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STBMA
– Seminário Teológico Batista do Maranhão |
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Teologia Sistemática II |
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A
soberania de Deus na criação, preservação, redenção e destino dos seres
criados |
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Jose Vidigal Queirós |
SUMÁRIO
Capítulo I – A Doutrina da Predestinação .............................................................................. 002
Capítulo II – A Doutrina da Criação ....................................................................................... 012
Capítulo III – A Providência de Deus
..................................................................................... 021
Capítulo IV – Angelologia ...................................................................................................... 032
Capítulo V – Antropologia Teológica I
.................................................................................. 038
Capítulo VI – Antropologia Teológica II
................................................................................ 045
Capítulo VII – Cristologia
....................................................................................................... 049
Capítulo VIII – Soteriologia
.................................................................................................... 068
Capítulo IX – Pneumatologia
.................................................................................................. 078
TEOLOGIA
SISTEMÁTICA II
CAPÍTULO
IX
A
DOUTRINA DA PREDESTINAÇÃO
1.
Introdução
Dentre todas as doutrinas da fé cristã, a
predestinação é a mais enigmática e a menos compreendida. Muitos a consideram
desnecessária por admitirem que ela excede a competência da mente humana de
entender o seu real significado. Uma vez que a Bíblia Sagrada a destaca como um
dos expoentes da soteriologia, todo cristão sincero há de considerá-la uma
prioridade do ensino na igreja. Para tanto, a predestinação deve ser alvo
primordial da investigação, isto é, foco do interesse de todos os que
reconhecem a necessidade do estudo, aprendizagem e ensino das verdades eternas
que compõem a substância da revelação divina.
2.
Conceito de predestinação
Deve-se considerar a preordenação
como o termo mais amplo que denota a vontade de Deus em relação a todos
os eventos que ocorrem, seja o destino das pessoas, seja a queda de um pássaro
na terra (Mt 10.29). Predestinação
é o termo que se encontra entre preordenação e eleição. A priori,
podemos conceituar predestinação como a escolha que Deus fez, dentre a
humanidade caída, de alguns pecadores, para a vida eterna, e outros para a
morte eterna. Eleição consiste na seleção de alguns para a vida eterna;
sendo este o lado positivo da predestinação.
Archibald Hodge[1]
apresenta as seguintes concepções de predestinação:
1)
Como
equivalente à palavra genérica decreto, incluindo todos os propósitos eternos
de Deus.
2)
Como
abrangendo somente aqueles propósitos de Deus que dizem respeito especialmente
às suas criaturas morais.
3)
Como
denominativo do conselho de Deus que diz respeito somente aos homens decaídos,
incluindo a eleição soberana de alguns e a justíssima reprovação dos demais.
4)
Às
vezes, o seu uso é tão restrito que é aplicado somente à eleição eterna do povo
de Deus para a vida eterna.
Segundo a Bíblia, o conceito de
predestinação inclui e pressupõe outros três, que têm seus termos respectivos
no grego do Novo Testamento. Em ordem lógica, o conceito de predestinação
inclui três ideias complementares: (1) um conhecer de antemão ou preconhecer;
(2) um eleger; (3) um determinar de antemão um destino específico.
2.1.
Um conhecer de antemão ou preconhecer
Os vocábulos gregos ginoskw e proginoskw podem ter no Novo
Testamento um sentido diferente de "conhecer" e
"preconhecer", respectivamente, pois o sentido teológico de cada um
deriva do significado da palavra hebraica "yadah", que, por sua vez,
pode ter dois significados: (a) "Conhecer" ou "tomar
conhecimento" de algo ou alguém (Dt 31.21; Sl 51.3; Ez 11.5); (b)
"Fixar-se em alguém com predileção" ou "fazer de alguém objeto
de um amor seletivo" (Gn. 18:19; Am. 3:2; Os. 13:5).
Com base neste último sentido atribuído ao vocábulo
hebraico "yadah", é que as palavras gregas proginoskw e proginosiV (preconhecer e presciência, respectivamente) derivam seu significado,
formulando a ideia de "fixar-se em alguém com predileção", ou ainda,
de "intimidade espiritual antecipada". Não se trata de previsão,
mas de um conhecimento intrínseco, entranhável resultante de um
relacionamento íntimo (Mt 1:25; 25:12). O mesmo termo hebraico yadah (em
grego, prognosko) – é usado para designar uma relação sexual (Gn 4.17;
Nm 31.17). Assim sendo, “em Cristo”, Deus conheceu de antemão, isto é,
antegozou de uma relação íntima com todos aos quais haveria de tornar
beneficiários de sua graça, fixando-se neles como alvo do seu amor, fazendo
deles o seu povo escolhido, filhos por adoção, segundo a sua soberana vontade,
e concedendo-lhe um destino glorioso (Rm 8:29; 11:2-5; 1Pe 1:1-2). Algumas
passagens bíblicas comprovam o uso do termo conhecer e conhecimento
relacionado à eleição, predestinação e/ou preordenação divina:
a) Jr 1:5 “Antes
que eu te formasse no ventre materno, eu te conheci, e, antes que saísses da
madre, te consagrei, e te constituí profeta às nações".
b) Am 3:2 “De
todas as famílias da terra, somente a vós outros vos escolhi...”.
c) At 2:23 “...sendo
este entregue pelo determinado desígnio e presciência de Deus, vós o matastes,
crucificando-o por mãos de iníquos”.
d) Rm 8:29 “Porquanto
aos que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à
imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos”.
