalismo deísta
Segundo o racionalismo
deísta, não há qualquer revelação divina sobrenatural. Na concepção dos
deístas, Deus, tendo criado o mundo, dotou as criaturas de seus atributos e
propriedades, tornando a criação consistente com a sua natureza. Não há
qualquer interferência de natureza moral de Deus na criação, em todo o percurso
do tempo e da história. A falácia desta teoria consiste nos seguintes fatos:
a) Contradiz o testemunho de
nossa natureza moral. Se somos criaturas de Deus dotadas pelo próprio Deus de
consciência moral, então Deus tem atributos morais e é pessoal. Desta forma,
relaciona-se com o homem.
b) A concepção racional de
Deus como Ser Supremo implica a ideia de Legislador e Governante que controla o
universo e interfere nos atos livres humanos.
c) As Escrituras testemunham
dos atos milagrosos de Deus que ainda fazem parte da experiência cristã no
mundo atual.
4.3.2.
Argumentos racionais que refutam o racionalismo [29]
a)
O racionalismo fundamenta-se num falso princípio. Não é necessário ao
exercício racional da fé que entendamos a verdade para nela crer. O
assentimento à verdade fundamenta-se na evidência. Cremos em algumas coisas com
base no testemunho de nossos sentidos ou no testemunho de outras pessoas. Por
que não poderíamos crer no testemunho de Deus?
b)
O racionalismo presume que a inteligência humana é a medida de toda
verdade. Essa é uma presunção louca do homem. Se uma criança crê naquilo que
não pode entender, baseada no testemunho de seus pais, seguramente o homem pode
crer no que não pode compreender baseado no testemunho de Deus.
c)
Se não pode haver fé racional, se temos de receber como verdadeiro
apenas o que conhecemos e compreendemos, então o mundo inteiro está reduzido à
miséria. Ele perde tudo o que sustenta, beatifica e enobrece a vida.
d)
Os pobres não podem ser racionalistas. Se for preciso entender aquilo em
que cremos, mesmo com base nos princípios dos racionalistas, então somente os
filósofos podem ser religiosos.
e)
Fé implica conhecimento. E, se devemos entender a fim de conhecer, então
fé e conhecimento são igualmente impossíveis. A verdade é que podemos crer
naquilo que racionalmente não podemos compreender.
4.4.
Agnosticismo
À pergunta: “podemos conhecer a Deus?” O agnosticismo responde
categoricamente: NÃO!... Immanuel Kant, de uma maneira mais técnica e radical,
propugnou o agnosticismo ao pretender que a natureza íntima das coisas, o
NÚMENO (concebível) é transcendente, ou seja, incognoscível, enquanto que só os
FENÔMENOS (aparências), experimentais sensorialmente, são objeto autêntico do
puro conhecer. Segundo Kant, estes fenômenos são captados dentro de nossas intuições puras do tempo e do espaço e
encaixados por nossa razão nas diversas categorias, que são produto de nossa
mente.[30] É bem
verdade que só podemos conhecer a realidade das coisas através dos fenômenos, mas estes fenômenos são causados pelo próprio objeto.
Da mesma forma, não é de esperar que Deus tenha se revelado, superando
as deficiências e limitações humanas por meio das manifestações sobrenaturais (teofanias e milagres) para que
pudéssemos conhecê-lo naquilo que necessitamos, de acordo com a nossa
capacidade racional e percepção
espiritual? Como o homem espiritualmente cego (2Co 4.4) pode perceber espiritualmente Deus sem que o
próprio Deus, por meio do seu Espírito, remova o véu (revelar) da obscuridade?
A negação da possibilidade
do homem conhecer a Deus geralmente se fundamenta nos supostos limites da
faculdade cognitiva humana. Os agnósticos declaram unanimemente que qualquer
coisa que está fora dos fenômenos naturais não se pode conhecer. Hume, embora
não tenha negado a existência de Deus, afirmava que "não temos um
verdadeiro conhecimento dos seus atributos. Todas as ideias dele são, e só
podem ser, antropomórficas". [31]
Segundo Berkhof, outras expressões do agnosticismo são:
a)
O homem só tem conhecimento
mediante analogia. Conhecemos somente aquilo que tem
alguma analogia com a nossa natureza ou com a nossa experiência.
b)
O homem só conhece aquilo
que ele pode captar em sua inteireza. Isto significa que o homem não pode compreender a
Deus, que é infinito, não pode ter um exaustivo conhecimento dele. Portanto,
Deus não pode ser conhecido.
c)
Todos os predicados de Deus
são negativos e, portanto, não fornecem conhecimento real. Hamilton declara que o
Absoluto e o Infinito só podem ser concebidos como uma negação imaginável; o
que de fato significa que não podemos ter delas absolutamente nenhuma
concepção.
d)
Todo nosso conhecimento é
relativo ao sujeito que exerce o conhecimento. Diz-se que conhecemos os
objetos não como eles são objetivamente, mas como eles são em sua relação com
os nossos sentidos e faculdades.
4.5. A Igreja
Romana
O Concílio Vaticano I definiu que a razão humana pode, por suas próprias
forças, conhecer com certeza a Deus pelas obras da criação de tal modo que a
Revelação Especial não é absolutamente necessária, ainda que sem ela não se
poderia, na presente condição humana, obter pleno êxito; ou que todos poderiam
chegar a conhecer o conjunto de verdades divinas não misteriosas, sem
obstáculos, com firme certeza e sem mescla de erro.
4.6. Resposta da teologia reformada
Segundo Berkhof, a teologia reformada apresenta os seguintes argumentos:
a)
Deus pode ser conhecido, mas que ao homem é impossível ter um exaustivo
e perfeito conhecimento de Deus, de modo algum.
b)
Ter esse conhecimento de Deus seria o mesmo que compreendê-lo, e isto
está completamente fora de questão o homem não pode dar uma definição de Deus
no sentido exato da palavra, mas apenas uma descrição parcial.
c)
O homem pode obter um conhecimento de Deus perfeitamente adequado à
realização do propósito divino na vida do homem”. Contudo, o verdadeiro conhecimento de Deus só
pode ser adquirido graças à autorrevelação divina.
5. Natureza
do conhecimento pela revelação [32]
a) Esse conhecimento, sempre
será mediado por intermédio de Cristo, pois ele é o Logos, a revelação e o revelador de Deus (Jo 1.18; 1Co 1.30).
b) Trata-se do conhecimento
sobre o Pai, e assim inclui aquilo que ele faz por nós, na qualidade de nosso
Pai.
c) Na qualidade de filhos que
estão sendo conduzidos à glória (Hb 2.10) chegaremos a desfrutar da íntima
associação com o Pai, por meio do Filho; e, quando sua natureza e glória nos
forem infundidas (Ef 3.19) então nós mesmos seremos demonstrações vivas do que
Deus é e do que ele faz. Veremos Deus espelhado em nós (2Co 3.18).
d) Todo desenvolvimento espiritual
será aquilatado (aprimorado) pela extensão em que chegaremos a conhecer a Deus.
e) Esse conhecimento, nos
lugares celestiais, terá sua fruição na forma de visão beatífica, o que
consistirá não meramente da contemplação de Deus, mas também, de serem os remidos
iluminados a fim de participarem de sua natureza e de seus atributos.
5.1. A
autorrevelação divina
Ao se tratar de Deus como objeto de estudo, não é possível conhecê-lo
pelos caminhos percorridos pelas ciências naturais, pois Deus, como ser transcendente,
extrapola as fronteiras de toda ciência humana. Por esta razão, a
autorrevelação divina, mais que necessária, é indispensável para o conhecimento
de Deus. Qual o conceito teológico de revelação? Thiessen nos propõe, de forma
muito clara, o seguinte conceito: “é o ato de Deus pelo qual ele se mostra ou
comunica verdade à mente; pelo qual ele torna manifesto às suas criaturas
aquilo que não pode ser conhecido de nenhuma outra maneira”.[33]
As Escrituras propõem três
formas pelas quais Deus se revelou: por meio da criação, por meio da história e
por meio de Cristo. A revelação de Deus em Cristo também é reconhecida como a
revelação especial de Deus. Alguns dos teólogos mais influentes do século XX,
ao falarem da revelação, apresentam pontos de vista divergente do tradicional.
Karl Barth reconhece que o homem perdeu completamente a imagem original de
Deus. Mas Emil Brunner afirma que essa perda diz respeito ao seu conteúdo, mas
quanto à sua forma, a imagem de Deus ainda foi preservada no homem. Isto torna
a revelação não só necessária, mas também possível.
O apóstolo Paulo, em 1Co 2.11, declara a impossibilidade do homem
conhecer a Deus sozinho: "Porque
qual dos homens sabe as coisas do homem, senão o seu próprio espírito, que nele
está? Assim, também as coisas de Deus, ninguém as conhece, senão o Espírito de
Deus". Ele afirma que o Espírito Santo (e somente ele) perscruta todas
as coisas; até mesmo as profundezas de Deus e as revela ao homem (1Co 2.10).
5.2. A
necessidade da autorrevelação
A revelação sobrenatural
foi necessária como meio de o homem, como ser pessoal e inteligente, ter
respostas às questões que o inquietam e definem o rumo de sua vida e sua
existência. Hodge levanta as seguintes questões: O que pode a razão decidir quanto ao destino da alma após a morte? Pode
alguém ser capaz de fazer-se santo e feliz aqui e garantir seu próprio
bem-estar no futuro eterno?
O saber científico não tem
respostas. Pelo contrário, apesar do progresso da ciência, o homem, cada vez
mais, se desumaniza e se degenera na tentativa de usufruir de tudo que lhe dá
prazer, porque a morte é inevitável e frustra as tentativas de vida perpétua no
mundo. Isto nos leva a entender que a necessidade da revelação pode ser
entendida a partir da sua causa, do seu propósito e das circunstâncias ou
condições humanas que demandam uma manifestação da pessoa de Deus. A causa e o
propósito têm origem exclusiva em Deus, enquanto que as circunstâncias ou
condições estão relacionadas ao homem.
5.3. As
causas da revelação, segundo as Escrituras
a)
A natureza transcendental
de Deus - Deus,
embora preencha o universo, estende-se para além de suas dimensões. Ele é um
ser que está fora dos limites do tempo e do espaço; e não pode ser percebido
pelos sentidos humanos (Ex 33.20; Jo 1.18; 1Tm 6.16).
b)
A relação de Deus com a
criação – o
universo e o homem criados por Deus não foram abandonados à própria sorte. O
ato divino na criação foi intencional, isto é, tudo que foi criado tem sua razão
de existir. Deus, que sustenta todas as coisas, tem uma relação com sua
criação, da qual o homem é seu legítimo representante e o que por ela é
responsável perante Deus (Gn 1.27-30).
5.4. O
propósito da revelação
O propósito da revelação
está relacionado à necessidade que o homem tem de conhecer seu Criador e sua
vontade soberana. Todas as coisas foram criadas para um determinado fim (Pv
16.4). O universo e o homem foram criados para a glória de Deus. Deus é
soberano e exerce sua autoridade sobre tudo e todos. Ele tem definido um padrão
moral de conduta para o homem e direciona sua vida e existência (Pv 16.1-33).
5.5. As
condições que demandam a revelação
Duas são as condições que demandam a revelação divina:
a)
A finitude do homem – “sendo os seres humanos
finitos e Deus, infinito, não podemos conhecer a Deus, a menos que ele se
revele para nós, ou seja, a menos que ele se manifeste aos humanos de tal forma
que estes possam conhecê-lo e ter comunhão com ele”.[34]
b)
O estado de alienação do homem no pecado – os poderes de percepção
espiritual do homem foram embotados por Satanás (2Co 4.4). Em seu estado
natural, o homem não tem condições favoráveis ao entendimento das coisas
espirituais, nem ao conhecimento da pessoa divina (1Co 2.14). Por esta razão, o
homem depende do Espírito de Deus como agente revelador (1Co 2.10-12).
5.6. As
Escrituras como o registro da revelação
Hodge[35] reconhece
as Escrituras como registro da revelação divina, da seguinte forma:
a)
Os autores sagrados reivindicam ser os mensageiros de Deus,
testemunhando de sua experiência como receptores da mensagem de Deus.
b)
A Bíblia não contém coisa alguma inconsistente com a reivindicação de
seus autores e a verdade solidamente autenticada.
a)
A Bíblia revela verdades da mais elevada ordem, em nenhum outro lugar
feito conhecidas. Verdades que satisfazem às mais urgentes necessidades de
nossa natureza; que resolve os problemas que a razão jamais foi capaz de
resolver.
b)
Os vários livros que compõem as Escrituras foram escritos por pessoas
diferentes, em lugares e épocas diferentes e, no entanto, formam um todo
orgânico, o produto de uma única mente.
c)
Deus dá testemunho da autoridade das Escrituras por meio de sinais,
prodígios e milagres. Os eventos do Novo Testamento foram preditos no Velho
Testamento. O cumprimento de profecias não admite nenhuma solução racional, a
não ser que a Bíblia é obra de Deus.
d)
A Bíblia sempre foi e ainda é um poder no mundo. Ela tem determinado o
curso da história. É a única garantia da ordem social, da virtude, dos direitos
humanos e da liberdade.
e)
A Bíblia fez conhecidos a pessoa, os atos e as obras de Cristo como a
mais clara revelação de Deus já feita ao homem.
5.7. Aspectos
da revelação através das Escrituras [36]
a)
A revelação divina é variada em seus temas.
b)
A revelação divina é parcial; limita-se ao que está escrito e tem
validade canônica (Dt 29.29).
c)
A revelação divina é completa com relação aos fatos revelados: Cristo, a
plenitude da divindade (Cl 2.9); nele se completa a obra da salvação (Cl 2.10).
d)
A revelação divina é progressiva.
e)
A revelação divina é primariamente para a salvação (2Tm 3.15; 1Jo
5.9-12).
f)
A revelação divina é final (Jd 3).
g)
A revelação divina é infinitamente exata. “Toda a Escritura é inspirada
por Deus” e é a Palavra escrita de Deus.
6. A
revelação geral de Deus
As Escrituras nos testificam que há duas formas específicas pelas quais
Deus, ao longo da história, tem se revelado: por meio da natureza e através de
seu Filho Jesus Cristo. Com respeito à natureza, a Bíblia nos declara:
a)
Salmos 19:1: “Os céus proclamam a glória de
Deus, e o firmamento anuncia as obras das suas mãos”.
b)
Atos 14:17: “contudo, não se deixou ficar
sem testemunho de si mesmo, fazendo o bem, dando-vos do céu chuvas e estações
frutíferas, enchendo o vosso coração de fartura e de alegria”.
c)
Rm 1.19-20: “porquanto o que de Deus se pode
conhecer é manifesto entre eles, porque Deus lhes manifestou. Porque os
atributos invisíveis de Deus, assim o seu eterno poder, como também a sua
própria divindade, claramente se reconhecem, desde o princípio do mundo, sendo
percebidos por meio das coisas que foram criadas. Tais homens são, por isso,
indesculpáveis”.
Isto significa que a natureza existente testifica da realidade do ser de
Deus de tal forma que é possível qualquer ser humano normal ter uma percepção
clara de Deus (“... se entendem e claramente se veem..."). Mas, apesar de
obter tal conhecimento, o coração corrompido do homem natural aceita as coisas
que de Deus se conhece (1Co. 2:14). As Escrituras também deixam claro que até
mesmo através da História Deus se revelou.
A ação histórica de Deus, não só em sua relação com Israel como também
em relação às demais nações, é testificada com destaque por toda a Bíblia. Reis
e nações são exaltados ou abatidos por Deus que se identifica como Legislador e
Juiz nos céus e na terra. Nações e impérios mundiais foram alvo da ação
poderosa de Deus: Egito (Ex 9.13-17; Jr 46.14-26); Assíria (Is 10.12-19; Ez
31.1-4; Na 3.1-7); Babilônia (Jr 50.1-10; 51.1-4); Medo-Pérsia (Is 44.24-45.7;
Dn 8.1-8, 15-21); Império Romano (Dn 7.7, 23). Todo o Antigo Testamento compõe
um registro da relação entre Deus e Israel e suas implicações com as demais
nações do seu contexto histórico e geográfico.
De acordo com a teologia
natural (corrente teológica que formula uma doutrina da revelação divina
através da natureza, da história e da personalidade humana), “é possível ao
homem chegar a um conhecimento genuíno de Deus, baseando-se apenas na razão,
sem um compromisso de fé anterior com as crenças do cristianismo e sem nenhuma
dependência de alguma autoridade especial, tais como uma instituição (a igreja)
ou um documento (a Bíblia). A razão aqui se refere à capacidade humana de
descobrir, compreender, interpretar e analisar a verdade”.[37]
É bem verdade que a
natureza revela “os atributos invisíveis
de Deus, o seu eterno poder como também a sua própria divindade” (Rm 1.20);
mas tal revelação não é suficiente para levar o homem a conhecer os desígnios
de Deus, no tocante ao plano da salvação. O propósito da revelação natural
consiste apenas em conscientizar o homem da culpa do pecado, do seu estado de
degeneração espiritual e moral e de sua inevitável condenação (Rm 1.20-32). É
exatamente esta situação que justifica e demanda a evangelização que consiste na
tarefa de fazer o mundo conhecer os grandiosos atos redentores de Deus e os
meios e recursos por ele providos para a salvação do homem.
7. A
revelação especial de Deus
Enquanto o Velho Testamento dá ênfase à revelação geral de Deus através
da História, o Novo Testamento concentra a manifestação da pessoa e dos atos de
Deus em Jesus, o Messias. Tal revelação é luz para Israel que deve ser
compartilhada com todas as nações (Lc 2.25-32; Mt 28.19-20; At 1.8).
Com respeito à revelação de Deus em Cristo, a Bíblia diz:
a)
João 1:18: “Ninguém jamais viu a Deus; o
Deus unigênito, que está no seio do Pai, é quem o revelou”.
b)
Hebreus 1:1-2: “Havendo Deus, outrora, falado,
muitas vezes e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, nestes últimos
dias, nos falou pelo Filho, a quem constituiu herdeiro de todas as coisas, pelo
qual também fez o universo”.
c)
João 12:45: “E quem me vê a mim vê aquele
que me enviou”.
d)
Jo 14.9-11: “Disse-lhe Jesus: Filipe, há
tanto tempo estou convosco, e não me tens conhecido? Quem me vê a mim vê o Pai;
como dizes tu: Mostra-nos o Pai? Não crês que eu estou no Pai e que o Pai está
em mim? As palavras que eu vos digo não as digo por mim mesmo; mas o Pai, que
permanece em mim, faz as suas obras. Crede-me que estou no Pai, e o Pai, em
mim; crede ao menos por causa das mesmas obras”.
e) A revelação de Deus em
Cristo é comunicada por meio da encarnação do Logos Divino (Jo
1.1-3,14) interagindo no mundo, buscando reconciliá-lo consigo mesmo (2Co
5.19). Em Cristo, o Deus Eterno, criador e sustentador do universo manifestou
sua natureza em toda a sua plenitude (Cl 1.15-17; 2.9), falando aos homens e
realizando o plano da redenção (Hb 1.1-3). Desta forma, Cristo é o centro da
História e da revelação. Nele Deus revelou sua existência, sua natureza e sua vontade.
Em Cristo, todas as promessas de Deus têm seu “Se” e seu “Amém” (2Co
1.20): sua afirmação e sua confirmação seladas e definidas; tanto
que o Espírito Santo se limitará a ensinar e recordar o que Cristo revelou sem
pretender incrementar “novas revelações” (Jo 14.26). O homem espiritual tem a
mente de Cristo (1Co 2:15-16) e nunca agirá irracionalmente. O “culto racional”
(lógico, que faz sentido), do qual Paulo fala, consiste na consagração total do
homem; e a renovação da sua mente o levará a “experimentar” (conhecer pela
experiência de vida espiritual) a vontade de Deus. Fé e razão andam juntas na
vida espiritual. As Escrituras estabelecem como condição para a salvação do
homem “o conhecer a Deus” (Jo. 17:3), sendo que tal conhecimento é adquirido por
meio da fé, mas assimilado pela razão humana. Portanto, para se crer, é preciso
ouvir (Rm 10:14-17).
8. O
pensamento do autor de Hebreus
Segundo Hb 11:1, fé é a convicção interior tanto da realidade invisível
como da realidade futura. O futuro só se concretiza na medida em que é
concebido pela fé. Disse Agostinho: “Fé é crer naquilo que não se vê; e a
recompensa dessa fé é ver o que se crê”. Portanto, o conhecimento do invisível
adquire-se pela fé, mas a compreensão da realidade invisível se efetua através
da razão, isto é, de uma mente renovada (Ef. 1:15-17; 4:13).
Por meio da fé é possível o
homem trazer ao mundo visível algo que, por meio da ciência, ele não consegue
tornar concreto. Nisto se baseia a realidade dos milagres e a resposta das
orações (Mt 21:22). Pela fé, o invisível torna-se visível, o impossível
torna-se possível e a realidade pode ser alterada (Hb 11:11, 22, 30-33). A Bíblia
promete que Deus sempre será achado por aqueles que o buscam (Jr. 29:13; Is.
55:6a). Aquele que busca a Deus certamente crê nele. Qualquer relacionamento
que o homem queira manter com Deus só o poderá conseguir por meio da fé (Hb
11:6). Portanto, o conhecimento real de Deus só pode ser adquirido pelo homem
por meio da fé, mas, para isso, sua razão necessita da luz da revelação de
Deus.
CAPÍTULO V
O SER DE DEUS
1. A essência
do ser de Deus
"Ser" é um termo que denota a ideia de tudo aquilo que possui
existência real e substancial. Todo ser possui sustância ou essência. Em sua
natureza, Deus é uma essência imaterial não perceptível sensorialmente pelo
homem que, nas Escrituras, tem o nome de Espírito. Cremos que a essência do ser
de Deus é dotada de incorruptibilidade, existência eterna e de dimensões tais
que o espaço não pode contê-lo. Ao falar de Deus, Jesus o descreve como um ser
pessoal, (Jo 6.35); espírito (Jo 4.24); sem forma (Jo 5.37); invisível (Jo
5.37; cf. Jo 1.18) e eterno (Jo 17.5, 24).
Referindo-se à natureza de Deus, Hodge[38]
diz que, sendo inerentemente infinita, a essência divina é eterna e imutável e
que a ela “pertencem certas perfeições reveladas a nós” que denominamos
atributos. Isto não significa que devamos conceber Deus como um ser composto de
vários elementos ou como um ser de múltiplas facetas ou personalidades. Deus é
um ser perfeitamente íntegro.
2. A
personalidade de Deus
Deus é um ser moral e racional. As Escrituras o revelam como um ser
pessoal inteligente. Naturalmente, diz Berkhof, “é da maior importância
sustentar a verdade da personalidade de Deus, pois, sem ela não pode haver
religião no real sentido da palavra: nem oração, nem comunhão pessoal, nem
entrega confiante, nem confiante esperança”.[39]
Uma vez que o homem foi criado à imagem de Deus, então, em consequência
disso, há uma similaridade entre Deus e o homem. Tal similaridade diz respeito
ao ser de Deus como pessoa. Assim sendo, há em Deus aquelas faculdades e
elementos constitutivos da personalidade em grau infinito e perfeito que no
homem são encontradas em sua natureza imperfeita. Isto não significa que
podemos ter um conhecimento e conceito de Deus a partir do homem. O que se
pretende afirmar é que, sendo o homem pessoa portadora da imagem divina,
inevitavelmente, Deus é um ser pessoal. Os antropomorfismos do Antigo
Testamento (p. ex.: Gn 3.8; Jr 21.5; Is 59.1) não expressam uma imaginária
natureza corpórea divina, mas descrevem Deus como pessoa.