2.2.
Um eleger (eklegomai = eleger ou aireomai = tomar para si, escolher, correspondentes ao
hebraico "bakar")
O sentido teológico de "eleição"
em hebraico aplica-se a dois diferentes casos:
a)
A
eleição de Israel no Antigo Testamento como povo especial ao qual Deus se
revelou e encarregou de serviços especiais (Dt 4:37; 7:6-8; 10:15);
b)
A
escolha e "vocação" de indivíduos para um ofício ou missão especial
(Jr 1:5; Ex 3:10-12; Dt 18:5; Sl 78:70-71).
Desta forma, o Novo Testamento, embora
escrito em grego, preservou a ideia hebraica de "eleição" e a aplicou
aos remidos, isto é, aos escolhidos (separados) para um destino honroso, para
uma relação especial com Deus, de forma global e individual. Portanto, a
eleição é uma obra pela qual Deus manifesta a sua graça. Tanto assim é que, na
eleição de Israel como seu povo, Deus definiu os seguintes critérios: seu amor aos filhos de Israel e sua fidelidade à aliança com os
patriarcas. As Escrituras declaram: “Não vos teve o SENHOR afeição, nem vos escolheu porque fôsseis mais
numerosos do que qualquer povo, pois éreis o menor de todos os povos, mas
porque o SENHOR vos amava e, para guardar o juramento que fizera a vossos pais,
o SENHOR vos tirou com mão poderosa e vos resgatou da casa da servidão, do
poder de Faraó, rei do Egito” (Dt 7.7-8).
A eleição obedece não somente a critérios, mas
também a um propósito divino. A eleição de Israel tinha um propósito, o qual
Moisés revelou em Deuteronômio 14:2: “Porque sois povo santo ao SENHOR,
vosso Deus, e o SENHOR vos escolheu de todos os povos que há sobre a face da
terra, para lhe serdes seu povo próprio”.
A única passagem do Novo Testamento que se refere
explicitamente à eleição para a salvação declara que tal eleição obedece a critérios que por Deus foram definidos de antemão, isto é,
"desde o princípio". O texto se encontra em 2Ts 2.13-14 que diz: “Entretanto, devemos sempre dar graças a
Deus por vós, irmãos amados pelo Senhor, porque Deus vos escolheu desde o
princípio para a salvação, pela santificação do Espírito e fé na verdade, para
o que também vos chamou mediante o nosso evangelho, para alcançardes a glória
de nosso Senhor Jesus Cristo”. Nesta passagem podemos ver:
a)
O sujeito da escolha – “Deus
vos escolheu” (v. 13);
b)
O tempo da escolha – “desde
o princípio” (v. 13);
c)
O propósito da escolha – “para
a salvação” (v. 13);
d)
Os critérios da escolha – “pela
santificação do Espírito e fé na verdade” (v. 13);
e)
O chamado dos escolhidos (eleitos) – “mediante
o nosso evangelho” (v. 14);
f)
O destino dos escolhidos – “para alcançardes a glória de nosso Senhor Jesus Cristo” (v. 14).
Quem é o objeto da escolha divina e quando a
escolha ocorreu ou ocorre? Embora o homem tenha sido dotado por Deus da capacidade de tomar
decisões, não é o homem que faz a escolha, mas Deus. Nas questões de âmbito
espiritual, nenhum pecador é livre. A eleição é da competência exclusiva de
Deus. Em sua soberania, Deus determinou os
critérios pelos quais ele mesmo haveria de escolher os
súditos do seu reino. Assim sendo, quem é alvo da escolha divina? O texto áureo da Ordo Salutis (Rm
8.29-30) afirma que a salvação ocorre em etapas sequenciais:
a)
Predestinação - “Aos que de antemão conheceu, a estes
também predestinou...”;
b)
Chamado - “E aos que predestinou, a esses também
chamou”;
c)
Justificação - “E aos que chamou, a esses também
justificou”;
d)
Glorificação - “... e aos que justificou, a esses
também glorificou”.
Uma vez que a eleição
deriva da soberania divina, o homem não tem nenhuma parte nela como sujeito,
mas apenas como objeto. Em Efésios 1.3-5, Paulo afirma que “o Deus e Pai de
nosso Senhor Jesus Cristo...” (v. 3) é o sujeito da escolha que ocorreu “antes
da fundação do mundo” (v. 4), cujo propósito era “para sermos santos e
irrepreensíveis” (v. 4), e para tanto, “nos predestinou para ele, para a
adoção de filhos...” (v. 5).
Apenas alguns, dentre a
humanidade caída e em número limitado, foram objeto da escolha soberana de Deus
Pai. A afirmação bíblica de tal verdade está registrada em Apocalipse 13.8;
17.8; 20.12; 20.15; 21.27, onde há uma referência explícita àqueles que, “antes
da fundação do mundo”, tiveram ou não tiveram seus nomes registrados no “livro
da vida”.
Uma vez que o decreto divino antecede a criação,
tudo que diz respeito ao homem e à criação foi preordenado por Deus - “desde
o princípio”. Isto significa que, antes da criação, Deus não só determinou
os critérios de escolha dos que
haveriam de herdar a salvação, mas também alistou todos aqueles que, no curso
da história da salvação, haveria de trazer, através do chamado por meio da
evangelização – “para o que também vos
chamou mediante o nosso evangelho para alcançardes a glória de nosso Senhor
Jesus Cristo” (2Ts. 2.14). Sem exceção, todos os eleitos, e somente estes,
são trazidos por Deus Pai à fé em Cristo, como disse Jesus:
a)
“Todo aquele que o Pai me
dá, esse virá a mim; e o que vem a mim, de modo nenhum o lançarei fora” (Jo 6.37);
b)
“E a vontade de quem me
enviou é esta: que nenhum eu perca de todos os que me deu; pelo contrário, eu o
ressuscitarei no último dia”. (Jo 6.39).
c)
“Ninguém pode vir a mim se
o Pai, que me enviou não o trouxer” (Jo 6.44).
d)
“Os gentios, ouvindo isto,
regozijavam-se e glorificavam a palavra do Senhor, e creram todos os que haviam
sido destinados para a vida eterna”. (At 13.48).
2.3.
Um determinar de antemão um destino específico (Rm.
8:29-30; Ef. 1:4-5, 11)
Os vocábulos gregos proorizw (predestinar) e proorismoV (predestinação)
são usados biblicamente na soteriologia para designarem a ação através da qual
Deus estabeleceu, de antemão, como destino para os seus escolhidos segundo a
graça, a posse da vida eterna e a participação no "reino dos céus".
Quando Deus decidiu qual destino daria ao homem, definiu também em que condições o homem poderia usufruir desse destino.
Deus criou o homem para usufruir de todo o
esplendor da sua glória e gozar do reino que está preparado “desde a fundação do mundo" (Mt.
25:34), mas o pecado apartou toda a
humanidade de Deus, ficando totalmente destituída (privada, impossibilitada
de usufruir) da glória divina (Rm 3:23), sendo reservada a morte eterna como
destino dos réprobos e a vida eterna como destino dos beneficiários de sua
soberana graça (Rm 6:23; Jo 3:36).
Observações:
a) O sentido de predestinação deve ser entendido da
seguinte forma: Deus preparou de antemão um destino honroso para todos aqueles
a quem ele designou como herdeiros dos bens eternos, reservados aos que ele
soberanamente escolheu e que, regenerados pelo Espírito Santo e trazidos à fé
em Jesus, são justificados, santificados e recebidos como filhos por adoção.
b) Teologicamente, eleição e predestinação não designam
única e exclusivamente destino, mas
também propósito. Isto significa que
Deus nos elegeu e “predestinou para ele, para a adoção de filhos, por meio de
Jesus Cristo, segundo o propósito da sua
vontade”; isto é, não exclusivamente para chegarmos em algum lugar, mas
para sermos dele e nos tornarmos algo para o qual ele nos criou (Ef 1.5).
Vejamos o que dizem as Escrituras:
a) "...
como também nos elegeu nele antes da fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis diante dele, em amor” (Ef 1:4).
b) "Porque
os que dantes conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o
primogênito entre muitos irmãos” (Rm.
8:29).
c) "... e
nos predestinou para sermos filhos de
adoção por Jesus Cristo, para si mesmo, segundo o beneplácito de sua
vontade” (Ef 1:5).
d) "...
eleitos segundo a presciência de Deus Pai, na santificação do Espírito, para a obediência e aspersão do sangue de
Jesus Cristo...” (1Pe 1:2).
e) "...
nele, digo, no qual também fomos feitos
herança, havendo sido predestinados conforme
o propósito daquele que faz todas as coisas segundo o conselho da sua
vontade” (Ef. 1:11).
f) “Entretanto,
devemos sempre dar graças a Deus por vós, irmãos amados pelo Senhor, porque
Deus vos escolheu desde o princípio para a salvação, pela santificação
do Espírito e fé na verdade”. (2Ts 2.13).
3.
Controvérsias históricas
Ainda que o termo grego proginoskw (conhecer de
antemão) como também proginosiV (presciência)
comporta na Bíblia uma ideia de “predileção”, prejuízos teológicos surgiram
através dos escritores eclesiásticos dos primeiros séculos por distorcerem o
uso dos termos proginosiV e proorismoV, dividindo os
chamados Pais da Igreja em duas escolas: a intelectualista e a voluntarista.
3.1.
A escola intelectualista (João Crisóstomo)
Segundo esta escola de pensamento, Deus
executa seus desígnios de acordo com sua presciência (entendendo esta como um
mero conhecer de antemão em sentido intelectual). Portanto, Deus destina a cada
um ao lugar ao qual suas próprias obras o levam. Este conceito de
"predestinação" surgiu no Oriente como reação contra o fatalismo
maniqueísta e apenas teve aceitação no Ocidente até o tempo da Reforma.
3.2.
O pelagianismo
O pelagianismo é a doutrina que ressalta a
capacidade do homem de dar os passos iniciais em direção à salvação mediante os
seus próprios esforços, independentemente da graça. O autor de tal doutrina,
Pelágio, era um homem de moral elevada, um professor bem-sucedido em Roma, nos
fins do século IV. Era um zeloso
praticante do ascetismo. Opositor extremado de Mani (maniqueísmo) que
propugnava uma doutrina mesclada de fé cristã com crenças persas e budistas.