Esclarecendo sobre o uso dos antropomorfismos no Antigo Testamento, o
Dr. J. J. Van Oosterzee declarou: “O homem pode falar de Deus somente de um
modo humano; e, se a nossa natureza é verdadeiramente relacionada à de Deus,
como podemos conceber algo dele sem o componente de uma única característica
derivada de nós próprios?” E prossegue seu comentário dizendo: “Essa é a
importância profunda das palavras de Jacobi: ‘Ao criar o homem Deus
teomorfizou; portanto, necessariamente o homem antropomorfiza’”. [40]
Há três elementos constituintes da personalidade: intelecto,
sensibilidade e vontade. Chafer opina que o intelecto deve dirigir, a
sensibilidade deve desejar e a vontade deve determinar a direção dos fins
racionais. As Escrituras dão testemunho dos poderes mentais e da ciência
divina, da sensibilidade e do desígnio do Criador “que faz todas as coisas conforme o conselho de sua vontade” (Ef
1.11). Embora criados à semelhança de Deus, somos diferentes em um ponto: o
homem é unipessoal; Deus é um ser tripessoal. A ideia de perfeição
necessita de um referencial para que se perceba seu nível ou estágio. Sendo
Deus o referencial, a personalidade humana pode ser comparada com a de Deus a
fim de que sejam identificadas as imperfeições humanas.
Com relação a Deus, isso não acontece, porque as três pessoas que
constituem o ser único de Deus são iguais. Uma vez que a personalidade humana
não se desenvolve nem existe isolada, mas comente associada a outras pessoas,
assim também a personalidade de Deus está integrada nas três pessoas e a elas
interassociada, mas em grau de perfeição absoluta, sem necessidade de mudança.
3.
A identidade de Deus
Como Deus se identifica? Na
concepção dos judeus, uma pessoa é definida pelo seu nome (Fp 2.9-10). A Bíblia
nos diz que Deus é santo, justo, misericordioso, é amor, etc. Nesta gama de
perfeições ou atributos, é que se refrata o ser de Deus, único e puro, como a
cor branca do espectro solar por meio de um prisma. “Nossa mente humana só
concebe estes atributos em separado, como se fossem qualidades diversas de um
mesmo ser, mas todos eles se fundem harmonicamente no ser de Deus. Assim, nele
o amor é santo e justo como a justiça é santa e amorosa, etc.”. [41] Mas
que definição Deus tem dado de si mesmo?
Em sua revelação a Moisés, quando este lhe pediu um nome que o
identificasse, Deus se apresenta como um Ser, cuja existência e natureza não
podem ser descritas com exatidão por meio de palavras. Por isso, identificou-se
como "EU SOU O QUE SOU" (Ex. 3:14). Esta expressão é mais que um nome
pelo qual Deus se identificou. Não tem um conteúdo abstrato ou metafísico, mas
é A MANIFESTAÇÃO ATIVA DA EXISTÊNCIA DE DEUS.
Segundo o texto hebraico e de acordo com os melhores comentaristas de
origem judaica, a expressão “EU SOU O QUE SOU” que define o ser de Deus, não
foi corretamente interpretada pelos tradutores da Septuaginta, da Vulgata
Latina e da Bíblia das Testemunhas de Jeová.
A expressão hebraica Ehyeh asher
ehyeh (Eu sou o que sou) tem o verbo no imperfeito. Deve-se considerar que,
no hebraico, só há duas concepções de ação no tempo dos verbos: o perfeito, que
expressa uma ação já concluída; e o imperfeito, que indica uma ação ainda por
terminar, isto é, não acabada. Em nada, isso tem a ver com o nosso “pretérito”.
No hebraico, uma ação ou já foi concluída ou ainda continua. Desta forma, o
imperfeito “ehyeh” designa a ideia do que Deus é e haverá de continuar sendo
tudo aquilo que, até então, tem sido continuamente. Portanto, a existência
eterna, sem fim, de Deus só se pode enunciar no imperfeito.
A Septuaginta traduz “ehyeh” por “ho on” (particípio presente) e a
Vulgata por “qui est”, em vez de “ego sum” ou “ego ero” (“eu sou” ou “eu
serei”). O futuro é improvável, pois implica numa ação que ainda não teve
início. Por isso, o texto hebraico sugere que “ehyeh asher ehyeh” signifique
que tudo o que Deus é, desde a eternidade, e ainda é hoje, haverá de ser
eternamente: autoexistente e imutável. “Eu sou o que sou” é a manifestação
ativa da existência de Deus.
Independentemente do que já foi dito, existem outras formas de se
compreender o significado desta expressão hebraica. Há três conceitos que os
modernos comentaristas (judeus e cristãos) apresentam da referida expressão
registrada no livro de Êxodo:
a)
Deus é um SER INEFÁVEL (que não pode ser expresso por palavras).
Portanto, não há palavras que possam expressar o que Deus é em toda a sua
plenitude. Um nome não o define nem o identifica.
b)
Deus EXISTE POR SI MESMO – tem em si mesmo a fonte do "Ser",
da vida e do poder. Por isso, tem sido sempre e será ETERNO, isto é, existe sem
depender da existência de outro ser. Deus tem em si mesmo a razão de sua
própria existência.
c)
Deus é um SER IMUTÁVEL – não existem mutações em sua natureza nem mesmo
em seu caráter; sua eterna fidelidade a si mesmo e ao homem jamais o fará
desistir dos seus intentos e do seu plano redentivo. Este é sempre o ato seguro
divino em sua relação com o homem ainda que se desconheça o modo.
4. Os nomes
de Deus
No mundo antigo o nome de uma pessoa era usado tanto para distingui-la
das outras pessoas como também para indicar e descrever sua natureza e seu
caráter. Como pessoa que é, Deus é invocado pelo homem e, segundo as
Escrituras, isto deve se realizar de acordo com alguns propósitos definidos:
a)
Para reconhecimento da soberania de Deus (Ex. 9:16);
b)
Para atrair a benevolência e a bênção de Deus (Ex. 20:24; Nm. 6:24-27);
c)
Para alcançar de Deus a salvação (Jl 2:32; Rm. 10:13);
d)
Para louvor e adoração a Deus (Sl. 5:11; 7:17; 8:1).
4.1. Os nomes
de Deus segundo o Antigo Testamento
a)
EL – nome usado entre os povos semíticos da antiguidade. Seu significado
perdeu-se no tempo. Supostamente significa "Ser Forte" ou "Ser
Poderoso". Tal nome é genérico e era utilizado para designar um deus
qualquer ou os espíritos que, na crença popular, se associavam com objetos,
tais como árvores, pedras e lugares. Em Gn. 33:20, usa-se EL como o nome de
Deus associado ao altar levantado por Jacó. "Levantou ali um altar e
chamou-lhe EL-ELOHE-ISRAEL" (EL, o Deus de Israel). Em Gn. 28:18 em diante
o nome EL é associado com a pedra do altar, que é designada por Bethel (Casa de
Deus).
b)
EL ‘OLAM – significa Deus Eterno. O vocábulo “’olam” tem vários significados:
1) um tempo oculto do qual não se conhece princípio nem fim. Neste sentido se
aplica a Deus para designar sua eternidade. 2) Significa “a eternidade”, como
em Ec 3.11, no sentido de algo secreto e inescrutável. El ‘Olam é o Deus Eterno
e Transcendental.
c)
ELOHIM – é o nome hebraico usado no Velho Testamento para expressar
simplesmente a ideia de divindade (Ex 3.6). Este nome está no plural para
designar majestade e poder e sempre é usado com o verbo no singular em
referência a um único ser. Sua forma no singular ELOACH é usada na poesia.
d)
EL-ELYON – o nome Elyon é derivado de 'Alah que quer dizer "subir,
ser elevado" e designa Deus como um Ser Exaltado, "O Altíssimo"
(Gn. 14:19-20; Nm. 24:16; Is. 14:14). Este nome é encontrado especialmente na
poesia.
e) OBSERVAÇÃO: Os nomes EL e ELOHIM não
podem ser reconhecidos como nomes de Deus, pois tais expressões são, em várias
passagens bíblicas, utilizadas com as seguintes referências: a) Para designar
deuses ou ídolos (Gn 35:2; Sl 95:3; 96:5); b) Com referências a homens
especiais (Ex 21:6; Sl. 82:1); c) Para designar governantes (Ex 21:6; Sl.
82:1).
f)
SHADDAI, EL-SHADDAI – o nome Shaddai deriva-se de "shadad",
que quer dizer "ser poderoso". A combinação de EL (Ser Forte, Ser
Poderoso) com SHADDAI intensifica o atributo de poder da pessoa de Deus que se
identifica como Deus Todo-Poderoso e Soberano do universo.
g)
YAHWEH – este é o nome sagrado e distintivo de Deus no Velho Testamento.
Tal pronúncia é derivada da transliteração do tetragrama hebraico YHWH para o
grego "iaoué" (tradução de Clemente de Alexandria) ou
"iabé" (tradução de Teodoreto). A verdadeira pronúncia perdeu-se no
tempo, pois os hebreus com medo de quebrarem o terceiro mandamento (Ex 20:7) e
sofrerem a pena de morte prevista em Lv 24:16, não pronunciavam o nome de Deus,
conforme escrito no tetragrama YHWH. Na leitura da Tôrah, tal nome era trocado
por ADONAI, que significa "Senhor".
Yahweh é o nome pelo qual Deus quis ser identificado. Quando se revelou
a Moisés no monte Horebe (Ex 3:1-6), Deus apresentou-se assim: "Eu sou o
Deus (Elohim) de teu pai..." (v. 6). A pedido de Moisés (v. 13), Deus se
identificou como "EU SOU O QUE SOU" ('ehyeh 'asher 'ehyeh) e
acrescentou: "Assim dirás aos filhos de Israel: YAHWEH, o Deus de vossos
pais, o Deus de Abraão, o Deus de Isaque e o Deus de Jacó, me enviou a vós;
ESSE É O MEU NOME ETERNAMENTE" (vv. 14-15). Em Ex. 6:2-3, Deus afirma:
"Eu sou Yahweh. Apareci a Abraão, a Isaque e a Jacó como EL (Deus, Ser
Divino) SHADDAI (Todo –Poderoso); mas pelo meu nome YAHWEH não lhes fui
conhecido".
a)
YAHWEH-ELOHIM – Javé Deus (Gn 2.4) que identifica Javé com o Deus que
criou os céus e a terra.
b)
ADONAI-YAHWEH – combinação que aparece em Gn 15.2 para designar o
caráter de Senhor Bondoso e Poderoso que Deus tem.
Combinações de Yahweh com outros substantivos ou verbos adjetivados
formam títulos atribuídos a Deus como segue: Yahweh-Yir'eh, o Senhor provê (Gn
22:8 e 14); Yahweh-Nissi, o Senhor é minha bandeira (Ex 17:15); Yahweh-Shalom,
o Senhor é paz (Jz 6:24); Yahweh-Tsidkenu, o Senhor (é) nossa justiça (Jr 23:6;
33:16); Yahweh-Shammah, o Senhor está ali (Ez 48:35); Yahweh-Tsebaoth, o Senhor
dos Exércitos (1Sm 17:45); Yahweh-Rafah, Deus cura (Ex 15.26); Yahweh-Ra’ah,
Deus é meu pastor (Ef 23.1).
O TERMO JEHOVÁ
NAS SAGRADAS ESCRITURAS[42]
Ninguém sabe, ao certo,
como se pronuncia YHVH, o tetragrama, designação das quatro consoantes que
compõem o nome do Deus de Israel. É que em algum tempo antes da era cristã,
para não sujarem com lábios humanos o nome do seu Deus, os israelitas deixaram
de pronunciá-lo, e assim as vogais desse nome foram esquecidas. Por ocasião da
leitura pública dos rolos nas sinagogas, ao chegar ao nome YHVH, uma nota
marginal dizia: "Está escrito, mas não se lê." E ali mesmo era
indicada a palavra que deveria ser lida: "Leia-se ADONAY". O texto
pré-massorético do Antigo Testamento só tinha consoantes; as vogais eram
transmitidas através dos séculos pela tradição. Só no sexto ou sétimo século dC
é que os massoretas colocaram vogais no texto hebraico. A palavra YHVH, então,
era escrita com as vogais do título ADONAY, e a palavra ADONAY era falada
quando ocorria YHVH.
Acontece, também, que em
algumas passagens do Antigo Testamento o título ADONAY (Senhor) vem seguido do
tetragrama YHVH, que nesse caso é pontuado com as vogais de ELOHIM (Deus),
resultando na forma JEHOVIH (JEOVI), como, por exemplo, em Sl 73.28 Is 50.4 Ez
3.11,27 Zc 9.14. Ou resultando na forma YEHVIH (JEVI), que ocorre, por exemplo,
em Is 25.8 Jr 2.22 Am 1.8 Ob 1.1 Mq 1.1 Sf 1.7. E em vinte e cinco passagens
ocorre uma quarta forma de se expressar o nome do Deus de Israel, e isso por
meio do monossílabo YAH (JÁ), que é a primeira sílaba de YAHVEH (JAVÉ).
A Petrus Galatinus (mais ou
menos 1520 dC) atribui-se a fusão, pela primeira vez, das consoantes YHVH com
as vogais de ADONAY. Koehler-Baumgartner fala de 1200 dC. Dessa fusão surgiu um
nome híbrido: YeHoVaH (Jeová). Esse não é, portanto, o nome do Deus de Israel.
O Jerome Biblical Commentary chama "Jeová" de um "não-nome"
(77.11), e o Interpreter’s Dictionary of the Bible o chama de "nome
artificial" (s. v. Jehovah). O Lexicon in Veteris Testamenti Libros, de
Koehler-Baumgartner (s. v. YHVH), chama a grafia "Jeová" de
"errada" e defende como "correta e original" a pronúncia
"Yahveh".
Alguém poderia perguntar
por que a primeira vogal de ADONAY, um "A," se tornou um
"E." É que a palavra ADONAY começa com uma gutural, um álefe, e sob
gutural uma vogal esvaída deve ser um shevá composto. Ao se colocar essa mesma
vogal esvaída sob uma consoante não-gutural, ela passa a ser um shevá simples,
que se representa na transliteração por um "e" suspenso. No caso, sob
o iode (Y) coloca-se a vogal "e": "Ye".
No Antigo Testamento
traduzido por João Ferreira de Almeida e publicado em dois volumes quase
sessenta anos após sua morte (1748 e 1753), é empregada a forma JEHOVAH onde no
texto hebraico aparece YHVH. Almeida fez isso baseado na tradução espanhola
feita por Reina-Valera (1602). Na Almeida conhecida como Revista e Corrigida
(RC), lançada em 1898 e que ainda hoje é usada, a comissão revisora substituiu
JEHOVAH por "Senhor" nas passagens em que esse nome ocorre, menos
naquelas em que está junto com ADONAY (Senhor), e em algumas poucas passagens
esparsas. Nessas ocorrências a RC conservou JEHOVAH. Veja-se, por exemplo, #Is
61.1: "O Espírito do Senhor (ADONAY) JEOVÁ está sobre mim, porque o SENHOR
me ungiu" (RC). Este último SENHOR também é, no texto hebraico, YHVH.
O costume de usar
"SENHOR" para indicar YHVH começou com a Septuaginta, a primeira
tradução do Antigo Testamento, a qual foi feita entre 285 e 150 aC. O texto
hebraico foi traduzido em Alexandria para a língua grega. Nesse texto os
tradutores da Septuaginta reduziram a escrito uma tradição oral das sinagogas,
onde geralmente se lia "ADONAY" (Senhor) toda vez que ocorria o nome
YHVH. Essa foi a Bíblia de Jesus, dos apóstolos e da Igreja Primitiva. Seguindo
o costume que começou com a Septuaginta, a grande maioria das Bíblias emprega o
título "SENHOR" (com maiúsculas) como correspondente de JAVÉ (YHVH).
O título "Senhor" (com minúsculas) é tradução da palavra ADON, que em
hebraico quer dizer "senhor" ou "dono." No Novo Testamento
"Senhor" traduz a palavra grega KURIOS, que quer dizer
"senhor" ou "dono".
Jesus não usou o termo
"Jeová." Por exemplo, citando o Antigo Testamento em Dt 6.13, em que
aparece YHVH, ele disse: "Ao Senhor (Kurios) adorarás." (Mt 4.10}
Tiago não fala de "Jeová." Discursando em Jerusalém {#At 15.17}
ele disse: "o Senhor, que faz todas estas coisas," e isso é citação
de #Am 9.12, que tem YHVH como sujeito da ação. Paulo também não usa
"Jeová": em Rm 4.8, ele escreveu "Senhor," citando #Sl
32.2, que tem YHVH.
São duas as razões que
levaram os eruditos bíblicos a usarem a forma "Javé" como a mais
provável para designar, em português, o nome do Deus de Israel (YHVH). A
primeira é de ordem gramatical. De acordo com Êx 3.14, Deus se apresentou a
Israel como AQUELE QUE É, o Deus absoluto e imutável. A forma Javé (Yahveh, em
hebraico), corresponde ao verbo ‘ehyeh, repetido em Êx 3.14: EU SOU QUEM SOU
(BLH). O verbo está no imperfeito, que em hebraico, por ser um verbo lâmede-he,
termina com a vogal e. O verbo "ser" aqui é hayah (com iode), que em
sua forma arcaica era havah (com vave).
A Bíblia de Jerusalém em
português transliterou esse nome de Deus e o grafou assim: Iahweh. Em inglês, a
BJ traz Yahweh, cujo h médio os americanos pronunciam com ligeira aspiração.
Essa última forma é comum na literatura bíblico-teológica em inglês. Observe-se
que em Êx 3.14 o verbo está grafado ‘ehyeh, sendo que a vírgula suspensa
significa que em hebraico há ali uma letra álefe, que indica a primeira pessoa:
EU SOU. Já o iode inicial indica terceira pessoa: AQUELE QUE É (Yahweh).
Um fato que indica ser a
vogal da primeira sílaba de YHVH é a forma abreviada desse nome, que é grafada
Yah (Já). Essa abreviação de YHVH ocorre vinte e cinco vezes no Antigo
Testamento. A American Standard Version (1901), matriz da Versão Brasileira,
nessas passagens põe "Jehovah" no texto, mas na margem há nota,
assim: "hebraico: Jah." Ver, por exemplo, #Êx 15.2 e #Sl 104.35.
Nessa última passagem aparece a frase cúltica "Hallelu-Yah"
(Aleluia). Ver também a nota da Bíblia de Estudo de Almeida nessas duas
passagens. Como é que Yahweh se tornou Javé em português? Primeiro, o iode (Y)
inicial hebraico dá j em português (como em Yoseph - José). Segundo, o “h”
inicial e final caem porque não soam em português. Terceiro, o “w” passa a ser
“v”, que é como transliteramos em português a letra vave. E aí temos
Javé.
Outra razão para o uso do termo
“Javé” em português é de ordem documentária. Teodoreto, pai da Igreja, da
escola de Antioquia, falecido em 457 dC, afirma que os samaritanos, que tinham
o Pentateuco em comum com os judeus como Escritura Sagrada, pronunciavam o nome
de Deus assim: Iabé (trocando o v pelo b). Clemente, da escola de Alexandria,
falecido antes de 216 dC, transliterava "a palavra de quatro letras"
por Iaoué. Também os papiros mágicos egípcios, que são do final do terceiro
século dC, dão como corrente a pronúncia acima referida, a de Teodoreto.
Finalmente, convém notar que em duas traduções modernas da Bíblia está correta
a vocalização de YHVH. Uma delas é a Bíblia de Jerusalém, que traz Yahweh
(inglês e português), Yahvé (francês), Yahvéh (espanhol) e Jahwe (alemão).
A Bíblia da LEB (Edições
Loyola, 1989) usa o nome "Javé" como transliteração de YHVH. Em Gn
2.1, parte da nota explicativa diz: "Aqui aparece pela primeira vez o
sacrossanto Nome de JAVÉ (YHWH), cujo sentido na tradição bíblica é
"AQUELE-QUE-É." (...) Hoje o Tetragrama Sagrado, que se pronuncia em
hebreu Yahweh, está devidamente implantado na língua portuguesa em sua forma
correta, que é JAVÉ." E acrescentamos, forma dicionarizada: ver o
Dicionário Aurélio e o Dicionário Michaelis, s. v. JAVÉ.
4.2. Os nomes
de Deus segundo o Novo Testamento
a)
Theos – é o nome que corresponde
ao hebraico El e Elohim. No que se refere ao nome hebraico Elyon, no grego o
termo equivalente é Hypsistos Theos (Lc 1:32, 35, 75; At 7:48; 16:17; Hb 7:1).
Os nomes Shaddai e El Shaddai foram traduzidos por Pantokrator e Theos
Pantokrator (2Co 6:18; Ap 1:8; 4:8; 11:17; 15:3; 16:7, 14).
b)
Kyrios – este é o nome que
traduziu Adonai (Senhor) e que, por sua vez, substituiu o nome Yahweh não
pronunciado pelos judeus. O nome grego Kyrios (derivado de kyros = poder)
designa Deus como o Poderoso, Senhor, o Possuidor, o Governador que tem poder e
autoridade legal. Tal nome é empregado tanto para referir-se a Deus como para
identificar o Cristo como Senhor sobre tudo e todos.
c)
Pater – nome utilizado para identificar
Deus com a pessoa do Pai na trindade, mas também, e principalmente, com o Deus
Criador (1Co 8:6; Ef. 3:15; Hb. 12:9; Tg 1:18). A identificação de Deus como
Pai não é exclusiva do Novo Testamento. Há diversas passagens do Velho
Testamento que descrevem a pessoa de Deus como Pai (Dt 32:6; Sl. 103:13; Is.
63:16; 64:8; Jr. 3:4, 19; 31:9; Ml 1:6; 2:10).
CAPÍTULO VI
OS ATRIBUTOS DE DEUS [43]
1. Introdução
A concepção que o homem tem de Deus depende dos atributos que ele
reconhece como inerentes ao ser divino. Embora restrita pela linguagem humana,
a revelação divina registrada nas Escrituras nos dá uma visão real da
concretude do ser divino e um perfil de seu caráter como pessoa. Mesmo assim,
quaisquer que sejam os termos usados para descrever o ser de Deus, nenhuma
definição pode exaurir completamente a ideia da realidade divina. Apesar disso,
os filósofos atreveram-se a dar uma definição de Deus pela qual Deus é descrito
como “um ser autoexistente em quem a base da realidade do mundo é encontrada”. [44]
Embora as Escrituras não nos forneçam um conceito explícito de Deus,
várias declarações bíblicas expressam verdades insofismáveis atribuídas ao ser,
aos atos e a conduta de Deus. Onde a Bíblia fala de Deus, ela se expressa em
termos antropomórficos e antropopáticos (do grego antropos = homem + pathos
= paixão; antropopatia = atribuição
dos sentimentos humanos aos deuses, animais ou objetos). Portanto, somente por
meio de seus atributos podemos ter, mesmo de forma limitada, uma concepção real
e correta de Deus.
Por atributo divino entendemos toda perfeição característica de Deus que
a Bíblia nos apresenta como pertencente ao ser divino e capaz de se manifestar
a suas criaturas. Estas perfeições são características qualitativas inerentes à
própria essência de Deus, que conjuntamente constituem a plenitude do ser
divino e que descrevem sua pessoa no que se refere ao que ele é, o que realiza
e como se comporta em sua relação com suas criaturas.
3.
Classificação dos atributos de Deus
Classificar os atributos divinos satisfatoriamente é quase tão difícil
como encontrar uma definição do ser divino. Há classificações para todos os
gostos: absolutos e relativos, naturais e morais, imanentes e transcendentes,
comunicáveis e incomunicáveis; quiescentes e operativos. Nenhuma destas
classificações parece satisfatória e traz muita reflexão. Na espera de outra
melhor propomos a seguinte: ônticos, morais e operativos. Com efeito, se Deus
fez o homem à sua imagem e semelhança, podemos rastrear a imagem de Deus
através do ser humano. Esta imagem, segundo o Gênesis, consiste em três
elementos principais: superioridade (liberdade dominadora), inteligência e
retidão. Daí que o homem tenha sua peculiar Ontologia, Psicologia e Ética.