O âmago do pelagianismo era o
livre-arbítrio e a responsabilidade moral do homem. Pelágio propugnava a ideia
de que cada pessoa entra no mundo com uma vontade sem propensão alguma para o
mal. Deus, segundo Pelágio, ao criar o homem, deu-lhe a prerrogativa de cumprir
a vontade divina mediante sua própria escolha. Da possibilidade de escolher o
bem deriva a possibilidade de escolher o mal. Mesmo após a queda, cada ser
humano é criado por Deus e, portanto, não herda nem a culpa nem a natureza
pecaminosa de Adão. Deus não culpa uma pessoa pelo pecado de outra, portanto,
cada ser humano é totalmente livre.
A graça está disponível igualmente a todos
os seres humanos, individualmente. A santidade é progressiva e alcançada por
mérito. Deus predestina cada pessoa com base na previsão da qualidade de vida
que elas haverão de desenvolver. Pelágio chegou a afirmar que qualquer pessoa
tem a possibilidade de viver sem pecar. A graça de Deus é apenas uma ajuda
externa sem qualquer inferência divina na alma humana.
3.3.
A escola voluntarista (Agostinho de Hipona)
Em resposta ao pelagianismo, Agostinho desenvolveu
sua doutrina da predestinação, enfatizando a seriedade do pecado de Adão.
Segundo sua concepção, todos nós estávamos em Adão e, consequentemente,
participamos do seu pecado. Uma vez que cada alma humana se origina dos pais de
uma pessoa por meio do processo de reprodução, todos os seres humanos nascidos
e os que haverão de nascer são participantes não só do pecado, mas também da
culpa e da natureza decaída de Adão. Assim, todos nós pecamos nele e com ele.
Desta forma, todo ser humano inicia a vida em uma condição arruinada. Os seres
humanos só são livres para escolher qual pecado cometer.
A graça divina restaura a liberdade completa; ela
nos devolve a opção de não pecar e de fazer o bem. Embora irresistível, a graça
divina não age contra a vontade humana, mas em combinação com ela. A concessão
da graça é uma decisão livre e soberana de Deus em favor somente de alguns, que
foram eleitos em um número limitado para substituir os anjos caídos. Esta
eleição não está condicionada à consciência prévia do que elas fariam, mas na
vontade e propósito soberano divino. Deus escolhe quem receberá sua graça e
quem será deixado na sua condição pecaminosa para receberem sua justa
condenação. Somente por um ato de grande compaixão Deus salva alguém. Os
condenados recebem apenas o que merecem. Os eleitos recebem mais do que
merecem.
Agostinho defendeu a predestinação como a
"presciência (no sentido de predileção) e preparação dos benefícios
divinos para todos quantos se salvam". O radical desta postura acha-se em
afirmar que à "massa perditionis" dos inconversos não é concedida nem
o ter ocasião de crer. Tanto Duns Scot (Escoto) como Tomás de Aquino foram
favoráveis a esta posição doutrinária, que foi radicalizada no século XVI por
João Calvino.
3.4.
O semipelagianismo
Esta é uma corrente defendida pelos monges de
Marselha, sob a influência de João Cassiano, que admitiam a necessidade da
graça para a salvação, mas sustentavam a primazia do livre-arbítrio na busca da
fé e na perseverança. Deus predestina ao céu aqueles que ele prevê que haverão
de se esforçar para crer e perseverar e predestina para o inferno os que ele
prevê que não crerão e os que não haverão de perseverar.
3.5.
O molinismo
O molinismo é a proposição teológica do
jesuíta Luís de Molina (1558) que declarava que Deus predestinava ao céu aquele
que Deus havia previsto que cooperaria com a sua graça. Deus, então, saberia de
antemão o que cada um haveria de fazer. Somente aos predestinados segundo a
presciência divina, seria concedido o dom divino de perseverar.
3.6.
Calvinismo - João Calvino
Segundo Calvino, o estudo da predestinação
não é um mero exercício acadêmico, mas de uma importância prática. Ele fez
advertência contra Zuínglio que teria afirmado que o pecado foi necessário a
fim de que a glória de Deus fosse adequadamente estabelecida, mas reiterou que
Deus escolheu soberana e livremente salvar alguns e rejeitar os outros. Em sua
concepção, Deus é totalmente justo e inculpável em tudo isso.[2]
Calvino defendia a ideia de que “a
doutrina da predestinação não leva à negligência moral nem a uma atitude
indiferente, segundo a qual entendemos que podemos continuar no pecado, visto
que nossa eleição está garantida”, informa Erickson. “Antes, o conhecimento de
nossa eleição nos leva a buscar uma vida santa. A maneira de um crente ter
certeza de sua eleição é observar a Palavra de Deus transformando a sua vida”.[3]
Tendo como fundamento a teologia de Calvino, três correntes teológicas surgiram
com distintas concepções: supralapsarismo, infralapsarismo e sublapsarismo.
3.6.1. Supralapsarismo
- Teodoro Beza
O nome supralapsarismo
/ supralapsarianismo, originário do
latim supra (acima de) e lapsus (queda), denota a ideia de que o
decreto da predestinação antecede à criação e a queda do homem. Este ensino
consiste em que Deus decretou soberanamente tanto a eleição de alguns como a
condenação dos demais seres humanos antes da queda. Teodoro Beza, sucessor de
Calvino, é o responsável por tal doutrina. Ele ensinava que Deus, intencionalmente,
cria algumas pessoas a fim de condená-las. Esta concepção
doutrinária - o supralapsarismo - veio a tornar-se com o tempo a posição
oficial do calvinismo.
O supralapsarianismo afirma que, na ordem
dos decretos divinos, o decreto de predestinar (eleger alguns para a salvação e
reprovar outros para a condenação) antecede
o decreto de permitir a queda da humanidade no pecado. Para os
supralapsarianos, Deus olhou para a humanidade no momento da eleição não como
seres já criados e caídos (como defende o infralapsarianismo), mas
simplesmente como criaturas possíveis
(creabiles et labiles), que ainda seriam criadas e que ainda cairiam. O
objetivo supremo de Deus nessa visão é a manifestação de Sua glória tanto pela misericórdia (salvando alguns) quanto
pela justiça (punindo outros).
Os supralapsários sustentam que a ordem
dos decretos teria sido a seguinte: (1) Decreto para criar o mundo e as duas
classes de homens, os eleitos para demonstrar Seu amor e Sua graça, e os
não-eleitos, para demonstrar Sua justiça e ira contra o mal; (2) Decreto da
queda (alguns dizem que Deus permitiu, mas outros não); (3) Decreto para
justificar os eleitos e condenar os não-eleitos. Com base em Rm 9.21, eles
afirmam que “os vasos para honra” e “os vasos para desonra” são
obra exclusiva da soberania de Deus, cuja natureza e destino são inalteráveis.
O supralapsarianismo sofreu fortes
oposições, inclusive de dentro do próprio arraial calvinista. Dentre as
controvérsias teológicas que se tornaram manifestas, algumas surgiram entre os
adeptos desta corrente; e as que mais se destacam são as seguintes:
a)
Acusação de Autor da Iniquidade – Críticos argumentam que, se Deus
decretou a reprovação de certos indivíduos antes mesmo de considerar a queda,
Deus seria o autor direto do pecado e da condenação de inocentes (pois a
reprovação antecederia o fato moral do pecado).
b)
Inversão da Justiça Divina - No infralapsarianismo, a reprovação é
um ato de justiça penal (Deus pune o homem porque ele é pecador). No
supralapsarianismo, a reprovação pode parecer um ato puramente arbitrário da
soberania, decretado antes de o indivíduo ser contemplado como pecador.
c)
Tensão com Símbolos de Fé – Embora documentos como os Cânones de
Dort (1618–1619) e a Confissão de Fé de Westminster (1646) tenham
acolhido subscritores supralapsarianos, a linguagem adotada nessas confissões é
predominantemente infralapsariana para evitar polêmicas desnecessárias sobre a
justiça de Deus.
Incongruências evidentes no
supralapsarianismo:
a)
Propõe uma
separação entre os seres não existentes, pois o decreto de predestinar antecede
ao decreto de criar;
b)
Está em
contradição com o ensino bíblico de que sempre o pecado é a única causa direta
da reprovação;
c)
Faz de Deus um
tirano arbitrário que se deleita em criar pessoas já predestinadas para o
inferno;
d)
Anula todos os
atributos morais de Deus, tais como bondade (amor e misericórdia), justiça e
santidade.
3.6.2. Infralapsarismo
(calvinistas moderados)
O vocábulo infralapsarismo / infralapsarianismo, também originário do latim infra (abaixo de) e lapsus
(queda), consiste na doutrina de que o decreto de eleger e excluir, o de
predestinar e reprovar, há de seguir logicamente ao decreto de criar o homem e
permitir sua queda. Deus, por sua graça e soberania, elege alguns dentre essa
massa de perdição, e os predestina, segundo sua predileção, para a sua glória,
deixando os demais (réprobos) em seu
estado de justa condenação.
Enquanto o supralapsarismo foca na soberania
absoluta de Deus ao desenhar a salvação antes de contemplar a queda, o infralapsarianismo busca enfatizar a justiça
moral de Deus, defendendo que o decreto de eleição e reprovação
considera a humanidade já criada e já
caída no pecado. Esta corrente é centralizada na soberania absoluta de
Deus ao desenhar a salvação antes de contemplar a queda. Em
contrapartida, o infralapsarismo busca enfatizar a justiça moral de
Deus, defendendo que o decreto de eleição e reprovação considera a humanidade já criada e já caída no pecado.
A ordem dos
decretos teria sido a seguinte:
a) A criação da
humanidade como sendo boa e abençoada, sem mácula nem defeito.
b) A humanidade teria
a possibilidade de cair, mediante sua própria autodeterminação.
c) A escolha de
alguns dentre os caídos para a salvação, deixando os demais entregues ao seu
justo juízo e destino de condenação.
d) A provisão de um
Redentor (Jesus Cristo) somente para os eleitos.
e) O envio do
Espírito Santo para levar a efeito a redenção entre os eleitos.