Aplicando-o a Deus, podemos investigar em sua palavra três classes de
perfeições que nos digam: que é Deus; que faz Deus em sua intimidade e como
Deus se comporta. Assim teremos:
a)
O que é Deus? A resposta aponta os atributos ônticos divinos: unicidade,
espiritualidade, infinitude, autoexistência e imutabilidade.
b)
O que Deus faz? A resposta revela os atributos operativos divinos: Deus pensa
(verdade), Deus quer (amor), Deus pode (poder).
c)
Como Deus age? A resposta identifica os atributos morais divinos: com bondade,
com santidade, com justiça.
3.1.
Atributos ônticos - O que Deus é?
3.1.1. Deus é
um
Os filósofos distinguem três classes de unidade:
a) Unidade Predicamental
(gradual) ou Numérica – é aquela que corresponde a um ser como "um"
entre muitos da mesma classe; é o "um" de todas as coisas. Deus
carece desta unidade porque Ele é um ser completamente diferente dos demais;
por isso, não pode ser um de uma série.
b) Unidade Transcendental ou
Essencial – é aquela pela qual um ser está integrado em si mesmo e diferençável
de qualquer outro. Quanto mais perfeito é um ser, mais perfeitamente integrado
se encontra. Deus é a perfeição da unidade de integração pela pura e simples perfeição
do seu ser, no qual se fixam substantiva e infinitamente seus atributos. Ele é
inigualável em integridade, portanto, é único.
c) Unidade de Singularidade
ou Unicidade – é aquela pela qual um ser é algo único em sua espécie. Ou seja,
o ser sozinho forma uma espécie, não havendo outro nem igual nem diferente.
Para compreendermos melhor, façamos o seguinte raciocínio: existem
várias espécies de seres e, em cada espécie, há vários seres como, por exemplo,
a espécie animal composta de vários tipos de animais tanto semelhantes como
diferentes; a espécie vegetal composta de vários tipos de vegetais, etc. Mas a
"espécie divina" é composta de apenas um ser: Deus. Neste sentido,
dizemos que nosso Deus é único. A unicidade de Deus é confirmada pela Bíblia. O
monoteísmo é doutrina fundamental das Escrituras, tanto no Velho Testamento (Dt
6:4; 32:32; Is 44:6) como também no Novo (Jo 5:44; 17:3; 1Co 8:4; Ef. 4:6; 1Tm
1:17; 2:5; 6:15).
3.1.2. Deus é
espírito
O vocábulo espírito tem três significados:
a)
"Fantasma" – a alma dos mortos, como em Lc. 24:37-39;
b)
"Vento", "ar" ou "fôlego da vida" (Jo.
3:3-8; Gn. 2:7; Ez. 37:5-10);
c)
"Natureza imaterial" que, embora sendo pessoa de concreta
existência, não tem composição material e que, em consequência disso, não pode
ser vista a olho nu (Jo. 4:24; 1:18; 5:37).
Os vocábulos "ruach", em hebraico, e "pneuma", em
grego, servem para expressar qualquer dos três sentidos citados. Aqui os tomamos
unicamente no terceiro deles. Dizer que Deus é Espírito (Jo. 4:24) significa,
pois:
a)
Que em sua consistência não há matéria, nem figura corpórea; que não
admite em si extensão nem composição e que, portanto, é imortal (incorruptível)
e invisível (Rm. 1:20; Cl. 1:15; 1Tm 1:17);
b)
Que Deus é pessoa, isto é, alguém que se conhece a si mesmo e pode
pôr-se em comunhão com um "tu" e que, embora tenha contato com o
mundo material, encontra-se na instância do sobrenatural.
Por não ter matéria em sua constituição, não contam em Deus partículas
que possam desintegrar-se e, portanto, ele é incorruptível, isto é, não pode se decompor nem deixar de existir;
é inextenso (não tem extensão, não
pode ser medido) e, consequentemente, é isento das leis e propriedades da
matéria, não é perceptível sensorialmente e, portanto, para revelar-se precisou
transfigurar-se (teofania).
De sua natureza incorruptível deriva sua imortalidade (não pode ser extinto). Tal imortalidade não só é natural (propriedade de sua natureza)
como também essencial (de sua
consistência espiritual). Nosso espírito, por ter sido criado (origem de
existência) e para continuar existindo, dependerá sempre da existência e da
ação sustentadora de Deus. Por esta razão, nossa imortalidade é condicional e só é real por causa da
imortalidade de Deus. Eis a razão pela qual Paulo declara que Deus é o “único
que tem imortalidade” (1Tm 6.16).
3.1.3. Deus é
infinito
Infinito, segundo sua etimologia, equivale a "sem limites".
Infinito significa, pois, "não limitado". Há duas classes de
infinito: o Potencial ou Matemático,
cujo limite se retira indefinidamente como, por exemplo, o quociente obtido
pela divisão de 10 por 3 (10/3 = 3,333333...); e o Real ou Metafísico que rompe todas as formas de limitação pelas
quais um ser se caracteriza como finito. Um ser pode estar limitado de três
maneiras: (1) Pela relatividade de sua própria natureza que o define dentro de
uma parcela do ser; (2) Pelo espaço que ocupa; (3) Pelo tempo de sua existência.
Nenhum destes limites afeta o ser de Deus.
Há dois atributos de Deus
que derivam de sua infinitude: (a) Deus é Imenso, sem espaço que o contenha
(1Rs. 8:27; At. 7:48-50; At 17.24); (b) Deus é Eterno, sem tempo de existência
que possa ser contado (Sl 90.2,4; 2Pe 3:8). Precisamente porque Deus é um ser
infinitamente perfeito, nenhum intelecto limitado pode compreender-lhe, isto é,
abarcar em um conceito limitado o Ser sem limites (Jó 11:7-9; Rm. 11:33). A
infinitude de Deus tanto é qualitativa, e não quantitativa, como também
intensiva, não extensiva. A falha do Panteísmo propugnado por Baruc Spinoza
consiste em que ele confundiu a intensidade qualitativa do Ser de Deus com a
extensão quantitativa dos seres e, por esta razão, identificou o mundo com
Deus. [45]
A infinitude de Deus pode
ser expressa pela ideia de “potencial ilimitado”, no sentido de que não há
fronteiras para o conhecimento de Deus nem limites para o seu poder. Em outras
palavras, o conhecimento de toda realidade (existência concreta ou
potencialidade de existência) é de pleno domínio de Deus; e nenhum fator
externo ao ser de Deus bloqueará qualquer ato divino oriundo da vontade
soberana de Deus.
Como Espírito Infinito, Deus transcende todos os limites que o
espaço impõe e as estimativas de tempo que se possa imaginar. Assim sendo,
questionamos: Onde Deus habita? Segundo as Escrituras, a resposta é: nos céus.
Céus é uma expressão que identifica tudo que não é a terra e que a cerca; isto
é, toda a imensidão do “cosmos” tanto visível (universo físico) como invisível
(universo espiritual). Quando Jesus, como o Logos
divino encarnado, disse: “Eu desci dos céus”, não fez referência a um possível
distanciamento geográfico, mas à uma outra dimensão de existência; de uma
realidade que, mesmo sendo invisível, pervade o universo físico, enchendo-o por
dentro e por fora.
A infinitude de Deus também implica em "imensidão".
Imenso é a fórmula "in + menso" que significa "sem medida".
Portanto, na imensidão de Deus comporta a sua "Onipresença". Podemos
perguntar: "Onde estava Deus antes que existisse o mundo?" Podemos
também responder a esta pergunta da seguinte forma:
a) A palavra "antes"
parece implicar que houve um "antes" quando não existia o tempo; mas
na eternidade não cabe um "antes" nem um "depois".
b) "Antes" que o
mundo existisse, Deus não estava "em nenhuma parte", porque ele mesmo
era "seu próprio lugar", se é que temos de explicar tal argumento de
algum modo inteligível.
Assim como a imensidão de Deus diz respeito ao espaço, a Eternidade
refere-se ao tempo. Podemos definir a eternidade como "um infindável
presente que dura para sempre". No idioma hebraico não há presente; e com
muita razão, porque o presente não existe para nós como algo indivisível. Nós
dizemos: "como o tempo passa!" Sem dúvida, não é o tempo que passa;
nós é que passamos com o desgaste do existir. E não há lógica quando dizemos:
"tenho cinquenta anos", quando na verdade esses cinquenta anos já não
os temos, porque os temos gastado com o passar de nossa existência.
Ao contrário, a eternidade de Deus é um "perpétuo e pleno presente"
que abarca, sobrepassa e coexiste com todos os tempos. Ante a impossibilidade
de expressar adequadamente na linguagem humana a eternidade de Deus, a Bíblia
Hebraica diz que Deus é "desde o século até o século" (Sl. 90:2). O
Novo Testamento em grego o apresenta como "Aquele que é, e que era e que
há de vir" (Ap 1:8). Ver também: Jd 25; Pv 8:22 e segs.; 1Co 2:7; Ef 1:4;
3:21; 1Tm 1:17; 6:16; Ap 15:8.
3.1.4. Deus é
um ser autoexistente
Deus é um ser absoluto. Ele é reconhecido como livre quanto a condição,
limitação ou restrição. Nisto consiste a existência autônoma de Deus. Como diz
Berkhof, “Ele é a causa sui” (a sua própria causa). Em outras palavras, Deus é
absolutamente livre e independente. O atributo da autoexistência de Deus deriva
do nome YAHWEH pelo qual Ele quis ser invocado por seu povo (Ex. 3.14-15).
Em sua revelação a Moisés, Deus se identificou como “EU SOU O QUE SOU”
(em hebraico, ‘eyeh ‘asher ‘eyeh). “Eu Sou” (‘eyeh) é usado no versículo 14
como o sujeito da frase “me enviou a vós outros”. Em seguida, no versículo 15,
Deus se apresenta como YAHWEH em lugar da expressão ‘eyeh com o mesmo
significado, pois a mesma frase anterior é citada novamente. O nome Yahweh designa a realidade eterna e
soberana da pessoa de Deus que se autossustenta e autodetermina.
3.1.5.
Deus é imutável
Este é um atributo de Deus
que deriva de sua autoexistência. “É a perfeição pela qual não há mudança nele,
não somente em seu ser, mas também em suas perfeições, em seus propósitos e em
suas promessas” (Berkhof). Deus é imune a todo acréscimo ou diminuição, a todo
desenvolvimento ou decadência; não sofre alterações. Da perfeição absoluta de
Deus deduz-se que é impossível que haja em seu ser mudança progressiva ou
regressiva. Algumas passagens das Escrituras testificam da imutabilidade de
Deus:
a)
Êxodo 3:14: “Disse Deus a Moisés: EU SOU O QUE SOU. Disse mais: Assim
dirás aos filhos de Israel: EU SOU me enviou a vós outros”.
b)
Salmos 102:26-28: “Em tempos remotos, lançaste os fundamentos da
terra; e os céus são obra das tuas mãos. Eles perecerão, mas tu permaneces;
todos eles envelhecerão como uma veste, como roupa os mudarás, e serão mudados.
Tu, porém, és sempre o mesmo, e os teus anos jamais terão fim” ...
c)
Isaías 48:12: “Dá-me ouvidos, ó Jacó, e tu, ó Israel, a quem chamei;
eu sou o mesmo, sou o primeiro e também o último”.
d)
Malaquias 3:6: “Porque eu, o SENHOR, não mudo; por isso, vós, ó
filhos de Jacó, não sois consumidos”.
e)
Romanos 1:23: “... e mudaram a glória do Deus incorruptível em
semelhança da imagem de homem corruptível, bem como de aves, quadrúpedes e répteis”.
f)
Hebreus 13:8: “Jesus Cristo, ontem e hoje, é o mesmo e o será para
sempre”.
g)
Tiago 1:17: “Toda boa dádiva e todo dom perfeito são lá do alto,
descendo do Pai das luzes, em quem não pode existir variação ou sombra de
mudança”.
Wayne Grudem atribui a Deus emoções e sentimentos. Ele afirma que “Deus
é imutável no seu ser, nas suas perfeições, nos seus propósitos e nas suas
promessas; porém, Deus age e sente emoções, e age e sente de modos diversos
diante de situações diferentes”.[46] Isto
significa que a imutabilidade de Deus não restringe sua diversidade nos motivos e na forma pelos quais Deus age. Deus não
muda, mas diversifica seus atos e sua forma de agir em relação aos atos livres
humanos. Herman Bavinck, referindo-se à importância da imutabilidade de Deus se
expressa da seguinte forma:
A doutrina da imutabilidade de Deus é da mais alta importância para a
religião. O contraste entre ser e vir a ser assinala entre o Criador e a
criatura. Toda criatura está continuamente vindo a ser. É mutável, vive em
constante azáfama, busca repouso e satisfação, e encontra repouso em Deus, e só
nele, pois só ele é puro ser e ao vir a ser. Daí nas Escrituras Deus ser muitas
vezes chamado a Rocha...[47]
Sendo Deus imutável, como se explica as aparentes mudanças nas
intenções de Deus com respeito ao seu povo? Há passagens bíblicas que nos
deixam intrigados com respeito às atitudes de Deus que, tendo decidido julgar o
seu povo, desiste diante das orações e do arrependimento do povo, apiedando-se
e manifestando sua misericórdia. Um exemplo disso é a intervenção de Moisés que
intercedeu pelo povo israelita quando Deus já havia pronunciado como sentença a
destruição de Israel (Ex 32.9-14). Outro exemplo é o acréscimo de anos de vida
ao rei Ezequias (Is 38.1-6). Um terceiro exemplo é o fato de Deus ter voltado
atrás na decisão de julgar Nínive por causa do arrependimento dos seus
habitantes (Jn 3.4, 10). E o que dizer do arrependimento de Deus por ter criado
o homem (Gn 6.6) e por ter constituído Saul como rei de Israel (1Sm 15.10)? A
esta questão Grudem responde:
Estes exemplos devem todos ser entendidos como expressões verdadeiras da
atitude ou intenção presente de Deus diante da situação que existe naquele
momento. Se a situação muda, então é claro que a atitude ou expressão de
intenção divina irá também mudar. Isto quer dizer que somente Deus reage de modos diversos a situações
diferentes [...] Os casos do arrependimento, de Deus diante da criação do
homem e do fato de ter feito Saul rei também, podem ser entendidos como expressões do descontentamento presente de
Deus diante da pecaminosidade do homem.[48]
3.2.
Atributos operativos - O que Deus faz?
A pergunta pelas obras de Deus tem sua resposta que pode ser expressa da
seguinte forma:
a)
Deus pensa – todos os atos de Deus são a realização de um plano
definido na eternidade, segundo a sua infinita sabedoria. Deste princípio
deriva o atributo da veracidade de Deus.
b)
Deus quer – todos os atos de Deus são motivados por um propósito,
pois são realizados, “conforme o conselho de sua vontade” (Ef 1.11).
c)
Deus pode – todos os atos de Deus foram por ele preordenados,
segundo a sua soberana vontade, pois para ele “tudo é possível” (Mt
19.26; Mc 10.27); e nada pode impedi-lo – “agindo eu, quem o impedirá?” (Is
43.13; cf Is 14.27).
3.2.1. Deus
pensa – verdade - a veracidade de Deus
O objeto que se constitui no âmago do pensamento de Deus é a Verdade. A
integridade e a perfeição de Deus não lhe possibilitam idealizar a mentira e a
hipótese do erro. Em Jo. 18:36 Jesus disse: "... eu vim dar testemunho da
verdade; todo aquele que é da verdade ouve a minha voz". Mas em que
consiste o "testemunho da verdade?" Segundo Jesus, significa revelar
ao homem a mais absoluta e pura Verdade que estava na mente de Deus, e que, por
conhecê-la, o homem encontraria a verdadeira liberdade (Jo. 8:32) e,
consequentemente, seria santificado pela "Palavra da Verdade" (Jo.
17:17-19).
Mas o que é a Verdade? O conceito
de verdade é pode ser descrito da seguinte forma: (a) A expressão fiel,
completa e pura de tudo que existe; ou ainda, a manifestação autêntica da
realidade; é a essência da realidade; (b) O princípio pelo qual se explica,
comprova e consuma os fatos. Mas, e a verdade de Deus? O conceito de verdade,
segundo Lacueva [49], pode ser
formulado de três formas; ou ainda, que a verdade pode caracterizar-se por três
aspectos: ontológico, lógico e ético.
a)
A verdade ontológica – “a
realidade das coisas é transcendente e se manifesta em múltiplas e mutáveis
facetas, não sendo possível captá-las com nossa mente limitada toda a verdade
objetiva que se encerra em um ser”.
b)
Verdade lógica
– “é a objetividade ou relação adequada com os vários aspectos fenomenológicos
da realidade formada em nossos juízos (através de nossa percepção e ideação)
acerca da dita realidade. O fato de que cada um de nós [...] apreendamos
distintos aspectos da realidade faz possível a diversidade de opiniões e o contraste
de percepções a respeito da mesma realidade”.
c)
A verdade ética
– “é a veracidade ou adequação entre o que pensamos e o que decidimos ou
fazemos. Sem dúvida, esta é a principal, segundo a Bíblia. O conceito hebraico
de verdade equivale a segurança baseada na fidelidade a promessas (a verdade de
Deus) ou a normas (verdade do homem). Daí que mentira e mentiroso (Jo 8.44; Ap
21.8, 27) não indica só um dizer o que se sabe que é falso, senão um fazer o
que é abominável”.
3.2.2. A
veracidade de Deus - Deus é a verdade [50]
O fato de que seja “o único Deus verdadeiro” (Jo 17.3) nos dá a medida
da verdade ontológica de Deus: é o
único que merece esse nome, pois só ele responde ao conceito genuíno de
verdadeiro Deus (Jo 3.33). O fato de que o Criador seja, como disse Jesus, o
"Deus Verdadeiro" – "A vida eterna é esta: que te conheçam a ti,
o único Deus verdadeiro..." (Jo. 17:3) – nos faz conhecer uma das
condições para a salvação e nos dá a medida da Verdade Ontológica de Deus. Deus não só é verdadeiro (autêntico),
mas também é a própria Verdade
Transcendental e fonte de tudo o que existe de verdade. Por isso, não pode
ser autor do pecado, porque o pecado é a Mentira
Radical.
Quando Jesus disse: "Eu sou... a verdade..." (Jo. 14:6), ele
certamente quis dizer que era a expressão perfeita e não uma reprodução
deformada ou limitada do caráter de Deus. Quis provar a sua divindade e,
provavelmente, também identificar-se como sendo o "princípio
verdadeiro" pelo qual se explica a origem da vida, o “meio verdadeiro"
pelo qual o homem pode reintegrar-se, reconciliar-se e realizar-se em Deus, e o
"fim verdadeiro" no qual se consuma o propósito da existência do
homem e a vontade de Deus.
Berkhof apresenta a veracidade de Deus sob três aspectos:
a)
No sentido metafísico – em Deus, a ideia da
divindade se concretiza perfeitamente. Ele é tudo como Deus deveria ser e, como
tal, distingue-se de todos os deuses, assim chamados, os quais são chamados
ídolos, nulidades e mentiras (Sl 96.5; 97.7; 115.4-8; Is 44.9-10).
b)
No sentido ético – como tal, revela-se como
realmente é, de modo que a sua revelação é absolutamente confiável (Nm 23.19;
Rm 3.4; Hb 6.18).
c)
No sentido lógico – em virtude disto, Deus
conhece as coisas como realmente são. Sua verdade é alicerce de todo
conhecimento. Ele é a fonte de toda a verdade, não somente na esfera da moral e
da religião, mas também em todos os campos da atividade científica. Há muitas
passagens que testificam da veracidade de Deus (Êx 34.6; Nm 23.29; Dt 32.4; Sl
25.10; 31.6; 65.16; Jr 10.8, 10, 11; Jo 14.6; 17.3; Tt 1.2; Hb 6.18; 1Jo
5.20-21).
A imanente e infinita
verdade de Deus nos leva a duas consequências de extrema importância. Primeiro,
como o objeto do entendimento é a Verdade, Deus pode ser conhecido pelo homem,
pois ele é a verdade personificada (Jo. 8:32). Em segundo lugar, como Deus é a
"Verdade Transcendental" e infinita, Deus não pode ser compreendido
por nenhuma de suas criaturas (Rm. 11:33).
3.2.3. A
veracidade de Deus - Deus conhece toda a verdade - ONISCIÊNCIA
Com referência à natureza do
conhecimento de Deus, Berkhof o classifica em arquétipo, para designar que Deus
conhece o universo como um projeto anterior à sua existência material;
intuitivo, não necessitando de demonstração discursiva; inato e imediato, não
resultando de observação ou de um processo de reflexão lógico-científica;
simultâneo e não sucessivo; completo e não parcial como ocorre no homem. [51]
No que se refere à
abrangência, o conhecimento divino é pleno, perfeito, exaustivo e eterno. Desta
forma é que se expressa a ONISCIÊNCIA de Deus. Isto significa que Deus conhece
não somente a aparência, mas também a essência de todas as coisas (Sl
139.1-18). A
Onisciência divina não se caracteriza somente por sua abrangência e
intensidade, mas também por sua extensão no tempo. Deus conhece não só o
oculto, mas também tudo que há de ser e suceder. Assim é que se caracteriza a
PRESCIÊNCIA de Deus. O que há de ser
e tudo que haverá de ocorrer, inclusive as ações livres do homem, são do
conhecimento de Deus. O Supremo Criador conhece todas as coisas futuras que são
meramente possíveis, mas que ainda não se tornaram reais. Toda advertência de
Deus é uma declaração de perigo e de mal que ele conhece que se seguirá a uma
escolha errada.
A profecia distingue-se da previsão. Esta denota a expectativa do
que será fundamentada nas circunstâncias históricas do passado e do presente,
cuja concretização é incerta. A profecia consiste na provisão revelada do que Deus de antemão já providenciou para o
futuro; portanto, sua concretização é inevitável, pois está alicerçada na
vontade soberana e no eterno desígnio de Deus. Profecia é a revelação, não do que Deus espera que ocorra, mas do que
Deus determinou que aconteça.
O que Deus decidiu sobre o futuro deriva de sua presciência. Se Deus não
tivesse presciência de tudo o que o homem livremente decidirá fazer, estaria
limitado pelas circunstâncias, seria surpreendido pelo homem, e só poderia
definir o curso do universo, violando de forma arbitrária a liberdade humana.
Mas Deus age conforme o que planejou.
Tudo que Deus planejou compõe o conhecimento arquétipo de Deus. Falando sobre o conhecimento arquétipo divino,
Chafer assim se expressa:
O conhecimento arquétipo divino diz respeito a tudo que Deus planejou
para o Universo antes dele ser trazido à existência, ou tornado real pelo seu
poder criador onipotente. Os arquétipos do Universo existiram desde a
eternidade na mente de Deus, e a criação foi apenas o exercício da onipotência
pela qual a realidade veio a existir em relação àquilo que a onisciência havia
concebido. [52]
Toda verdade objetiva está
patente aos olhos de Deus. Deus sabe tudo de uma maneira perfeita e única em
uma só ideia eterna e exaustiva (completa). A identidade ontológica entre a
mente divina e a verdade infinita faz que Deus se conheça a si mesmo de uma maneira
perfeita. Deus se conhece e se compreende a si mesmo de uma maneira perfeita.
Esse conhecimento pleno de si mesmo, de tudo e de todos simultaneamente, é que
nos faz reconhecê-lo como um ser ONISCIENTE (1Sm 2.3; Jó 12.13; Sl 94.9;
139.1-6; Is 29.15; 40.27-28). Esse conhecimento é eterno, pois Deus conhecia a
todos os seres antes mesmo de criá-los. Portanto, seu conhecimento antecede a
criação (Pv. 8:22-31). Este conhecimento também é "intuitivo" (sem
necessidade de discutir), é "simultâneo" (sem necessidade de ideias)
e "exaustivo" (sem perder nenhum detalhe). Nisto consiste a
ONISCIÊNCIA de Deus.