3.6.3. Sublapsarismo
/ Sublapsarianismo
Esta é uma opção teológica, atualmente
denominada “Calvinismo de Quatro Pontos” (originária do monge francês Moïse
Amyraut), é distinta da anterior em apenas um detalhe: expiação ilimitada com
aplicação limitada. A ordem lógica dos decretos divinos seria a
seguinte:
a) O decreto de criar os seres humanos;
b) O decreto de permitir a queda;
c) O decreto de prover salvação suficiente para todos;
d) O decreto de escolher alguns para receber essa
salvação.
Percebe-se aqui que não apenas os decretos
da eleição e da reprovação são depois da Queda, eles também são depois da
Expiação. Este esquema é também conhecido como “redenção hipotética,” e foi a
posição de Moyse Amyraut, o primeiro calvinista de quatro pontos. O que agora é
chamado sublapsarianismo é a concepção de todos os calvinistas de quatro
pontos. A fragilidade deste sistema consiste em que a Expiação é
insignificante, visto que, de qualquer maneira, somente os eleitos serão
salvos. Assim como os “infra”, os sublapsários buscam contornar as implicações
irracionais de uma visão positiva da reprovação, que é paralela à eleição.
3.7. Arminianismo
O
calvinismo como hoje é conhecido teve sua posição teológica definida
oficialmente no sínodo de Dort, na Holanda, quando Johannes Wtenbogaert,
liderando quarenta e seis ministros e leigos, adeptos da teologia de Jacobus
Armínius - daí o nome de arminianismo - apresentou no parlamento holandês uma
proposta de mudança da confissão de fé da Igreja Reformada Holandesa, contendo
cinco artigos. O documento - Remonstrância - propunha, em síntese, os seguintes
postulados:
1)
Vontade
Livre - A queda do homem não foi
total e cada indivíduo é capaz de, livremente, aceitar ou rejeitar a oferta
divina da salvação.
2)
Eleição Condicional - Com base na sua presciência (como sendo uma previsão do futuro,
um prognóstico divino), Deus definiu como condição para a eleição o ato
de fé por parte do homem. A fé é racional e flui naturalmente do homem.
Portanto, todos os seres humanos, individualmente, estão aptos para crer ou
descrer. Nesta condição, Deus elegeu todos os que ele sabia que haveriam de
crer.
3)
Expiação Universal - O sacrifício de Cristo é provisão divina para a salvação de todos os
pecadores, sem exceção de ninguém, mas cada pessoa deve exercer sua livre
vontade para aceitar ou rejeitar a Cristo.
4)
Graça Resistível - O homem pode resistir a Deus e recusar a oferta gratuita da
salvação. Esta resistência é uma atitude consciente; é uma resposta da vontade
livre humana.
5)
Perseverança Incerta
- A apostasia e perda da salvação é um caso a estudar; “isto deve ser assunto
de uma pesquisa mais acurada nas Santas Escrituras antes que possamos ensiná-lo
com inteira segurança”.[4]
3.8.
Objeções ao arminianismo:
a)
A prevalência do
suposto livre-arbítrio (ou livre agência) antagoniza a soberania de Deus.
b)
Se Deus já sabia
quais pessoas haveriam de crer, então, por que as escolheu? Se o homem decide
livremente aceitar ou rejeitar a salvação, então, ele (o homem) é o sujeito da
escolha, e não Deus. Uma vez que eleição é sempre uma escolha unilateral;
portanto, é inadmissível que o homem pecador seja, simultaneamente, sujeito e
objeto de sua eleição.
c)
A livre rejeição
a Cristo por parte de muitos pecadores comprova uma certa incoerência divina na
provisão de salvação para todos. Se na sua “presciência”, Deus soube de
antemão que somente alguns haveriam de crer, por que razão Deus teve de prover
salvação para todos?
d)
A vontade humana
frustra os desígnios de Deus. Mesmo amando a todos, Deus sofre a perda de
criaturas que deseja salvar e pelas quais Cristo morreu.
e)
Esta concepção
declara o homem como o senhor do seu próprio destino, destituindo Deus da
prerrogativa do exercício de sua soberania na realização de sua boa, agradável
e perfeita vontade.
3.9.
Os cânones de Dort
O sínodo de Dort rejeitou os artigos do remonstrância
e promulgou oficialmente os cânones que, em síntese, promulgam os
fundamentos da teologia reformada, reconhecidos hoje como os Cinco Pontos do
Calvinismo, como são apresentados em seguida.
1) Depravação Total
O
homem não regenerado é escravo do pecado, moralmente corrupto, e sua vontade
está de tal forma cativa por Satanás que é incapaz de responder voluntariamente
a qualquer oferta da graça divina. Nesta condição, é incapaz de discernir a
verdade divina nem de realizar bem espiritual nenhum em favor de sua própria
salvação. Deus deve vivificar o homem, antes que este possa crer em Cristo.
Todos os seres humanos nascem nesta condição - pecado original - portanto, são
herdeiros da natureza, da culpa de todas as consequências do pecado de Adão.
2) Eleição Incondicional
“Esta eleição é o imutável propósito de Deus, pelo
qual Ele, antes da fundação do mundo, escolheu um número grande e definido de
pessoas para a salvação, por graça pura. Estas são escolhidas de acordo com o
soberano bom propósito de sua vontade, dentre todo o gênero humano, decaído
pela sua própria culpa de sua integridade original para o pecado e a perdição.
Os eleitos não são melhores ou mais dignos que os outros, porém envolvidos na
mesma miséria dos demais. São escolhidos em Cristo, quem Deus constituiu, desde
a eternidade, como Mediador e Cabeça de todos os eleitos e fundamento da
salvação”.[5]
3)
Expiação
Limitada
A morte de Cristo foi definida por
Deus para salvar determinadas pessoas. Deus Pai deu a Cristo como
possessão pessoal alguns dentre a humanidade caída. Portanto, a morte de Cristo
foi resgate pago a Deus Pai, a preço de seu próprio sangue, como sacrifício de
expiação pelos pecados de todos os eleitos, isto é, somente em favor daqueles
que o Pai lhe deu. Tudo isto foi feito para a manifestação do amor e da graça
divina. Todos os demais pecadores foram deixados por Deus em seus pecados, para
neles manifestar sua justiça.
4)
Graça Irresistível
O estado de morte espiritual
(alienação completa de Deus) e escravidão da vontade a Satanás são a
confirmação de que nenhum ser humano tem qualquer possibilidade de ir
voluntariamente a Deus. Todos são rebeldes e, portanto, o bloqueio que a resistência
humana impõe precisa ser rompido pela ação poderosa e convincente do
Espírito Santo. Portanto, ninguém pode vir a Cristo, se por Deus Pai não for
trazido. Antes, porém, é necessária a regeneração (infusão de vida, novo
nascimento) operada pelo Espírito de Deus, para restaurar no homem sua
capacidade de discernir e entender a mensagem do evangelho, a fim
de que ele creia em Cristo, sua vontade seja liberada, ocorra um arrependimento
sincero, imprescindível ao alcance do perdão divino e à santificação através
do Espírito Santo. Somente Deus rompe o bloqueio da resistência natural humana
para trazer seus escolhidos à salvação que lhes é designada por sua graça
soberana.
5)
Perseverança dos Santos
Todos aqueles por quem Cristo morreu (os
eleitos) foram recebidos como filhos por adoção, são guardados pelo
poder de Deus, para garantir sua preservação e posse da herança imarcescível
reservada nos céus. Todos os eleitos, os que já passaram da morte para a
vida (vida eterna), estão destituídos do risco de condenação. A preservação
dos eleitos é garantida pelo selo do Espírito Santo da promessa, o qual é o
penhor da nossa herança, ao resgate da sua propriedade, em o louvor da sua
glória. A perseverança não paga, mas comprova a posse da
salvação por parte dos eleitos de Deus, guardados em Cristo Jesus, das mãos do
qual ninguém pode arrebatar. A perseverança dos eleitos é eterna.
VISÃO GERAL DA
ORDEM DOS DECRETOS DIVINOS
|
Ordem |
Supralapsarismo |
Infralapsarismo |
Sublapsarismo |
Arminianismo |
|
1 |
Eleição e reprovação antes da criação do homem
(dupla predestinação) |
Criação do homem |
Criação do homem |
Criação do homem |
|
2 |
Criação dos eleitos e dos não eleitos |
Permissão da queda |
Permissão da queda |
Permissão da queda |
|
3 |
Permissão da queda |
Eleição de alguns e reprovação dos demais
pecadores |
Provisão de salvação para todos |
Provisão de salvação para todos |
|
4 |
Provisão de salvação somente para os eleitos |
Provisão de salvação somente para os eleitos |
Eleição de alguns e reprovação dos demais seres
humanos |
Eleição dos que haverão de crer, baseada na
presciência de Deus e no livre-arbítrio do homem |
|
5 |
Aplicação dos benefícios da salvação somente aos
eleitos |
Aplicação dos benefícios da salvação somente aos
eleitos |
Aplicação dos benefícios da salvação somente aos
eleitos |
Aplicação dos benefícios da salvação somente aos
que crerem |
POSIÇÃO DOS
METODISTAS E BATISTAS BRASILEIROS
1.
Considerações preliminares:
Não há unanimidade
entre os batistas quanto à doutrina da eleição e predestinação. A Teologia
Reformada (Calvinista Infralapsária e Sublapsária) predomina entre os
batistas do sul dos Estados Unidos e em muitos batistas brasileiros. Os
argumentos, que serão aqui apresentados, estão passíveis de contestação. Seria
uma imprudência e falta de bom senso a dogmatização de tais argumentos.
Portanto, não há consenso quanto a estas concepções teológicas. Há, por parte
de vários teólogos, discordâncias sobre o significado atribuído aos termos “mundo”
e “todos” nas passagens bíblicas citadas nos argumentos aqui
apresentados. Refutações a serem feitas ficarão por conta do leitor e
intérprete.