Uma vez que Deus é ETERNO, para ele não há tempo passado nem futuro;
tudo é presente. Não nos estranhará, portanto, que ele conheça o que para nós é
futuro. Cabe, então, uma pergunta:
"Os atos humanos são conhecidos porque vão suceder ou vão suceder porque
são conhecidos, isto é, determinados por Deus?" Se Deus conhece tudo
que vai suceder, porque o vê sucedendo, sua ciência segue "atrás" dos
fatos. Uma vez que Deus conhece de antemão tudo que o homem faz e o que pensa
fazer (Sl 139:4; Jr 17:10; Mt 6:7-8), ele faz uso dos atos livres do homem,
para conduzir os fatos ao cumprimento de seus eternos desígnios. Se os atos do
homem fossem programados por Deus, onde estaria a livre agência humana? A
onisciência divina é fator decisivo sobre tudo o que Deus tem preordenado que
aconteça (At 2.23; 4.27-28).
3.2.4. Concepção bíblica do conhecimento de Deus
Conhecimento é o saber que,
no homem, resulta de um processo de aprendizagem; mas, em Deus, é um atributo
inerente à sua natureza pelo qual Deus sabe de todas as coisas em todo lugar
simultaneamente, tanto no que se refere ao passado, como ao presente e ao
futuro. O que Deus sabe não foi aprendido, pois ele mesmo é a fonte geradora e
o agente realizador da “ideia concretizada do universo”, em sua macro extensão
e micro dimensão. Cada átomo da matéria é um elemento da ciência e da invenção
divina. A Escritura testemunha da ciência de Deus em dois aspectos: a sabedoria
criadora que idealizou e concretizou o universo visível e invisível (Pv
8.2-31); e o conhecimento exaustivo de tudo que nele ocorre (Hb 4.13). Vejamos
o que nos diz a Palavra de Deus:
a)
“Até as próprias trevas não te serão escuras: as trevas e a luz são a
mesma coisa”
(Sl 139.12).
b)
“O que fez o ouvido acaso não ouvirá? E o que formou os olhos será que
não enxerga?” (Sl 94.9).
c)
“Senhor, tu me sondas e me conheces. Sabes quando me assento e quando me
levanto; de longe penetras os meus pensamentos” (Sl 139.1-2).
d)
“Os olhos do Senhor estão em todo lugar, contemplando os maus e os bons” (Pv 15.3).
e)
“O além e o abismo estão descobertos perante o Senhor; quanto mais o
coração dos filhos dos homens!” (Pv 15.11).
f)
“Grande é o Senhor nosso e mui poderoso; o seu conhecimento não se pode
medir” (Sl
147.5).
g)
“Ó casa de Israel; porque, quanto às coisas que vos surgem à mente, eu
as conheço”
(Ez 11.5).
h)
“Diz o Senhor, que faz essas coisas conhecidas desde séculos” (At 15.18).
i)
“E quanto a vós outros, até os cabelos todos da cabeça estão contados” (Mt 10.30).
Deus conhece todas as coisas exatamente como são e virão a ser. Sua
ciência é presciência. Enquanto a ciência do homem é produto do passado (tudo
que sabe foi aprendido), a ciência de Deus determina o futuro (Is 44.6-8). É
exatamente por esta razão que Deus tem sob seu controle os atos livres dos
homens e conduz a história para o fim que ele determinou, segundo o seu eterno
desígnio. “Tal conhecimento é maravilhoso
demais para mim: é sobremodo elevado, não o posso atingir” (S 139.6), diz o
salmista, reconhecendo a magnitude infinita da ciência divina, a perfeição
absoluta de Deus; e sentindo-se ínfimo, insignificante diante de seu Criador.
Dissertando sobre a onisciência divina, Hodge declara:
A onisciência de Deus procede de sua onipresença. Como Deus enche céu e
terra, todas as coisas se realizam em sua presença. Ele conhece nossos
pensamentos muito mais do que nós mesmos os conhecemos. Esta plenitude do
conhecimento divino é tomada em termos axiomáticos em todos os atos de culto.
Oramos a um Deus que, cremos, conhece nossa situação e desejos, ouve o que
dizemos e pode satisfazer todas as nossas necessidades. A menos que Deus seja
assim onisciente, não poderia julgar o mundo consoante sua justiça. Fé neste
atributo, em sua inteireza, é, portanto, essencial até mesmo na religião
natural. [53]
3.2.5. Deus
sempre diz a verdade e age conforme a verdade[54]
O hebraico do Antigo Testamento nos oferece uma constelação de vocábulos
da mesma raiz que ilustram maravilhosamente o que é a vontade de Deus: hemet = verdade; ‘hemunah = fidelidade (Sl 92.2), onde se une a misericórdia, formando um binômio que equivale ao de graça e verdade de (Jo 1.14); como última raiz, está o verbo ‘amán = estar seguro, de onde derivam ‘omém = arquiteto e ‘amém = em verdade, assim seja. A verdade, pois, de Deus na
História da Salvação é a fidelidade
de suas promessas; promessas de salvação, de redenção, de bênção. Tanto é que,
ainda em meio de suas Lamentações, Jeremias
recorda que “suas misericórdias não têm fim. Elas se renovam a cada manhã.
Grande é a tua fidelidade” (Lm 3.22-23).
3.3. Deus
quer – amor
Vejamos, em primeiro lugar,
a relação entre querer e poder. Na experiência humana, nossa conduta é fruto de
nosso querer, que é determinado pelo peso dos valores. Toda ação requer uma
compensação do esforço, a previsão de algo que satisfaça nossos desejos. A
Filosofia Medieval chama isso de “causa final”, por ser a última na execução;
mas a primeira na intenção. Assim pensando, a finalidade que Deus teve para com
sua obra da criação do mundo foi fruto de sua vontade e expressou uma intenção.
Os meios para alcançar determinados fins são fatores que definem o caráter
ético da conduta. Tais meios são, por si só, uma sequência de fins relativos
subordinados ao fim último.[55]
O que significa a vontade
de Deus? A vontade de Deus, conforme é descrita pelas Escrituras, inclui três
elementos: volição, poder e amor. Normalmente os teólogos concebem a ideia de
vontade como equivalente ou relacionada ao propósito ou determinação de Deus.
Parece que o apóstolo Paulo, em Efésios 1.5,11 e Fp 2.13, quis transmitir tal
ideia. A vontade de Deus é livre. Um ser só é realmente livre quando tem
liberdade para agir ou não agir, segundo o propósito de sua vontade. Assim,
pois, Deus é livre para agir, para criar ou não criar. Deus é livre para fazer
o universo continuar existindo ou fazê-lo cessar de existir. Ele é livre para
cumprir suas promessas e as cumpre porque livremente decidiu cumpri-las e ele
jamais viola sua palavra.
A vontade de Deus se
expressa livremente através dos seus atributos morais e o amor é a expressão
máxima da vontade livre de Deus. O amor de Deus não pode ser confundido com a
forma de expressão do amor humano. Por esta razão, precisamos entender com
profundidade o real sentido do amor divino expresso nas Escrituras. Ao ser
criado à imagem e semelhança de Deus, o homem foi dotado da capacidade de amar.
Por isso, é possível compreender o sentido do amor divino partindo da ideia
que, em nossa consciência, formamos do significado do ato de amar.
Tentando introduzir o conceito de amor de Deus, Lacueva é de parecer que
para entendermos o que é realmente "amar", precisamos descobrir o
significado de "bem" e qual a sua relação com a vontade e a
liberdade. O bem é o objeto da vontade.
Aquilo que parece bom é o que todos desejam para si. Diante disso, a vontade não é livre para querer o que parece como Mal Absoluto. Tampouco é
livre para deixar de querer o Bem Absoluto. Esse bem absoluto o homem o
conhece sob o aspecto de Felicidade. A Liberdade de decidir requer que o mal e
o bem se achem juntos na balança de cada decisão. O "Pró" e o
"Contra" são necessários para a deliberação. A fascinação do mal com
aparência do bem corrompe a essência da liberdade com o "óxido da
libertinagem". Por isso, só em sua inocência original foi o homem
verdadeiramente livre. [56]
Prosseguindo em seu
raciocínio, Lacueva ilustra tal fato afirmando: “Agostinho de Hipona,
contrapondo o Bem e o Mal como duas cidades em luta, disse: ‘estas cidades
estão constituídas por duas atitudes distintas e estas duas distintas atitudes
procedem de distintos amores: o amor de Deus que culmina na negação de si mesmo
e o amor de si mesmo que culmina na negação de Deus’". [57] Amar,
portanto, não se limita a um sentimento, não está separado da vontade e não
pode ser demonstrado sem a liberdade interior. O amor é, em geral, a tendência para o bem. Esta tendência,
segundo Lacueva, recebe três nomes distintos, segundo três referências
distintas ao bem: amor de complacência,
que se deleita no bem existente; amor de
benevolência, que realiza o bem existente; amor de concupiscência, que deseja o bem para o proveito próprio.
Ontologicamente, uma coisa
é boa quando satisfaz ao conceito ideal que determina sua íntima essência.
Assim pensando, podemos dizer que Deus, como Ser Supremo Perfeito, é o Bem
Absoluto. É neste sentido que devemos interpretar as palavras de Jesus: “Ninguém é bom, senão um só, que é Deus”
(Mc 10.18). Como Bem Absoluto, Deus é a fonte de todo bem. “Toda boa dádiva e todo dom perfeito vem do alto, do Pai das luzes”
(Tg. 1.17).
A Bíblia diz: "Deus é amor" (1Jo 4:8, 16) e o diz referindo-se
ao homem como objeto desse amor. Deus ama no homem natural sua imagem ainda que
esteja deteriorada pelo pecado; e no crente sua semelhança, conforme Rm. 8:29;
1Jo 3:2. Por outro lado, Deus aborrece, com o ímpeto de sua vontade, unicamente
o pecado, pelo único atentado direto contra o Deus Bom. Mas Deus segue amando,
com um amor cheio de compaixão e misericórdia, ao mundo pecador (Jo. 3:16).
Quando a Bíblia declara que Deus é amor, ela transmite ao homem um conceito
tanto de Deus como do próprio amor. Deus é o "Amor Personificado" e
amor é um atributo divino (qualidade inerente ao caráter de Deus) que se
manifesta nos seus atos redentivos. Deus ama, não porque "quer" fazer
o bem, mas porque "o amor é a essência do ser de Deus" (caráter). Ele
mesmo é a razão e o propósito de amar. Com respeito ao amor de Deus, as
Escrituras revelam que:
a) O amor é a expressão magna
da bondade de Deus. Portanto, não há outro motivo que explique ou justifique os
atos redentores de Deus (Rm 5.6-8; Ef 2.4-5).
b) O amor é o elo de toda e
qualquer relação entre os crentes e entre o crente e Deus (Mt 22.36-40).
c) O amor de Deus, reproduzido
em nossos atos de bondade, é prova de nossa regeneração e de nossa filiação a
Deus (1Jo 3.11-18; 1Jo 4.7-21).
Resumindo, podemos afirmar que a vontade de Deus, que é boa, agradável e perfeita (Rm 12.2), é
realizada em virtude de seu eterno propósito redentivo revelado em Cristo (Ef
1.5-11). Uma vez que Deus deseja (tem vontade de) que todos sejam salvos (1Tm
2.3-4), tal vontade se realiza por meio do sacrifício de Cristo, como expressão
máxima do amor divino (Jo 3.16; Rm 5.6-8; Ef 2.4-5).
3.4. Deus
pode – onipotência
Poder e vontade são duas forças interligadas. A vontade libera o poder e
o poder realiza a vontade. Querer é optar por algo com o desejo de consegui-lo.
Neste sentido, querer é um ato da vontade. Todo querer eficaz é uma tendência
para o bem. Para o crente, a segurança de obter o desejado está garantida aos
que estão em Cristo (Jo. 15:7, 16) e pedem, ajudados pelo Espírito Santo,
conforme a vontade de Deus. Esta é a única forma para o homem de participar do
Poder Soberano de Deus.
Em Ef. 1:11 é nos dito que Deus faz todas as coisas segundo o desígnio
de sua vontade, de acordo com um propósito. Isto nos leva à conclusão de que em
Deus se dá um processo de deliberação, decisão e execução parecido com o nosso.
A vontade de Deus alcança seus objetivos com um ato de seu querer, o qual é por
si mesmo eficaz, isto é, poderoso.
As Escrituras dão testemunho do soberano e infinito poder de Deus:
a) “Eu sou o Deus Todo-Poderoso”
(Gn 17.1).
b) “Vede, agora, que Eu Sou,
Eu somente, e mais nenhum deus além de mim; eu mato e eu faço viver; eu firo e
eu saro; e não há quem possa livrar alguém da minha mão” (Dt 32.39).
c) “No céu está o nosso Deus e
tudo faz como lhe agrada” (Sl 115.3).
d) “Ainda antes que houvesse
dia, eu era; e nenhum há que possa livrar alguém das minhas mãos; agindo eu,
quem o impedirá? (Is 43.13).
e) “Para Deus, tudo é
possível” (Mt 19.26).
f) “Jesus, porém, fitando
neles o olhar, disse: Para os homens é impossível; contudo, não para Deus,
porque para Deus tudo é possível” (Mc 10.27).
A onipotência divina é um
atributo que pode ser descrito da seguinte forma: “Deus é a Causa Primeira,
Absoluta, Infinita, Necessária e Suficiente, de tudo quanto tem razão de ser”.[58] Deus
sempre pode mais do que faz. O atributo da onipotência divina consiste em que o
poder de realização divino não está nem condicionado a fatores externos à sua
natureza. Em suma, Deus faz tudo que lhe apraz. Diferente de nós, Deus não
necessita de “meios” para a consecução de seus fins. Ele quer e ele faz. Ele
disse: “Haja luz!” e houve luz.
Se há um meio, esse meio é
a sua vontade, que é sempre eficaz. Não há restrições à vontade divina que
detenha sua capacidade de agir como quer e realizar o que pretende. Por um ato
exclusivo de sua vontade soberana tudo veio a existir. “Pois ele falou, e tudo
se fez; ele ordenou, e tudo passou a existir”. (Sl 33.9). Deus faz tudo o quer?
Para responder a esta pergunta é preciso antes fazer uma distinção. Ainda que a
vontade de Deus é todo-poderosa recebe três nomes distintos, segundo sua
peculiar relação com três classes de objetivos: vontade diretiva, vontade
preceptiva e vontade permissiva.
3.4.1. A
vontade diretiva
Esta visa o efeito que Deus deseja conseguir, o qual está garantido pela
eficácia de seu soberano poder, ao qual nada ou ninguém resiste (Is 43:13;
46:10; At 5:39; Hb 6:17). Isto diz respeito a tudo que Deus, soberanamente,
preordenou que aconteça (Is 46.10; At 4.28).
3.4.2. A
vontade preceptiva
Esta visa o cumprimento dos mandamentos divinos por parte de um ser
criado. Com ela Deus manda ou ordena que realize algo. Este algo cumpre-se
condicionalmente quando Deus faz depender o resultado final da vontade do
homem. Neste caso, nem sempre rompe a resistência do homem, como é o caso de At
17:30 que diz: "Deus... manda a todos os homens, em todo lugar, que se
arrependam", mas nem todos se arrependem. Pode cumprir-se
voluntariamente como em Js 11:9, 15; ou não se cumpre, porque Deus não deseja que
se realize o ato, mas que se manifeste a disposição do sujeito. Caso típico é o
do sacrifício de Isaque que Deus ordenou a Abraão, mas impediu no último
momento (Gn. 22:10-13).
3.4.3. A vontade permissiva
Isto tem a ver com a permissividade divina com respeito ao que ocorre no
mundo. Manifesta-se quando Deus "não impede um mal físico ou moral".
Isto não quer dizer que haja certa cumplicidade de Deus ou que ele mesmo seja o
autor do mal. No que se refere às ações livres humanas, há quatro verdades precisam
ser mencionadas aqui:
1)
Deus tem o controle das ações livres de todo ser mortal e, portanto,
também das ações pecaminosas (Gn 45:5; Ex 10:1, 20; Is 10:5-7; e, sobretudo,
At. 2:23).
2)
A permissão do mal não faz de Deus o autor do pecado, posto que Deus
aborrece o mal com toda a infinita força de seu santo caráter, mas que só o
tolera com desgosto por haver feito o homem dotado de liberdade (Gn 45:5;
50:19-20; Ex 14:17; Is 66:4; Rm 9:22; 2Ts 2:11);
3)
Muitas vezes Deus impede positivamente o mal, ou ainda, refreia o
pecador (Gn 4:6-7; 20:6-7; Jó 1:12; 2:6; Sl 76:10; Is 10:15; At 7:51);
4)
Deus sempre tem o timão de nossas vidas e de toda a história; de modo
que passa por alto ou tolera certos males, fazendo que seu efeito, não sua
malícia, resulte em um bem maior (Gn 50:20; Sl 76:10; At 3:13).
Deus manifesta seu poder de forma soberana. Deus se identifica como
"El-Shaddai" (Deus Todo-Poderoso) e nesta expressão está identificado
o atributo da "Onipotência" divina. A Bíblia nos oferece copiosos
testemunhos deste soberano poder de Deus (Gn 17:1; 18:4; Dt 32:39; Sl 115:3; Is
45:13; Mt 19:26). Para descrever este atributo, podemos dizer seguramente que
Deus é a "Causa Primeira, Absoluta, Infinita, Necessária e
Suficiente" de tudo quanto tem razão de ser. Pela criação, preservação e
intervenção em tudo o que existe e sucede, todo o ser de todos os seres criados
é efeito da "causalidade" divina (At 17:25-28). O poder de Deus está limitado pela seguinte
razão: o poder de Deus não conhece outro limite além do "Absurdo"
pela simples e completa razão de que o "absurdo" é o
"não-ser", a "não verdade" e o "não-bem". Por esta razão, podemos dizer que Deus não
pode:
a)
Criar outro Deus igual a ele (1ª classe de absurdos) porque ainda que Deus
empregasse seu infinito poder em tamanha tarefa o resultado seria uma
"feitura" sua, algo criado, já que, para ser Deus Verdadeiro há de
ter em si mesmo a razão de sua própria existência.
b)
Realizar o que implica uma contradição conceptual ou impossível
metafísico
(2ª classe de absurdos) – em outras palavras, algo que repugne à noção de
"Ser"; por isso, não pode mentir, arrepender-se, deixar de existir,
etc., porque tudo isto implica um "Não-Ser": algo que contradiz a
Verdade, ao Bem, à Santidade, etc. do ser de Deus (Nm. 23:19).
c)
Mudar de condição ou de decisão. Tudo o que Deus pensa, decide e faz sucede
invariavelmente iniludivelmente, porque se efetua desde a imutável eternidade
de Deus. Quando decidiu criar, encarnar-se, humilhar-se (Gn. 1:26-27; Jo. 1:14;
Fp. 2:7, 8) já não pôde (nem pode) voltar atrás, nem em suas decisões, nem em
suas promessas. Em sua imutabilidade é que se fundamenta sua fidelidade e nossa
segurança (Nm. 23:19; 2Tm 1:12; 2:13; Tg. 1:17).
3.3.
Atributos morais – Como Deus age? -
com bondade, santidade e justiça
3.3.1. A
bondade de Deus
A bondade divina é
manifesta através da benevolência, graça, misericórdia e longanimidade. A
infinita bondade inerente ao caráter divino define o tipo de relação que ele
tem com a criação. Toda a criação é vista na Escritura como uma boa obra de
Deus, tendo ela alcançado o padrão de qualidade que ele desejou. “Viu Deus tudo
quanto fizera, e eis que era muito bom” (Gn 1.31).
A bondade divina
manifesta-se, em primeiro lugar, através da benevolência. Sendo Deus infinitamente
bom em si mesmo, é também infinitamente benigno e benevolente para com as suas
criaturas (Sl. 145:9, 15, 16; Mt. 5:44-45; At. 14:17). Deus possui, em grau
infinito, a “chrestótes” (benignidade) e “agathosyne” (bondade), que são frutos
do Espírito (Gl 5.22) reproduzidos pelo caráter do regenerado como nascido do
Espírito.
A segunda manifestação da
bondade divina é a sua graça. A palavra "graça" é usada algumas vezes
na Bíblia para designar simplesmente um "favor" que uma pessoa faz à
outra. É a versão hebraica de "haman" e do grego "cháris".
Como atributo divino sempre indica "favor não merecido", ou seja, a
concessão de um favor, de um dom ou de um poder aos que não têm nenhum direito
(Rm. 5:5-10). Esta graça de Deus é fonte de todas as bênçãos celestiais desde a
mensagem que semeou a Palavra Salvífica em nossos corações até a glorificação
final nos céus, de tal maneira que a nossa vida espiritual presente e futura
depende unicamente desta graça de Deus (At. 14:3; Rm. 3:24; 2Co. 8:9; Ef.
2:8-9; 2Ts. 2:16; Tt. 2:11; 3:7).
A terceira manifestação da
bondade de Deus é a misericórdia, a qual se diferencia da graça – favor não
merecido em relação ao pecador culpável perante Deus – porque ela se baseia não
na culpa, mas na "miséria" do homem caído. O termo
"misericórdia" ocorre muito no Velho Testamento. O binômio
"misericórdia e verdade" (em hebraico, "hesed-hemet") é
frequente (Gn. 24:49; 32:10; 2Sm. 2:6; Sl. 40:10; 89:14; Pv. 3:3) às vezes,
aparece unido com "fidelidade" (em hebraico, "emuah"). Esse
binômio caracteriza ou dá o sentido de "salvação" equivalente a
"graça e verdade" de Jo. 1:14.
A quarta manifestação da
bondade de Deus é a sua longanimidade. Dois vocábulos gregos são usados para
designar a longanimidade de Deus. O primeiro é hipomoné – que denota a
capacidade de aguentar o sofrimento, isto é, de perseverar sob o peso da
adversidade, como indica sua etimologia. Neste sentido, este termo aparece em
Hb 10.36, cujo contexto culmina na definição de fé em Hb 11.1, para indicar que
a paciência produz esperança. O segundo termo é macrothymia – que significa a grandeza
de ânimo para superar as contrariedades e ofensas que outras pessoas lançam
sobre nós. Neste sentido, Paulo exorta aos crentes de Éfeso a “suportarem uns
aos outros” (Ef 4.2) com algo mais que a simples paciência, isto é, com
longanimidade.
A Bíblia nos deixa claro
que Deus, por seu caráter bondoso, é “tardio em irar-se” (Ex 34.6; Sl 89.15). O
mesmo é exigido de todo cristão, exortado por Tiago a estar predisposto a ouvir
mais e falar menos, não se deixando dominar pela ira (Tg 1.19). Em Romanos
3.25, é dito que Deus propôs, pelo sangue de Cristo, aplacar sua ira
(propiciação) para manifestar sua justiça e tolerar os pecadores a ponto de
deixá-los sem a merecida punição dos pecados anteriormente cometidos. Este
“passar por cima” dos pecados de Rm 3.25 equivale ao “não imputando aos homens
as suas transgressões” que se encontra em 2Co 5.19.
Neste último contexto, é dito porque que Deus assim agiu: porque “ao que
não conheceu pecado” (ao Cristo inocente) Deus, por nossa causa, “o fez pecado”
(responsável e vítima propiciatória pelo pecado) para que nós (os culpados)
fôssemos feitos (chegássemos a ser) “justiça de Deus” (revestidos de justiça,
julgados como justos, justificados) nele, isto é, em Cristo (2Co 5.21).
A longanimidade de Deus não é, em nenhum modo, uma conivência nem
indulgência com respeito ao pecado do homem, mas aponta para o Calvário, onde o
pecado do homem encontra a sanção adequada. Deus nos perdoa o pecado e nos
constitui justos, com a justiça de Cristo, em sua santa presença (Jo. 1:29; Rm.
3:25; 2Co 5:21).
3.3.2. A santidade de Deus
Santidade é o termo que designa a excelência moral de Deus. Perfeita ou
absoluta integridade é outra forma de descrever a santidade do Ser de Deus,
infinitamente puro e totalmente separado de toda e qualquer contaminação
resultante da imperfeição de suas criaturas. “Tu és tão puro de olhos, que não podes ver o mal e a opressão não
podes contemplar” (Hc 1.13). O culto a Deus é uma exigência de sua
perfeição. Culto é um direito de Deus e um dever de toda criatura. O salmista
exclama:
a)
“Os céus proclamam a glória de Deus e o firmamento anuncia a obra de
suas mãos” (Sl 19.1);
b)
“Todo ser que respira louve ao Senhor” (Sl 150.6);
c)
“Louvai-o todos os seus anjos; louvai-o, todas as regiões celestes.
Louvai-o sol e lua, louvai-o todas as estrelas luzentes” (Sl 148.2-3);
d)
“Vinde, adoremos e prestemo-nos; ajoelhemos diante do Senhor que nos
criou” (Sl 95.6).
A santidade de Deus é tamanha que o autor do Apocalipse assim a
descreve: “Vi um grande trono branco e
aquele que nele se assenta, de cuja presença fugiram a terra e o céu, e não se
achou lugar para eles” (Ap 20.11). É a santidade divina que nos faz sentir
indignos. Isaías sentiu-se indigno, ínfimo, insignificante e imundo diante do
“Senhor dos Exércitos” a ponto de esperar ser fulminado imediatamente - “ai de mim! Estou perdido! Porque sou homem
de lábios impuros, habito no meio de um povo de impuros lábios, e os meus olhos
viram o Rei, o Senhor dos Exércitos!” (Is 6.1-5).
Ser santo, em hebraico, é expresso com o verbo qadash, donde procede o termo qadosh
que significa "santidade". A ideia bíblica de santidade, tanto em
hebraico como em grego hagios, comporta uma "separação". Esta
separação tem um aspecto positivo de "elevação" no ser e na conduta e
outro negativo de "alienação do mal", ou seja, de encontrar-se em
estado de pureza.
Se pudéssemos definir Deus
por meio de algum atributo, sem dúvida, o de Santo o definiria. Poderíamos
definir a santidade de Deus como sendo uma "Bondade Majestática" (ou
majestosa), isto é, como uma "majestade infinita" pela qual o ser de
Deus é inacessível em sua perfeição absoluta, "completamente outro",
totalmente livre de impureza, mudança e limitação. Isto implica numa
"Perfeita Integridade de Caráter". Isto significa que a integridade
do caráter divino não permite que nele haja a possibilidade do mal, pois
"Deus é luz e nele não há treva nenhuma" (1Jo 1:5). A santidade
divina assume dois aspectos que a conceituam:
a) Santidade ôntica – denota a perfeição
absoluta do ser de Deus;
b) Santidade ética – tem a conotação de
pureza de caráter, integridade e nobreza absolutas em todas as suas ações e
palavras. Deus é o "Bem Absoluto", ou ainda o "Supremo
Bem", cujo ser e caráter são infinitamente isentos de contaminação e da
prática do mal. Sua santidade é tamanha que o homem é proibido de usar até o
seu nome em vão (Ex. 20:7; Dt. 5:11). Sua presença "santifica" o
lugar em que ele se manifesta ou no qual sua presença é reconhecida pelo homem
de quem Deus exige reverência (Ex. 3:5; Js. 5:15; Ec. 5:1a).
Deus manifesta sua santidade
de duas maneiras. A primeira é “separando” para si um povo com o qual fez um
pacto especial e ao qual deu uma lei, um cerimonial e promessas. A segunda é
"preservando este povo (Israel) do mal e do erro", conduzindo-o com
sua graça, seu poder e seus "corretivos purificadores", em revelação
e em ação progressivas do ritual ao ético, do histórico ao profético, das
figuras à realidade e da letra ao espírito. Este povo santo vai concentrando-se
em um remanescente e singulariza-se em Jesus Cristo (O Santo por excelência,
At. 2:27; 1Jo 2:20) em quem todos os crentes de todas as nações são aceitos,
salvos e "santificados por Deus" (1Co. 1:2; Jo. 10:36; 17:17). Toda a
ética do povo de Israel está fundamentada na intimação que "Yahweh"
faz a seu povo em Lv. 19:2 – "santos sereis, porque eu, Yahweh, vosso
Deus, sou santo".
"Porque sou Santo" é o termo que se constitui não só a base de
nossa obrigação de nos santificar como também a garantia de que nossa
santificação é possível. O homem mortal não pode imitar a infinita majestade de
Deus, mas pode aspirar a uma pureza tipicamente divina, mantendo-se apartado de
tudo quanto possa contaminar-lhe (1Ts 4:3-8; 1Pe. 1:14-16).
3.3.3. A justiça de Deus
Qual o conceito bíblico de justiça? Assim como o conceito bíblico de santidade
aponta sempre para uma "separação", o conceito bíblico de justiça
aponta para uma "conformidade". Justo é aquilo que em alguém assume
suas proporções e forma, conforme suas medidas. Desta forma podemos dizer que uma
roupa está "justa". A medida da
justiça é a norma da lei. Desta maneira, uma pessoa só é justa na medida em
que ela cumpre a lei de Deus. Tanto em Deus como no homem, a justiça é
consequência imediata da santidade e é o fundamento de todas as demais qualidades
éticas do indivíduo. A partir do momento em que o homem imita a Deus em
santidade naturalmente ele se torna não somente um defensor, mas principalmente
um praticante fervoroso da justiça.
O conceito hebraico de justiça determina o padrão das relações humanas.
Os vocábulos "Tsedheq" =
Justo e "Tsedhqah" =
Justiça falam da qualidade e da atitude de alguém em sua relação com seu
semelhante em "igualdade de condições". Biblicamente falando, Justiça
consiste, portanto, no profundo respeito à pessoa e aos seus direitos e
necessidades inalienáveis. Nas relações humanas há três tipos de justiça:
a) Justiça Distributiva – distribuição segundo as
necessidades individuais;
b) Justiça Restitutiva – restituição daquilo que
de alguém foi tirado ou que deveria ser dado e ficou retido;
c) Justiça Retributiva – retribuição segundo o
mérito. Aqui cabem dois sentidos de retribuição: a punição e a concessão de
galardão.
O que se entende por
justiça de Deus? O
conceito de justiça, para ser melhor compreendido no sentido bíblico, é
necessário que se relacione tal atributo às qualidades do ser de Deus. O
salmista diz: "Justiça e juízo são a base do teu trono; misericórdia e
verdade vão adiante do teu rosto" (Sl. 89:14). Justiça de Deus é um
atributo relacionado com a misericórdia divina e o juízo relacionado com a
verdade. Ap. 15:3 diz: "... justos e verdadeiros são os teus caminhos, ó
Rei dos séculos...".
Assim sendo, Justiça pode
significar o padrão moral pelo qual Deus mede a conduta e avalia o caráter
humano. Por esta razão, os homens são exortados a praticarem a justiça e a
misericórdia (Gn. 18:19; Mq 6:8). Assim como por sua justiça Deus julga o
comportamento humano também pela mesma justiça redime o arrependido. Assim, a
justiça divina tem uma conotação tanto judicial como redentiva (Is. 45:21-22).
Todo o propósito da justiça de Deus é revelar sua misericórdia e a sua
graça salvadora. Deus satisfez sua justiça, condenando em Cristo o pecado, o
qual suportou em nosso lugar a pena que nos estava imposta, para dar a todo
homem uma chance de redenção (Rm. 3:21-26). Por outro lado, o homem, ao recusar
a graça salvadora de Deus que fez cair sobre seu Filho a condenação do pecado,
atrai sobre si mesmo a justa condenação por agredir com desprezo a pessoa do
Deus Santo, Justo, Misericordioso e Soberano. Assim, o ato da recusa humana
exige de Deus um ato de sua justiça retributiva de natureza judicial (Hb 2:1-3;
Rm. 1:18, 28-32).
Quais as implicações
práticas da justiça de Deus? Lacueva propõe o seguinte:
a)
A justiça de Deus é simplesmente o exercício de sua santidade na relação
com a criação. A justiça divina, neste caso, combina com a “bondade
majestática” de Deus, mas não se identifica com o amor.
b)
A justiça de Deus não pode dar lugar à mera indulgência ou à conivência.
Esperar que a misericórdia de Deus, no final, alcançará as exigências de sua
justiça é o erro que o diabo procura inculcar nos inconversos, olvidando a
severa advertência de Hb 2.2-3: “Porque
se a palavra dita por meio dos anjos foi firme, e toda transgressão e desobediência
receberam JUSTA RETRIBUIÇÃO, como escaparemos nós se negligenciarmos tão grande
salvação?”
c)
A justiça de Deus se manifesta em um Deus justo governador do mundo e
que “retribui a cada um segundo as suas obras” (Ap 22.12; cf. Ap 2.23).
No que diz respeito à manifestação da justiça de Deus no governo do
mundo, faz-se necessário distinguir em Deus:
a)
Uma justiça que manifesta a retidão e a equidade quando
Deus impõe suas leis e as sanciona (cf. Rm 1.32);
b) Uma justiça que remunera, não porque o ser humano não
pode exigir de Deus nenhuma retribuição nem salário (Lc 17.10), mas porque Deus
se tem comprometido com promessa de fidelidade a dar, ao que vencer, a “coroa
da justiça” (2Tm 4.8; Ap 3.11);
c) Uma justiça que castiga aos transgressores da lei, pois
a ira de Deus pende sobre todos quantos se opõem de forma iníqua à penetração
da verdade em seus corações (Rm 1.18). Mas ainda que esta mesma justiça
conserva-se temperada pela misericórdia, posto que o Deus Santo, que é Amor e
Justiça-nossa ao mesmo tempo, sempre pune o que desmerecemos com nossos pecados
e infidelidades. Desta forma, a justiça divina está sempre pronta a castigar o
mal, mas não a premiar o bem.
Há uma tenção entre o amor
e a justiça de Deus? Como
Deus é o Bem Absoluto e a excelência da perfeição e da santidade, todos os seus
atributos operam em absoluta harmonia. Nenhum atributo se contrapõe a qualquer
dentre os demais. Deus é perfeitamente íntegro. São as nossas concepções
pessoais e deduções “lógicas” oriundas de nossa estrutura cognitiva que entram
em conflito, quando refletimos sobre os atos de Deus registrados nas Escrituras
por meio de uma linguagem essencialmente antropomórfica.
Amor e justiça são atributos que se integram de tal forma que nenhum ato
de justiça tem o reconhecimento de Deus sem que esse ato não manifeste
verdadeiro amor. Por outro lado, nenhuma obra de amor tem qualquer validade
para Deus sem que a justiça seja sua verdadeira causa. Em outras palavras, não
há amor sem expressão da justiça nem justiça sem expressão do amor. “A justiça
de Deus exige que a pena do pecado seja paga. O amor de Deus, porém, deseja que
sejamos restaurados à comunhão com ele”.[59]
O sacrifício de Cristo é a expressão máxima do amor de Deus e satisfação plena
de sua justiça.
CAPÍTULO VII
A TRIUNIDADE DE DEUS
1. O sentido da doutrina da trindade
Para expressarmos a verdade bíblica de que o ser divino subsiste em três
pessoas, usamos os termos Trina Divindade, Santíssima Trindade, Trindade Divina
e Triunidade Divina. O vocábulo "trindade" deriva-se do latim
"trinus" que quer dizer triplo ou um conjunto de três. A revelação
divina registrada nas Escrituras traz para nós um grande mistério que, ao longo
dos séculos, tem levantado muitos questionamentos. Trata-se da natureza trinitária
de Deus. A Bíblia diz enfaticamente: "Há um só Deus" (Ef. 4:4-6; 1Tm
2:5), mas nos apresenta o ser do único Deus como sendo de natureza tripessoal.
Com relação a seu modo de existência, questionamos: Deus é uma unidade absoluta ou subsiste como uma pluralidade de pessoas?
A doutrina da trindade (vocábulo estritamente teológico e não bíblico)
tem sido até hoje o ensino aceito tradicionalmente pela igreja, pois se
harmoniza com todo o teor das Escrituras, principalmente, com o Novo
Testamento. “A doutrina é uma conclusão retirada indutivamente daquilo que a
Escritura anuncia”, diz Lindsay Alexander.[60] A concepção que a igreja
oficialmente adotou descreve a trindade relacionando-a à personalidade de Deus.
No entanto, a natureza trinitária de Deus denota algo que tanto inclui a
personalidade como o modo de existência da única essência (substância) divina.
Diante de tal fato, precisamos considerar as seguintes proposições:
a)
O termo personalidade, com relação a Deus, não deve ser entendido no
sentido filosófico. As pessoas da trindade não são separadas, mas distintas; não têm existência
independente, mas coexistem numa única essência.
b)
O relacionamento entre as pessoas da trindade, como é visto nas
Escrituras, ocorre com individualidade, onde a identidade de cada uma é a
expressão fiel e perfeita do caráter e natureza das outras duas.
c)
Nenhuma das pessoas, isoladamente, é Deus sem as outras duas. Se assim
fosse, não haveria um só Deus, mas três deuses. Tal concepção nega o monoteísmo
para afirmar o triteísmo.
2. Concepção racional da trindade
Para o Cristianismo, a doutrina da trindade fundamenta-se exclusivamente
na revelação. Mesmo aceita pela fé, a doutrina da trindade continua um mistério
de primeira grandeza. O elemento de mistério não é o como, mas o fato de que a
pluralidade coexiste com a unidade. Uma contemplação racionalista, embora não
explique a doutrina, ajuda na sua assimilação pela fé. Assim sendo, reflitamos
nos argumentos que buscam racionalmente vislumbrar o misterioso conceito de
trindade:
a) Os atributos de Deus são eternos
“Nenhum atributo de Deus é derivado, visto
que isso tornaria Deus dependente em algum grau. Igualmente, nenhum atributo de
Deus é adquirido, visto que isso implicaria que Deus existiu em algum tempo
como um ser imperfeito”.[61]
b) Os atributos de Deus são ativos eternamente
Não houve tempo, mesmo antes da criação, para a inatividade de Deus, nem
ele será inativo após a era presente, pois é inconcebível a ideia de que Deus
tenha mudado da inércia para a ação ou da ociosidade para a realização
produtiva. A operação dos atributos de Deus exige um agente e um objeto da
ação. Deus tanto é o sujeito idealizador
quanto o agente da execução. Mas,
quanto ao objeto, este não pode estar restrito à criação, pois, se assim fosse,
Deus estaria privado de sua ação fora dela. A ação divina não pode estar,
circunstancialmente, condicionada ao tempo, pois isso limitaria o poder e a
vontade soberana de Deus. Um universo finito nunca foi, nem será jamais, o
fator determinante da satisfação plena e da ação livre de um Ser Infinito.
c) O agente e o objeto são
pessoas
Há reciprocidade
interpessoal na ação das pessoas da trindade. O universo e o homem foram
criados por Deus para a sua própria glória, segundo o seu eterno desígnio. Tal
reciprocidade só tem lugar em Deus por meio da pluralidade e da natureza
intersubjetiva compartilhada pelas três pessoas divinas. Não só a criação, mas
também a salvação são obras, segundo as Escrituras, de participação simultânea
das três pessoas como agentes, cujo propósito tem, nos mesmos agentes, o objeto
da ação divina.
3. Os antigos erros acerca da trindade
A ênfase que os judeus deram à unidade de Deus foi trazida para a
igreja. Tertuliano foi o primeiro a formular a doutrina, mas adotou uma
concepção distorcida da que a igreja adotou oficialmente, em séculos
posteriores. Ele ensinava uma subordinação do Filho ao Pai. Orígenes também
adotou e ensinou a mesma ideia de Tertuliano, acrescentando que o Espírito
Santo era subordinado ao Filho. Desacreditando na divindade das outras pessoas
além do Pai, Orígenes abriu campo para os arianos posteriormente, que negavam a
divindade do Filho e do Espírito Santo, apresentando o Filho como a primeira
criatura do Pai e o Espírito Santo como a primeira criatura do Filho.
3.1. Subordinacionismo
Por influência do neoplatonismo, entrou na igreja o erro de que só o Pai
é o verdadeiro Deus, sendo as outras pessoas seres participantes de algum modo
do ser divino, mas afinal, são seres criados, nunca iguais a Deus. Essa
doutrina se divide em duas:
a)
Arianismo – que deve seu nome ao
presbítero de Alexandria (falecido em 336), Ário, que defendia que o
"Verbo" era uma criatura do Pai, o qual havia servido de instrumento
para criar todas as demais coisas e que, sendo limitado, não podia entrar em
contato com um Deus transcendente.
b)
O Macedonianismo – nome derivado do
patriarca de Constantinopla, Macedônio (morreu talvez em 370) – é uma variante
do arianismo que se caracterizava por sustentar que o Espírito Santo era
criatura de Deus. Daí veio a esta seita o nome grego de
"Pneumatómakhos", que significa "os que combatem ao
Espírito".
3.2. Monarquismo
Esta palavra deriva dos vocábulos gregos "monos" = único e
"arché" = princípio. Em seu primeiro uso, por exemplo, em Irineu,
tinha um sentido perfeitamente ortodoxo, pois expressava a verdade de que há um
só Deus, criador e governador do universo. O monarquismo se divide igualmente
em duas classes:
a)
Dinâmico – admite uma só pessoa em Deus e vê em Jesus um mero homem, cuja
consciência de ser portador do "Logos" ou revelação de Deus foi
crescendo progressivamente sob o influxo poderoso do Espírito de Deus, até
merecer honras divinas, mas sem ser jamais Deus em sua essência. Esta doutrina
foi defendida especialmente pelo patriarca de Antioquia, Paulo de Samosata, no
século III.
b)
Modalístico – também conhecido com o nome de "Sabelianismo" – do
heresiarca Sabélio (século III), que, sem negar a divindade de Jesus,
reconhecia em Deus uma só pessoa que ao mesmo tempo é filho e pai em "três
modos distintos de manifestar-se": como Criador (Pai), como Redentor
(Filho) e como Santificador (Espírito Santo). Ao tomar em Cristo o modo de
Redentor, foi o próprio Pai o que padeceu. Por isso, ao terminar o último ato
do drama da redenção, cessou de existir como pessoa divina, o Filho de Deus.
3.3. Triteísmo
Esse erro consistiu em manter que as três pessoas da trindade eram três
indivíduos da mesma espécie divina, ou seja, três deuses iguais em todos os
atributos. Na execução do plano da salvação os três agiram em plena harmonia,
tendo um propósito comum. Após a Reforma, algumas das concepções errôneas sobre
a Trindade reapareceram. Episcópio, Curceleu e Limborgh reavivaram a doutrina
da subordinação, atribuindo à pessoa do Pai uma certa preeminência sobre as
outras pessoas, em ordem, dignidade e poder. Outros, como Emanuel Swedenborg,
seguiram as ideias de Sabélio, ensinando uma espécie de modalismo, onde o
eterno Deus-Homem se fez carne no Filho e agia através do Espírito Santo.
4. O conflito doutrinário
Os primeiros séculos da era
cristã foram conflitantes no que diz respeito à Cristologia. A declaração
bíblica explícita de que há um só Deus estava sendo confrontada pela convicção
de que Cristo era uma pessoa divina. O cristianismo, emergente do judaísmo
monoteísta, estava se expandindo de forma acelerada, conquistando o mundo pagão
politeísta da cultura helênica, muito receptiva ao evangelho. A mensagem
propagada pelos cristãos afirmava que Jesus era o Filho Unigênito de Deus que
se encarnou, morreu pelos nossos pecados, ressuscitou dentre os mortos e foi
glorificado no céu.
Como frutos da especulação teológica, erros doutrinários geraram uma
série de concílios que foram convocados para dar uma resposta oficial à questão
da divindade do homem Jesus ou da encarnação do Logos divino. Os defensores da
doutrina da trindade, na luta contra seus oponentes, valeram-se das correntes
filosóficas predominantes na época. Foi inevitável a influência do gnosticismo
e do platonismo no processo de formação da doutrina da trindade.
4.1. A influência do gnosticismo
“Os gnósticos sustentavam com veemência que os sofrimentos e os aspectos
humanos de Cristo eram imaginários ou aparentes, ao invés de serem parte de uma
encarnação verdadeira”. Esta corrente doutrinária foi conhecida pelo nome de
docetismo. Os seguidores do docetismo sustentavam que se Cristo sofreu, não era
divino, e se ele era Deus, não poderia sofrer. A união da natureza humana do
Messias hebreu, Filho de Davi, com a natureza divina do Logos preexistente, revelado como Filho de Deus, era combatida nas
igrejas da Ásia Menor. O pensamento docético fez parte integrante das
concepções dos gnósticos, os quais consideravam Jesus como um mensageiro
alienígena que veio para despertar os gnósticos para o seu destino fora do
âmbito da criação.
4.2. A influência do platonismo
Filo, membro de uma família judaica rica e muito influente em
Alexandria, foi autor de alguns temas filosófico-teológicos. Numa tentativa de
conciliar a Teologia do Velho Testamento com o pensamento platônico por ele
modificado, ele fez várias exposições do Pentateuco. Ele propunha demonstrar
que as questões filosóficas e religiosas do mundo gentílico encontravam sua
verdadeira resposta no Deus de Abraão. Platão formulara a tese de que tudo que
existe tem origem nas ideias arquétipas
(ideias-modelo) preexistentes em um mundo transcendental. Assim sendo, a razão divina era o Logos. Filo apropriou-se deste pensamento para propugnar a ideia de
que a Criação era a manifestação de Deus na natureza.
Na criação, a razão divina ou Logos nasceu, dando vida e forma a todas
as coisas. Aplicando essa concepção à cristologia, Justino Mártir, Taciano e
Teófilo, viram em Cristo a personificação e encarnação da razão divina (Logos) que,
embora estivesse acima de toda e qualquer criatura, era divino mas em nível de
subordinação ao Deus Transcendental (Theós). Mesmo sendo o criador e
preservador de todas as coisas, sua origem não era eterna; ele era uma geração
divina realizada no início da criação.
4.3. A influência de Orígenes
Orígenes acreditava que Cristo, como também a criação, tinha origem em
Deus desde a eternidade. Deus havia criado o Filho, para que o Filho criasse o
mundo. O Logos era Filho de Deus
gerado na eternidade, antes da criação. O Espírito Santo não existia como uma
terceira pessoa distinta do Pai e do Filho. Ela era a substância comum com o
Pai e o Filho. Às vezes, era reconhecido como um mero poder emanado de Deus ou
como uma pessoa distinta, mas sendo uma criatura subordinada ao Logos.
Embora o Filho fosse divino e pessoa distinta do Pai, não havia
igualdade entre eles. O Pai era ho theós,
o Filho era apenas theós ek theou
(Deus de Deus, isto é, que procede de Deus) e não auto-theós (Deus próprio). O Filho era subordinado ao Pai, não só
em operação, mas também em natureza, pois a essência do Filho era diferente da
substância do Pai.
4.4. A crítica do judaísmo
O judaísmo rechaça a doutrina da trindade com tanta veemência que, para
os judeus, ela é considerada parte do “escândalo da cruz” a que se refere Paulo
em 1Co 1.23. Não foram as obras de Jesus que levaram os judeus a crucificá-lo,
mas sua doutrina pela qual ele fazia-se identificar como Filho de Deus,
“fazendo-se igual a Deus” (Mt 26.63-66; Jô 5.18; Jô 10.30-33).
Um rabino da Palestina, no
século IV, considerando o cristianismo uma violação do monoteísmo, declarou o
seguinte: “São estranhos estes indivíduos que creem que Deus tem um filho e que
permitiu que morresse. O Deus que não pôde sofrer ao ver Abraão a ponto de
sacrificar a seu filho e exclamou: ‘não estendas a tua mão sobre o menino!’
como iria presenciar a imolação de seu filho?” [62]
A fúria dos judeus não cristãos contra Estevão e Paulo era resultado da
pregação da salvação pela fé em Jesus. O livro de Atos nos mostra, nos
capítulos 7 e 13, o conteúdo doutrinário que abalou dolorosamente a fé dos
judeus.
4.5. A grande confusão
A confusão que fazemos com respeito à doutrina da trindade deriva da
concepção que temos de que pessoa e indivíduo são a mesma coisa. Indivíduo e
pessoa não são necessariamente a mesma coisa. Enquanto o termo indivíduo designa o ser em si mesmo, pessoa denota a natureza desse ser.
Pessoa é o elemento que distingue o ser humano dos demais seres vivos. Todo ser
humano é um indivíduo dotado de personalidade a qual é responsável por dar
identidade e distinção ao indivíduo. Individualidade
é expressão de singularidade do sujeito; personalidade
é a expressão do caráter que identifica esse sujeito e o distingue de outro.
Na realidade humana, cada indivíduo tem personalidade única e própria.
Há uma pessoa em cada indivíduo. Mas o cristianismo declara que, em cada
cristão (como indivíduo) habita duas pessoas distintas: o espírito humano e o
Espírito de Deus. Ambos possuem consistência imaterial, mas são pessoas diferentes. Assim sendo, cada
pecador regenerado é um indivíduo dotado de dupla personalidade: a humana, que
lhe é própria; e a divina, que foi adquirida. Isto não faz de cada crente um
duplo sujeito, isto é, não duplica sua
individualidade; nem tampouco modifica
sua personalidade, ou seja, sua
pessoa. O que ocorre é que a personalidade humana, deformada pelo pecado,
estará sendo modelada pela personalidade divina, sendo também preservada sua
individualidade.
Se é possível e admissível pela fé que a natureza espiritual humana (que
é pessoa) e a natureza espiritual divina (que também é pessoa) estejam
presentes em um único indivíduo,
levantamos a questão: É também possível e admissível pela fé que, em um único
Deus, coexistam três pessoas distintas? Se, em nossa experiência cristã, isto é
real, não o será também em Deus que nos fez semelhantes a ele? Se admitirmos
que seja, precisamos reconhecer que o Pai, o Filho e o Espírito Santo são três pessoas distintas, mas não três indivíduos separados. A tripessoalidade de Deus não triplica sua
individualidade nem anula sua unicidade. Deus é um sujeito tripessoal.
5. O mistério de um Deus em três pessoas
5.1. Conceito de pessoa
Pessoa é um ser que apresenta três atributos: (1) Autoconsciência – consciência da própria existência e conhecimento
de si próprio que torna o ser competente para relacionar-se com os demais
seres; (2) Autogoverno – que torna o
indivíduo livre para decidir sobre sua conduta e seu próprio destino, sendo o
único responsável pelas decisões que toma e por suas ações conscientes; (3) Alteridade – estado ou qualidade de ser
"outro" e diferente dos demais seres, cujo "eu-próprio"
determina sua individualidade que nunca é perfeitamente igual a outro ser,
mesmo sendo da mesma espécie e da mesma família. Esse atributo dá ao indivíduo
a característica de um ser singular. Considerando estes atributos, podemos
afirmar que Deus é um ser pessoal por três razões: (1) Tem consciência infinita
de si mesmo; (2) Possui plenitude de independência e liberdade; (3) Mantém sua
alteridade de uma maneira total na inacessível e inefável transcendência do
"EU SOU O QUE SOU".
5.3. Conceito de trindade
Em Deus coexistem simultaneamente três pessoas. As três pessoas são
distintas entre si, mas possuem simultaneamente uma só personalidade e os
mesmos atributos. Não se trata de um Deus com três personalidades distintas,
pois se assim fosse, Deus seria mutável; nem tampouco se refere a três pessoas
com personalidades distintas, pois, caso assim fosse, não teríamos um
monoteísmo, mas um triteísmo. Desta forma, Trindade ou Triunidade Divina significa a coexistência
simultânea de três pessoas divinas que, embora sendo distintas entre si e
possuindo os mesmos atributos, estão presentes em um único ser reconhecido como
Deus. Embora sejam três pessoas,
todas têm o mesmo caráter.
O que torna as pessoas divinas distintas não é o caráter, mas a
operosidade de cada uma. Deus é um ser íntegro e sua integridade (moral e
espiritual) é comprovada pela perfeição de seus atributos. As três pessoas
possuem simultaneamente a mesma personalidade (mesmo caráter), a mesma
mentalidade (única disposição mental, forma única de pensar), a mesma vontade,
etc. e nunca operam em contradição entre si.
As passagens do VT que sugerem a ideia da trindade e podem ser divididas
em três categorias:
1) Em primeiro lugar, há
passagens referentes ao "Anjo do Senhor", onde ele é identificado com
o próprio Yahweh (Gn 31:11-13) e aceita a adoração que é devida somente a Deus
(Ex. 3:2-5; Jz 13:15-23). A teologia cristã reconhece de um modo em geral que o
agente de Deus identificado como "Anjo do Senhor" refere-se à pessoa
do Cristo preexistente, mas ainda não revelado como tal ao mundo.
2) Em segundo lugar, há
passagens que descrevem o Messias, onde ele é um com Yahweh (Is 9:6; Mq 5:2) e
também é distinto de Yahweh (Ml 3:1). Não há no Velho Testamento uma doutrina
clara sobre a trindade. As passagens citadas são apenas sugestões que, à luz do
Novo Testamento, apontam para a existência de mais de uma pessoa com atributos
divinos identificadas com o próprio Deus.
3) Em terceiro lugar, há
passagens que descrevem a pessoa do Espírito Santo como sendo o próprio Deus
agindo no homem. Como exemplo, citaremos algumas delas: Gn 6:3; Ex 35:30-31; Nm
11:24-25; Jz 14:6; 1Sm 11:6.
7. A doutrina da trindade no Novo Testamento
O Novo Testamento apresenta três pessoas divinas, possuindo os mesmos
atributos, mas operando separadamente. Vejamos as passagens bíblicas que
apontam cada pessoa como sendo divina.
a)
O PAI, identificado como o Deus Criador (Jo 6:27; 8:41; 1Pe 1:2; 2Co
1:2; Ef 4:6);
b)
O FILHO, expressamente chamado Deus (Jo. 1:1; 20:28; Tt. 2:13; 1Jo
5.20); possui os atributos de Deus, tais como, autor da vida (Jo. 11:25; 14:6);
tem existência própria (Jo. 5:26); é santo (Lc. 1:35); é eterno (Jo. 17:5, 24;
Cl. 1:17; Ap. 22:13); criador e soberano sobre o universo (Jo. 1:1-2; Cl.
1:15-17; Mt. 28:18; Fp. 2:9-11); onisciente (Jo. 16:30; Mt. 17:27); ressuscita
os mortos e julga o mundo (Jo. 5:25-29); perdoa pecados e faz milagres (Mt.
9:1-7; 14:20).
c)
O ESPÍRITO SANTO também reconhecido como Deus. Fala-se dele como sendo o
próprio Deus (At. 5:3-4; 1Co 3:16; 2Co. 3:17); que tem os mesmos atributos e
conhece toda a intimidade de Deus (1Co. 2:10-17). As obras de Deus são atribuídas
ao Espírito Santo: é criador (Sl. 104:30; Gn. 1:1-2); concede vida pela
regeneração espiritual (Jo. 3:5-6); ressuscita os mortos (Rm. 8:11); e
santifica (1Pe 1:2).
7.1. O nome “Pai” aplicado ao Deus Trino
O termo Pai, atribuído a Deus, pode significar:
a)
Pai como genitor, isto é,
Criador, o sujeito responsável como feitor (fazedor) de tudo que existe; que de
um só fez toda a raça humana. A unidade da espécie humana irmana todo ser
humano, que é gerado pelo mesmo Criador (At 17.26-28). O fato de sermos
“geração de Deus” faz de Deus Pai de todos os seres humanos.
b)
Pai de Israel, pois Deus gerou, sustentou, proveu educação e disciplinou
Israel a quem o próprio Javé chamou de filho (Is 1.2; Os 11.1-3).
c)
Pai de todos os verdadeiros crentes que nasceram do Espírito de Deus e
que são tratados como filhos de adoção (Rm 8.15-17; Gl 4.6-7).
d)
Mas, o que caracteriza a primeira pessoa da trindade como Pai? A
resposta pode ser: o Pai é princípio sem
princípio. Ele é a origem das outras pessoas da Trindade, pois dele procede
o Logos e flui o Espírito Santo; mas
ele não deve sua origem pessoal a nenhuma outra pessoa. O Filho e o Espírito
Santo, embora sejam consubstanciais com o Pai e iguais e na plenitude de todos
os seus atributos, procedem do Pai. Não há desnível entre as pessoas, pois a
individualidade do ser divino é única e preserva-se como uma só.
7.2. A filiação do Logos divino
Todo ser humano tem uma origem (procedência e início de existência) nos
pais que o geraram. Isto se dá apenas com relação à sua natureza orgânica que
resulta do seu código genético, pelo qual lhe são transferidas todas as
características físicas. No entanto, sua alma (ou espírito) tem origem
(procedência e início de existência) em Deus; isto é, é uma criação de Deus.
No que diz respeito a
Cristo, sua filiação ao Pai ocorre em dois aspectos: na preexistência e na
encarnação. Sua preexistência é coexistência eterna com o Pai, pois a
substância do Pai é a mesma do Filho, única e eterna. Não é a substância do
Filho que tem origem no Pai; é a sua pessoa. Origem aqui não significa início
de existência, mas procedência. O Logos é espírito (substância) que procede do
Pai para se encarnar. Tal substância é natureza única e comum às três pessoas
do ser de Deus.
Com relação à sua natureza
orgânica, ela teve início de existência no tempo e na história. Sua VIDA
BIOLÓGICA teve início quando Maria concebeu do Espírito Santo e teve fim em sua
morte na cruz, pois a sua única utilidade consistia na encarnação do Logos
durante a sua existência terrena. Seu corpo que não experimentou corrupção foi
glorificado e preservado em glória no qual habita o Logos (pessoa do Filho),
reinando como soberano do universo. Ele voltará em glória com o mesmo corpo
glorificado e “todo olho o verá”.
Ele era ESPÍRITO DIVINO em
corpo humano. Era o Logos divino como pessoa e substância espiritual procedente
do Pai. Não havia em Jesus uma alma humana. Nada mais além do Logos habitava em
Jesus. Em Cristo não havia um duplo sujeito, mas um só: o Logos. A relação de
filiação do Logos com Deus deve-se, portanto, a esses dois fatores: sua
natureza espiritual preexistente que procede do Ser de Deus e sua natureza
humana não procedente, mas gerada por Deus. Como ser preexistente, o Filho é o
Logos; como ser humano o Filho é o Cristo, o Filho do Homem.
Não houve na eternidade, antes da criação, uma relação de filiação no
sentido de subordinação e obediência entre o Logos e Deus Pai. O Pai, o Logos
e o Espírito Santo são três pessoas distintas que coexistem simultaneamente no
mesmo nível de divindade, pois a natureza moral e a natureza ôntica das três pessoas são uma só, na plenitude e
perfeição de todos os seus atributos.
O Logos não se encarnou por um
ato de obediência a qualquer das outras duas pessoas, “pois ele, subsistindo em forma (modo de existir) de Deus, não julgou como usurpação o ser
igual a Deus (pessoa do mesmo nível e mesma natureza); antes, a si mesmo se esvaziou (por deliberação espontânea de sua
livre vontade), assumindo a forma de
servo, tornando-se em semelhança de homens (encarnação); e, reconhecido em figura humana (encarnação
comprovada), a si mesmo se humilhou,
tornando-se obediente até a morte e morte de cruz (obediência necessária
por causa da limitação de sua natureza humana e sua condição de dependência das
outras duas pessoas da trindade).
“Pelo que Deus (o Pai) o exaltou sobremaneira (sua glorificação
foi obra do Pai depois de sua ressurreição realizada pelo Espírito Santo) e lhe deu um nome que está acima de todo
nome, para que ao nome de Jesus (Yahweh é Salvador) se dobre todo joelho, nos céus, na terra e debaixo da terra (toda a
criação subjugada à soberania da pessoa do Logos),
e toda língua confesse que Jesus Cristo
(o Logos encarnado e glorificado) é Senhor (Kyrios = Adonay = Soberano) para a glória de Deus Pai” (Fp 2.6-11).
Aqui se explica não só o porquê
da existência trina de Deus, mas também como
e para que finalidade Deus opera em
sua relação com toda a criação. Se não fosse trino em sua natureza, o Deus
Salvador não teria se encarnado, mesmo sendo esta encarnação necessária para
que se cumprisse o propósito salvífico de Deus. Ainda mais, a expiação do
pecado da raça humana não teria se realizado e a criação estaria perdida para
sempre.
7.3. O Espírito Santo em relação ao Pai e ao Filho
Quando nos referimos ao Espírito Santo como terceira pessoa da trindade,
não queremos que isso signifique inferioridade, pois, entre as pessoas divinas,
não há superioridade de natureza, nem dependência de causalidade nem prioridade
de tempo. Todas as pessoas compartilham da mesma e única natureza, substância
ou essência do único e eterno Deus autoexistente. A palavra grega pneuma traduz
o termo hebraico ruach que significa
fôlego, ar, vento ou espírito. Com o sentido de espírito, o termo pode
referir-se tanto ao espírito humano como ao Espírito de Deus. O adjetivo Santo atribuído ao Espírito de Deus não
tem o propósito de negar a santidade das demais pessoas, mas de designá-lo como
o agente santificador que tanto aperfeiçoa o regenerado, modelando seu caráter,
como também o separa e capacita, por meio dos dons, para o serviço sagrado (Jo
3.3, 5, 8; Ef 1.13; 2Ts 2.13; Ef 4.12).
Ninguém nega que o Espírito Santo procede do Pai, pois tal verdade está
explícita em Jo 15.26. Por outro lado, o Novo Testamento não declara
explicitamente que o Espírito Santo procede também do Filho, embora também seja
verdade. Há evidências de que o Espírito Santo também procede do Filho:
a)
Jesus se identificou como o agente que faz cumprir a promessa do Pai de
enviar seu Santo Espírito (Jo 15.26).
b)
O Pai envia o Espírito em nome do Filho (Jo 14.26).
c)
O Espírito Santo é chamado de “Espírito do Senhor” (At 5.9 e 2Co 3.17) e
“Espírito de Cristo” (Rm 8.9) e isto deve ser entendido como procedência do
Filho.
d)
Simbolizado pelos “rios de água viva” que jorram do interior dos que
creem em Jesus, o apóstolo João descreve o Espírito como procedente do Filho
(Jo 7.37-39).
8. Textos trinitarianos mais conhecidos
a) Mt. 3:14-17, o Pai fala
acerca do Filho sobre o qual desce o Espírito Santo transfigurado numa pomba.
b) Mt. 18:19, contém o
mandamento de batizar no nome das três pessoas divinas. A expressão "em
nome de" obrigatória nas cerimônias de batismo também pode significar que
há "Um Nome Comum" ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo,
caracterizando "um único ser", existindo simultaneamente em três
pessoas.
c) 1Co. 12:4-6, onde temos as
três pessoas em ordem: "o Espírito é o mesmo... o Senhor (Jesus) é o
mesmo... o mesmo Deus (Pai)", que fazem referência ao único Deus.
d) 2Co 13:14, onde temos a
bênção apostólica de Paulo na qual ele menciona os atos da bondade de Deus:
"graça" (referência à salvação por meio do Filho), "amor"
(referência à benevolência indiscriminada e à essência do ser de Deus e Pai) e
"comunhão" (referência à harmonia e concordância que caracterizam a
unidade das três pessoas divinas e que devem caracterizar também a unidade da
igreja).
e) Ef. 4:4-6, onde em cada um
dos versículos aparece uma das pessoas divinas que, como um só, agem em
harmonia, mantendo a unidade entre si e do corpo, que é a igreja.
f) 1Pe 1:2, onde temos a
eleição e presciência do Pai, a redenção do Filho e a santificação do Espírito
Santo.
UNIDADE -II
CAPÍTULO VIII
AS ETERNAS DECISÕES DE DEUS
1.
A importância e dificuldades
do tema
Entramos agora em um tema difícil, mas importante. A dificuldade de
dissertar sobre os desígnios de Deus reside no fato de que se trata de suas
eternas decisões, de tudo aquilo que Deus, em sua soberania, determinou a
respeito de toda a criação. Referimo-nos às intenções, aos propósitos divinos,
aos seus eternos decretos que definiram de antemão não só o rumo e o final da
história, mas também como Deus controla o universo, nossas vidas e nossos atos.
Robert Culver opina que “nada no esquema da doutrina cristã é tão
ofensivo ao espírito secular nem tão absurdo para a mente incrédula do que
propor que Deus tenha um plano para todo o universo até os mínimos detalhes
como os fios de cabelos de alguém ou a morte de um pardal (Mt 10.29-30) e está,
infalivelmente, cumprindo esse plano”.[63]
O apóstolo Paulo foi o principal expositor desse tema teológico. Dele são as
declarações mais contundentes sobre esse assunto no Novo Testamento (Romanos
9-11), o que, provavelmente, levou Pedro a declarar:
“... e tende por salvação a longanimidade de nosso Senhor, como
igualmente o nosso amado irmão Paulo vos escreveu, segundo a sabedoria que lhe
foi dada, ao falar acerca destes assuntos, como, de fato, costuma fazer em
todas as suas epístolas, nas quais há certas coisas difíceis de entender,
que os ignorantes e instáveis deturpam, como também deturpam as demais
Escrituras, para a própria destruição deles.” (2Pe 3.15-16).
Este é um mistério que não podemos desvendar, mas que foi revelado, em
primeiro lugar, para que asseguremos que Deus tem o controle completo do
universo, de nossas vidas e da marcha da História; e, em segundo lugar, para
que tenhamos plena certeza que Deus é o nosso Salvador total, que tudo que
obtemos de Deus é de graça e que estamos seguros em suas poderosas mãos. A
visão cristã da relação entre Deus e o mundo abrange os seguintes fatos: (1)
Deus planejou o mundo; (2) Deus criou o mundo; (3) Deus sustenta
o mundo; (4) Deus governa o mundo.
O assunto envolve não só a soberania, mas também o amor e a graça de
Deus; inclui tanto o domínio e a autoridade de Deus como a liberdade e a
responsabilidade humana. Embora seja um mistério que em parte foi revelado, as
eternas decisões de Deus (decretos) ainda têm algo de desconhecido ou obscuro
para a compreensão humana. Apesar de tudo, a Escritura ensina claramente que
todos os atos divinos no curso da existência são executados “segundo o
propósito daquele que faz todas as coisas conforme o conselho da sua vontade” (Ef
1.11).
Vários termos, citados em diversas passagens bíblicas, são distintas
expressões usadas para mencionar os atos divinos direcionados ao cumprimento de
um desígnio estabelecido na eternidade (veja Is 46.10; Rm 8.29; At
17.26; Ef 1.11; Rm 8.30). Digna de destaque é a passagem bíblica de Isaías
14.24-27: “Jurou o SENHOR dos Exércitos, dizendo: Como pensei, assim
sucederá, e, como determinei, assim se efetuará. Quebrantarei a Assíria
na minha terra e nas minhas montanhas a pisarei, para que o seu jugo se aparte
de Israel, e a sua carga se desvie dos ombros dele. Este é o desígnio que
se formou concernente a toda a terra; e esta é a mão que está estendida
sobre todas as nações. Porque o SENHOR dos Exércitos o determinou; quem,
pois, o invalidará? A sua mão está estendida; quem, pois, a fará voltar
atrás?”
2.
Concepção geral
O plano de Deus, portanto, consiste na decisão eterna divina que garante
que todas as coisas que estão por vir acontecerão. Grande número de teólogos
tem preferência pelos termos predestinar e preordenar, usando-os
como sinônimos. Mas uma distinção entre ambos pode ser feita da seguinte forma.
Predestinar tem uma conotação um pouco mais restrita do que preordenar, pois
refere-se literalmente ao destino de alguém ou algo. Neste sentido, melhor
seria empregar o termo predestinar apenas para designar a condição
eterna de agentes morais. Desta forma, preordenar é a expressão mais
apropriada para nos referir às decisões de Deus com respeito a quaisquer
questões no âmbito da história cósmica.[64]
Os desígnios de Deus,
também denominados de decretos, constituem um tema polêmico em virtude do que
ele significa na Teologia Sistemática. De acordo com o Breve Catecismo de
Westminster, questão 7, "os decretos de Deus são seu eterno propósito,
segundo o conselho de sua vontade, pelo qual, para sua própria glória, ele
preordenou tudo que acontece".[65]
Com respeito a essa concepção, Hodge[66]
faz as seguintes considerações:
a)
“O fim ou a causa final contemplada em todos os decretos de Deus é sua
própria glória”.
b) “Todos eles se reduzem a um
propósito eterno”.
c) “São livres e soberanos,
determinados pelo conselho de sua própria vontade”.
d) “Abrangem todos os acontecimentos”.
Quando se fala em decretos
de Deus, a ideia imediata é de que Deus, como Soberano do Universo, tomou
decisões com validade eterna. A maioria absoluta dos teólogos concorda que os
decretos de Deus são seu eterno propósito ou propósitos. Analisando tal
conceito, Thiessen faz as seguintes observações:
Os decretos são o
eterno propósito de Deus. Ele não faz ou altera seus planos à medida que a
história humana vai se desenvolvendo. Os decretos são baseados em seu mui sábio
e santos desígnios. Ele é onisciente e assim sabe o que é melhor; Ele é
absolutamente santo e assim não pode ter em seu propósito qualquer coisa
errada. Os decretos se originam na liberdade de Deus. Os decretos têm como
finalidade a glória de Deus. Seu objetivo principal não é a felicidade da
criatura nem o aperfeiçoamento dos santos [...], mas sim na glória daquele que
é absoluta perfeição. [67]
Os decretos de Deus, tendo sido determinados na eternidade, cumprem-se
inevitavelmente. Cristo é revelado como o “Cordeiro que foi morto antes da
fundação do mundo” (Ap 13.8). Isto implica em dizer que a criação e a queda
da humanidade, bem como a necessidade do sangue expiratório foram contemplados
no plano eterno de Deus. No sermão de Pentecostes, Pedro declarou
explicitamente que Cristo foi “entregue pelo determinado desígnio e
presciência de Deus” (At 2.23).
Referindo-se à conspiração e a execução de Jesus na cruz, a igreja de
Jerusalém expressou em oração a Deus que Herodes, Pilatos, os soldados e o
“povo de Israel” haviam se levantado “para fazerem tudo o que a tua mão e o
teu propósito predeterminaram” (At 4:28). Por outro lado, planos e ações
livres humanas são frustrados por Deus quando estes antagonizam o eterno
desígnio divino: “O SENHOR frustra os desígnios das nações e anula os
intentos dos povos. O conselho do SENHOR dura para sempre; os desígnios
do seu coração, por todas as gerações” (Sl 33.10-11).
3.
Os fundamentos dos decretos
Dentre todos os termos que as Escrituras apresentam, em seu sentido mais
profundo, “a ideia de que existe, desde a eternidade, na intimidade de Deus,
uma livre e soberana decisão, em virtude da qual, Deus tem determinado, sábia e
amorosamente, tudo quanto há de suceder”.[68]
Os decretos de Deus estão fundamentados tanto na ciência como na vontade
divina, isto é, no que Deus conhece e no que ele deseja. Como Ser Onisciente,
Deus tem conhecimento não só do passado e do presente como também do futuro.
Este é o significado da revelação profética.
O cumprimento das profecias é prova de que Deus realiza na história o
que tem determinado de antemão e anunciado ao seu povo antes que aconteça.
Nossa fé só tem significado na certeza dos fatos que não vemos e do que ainda
esperamos (Hb 11.1). As promessas de Deus, tanto as já cumpridas como as que
ainda aguardamos seu cumprimento, são expressões ou manifestações de sua
providência e provisão do futuro no que diz respeito ao destino da criação e
propósito ou fim último do Criador.
Os decretos não se
originaram em prováveis necessidades divinas. Deus não precisava decretar coisa
alguma. Antes da criação, nenhum ser além do próprio Deus havia para
influenciá-lo. O que Deus decidiu foi resultado de uma ação livre e voluntária.
Não resultou de uma vontade arbitrária, mas tiveram como base o seu sábio e
santo conselho. Deus fez todas as coisas, conforme o conselho de sua vontade; é
o que diz Paulo em Ef 1.11. O que Deus faz é absolutamente justo (Rm 3.25). A
glória de Deus é o propósito último de todos os decretos de Deus. Parece haver
unanimidade em todos os teólogos quanto a este fato, que é frequentemente
declarado como o alvo de todas as coisas.
As Escrituras apresentam
várias passagens que evidenciam este fato:
a)
Apocalipse 4:11: “Tu és digno, Senhor e Deus nosso, de receber a glória, a honra e o
poder, porque todas as coisas tu criaste, sim, por causa da tua vontade vieram
a existir e foram criadas”. Todas as coisas pertencem a Deus; são por meio
dele e para ele. Ele é o princípio e o fim de tudo. Os céus proclamam a glória
de Deus; este é o propósito para o qual foram criados.
b)
Números 14:21: “Porém, tão certo como eu vivo, e como toda a terra se encherá da
glória do SENHOR”. Esta expressão é mencionada como objetivo último de
todas as dispensações de sua providência.
c)
Isaías 48:11: “Por amor de mim, por amor de mim, é que faço isto; porque como seria
profanado o meu nome? A minha glória, não a dou a outrem”.
d)
Ezequiel 20:9: “O que fiz, porém, foi por amor do meu nome, para que não fosse
profanado diante das nações no meio das quais eles estavam, diante das quais eu
me dei a conhecer a eles, para os tirar da terra do Egito”. Entendemos que
todo o plano da redenção e as dispensações da graça de Deus foram designados
para revelar a glória de Deus (1Co 1.26-31; Ef 2.8-10).
Como o propósito de todos os atos de Deus culmina em sua própria glória,
jamais deverá ser concebida a ideia de que o bem da criação seja o fim supremo
de todas as obras de Deus. Se assim fosse, estaríamos subordinando Deus à
criação. Há questões de relevante seriedade que são feitas e precisam de uma
reflexão: Por que Deus criou o mundo? Por que ele permite a ocorrência do
pecado? Por que a salvação foi providenciada para os homens e não para os
anjos? Por que alguns são salvos e outros perecem? Tais questões não têm outra
explicação a não ser o fato de que Deus é Soberano e tudo ele faz para a sua
própria glória.
4.
As características dos
decretos de Deus
4.1.
Os decretos de Deus são
somente um
As Escrituras referem-se ao decreto divino como prothesis (propósito,
conselho, desígnio) que deriva da natureza divina. O conhecimento de Deus é
imediato e simultâneo, e não sucessivo como o nosso, e a Sua compreensão desse
conhecimento é sempre completa. Em razão disso, o decreto está radicado na
onisciência de Deus e, consequentemente, também um ato absolutamente
compreensivo e simultâneo.
4.2.
Os decretos de Deus são
eternos e imutáveis
Sendo Deus perfeito, eterno e imutável, não se pode imaginar que ele ora
tem planos, ora não; ou ainda que, uma vez decidindo sobre algo, posteriormente
mude de ideia e volte atrás. Deus vê o fim desde o princípio e as variações de
tempo não atingem aquele que habita na eternidade. Enquanto o homem está
limitado pelo espaço, tempo e circunstâncias, tais limitações não existem em
Deus, que é eterno, infinito e autoexistente. As Escrituras falam de
acontecimentos no tempo como revelações de um propósito que foi determinado por
Deus na eternidade:
a)
Efésios 3:9: “e manifestar qual seja a dispensação do mistério, desde os séculos,
oculto em Deus, que criou todas as
coisas”,
b) Efésios 3:11: “segundo o eterno propósito que
estabeleceu em Cristo Jesus, nosso Senhor...”
c) 2Timóteo 1:9: “que nos salvou e nos chamou com santa
vocação; não segundo as nossas obras, mas conforme a sua própria determinação e graça que nos foi dada em Cristo Jesus, antes dos tempos eternos...”.
d) 1Pedro 1:20-21: “conhecido,
com efeito, antes da fundação do mundo, porém manifestado no fim dos tempos, por amor de vós que, por meio
dele, tendes fé em Deus, o qual o ressuscitou dentre os mortos e lhe deu
glória, de sorte que a vossa fé e esperança estejam em Deus”.
e)
Atos 2:23: “sendo este entregue pelo determinado desígnio e
presciência de Deus, vós o
matastes, crucificando-o por mãos de iníquos”.
Toda mudança de propósito
reflete ou falta de sabedoria ou falta de poder. Isto comprova a imperfeição e
a limitação do ser que assim procede. Como Deus é infinito em sabedoria e
poder, isto é, ele é onisciente e onipotente, então não pode haver em relação a
ele emergências imprevistas nem meios inadequados. As Escrituras declaram a
imutabilidade de Deus em todos os aspectos:
a)
Tiago 1:17: “Toda boa dádiva e todo dom
perfeito são lá do alto, descendo do Pai das luzes, em quem não pode existir
variação ou sombra de mudança”.
b)
Salmos 33:11: “O conselho do SENHOR dura para
sempre; os desígnios do seu coração, por todas as gerações”.
c)
Isaías 14:24: “Jurou o SENHOR dos Exércitos,
dizendo: Como pensei, assim sucederá, e, como determinei, assim se efetuará”.
d)
Is 46.9-10: “Lembrai-vos das coisas passadas
da antiguidade: que eu sou Deus, e não há outro, eu sou Deus, e não há outro
semelhante a mim; que desde o princípio anuncio o que há de acontecer e desde a
antiguidade, as coisas que ainda não sucederam; que digo: o meu conselho
permanecerá de pé, farei toda a minha vontade”.
4.3.
Os decretos de Deus são
eficazes
A eficácia dos decretos de Deus consiste, pois, na garantia de que eles
produzirão os resultados que Deus pretende obter. Em outras palavras, os
decretos divinos garantem o êxito de todo empreendimento divino. Todas as
ocorrências, tanto as determinadas como as permitidas por Deus, contribuem para
que o eterno propósito de Deus seja cumprido. Algumas coisas Deus se propõe a
fazer; outras, ele permite que sejam feitas. Ele efetua o bem; ele permite o
mal. Ele é o autor de um, mas não do outro. Uma das maiores garantias da
infalibilidade dos decretos divinos são o fato de que as ações livres do homem
cumprem inevitavelmente o propósito eterno de Deus. Vejamos algumas passagens:
a)
Atos 2:23: “sendo este entregue pelo
determinado desígnio e presciência de Deus, vós o matastes, crucificando-o por
mãos de iníquo”.
b)
Atos 4:27-28: “porque verdadeiramente se
ajuntaram nesta cidade contra o teu santo Servo Jesus, ao qual ungiste, Herodes
e Pôncio Pilatos, com gentios e gente de Israel, para fazerem tudo o que a tua
mão e o teu propósito predeterminaram”.
c)
Lucas 22:22: “Porque o Filho do Homem, na
verdade, vai segundo o que está determinado, mas ai daquele por intermédio de
quem ele está sendo traído!”
d)
Apocalipse 17:17: “Porque em seu coração incutiu
Deus que realizem o seu pensamento, o executem à uma e deem à besta o reino que
possuem, até que se cumpram as palavras de Deus”.
A passagem bíblica de Lc 22.22 parece significar que a traição de Jesus
era algo já contemplado no decreto divino. Para a consecução dos seus
desígnios, Deus conta com a livre agência humana. Judas Iscariotes foi o
sujeito da traição, portanto o ato foi de sua inteira responsabilidade, mesmo
tendo ocorrido segundo a “presciência de Deus” (At 2.23).
A presciência é o escopo da onisciência divina em relação ao tempo e
circunstâncias. Tudo que há de ser e vir no futuro, oriundo da livre agência
humana, é conhecido por Deus que de antemão decidiu permitir que aconteça. A
responsabilidade por cada ato humano sempre será atribuída ao sujeito da ação.
A palavra de Deus, em Tiago 1.13, declara com muita clareza e precisão que “Ninguém, ao ser tentado, diga: Sou tentado
por Deus; porque Deus não pode ser tentado pelo mal e ele mesmo a ninguém
tenta”. Tal declaração nos leva às seguintes conclusões:
a)
Nenhuma tentação (provação) que o homem sofre é um ato de autoria
divina. Deus jamais foi, nem será o sujeito da tentação; ele apenas a permite,
porque assim o tem decretado.
b)
Deus jamais poderá ser influenciado pelo mal para praticá-lo. Males
poderão sobrevir ao homem como um recurso utilizado por Deus para disciplina.
Tais atos não consistem na essência do mal (ação intencional maligna), mas em
ações corretivas divinas como punição justa do homem pelo pecado que afronta a
Deus.
c)
Os atos do juízo divino sobre o homem não podem ser designados como mal,
mas como atos de justiça (justiça retributiva) realizados por quem é Soberano,
Legislador e Juiz do Universo (Is 45.5-7).
5.
Os termos bíblicos usados
a)
boulh = conselho, desígnio,
propósito. Denota a ideia de uma deliberação, tendo em vista uma intenção (At
4.28; Ef 1.11).
b)
eudokia = boa vontade,
beneplácito. Expressa o deleite que Deus tem em realizar seus amorosos
desígnios (Ef 1.5; Fp 2.13).
c)
qelema = vontade, determinação
explícita do querer para deliberação pessoal (At 13.22; 1Ts 4.3; Ap 4.11).
d)
proqesiV = propósito, intenção que
indica uma resolução tomada de antemão (At 11.23; Rm 8.28; Rm 9.11; Ef 1.11; Ef
3.11; 2Tm 1.9). Este propósito reflete o desígnio ou predeterminação de Deus
como sendo uma decisão livre segundo a sua vontade soberana.
e)
prognwsiV = preconhecimento ou
presciência e antemão são derivados de ginwskw (saber, conhecer) que sempre tem na Bíblia,
com referência a Deus, um sentido afetivo, íntimo, entranhável (Mt 1.25;
25.12). Portanto, a presciência de Deus consiste num conhecer de antemão, de
forma exaustiva e intrínseca, todas as coisas e todos os seres incluindo tudo
que a eles e por meio deles haverá de acontecer. Exemplos: At 2.23; 1Pe 1.20;
1Pe 1.2; Rm 8.29; Rm 11.2.
f)
proorizw = traduzido como
predestinar ou predeterminar. Literalmente, o sentido etimológico é marcar antecipadamente os limites, ou
ainda, fixar prévio limite. Em Rm
8.29, o termo denota explicitamente a ideia de que Deus, por ter previamente
conhecido os “que são chamados segundo o seu propósito” (v. 28), se antecipa em
decidir que eles haveriam de chegar a ser “conforme a imagem do seu Filho” (v.
29). As outras passagens onde este verbo aparece são At 4.28; 1Co 2.7; Ef 1.5,
11.
g)
proetoimazw = preparar de antemão (Rm
9.23; Ef 2.10).
h)
eklegomai = com o sentido de
"eleger", "escolher", foi usada por Jesus com referência à
escolha de seus discípulos (Lc 6.13; Jo 6.70). Foi utilizada, em Atos 13.17
para designar a eleição de Israel e, em Atos 15.7, 22, em relação à escolha de
homens para uma missão específica.
i)
eklogh – significa eleição. Em At
9.15, designa uma eleição para o exercício da missão apostólica. Nos demais
casos, significa a escolha, por parte de Deus, de seu próprio povo para a
salvação (Rm 9.11; Rm 11.5, 28; 17.14; 2Pe 1.10).
6.
Considerações sobre os
decretos de Deus
Vejamos algumas considerações sobre os decretos de
Deus:
a)
Todos estes termos, especialmente prothsiV, nos levam à ideia de que existe desde a eternidade, uma livre e
soberana decisão divina, em virtude da qual Deus determinou tudo o que há de
acontecer no percurso da história do universo e da salvação.
b)
Sendo o decreto de Deus o fruto de uma decisão tomada, precede-lhe o
conhecimento de todas as coisas e, como Deus as vê antecipadamente na
eternidade, tem decidido a permitir, segundo sua vontade, o que ele julga
necessário que aconteça. Tenha-se em conta que o decreto de realizar algo não
há de confundir-se com a realização. Assim, a decisão divina de justificar uma
pessoa não tem de ser confundida com o próprio ato de justificá-la, pois isto
depende dos critérios que ele mesmo definiu previamente.
c)
Como nenhum atributo divino pode operar separadamente dos outros ou em
contradição, mas todos são levados em conta nas ações de Deus e todos operam
conjuntamente em harmonia, o propósito divino há de ser eterno, eficaz,
absoluto, universal e imutável, mas há de ser também sábio, amoroso,
misericordioso, etc. Todos os caminhos de Deus são santos e justos.
d)
O único mal verdadeiro, que é o pecado, não é desejado, mas tolerado por
Deus. Isto estava previsto por Deus ao dotar o homem de livre-arbítrio, mas,
nem por isso, os seres humanos, que são passíveis de erro, jamais poderiam
impedir que Deus continuasse levando sempre as rédeas da História.
6.1.
As declarações bíblicas
sobre os decretos de Deus
1) Que nada escapa ao decreto
de Deus.
Isto inclui a permanência e a estabilidade do universo físico. Deus
criou o mundo e o pôs a funcionar de acordo com leis que ele mesmo sustenta e o
está governando (Jr 33.25) para atingir os objetivos que ele estabeleceu em
seus decretos, desde a eternidade – “A tua fidelidade estende-se de geração
em geração; fundaste a terra, e ela permanece. Conforme os teus juízos, assim
tudo se mantém até hoje; porque ao teu dispor estão todas as coisas” (Sl
119.90-91). Nada ocorre por acaso, nem inesperado.
Absolutamente tudo no
universo físico e espiritual está sob o controle de Deus e ocorre para o
cumprimento de seus eternos desígnios: (a) "Meu conselho permanecerá de
pé, farei toda a minha vontade" (Is. 46:10); (b) "Todos os moradores
da terra serão por ele reputados em nada; e, segundo a sua vontade, ele opera
no exército do céu e nos moradores da terra; não há quem lhe possa deter a mão,
nem lhe dizer: Que fazes?" (Dn. 4:35); (c) "Nele, digo, no qual fomos
também feitos herança, predestinados segundo o propósito daquele que faz todas
as coisas, conforme o conselho de sua vontade" (Ef. 1:11).
Sobre este tema, Robert D.
Culver se expressa da seguinte forma:
O decreto certo e
estabelecido de Deus é uma questão tão certa que a Bíblia compara a certeza das
promessas de Deus para o seu povo à regularidade certa e à permanência dos
caminhos de Deus na natureza. O plano gracioso e invisível de Deus na redenção
é paralelo às suas obras inescapavelmente aparentes na natureza. Os dois
paradigmas são visivelmente expostos em Jeremias 31.35-37: “Assim diz o Senhor,
aquele que designou o sol para brilhar de dia, que decretou que a lua e as
estrelas brilhem de noite, que agita o mas para que as suas ondas rujam; o seu
nome é o Senhor dos Exércitos: ‘Somente se esses decretos desaparecerem de
diante de mim’, declara o SENHOR, ‘deixarão os descendentes de Israel de ser
uma nação diante de mim para sempre’. Assim diz o SENHOR: ‘Se os céus em cima
puderem ser medidos, e os alicerces da terra embaixo puderem ser sondados, então
eu rejeitarei os descendentes de Israel, por tudo o que eles têm feito’, dia o
SENHOR”.[69]
No plano divino estão contemplados os limites, governos, recursos,
história e condição para todas as nações, que foram estabelecidos pelo Criador.
De acordo com as Escrituras, Deus concede a cada nação seu território. Assim
ocorreu com os horeus e edomitas (Dt 2.12). No seu último discurso, Moisés
declarou: “Quando o Altíssimo distribuía as heranças às nações, quando
separava os filhos dos homens uns dos outros, fixou os limites dos povos,
segundo o número dos filhos de Israel” (Dt 32.8).
Da mesma forma, o apóstolo Paulo afirmou explicitamente: “O Deus que
fez o mundo e tudo o que nele existe, sendo ele Senhor do céu e da terra, [...]
de um só fez toda a raça humana para habitar sobre toda a face da terra,
havendo fixado os tempos previamente estabelecidos e os limites da sua
habitação” (At 17.24-26).
Isto inclui o tempo de existência, ou seja, a duração precisa da vida de
cada ser humano, que Deus preordenou. Jó expressa tal concepção de forma muito
clara ao declarar que “Visto que os seus dias estão contados, contigo está o
número dos seus meses; tu ao homem puseste limites além dos quais não passará” (Jó
14.5). Da mesma forma, expressou o rei Davi: “Os teus olhos me viram
a substância ainda informe, e no teu livro foram escritos todos os meus dias,
cada um deles escrito e determinado, quando nem um deles havia ainda” (Sl
139.16).
2) Que cada circunstância,
incluída a maldade dos homens, é contemplada pelo decreto de Deus.
O plano de Deus inclui as circunstâncias em que vivemos. Isto não
significa que nossos atos foram preordenados por Deus, mas que a vontade
permissiva divina define o que pode ocorrer e o que deve ser impedido que
ocorra. O salmista declara: “O SENHOR frustra os desígnios das nações e
anula os intentos dos povos. O conselho do SENHOR dura para sempre; os
desígnios do seu coração, por todas as gerações. [...]. O SENHOR olha dos
céus; vê todos os filhos dos homens; do lugar de sua morada, observa todos os
moradores da terra, ele, que forma o coração de todos eles, que contempla
todas as suas obras [...].
Eis que os olhos do SENHOR estão sobre os que o temem, sobre os que esperam na
sua misericórdia, para livrar-lhes a alma da morte, e, no tempo da fome,
conservar-lhes a vida” (Sl 33.6-19).
Embora difícil de aceitar, as múltiplas situações da vida humana são
monitoradas por Deus, no curso da providência. Ele, “O SENHOR é o que tira a
vida e a dá; faz descer à sepultura e faz subir. O SENHOR empobrece e
enriquece; abaixa e também exalta” (1Sm 2.6-7). Paulo faz referência a
situações de vida de escravos (1Co 7.20-24), pessoa não casadas e divorciados
(1Co 7.24-31).
No que tange às ações humanas na execução do mal, as Escrituras
declaram:
a)
"Vós, na verdade,
intentaste o mal contra mim, mas Deus o tornou em bem, para fazer, como vedes
agora, que se conserve muita gente em vida" (Gn. 50:20).
b)
"O rei, pois, não deu
ouvidos ao povo porque este acontecimento vinha do Senhor para confirmar a
palavra que o Senhor tinha dito por intermédio de Aias, o silonita, a Jeroboão,
filho de Nebate" (2Rs 12:15).
c)
“Sendo este entregue pelo
determinado desígnio e presciência de Deus, vós o matastes, crucificando-o por
mãos de iníquos” (At 2.13).
d)
“Porque verdadeiramente se
ajuntaram nesta cidade contra o teu santo Servo Jesus, ao qual ungistes,
Herodes e Pôncio Pilatos, com gente de Israel, para fazerem tudo o que tua mão
e o teu propósito predeterminaram” (At 4.27-28).
Digno de destaque é a passagem de Atos
3.17-18, na qual Pedro, no segundo sermão que ele proferiu em Jerusalém,
dirigindo –se à multidão de judeus que exigira que Jesus fosse crucificado,
afirmou: “E agora, irmãos, eu sei que o fizestes por
ignorância, como também as vossas autoridades; mas Deus, assim, cumpriu o que
dantes anunciara por boca de todos os profetas: que o seu Cristo havia de
padecer”.
3) Que tudo converge, no plano
divino, para a salvação dos eleitos e a glória do amor salvífico de Deus.
Precisamos entender um fato irrefutável: embora os decretos divinos
sejam diferentes – uns causativos, outros permissivos e justos –
tanto o julgamento do impenitente como a salvação dos crentes piedosos, estão
contemplados no plano de Deus. Vejamos algumas passagens da Escritura:
a)
"Sabemos que todas as
coisas concorrem para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados
segundo o seu propósito" (Rm. 8:28).
b)
"Pois somos feitura
dele, criados em Cristo Jesus para boas obras, as quais Deus de antemão
preparou para que andássemos nelas" (Ef. 2:10).
c)
"Porque Deus é quem
efetua em vós tanto o querer como o realizar, segundo a sua boa vontade" (Fp. 2:13).
d)
“Mas falamos a sabedoria de
Deus em mistério, outrora oculta, a qual Deus preordenou desde a eternidade
para a nossa glória” (1Co 2.7).
e)
“Para que, pela igreja, a
multiforme sabedoria de Deus se torne conhecida, agora, dos principados e
potestades, nos lugares celestiais, segundo o seu eterno propósito que
estabeleceu em Cristo Jesus, nosso Senhor” (Ef 3.10-11).
Todas as passagens bíblicas, aqui mencionadas, nos mostram claramente
que existe um desígnio eterno (proqesiV) de Deus pelo qual tudo que há de suceder
foi predeterminado. Isto nos leva a concluir que, se a presciência divina não fosse precedida logicamente por um decreto
de sua vontade, o saber divino iria atrás dos acontecimentos e, assim, Deus não
teria o controle da história e o homem poderia mudar o curso da Providência.
4) Todo o plano salvífico (eleição, predestinação, etc.) se faz
"segundo o beneplácito de sua vontade, para o louvor da glória de sua
graça" (Ef. 1:5-6; Sl. 2:7-8; Jo. 21:19; Ef. 3:10-11).
Os atos humanos não são imprevisíveis para Deus. Nenhuma ação humana
constitui-se em algo inesperado para Deus; pelo contrário, Deus, em sua
presciência, contempla na eternidade tudo que o homem fará e já tem preparado
de antemão todas as providências necessárias para que o efeito de tudo que o
homem fizer culmine na concretização de seus desígnios. Deus está à espera dos
atos humanos já por ele conhecidos para agir eficazmente, intervindo na
história com o objetivo de realizar seus desígnios e sua soberana vontade.
6.2.
Objeções mais correntes
1) Vai contra a liberdade do homem, pois se o decreto de Deus se cumpre
necessariamente, o homem é reduzido ao papel de um robô.
Resposta: Sendo firme o decreto de Deus, é necessário que se cumpra. Mas isto
não significa que seu cumprimento se imponha como coação de Deus sobre o homem.
O arbítrio do homem se rege por leis psicológicas que Deus estabeleceu. Os atos
humanos são livres e de inteira responsabilidade humana. Mas Deus, em sua
soberania, quando determina que algo suceda, pode operar desde a própria raiz
da liberdade humana, movendo eficazmente o homem a decidir-se e agir
voluntariamente. Exemplos: Js 11.20; 1Rs 12.15; 2Cr 22.7.
2) Conduz ao fatalismo, pois se "está escrito", como vulgarmente
se diz, não se pode mudar nosso destino.
Resposta: Os decretos de Deus não
excluem, pelo contrário, incluem o que achamos que é de nossa parte fazer,
posto que, no que nos concerne, o decreto divino tem em conta, não só o
"fim" que Deus persegue, mas também os "meios" para
obtê-lo. Nos meios para obtê-lo é que Deus conta com nossa cooperação. O que
Deus tem "preparado de antemão" – nossas boas obras – "para que
andássemos nelas" (Ef. 2:10) não nos exime do direito e da
responsabilidade de decidirmos andar nelas. Nem tampouco o fato de que
"Deus efetua em nós tanto o querer como o realizar" (Fp. 2:13) nos
exime da responsabilidade de "desenvolver a nossa salvação com temor e
tremor" (Fp. 2:12).
3) Faz de Deus o autor do pecado, quando a Bíblia diz que isso é impossível
(Sl. 92:15; Ec. 7:29; Tg. 1:13; 1Jo 1:15).
Resposta: Deus seria autor do
pecado se ele decretasse realizar o pecado do homem, mas não por fazer um homem
que, infringindo voluntariamente a Lei de Deus, comete pecado. É certo que o
decreto de Deus tem em conta a defectibilidade do homem e a acopla ao seu
plano, mas reprova suas ações abomináveis, mesmo não as impedindo
violentamente, pois se assim agisse, o homem teria sua liberdade cassada. Como
disse Santo Agostinho, Deus mostra sua sabedoria e seu poder "não impedindo
que haja males, mas sabendo aproveitar-se desses males para, por meio deles,
conseguir o bem". [70]
6.3.
Distintas concepções
Calvinistas
e arminianos concordam que as ações humanas estão incluídas no plano de Deus,
mas discordam sobre a causa e a consequência. Segundo os calvinistas, o decreto
divino é logicamente anterior e as decisões e ações humanas são consequência
dele. Com respeito à aceitação ou rejeição da salvação, Deus decidiu que alguns
deverão crer e, assim, receberão a vida eterna. Deus só prevê o que vai
acontecer porque decidiu o que deve acontecer. Isto vale para todas as decisões
e ações humanas. Deus não depende do que os seres humanos decidem. A decisão de
Deus garantiu que cada indivíduo agirá de determinada maneira.
O
arminianismo dá ênfase à liberdade humana. Deus permite e espera que os seres
humanos exerçam o poder que receberam de decidir conforme a vontade individual.
Esta é a razão de existirem na Bíblia convites para que escolhas sejam feitas.
Exemplos: “se alguém que vir após mim” (Mt 16.24; Mc 8.34; Lc 9.23); “Vinde
após mim, todos os que estais cansados e sobrecarregados...” (Mt 11.28).
Tais convites implicam que o ouvinte tem a possibilidade genuína de aceitá-los
ou rejeitá-los. Mas, aparentemente, isso entra em contradição com a posição de
que as decisões de Deus tornaram o futuro certo. Se assim for, não há razões
para convites aos seres humanos, pois as decisões de Deus quanto ao futuro
aconteceriam independentemente do que eles fizessem. Com base em Rm 8.29 - “Pois
aos que de antemão conheceu, também os predestinou...”, os arminianos
concluem que a escolha ou a determinação de Deus quanto ao destino de cada
indivíduo é resultado de sua presciência. Uma afirmação deste tipo pode ser
feita com respeito a todas as ações humanas e a todos os outros aspectos da
vida quanto a esse assunto.
Os arminianos acreditam que
Deus sabe o que nós faremos; por isso, ele deseja aquilo que prevê que
acontecerá. Deve-se levar em conta que as ações humanas e seus efeitos não são
resultado da decisão de Deus. Os atos humanos, logicamente, são anteriores e,
com base nisso, o conceito da liberdade humana é preservado. Cada indivíduo tem
opções genuínas. Os seres humanos garantem a ocorrência de suas ações; Deus
simplesmente consente. Na visão arminiana, o plano de Deus é condicional;
na visão calvinista, o plano de Deus é incondicional.
7.
A soberania de Deus
Indiscutivelmente, todo teólogo e todo leigo, sejam eles judeus ou
cristãos, concordam unanimemente em um ponto: Deus é soberano sobre tudo e
todos. A soberania de Deus consiste no exercício de sua suprema e absoluta
autoridade sobre o universo por direito de criação, direito de preservação e
direito de redenção. Portanto, a soberania de Deus consiste no exercício de sua
plena autoridade, por meio da qual ele domina com pleno poder céus e terra,
governando a criação e realizando todas as coisas de forma eficaz conforme o
conselho de sua vontade, para cumprimento dos seus eternos desígnios. Para
descrever a soberania de Deus, as Escrituras revelam o seguinte:
a)
Todas as coisas criadas nos céus e na terra pertencem a Deus (Sl 24.1;
1Co 10.26).
b)
Deus tem nas mãos o controle de nossa existência (Dt 32.39; 1Sm 2.6-7;
Sl 104.24-30).
c)
Deus é o Supremo Legislador e Juiz do universo (Ec 12.13-14; Is 24.21;
Sl 96.10-13; Ap 20.11-13).
d)
Deus é o Senhor dos reinos da terra. Toda autoridade na terra foi
instituída por Deus e é exercida em seu nome. Ele age como soberano dos reis da
terra (Dn 2.37; Dn 2.47; Dn 2.20-21; Dn 4.17, 34-35; Jo 19.10-11; Rm 13.1-2; Ap
19.16).
e)
Deus usa reis e governantes como instrumento dos seus juízos e meio de
alcançar os seus propósitos (Is 45.1; Jr 21.7).
f)
Seu poder não tem limites e nada pode impedir os atos de Deus, nem
frustrar sua vontade (Jó 42.1; Is 14.27; Is 43.13).
g)
Deus tem o controle de todos os atos humanos (Sl 33.1-15; Jr 32.19).
h)
Anjos e demônios estão sob o completo domínio de Deus. Eles recebem
ordens expressas de Deus e obedecem (1Rs 22.19-23; Jó 1.6-12).
i)
Os demônios agem com a permissão e os limites estabelecidos por Deus (Jó
1.12; 2.6; Lc 22.31-32).
Destacamos algumas passagens para apreciação:
a)
Deuteronômio 32:39: "Vede, agora, que Eu Sou, Eu somente, e mais nenhum deus além de
mim; eu mato e eu faço viver; eu firo e eu saro; e não há quem possa livrar alguém
da minha mão".
b)
2Crônicas 20:6: "e disse: Ah! SENHOR, Deus de nossos pais, porventura, não és tu
Deus nos céus? Não és tu que dominas sobre todos os reinos dos povos? Na tua
mão, está a força e o poder, e não há quem te possa resistir".
c)
1Crônicas 29:11: "Teu, SENHOR, é o poder, a grandeza, a honra, a vitória e a
majestade; porque teu é tudo quanto há nos céus e na terra; teu, SENHOR, é o
reino, e tu te exaltaste por chefe sobre todos".
d)
Isaías 43:13: "Ainda antes que houvesse dia, eu era; e nenhum há que possa
livrar alguém das minhas mãos; agindo eu, quem o impedirá?"
e)
Daniel 2:20-22: “Disse Daniel: Seja bendito o nome de Deus, de eternidade a eternidade,
porque dele é a sabedoria e o poder; é ele quem muda o tempo e as estações,
remove reis e estabelece reis; ele dá sabedoria aos sábios e entendimento aos
inteligentes. Ele revela o profundo e o escondido; conhece o que está em
trevas, e com ele mora a luz”.
f)
Jó 12:23: "Multiplica as nações e as faz perecer; dispersa-as e de novo as
congrega".
g)
Jeremias 18:7-8: "No momento em que eu falar acerca de uma nação ou de um reino
para o arrancar, derribar e destruir, se a tal nação se converter da maldade
contra a qual eu falei, também eu me arrependerei do mal que pensava
fazer-lhe".
Embora Deus seja soberano, jamais age com arbitrariedade. Em nenhum
momento, nas Escrituras, Deus é descrito como um tirano que viola a livre
agência humana; que age com abuso de autoridade. Por toda a Bíblia, Deus
aparece como um ser misericordioso e justo. A livre agência é uma concessão
divina para garantia da responsabilidade humana sobre os atos de cada pessoa.
8.
A liberdade humana
8.1.
O livre-arbítrio
Entende-se como livre-arbítrio o atributo da livre escolha do qual Deus
dotou o homem ao criá-lo à sua imagem e semelhança. No exercício do
livre-arbítrio, os atos são fruto da deliberação consciente que a vontade
determina de forma livre de todas as imposições ou restrições. O direito
individual de decidir faz de cada ser humano o único responsável pelos seus
próprios atos. Desta forma, o pecado de Adão só foi pecado, porque Deus
atribuiu a ele culpa pelo seu ato de desobediência voluntária e deliberada. “Comeste
da árvore que te ordenei que não comesses? [...] Visto que atendeste à voz de
tua mulher, maldita é a terra POR TUA CAUSA...” (Gn 3.11-17).
O que caracteriza o livre-arbítrio é o exercício da vontade livre. Desta
forma, o bem e o mal são postos sobre a balança da decisão, para que, à luz da
razão neutra, a liberdade seja exercida pela vontade na definição de cada ação
moral. Somente antes da queda a vontade humana foi realmente livre. A queda fez
do homem um “escravo do pecado” (Jo 8.34; Rm 3.10-11). Por esta razão, a
vontade do homem não é mais livre, até que Cristo o liberte (Jo 8.35).
A natureza humana é má,
pois, como disse Jesus, “ninguém é bom, senão um, que é Deus” (Mc 10.18; Lc
18.19). Neste sentido, todo ser humano está subjugado pelas inclinações de sua
natureza corrompida e, portanto, jamais pode produzir o fruto da justiça. A
razão humana está subjugada pelas paixões, portanto, após a queda, a vontade
não é mais livre para a realização do bem. Este é o veredicto divino: “Não há um justo, nenhum sequer [...] todos
se extraviaram, e juntamente se fizeram inúteis. Não há quem faça o bem, não há
nem um só” (Rm 3.10-12). Assim como “não
pode a árvore boa dar maus frutos; nem a árvore má dar frutos bons” (Mt
7.18), a natureza corrompida humana está subjugada pelo pecado.
8.2.
A livre agência
Na queda, a vontade do homem não foi eliminada, mas subjugada pelas
inclinações carnais de sua natureza corrompida. Isto significa dizer que a
razão está subjugada pelas paixões. Assim sendo, “não há quem entenda, não
há quem busque a Deus” (Rm 3.11), pois “o homem natural não compreende
as coisas do Espírito de Deus... e não as podem entendê-las, porque elas se
discernem espiritualmente” (1Co 2.14).
Embora não seja mais espiritualmente livre para realizar o bem, todo ser
humano, conscientemente, pode decidir, agir ou não agir, segundo sua vontade.
Esta é a livre agência. O homem é livre apenas para fazer o que sua natureza
corrompida produz, mas ele é inapto para fazer a vontade de Deus. Por esta
razão e como prova disso, toda ação provedora de salvação tem Deus como único
sujeito:
Ele vos deu vida, estando vós mortos nos vossos
delitos e pecados, nos quais andastes outrora, segundo o curso deste mundo,
segundo o príncipe da potestade do ar, do espírito que agora atua nos filhos da
desobediência; entre os quais também todos nós andamos outrora, segundo
as inclinações da nossa carne, fazendo a vontade da carne e dos pensamentos; e
éramos, por natureza, filhos da ira, como também os demais. Mas Deus, sendo
rico em misericórdia, por causa do grande amor com que nos amou, e estando nós
mortos em nossos delitos, nos deu vida juntamente com Cristo, —pela graça sois
salvos, e, juntamente com ele, nos ressuscitou, e nos fez assentar nos lugares
celestiais em Cristo Jesus; para mostrar, nos séculos vindouros, a suprema
riqueza da sua graça, em bondade para conosco, em Cristo Jesus. Porque pela
graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus; não de
obras, para que ninguém se glorie (Ef 2.1-9).
Em seu estado de inocência, o homem tinha liberdade e aptidão para
querer e fazer o que era bom e agradável a Deus. A queda fez o homem perder
inteiramente a capacidade de desejar o bem espiritual. Portanto, em seu estado
natural atual, o ser humano, morto em pecado, não é capaz, por sua própria
força, de prover sua própria salvação. Uma vez que o arrependimento é uma
atitude que resulta da deliberação humana, não um sentimento ou estado de
espírito, não há homem que, por iniciativa própria, busque a Deus, “não há
nem um só” (Rm 3.12), pois a condição de morte espiritual e escravidão da
vontade não o permitem fazer isso.
O mal no mundo está sob o
controle divino. Somente Deus restringe ou permite o mal, segundo sua vontade
soberana (Sl 33.10-11). O exemplo mais claro desta realidade foi o assassinato
de Abel como um ato deliberado de Caim sem a restrição divina.
Interrogando Caim a respeito de suas intenções, Deus o advertiu da
responsabilidade que teria pelo que pretendia fazer, nos seguintes termos: “Se procederes bem, não é certo que serás
aceito? Se, todavia, procederes mal, eis que o pecado jaz à porta; o seu desejo
será contra ti, MAS A TI CUMPRE DOMINÁ-LO” (Gn 4.7). Caim tinha consciência
do certo e do errado, pois Deus pessoalmente o conscientizou e o
responsabilizou de antemão pela ação a ser realizada como fruto de uma deliberação
consciente.
No tocante às condições de bênção ou maldição, vida ou morte (Dt
30.15-19), Deus habilitou espiritualmente os seus eleitos, aqueles a quem se
revelou em particular, a decidir livremente entre a obediência para a bênção ou
desobediência para juízo. Neste contexto, as maldições da lei consistem nas
sanções promulgadas pelo Soberano Legislador como medidas corretivas para
disciplina do seu povo, visando corrigir as distorções de conduta no seu
relacionamento com Deus e com o próximo.
Digna de nota é a passagem bíblica encontrada em Ez 18.30-32: “Portanto, eu vos julgarei, a cada um
segundo os seus caminhos, ó casa de Israel, diz o SENHOR Deus. Convertei-vos e
desviai-vos de todas as vossas transgressões; e a iniquidade não vos servirá de
tropeço. Lançai de vós todas as vossas transgressões com que transgredistes e
criai em vós coração novo e espírito novo; pois, por que morreríeis, ó casa de
Israel? Porque não tenho prazer na morte de ninguém, diz o SENHOR Deus.
Portanto, convertei-vos e vivei”.
Isto não consiste numa promessa de salvação (vida eterna) ou condenação (morte
eterna), como recompensas do mérito humano. Eleição e reprovação são prerrogativas
da competência exclusiva de nosso Deus Soberano, não uma conquista do esforço
e/ou mérito humano.
8.3.
A responsabilidade humana
Sobre a responsabilidade humana, as Sagradas Escrituras revelam o
seguinte:
1) Deus está isento de
qualquer responsabilidade pelo pecado humano, pois cada ato pecaminoso é
resultado único e exclusivo da vontade e decisão humanas. Todo ato pecaminoso
humano resulta de um processo de deliberação interior (Tg 1.12-15).
2) No caso dos eleitos, Deus
não permite que a tentação se estenda além do limite da capacidade individual
de suportá-la, para que o crente não seja isento da responsabilidade do seu
pecado, se vier a cometê-lo (1Co 10.13).
3) O homem é resistente a
Deus; e essa resistência é uma expressão da vontade e consciência que o torna
culpável perante Deus e digno do juízo divino. Eis o que diz Isaías a respeito
da rebeldia persistente do povo escolhido de Deus:
a) Is 1.2 – Ouvi, ó céus, e dá ouvidos, ó terra, porque o SENHOR é quem fala: Criei
filhos e os engrandeci, mas eles estão
revoltados contra mim”.
b) Is 65:2 – Estendi as mãos todo dia a um
povo rebelde, que anda por caminho que não é bom, seguindo os seus próprios pensamentos;
c) Is 63:8-10 – Porque ele dizia: Certamente, eles são meu povo, filhos que não
mentirão; e se lhes tornou o seu Salvador. Em toda a angústia deles, foi ele
angustiado, e o Anjo da sua presença os salvou; pelo seu amor e pela sua
compaixão, ele os remiu, os tomou e os conduziu todos os dias da antiguidade. Mas eles foram rebeldes e contristaram o
seu Espírito Santo, pelo que se lhes
tornou em inimigo e ele mesmo pelejou contra eles.
4) Mesmo depois de ter
conhecido a verdade divina, o homem pode deliberar livremente por viver no
pecado. Eis o que diz a Epístola aos Hebreus: “Porque, se vivermos deliberadamente
em pecado, depois de termos recebido o pleno conhecimento da verdade, já
não resta sacrifício pelos pecados; pelo contrário, certa expectação horrível
de juízo e fogo vingador prestes a consumir os adversários” (Hb 10.26-27).
O Comentário Bíblico Shedd,
em referência à perícope de Hb 10.26-29, depõe: “Deliberadamente. Cf. Nm
15.30. Para o pecado atrevido no AT não havia meio de conseguir o
perdão. Uma situação muito mais séria que Gl 6.1 está aqui em vista. É evidente
a apostasia (cf. 3.12; 6.4-8; 12.25). Calcou aos pés o Filho de Deus significa
desprezo total (cf. Zc 12.3). Conhecimento da verdade. Cf. 1Tm 2.4; 2Tm
2.25; 3.7; Tt 1.1 e Jo 8.32”.
Uma vez que o contexto
revela tratar-se de crentes judeus confessos, que foram iluminados pelo
evangelho (cf Hb 6.4; Jo 1.9), e haviam suportado uma grande provação e
sofrimentos (Hb 10.32-33), não deve ser entendido que tal apostasia signifique
o abandono definitivo da fé, uma renúncia à aliança eterna, mas de uma atitude
pecaminosa consciente e deliberada, oriunda de um processo de declínio
espiritual progressivo, resultante da negligência e frouxidão que torna o
crente vulnerável (Hb 12.10) pela falta de vigilância espiritual (Hb 12.15).
Isto ocorreu, muitas vezes, na história de Israel, o povo eleito de Deus. Tal
atitude denota o que Paulo escreveu aos tessalonicenses – “Não apagueis o
Espírito. Não desprezeis as profecias” (1Ts 5.19-20). Caso uma pessoa adote
tal comportamento, o de viver deliberadamente em pecado, a consequência
resulta, inevitavelmente, na aplicação da severa disciplina divina (Hb
12.7-13).
[1] HODGE, Teologia sistemática, 2001, p. 8.
[2] HODGE, op. cit. p.10.
[3] HODGE, op. cit. p.10.
[4]
Fonte do conteúdo: PROENÇA, Eduardo de. Dogmática: doutrina cristã de
Deus, vol. 1. São Paulo: Novo Século, 2004, pp. 15-37.
[5]
PROENÇA, Eduardo de. Ibidem, pp. 15-37.
[6]
STURZ, Richard J. Teologia Sistemática.
São Paulo: Vida Nova, 2012, p. 31.
[7] STURZ, Richard J. Ibdem, p. 32.
[8] STURZ, Richard J. Ibdem, p. 32.
[9] HODGE, Charles. Op. cit. p. 148.
[10] ELWELL, W. A. Enciclopédia histórico-teológica da igreja
cristã. Vol. 1, 1993, p.
403.
[11] ELWELL, W. A. op. cit. Vol. 3, p.
438.
[12] BERKHOF, Louis. Teologia sistemática, 1996, p. 25.
[13] FRANCISCO LACUEVA. Curso de formación teológica evangélica.
Vol. 2. pp. 22, 24.
[14] CHARLES HODGE op. cit. p. 153.
[15] FRANCISCO LACUEVA. Curso de formacion teológica evangélica.
Vol. 2. p. 33.
[16] FRANCISCO LACUEVA. op. cit. p.
33.
[17] BERKHOF, L. op. cit. p. 28.
[18] FRANCISCO LACUEVA. op. cit.
[19] HODGE, Charles. op. cit. p. 162.
[20] HODGE. Ibdem, p. 170.
[21] BARTH, Karl. Conceito dialético de revelação. Artigo
publicado por Júlio Andrade Ferreira em Antologia Teológica, São Paulo: Fonde
Editorial, 2005, p. 60.
[22] LACUEVA, Francisco. Curso de formacion teológica evangélica.
Tomo II, p. 37.
[23] FRANCISCO LACUEVA. op. cit. p. 13.
[24] HODGE, op. cit. p. 253.
[25] HODGE, op. cit. p. 253.
[26] HODGE, op. cit. p. 254.
[27] Transcrito da obra de CHAMPLIN,
R. N. Enciclopédia de bíblica, teologia e
filosofia. Vol. 5. pp. 701
a 702.
[28] CHAFER, op. cit. p. 161.
[29] HODGE, op. cit. pp. 31 e 32.
[30] FRANCISCO LACUEVA, op. cit. p.
17.
[31] BERKHOF, op. cit. p. 30.
[32] CHAMPLIN, R. N. op. cit. pp. 703 e
704.
[33] THIESSEN, Henry C. Palestras em teologia sistemática, 1997,
p. 10.
[34] ECRICKSON, Millard. Introdução à teologia sistemática, 1997,
p. 41.
[35] HODGE, C. op. cit. pp. 28 a 30.
[36] Transcrito da obra de CHAFER,
L. S. Teologia sistemática, vol 1 e
2, pp. 97 e 98.
[37] ERICSON, Millard. op. cit., p. 44.
[38] HODGE, C. op. cit. p.278.
[39] BERKHOF, L. op. cit. p. 86.
[40] L. S. CHAFER. op. cit. vol. 1 e
2, p. 209.
[41] FRANCISCO LACUEVA. op. cit. 52.
[42]
Parecer da Comissão de Tradução,
Revisão e Consulta da Sociedade Bíblica do Brasil.
[43] O conteúdo deste capítulo foi
extraído da obra de Francisco Lacueva CURSO DE FORMACIÓN TEOLÓGICA EVANGÉLICA,
Tomo II, Um Dios Em Tres Personas.
Algumas alterações foram feitas com a inserção de conteúdo de outras fontes
citadas nas notas de rodapé.
[44] L. S. CHAFER. Teologia sistemática, vol. 1e 2, p. 213.
[45] FRANCISCO LACUEVA. op. cit., p.
79).
[46] WAYNE GRUDEM. Teologia sistemática, p. 111.
[47] GRUDEM. Ibdem. p. 112.
[48] WAYNE GRUDEM. op. cit. p. 113.
[49] FRANCISCO LACUEVA. op. cit. p.
82
[50] FRANCISCO LACUEVA. op. cit. P.
86.
[51] BERKHOF, L. op. cit. p. 69.
[52] J. S. CHAFER. op. cit. pp. 218, 219.
[53] HODGE, C. op. cit. pp. 299, 300.
[54] FRANCISCO LACUEVA. op. cit. p.
90.
[55] FRANCISCO LACUEVA. op. cit. p.
92.
[56] FRANCISCO LACUEVA. op. cit. pp.
93 a 94.
[57] FRANCISCO LACUEVA. op. cit. p.
94.
[58] FRANCISCO LACUEVA. op. cit. p.
101.
[59] ERICKSON, M. Introdução à teologia sistemática, p.
126.
[60] CHAFER, L. S. Teologia sistemática. Vol. 1e2, p. 291.
[61] CHAFER, L. S. op. cit. p. 308.
[62] FRANCISCO LACUEVA. op. cit. p.
126.
[63]
CULVER, Robert D. Teologia sistemática bíblia e histórica. São Paulo:
Shedd Publicações, 2012, p. 180.
[64] ERICKSON, Millard J. op. cit. p.
343.
[65] HODGE, C. op. cit. p. 399.
[66] HODGE, C. op. cit. p. 399.
[67] THIESSEN, H.C. op. cit. p. 96.
[68] FRANCISCO LACUEVA. op. cit. pp.
170, 171.
[69] CULVER, Robert D. op. cit. p. 196.
[70] FRANCISCO LACUEVA. Ibdem, p. 174.
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