2. O plano de Deus
A exposição teológica que segue visa
harmonizar (?) as concepções calvinistas e arminianas; ou seja, é uma expressão
amalgamada da doutrina arminiana mesclada com a doutrina
calvinista. O artigo VI da Declaração Doutrinária da Convenção Batista
Brasileira aglutina as concepções divergentes da seguinte forma:
Eleição é a escolha feita por Deus, em Cristo,
desde a eternidade, de pessoas para a vida eterna, não por qualquer mérito, mas
segundo a riqueza da sua graça. Antes da criação do mundo, Deus, no exercício
de sua soberania divina e à luz de sua presciência de todas as coisas, elegeu,
chamou, predestinou, justificou e glorificou aqueles que, no correr dos tempos,
aceitariam livremente o dom da salvação. Ainda que baseada na soberania de
Deus, esta eleição está em perfeita consonância com o livre-arbítrio de cada um
e de todos os homens. A salvação do crente é eterna. Os salvos perseveram em
Cristo e estão guardados pelo poder de Deus. Nenhuma força ou circunstância tem
poder para separar o crente do amor de Deus em Cristo Jesus. O novo nascimento,
o perdão, a justificação, a adoção como filhos de Deus, a eleição e o dom do
Espírito asseguram aos salvos a permanência na graça da salvação.
Segundo a Bíblia, em Romanos 8.29, o
conhecimento dos eleitos antecede à predestinação. Sem sombra de dúvida, a
humanidade inteira merece a condenação, “pois todos pecaram e estão
destituídos da glória de Deus” (Rm 3.23). Mas também é verdade que Deus “quer
que todos sejam salvos e venham ao conhecimento da verdade” (1Tm 2.4). Por
esta razão, Deus providenciou para todos os homens uma fonte de salvação em
Jesus, no Calvário, “para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a
vida eterna” (Jo 3.16). Os batistas controversos propõem que a ordem dos
decretos divinos[6] deve ser
a seguinte:
a) Criar o homem;
b) Permitir a queda;
c) Prover salvação para todos os homens;
d) Eleger os que hão de crer e se arrepender, deixando em
justa condenação a todos os que hão de rejeitar a mensagem da salvação;
e) Aplicar, em seu dia, a salvação aos que hão de crer e
deixar em sua justa condenação os que hão de rejeitar a mensagem da salvação.
3.
Os argumentos bíblico-teológicos dos batistas
arminianos
A mensagem de Deus tem de ser tomada em
sua totalidade e em seu sentido óbvio. Todas as passagens que tratam desta
matéria, explicando os textos obscuros à luz dos mais claros sem torcê-los,
devem se encaixar num sistema determinado. Se seguirmos a opinião do homem, por
mais que seja um "homem de Deus", estaremos em perigo de seguir a
"tradição dos homens" que dizemos abominar. Os defensores deste
esquema propõem os seguintes argumentos:
1)
A
Escritura nos diz que Deus tem escolhido a certos indivíduos para chegarem a
ser filhos de Deus e herdeiros do reino dos céus e isto sem mérito nenhum da parte
do homem (Rm. 8:29-30; Ef. 1:4-5; 2Ts. 2:13-14; Rm. 11:5-6). Tais passagens
expressam o seguinte significado:
a) Trata-se de uma eleição que se fundamenta na
presciência de Deus (Rm 8:29), mas que se concretiza quando o homem responde
com fé à chamada de Deus; ou seja, a seleção para a salvação ocorre por meio de
critérios definidos por Deus na eternidade.
b) Trata-se de uma eleição segundo a graça divina, não
havendo nenhum mérito ou esforço humano que o torne digno de ser eleito (Rm.
11:5), mas exigindo fé em Jesus por meio da proclamação do evangelho.
c) A eleição e predestinação são confirmadas com o selo
de Deus por meio do Espírito Santo concedido como “penhor da nossa herança”
somente depois do homem livremente manifestar sua fé em Jesus quando ouvir o
evangelho da salvação (Ef 1.11-14).
d) Trata-se de uma eleição que fazia parte do projeto de
Deus, isto é, que fora planejada "antes
da fundação do mundo", ou ainda, que a decisão de nos eleger e a forma
de nos selecionar têm origem na eternidade (Ef 1:4).
2)
A
Escritura nos diz também que Deus "deseja
que todos sejam salvos" e, para isso, Deus enviou seu Filho ao mundo,
porque amou o mundo (Jo 3:16; 1Tm.
2:4; 2Pe 3:9; Tt 2:11). Isto nos faz crer que:
a) É sincero o convite de Deus a todos para que se
arrependam (At 3:19; 17:30);
b) A não conversão do homem deve ser entendida como um
repúdio consciente e voluntário à graça de Deus (Rm. 2:4-11).
3)
A
Escritura nos diz, em Romanos 11:32, que "Deus
a todos encerrou na desobediência, a fim de usar de misericórdia para com todos", indiscriminadamente (cf. At
10:34-35).
4)
A
Escritura nos diz, em Romanos 5.18, que "por meio de uma só ofensa (Adão)
veio o juízo sobre todos os homens para
condenação, assim também, por um só
ato de justiça (Cristo), veio a
graça sobre todos os homens para a justificação que dá vida".
5)
A
Escritura testifica, com clareza e objetividade, que o sacrifício de expiação
realizado por Cristo na cruz favorece a todos os homens, sem distinção de
nenhum:
a) 1Jo 2:2: e ele é a propiciação pelos nossos pecados e
não somente pelos nossos próprios, mas ainda pelos do mundo inteiro.
b) 2Co 5:14-15: Pois o amor de Cristo nos constrange,
julgando nós isto: um morreu por todos; logo, todos morreram. E ele
morreu por todos, para que os que vivem não vivam mais para si mesmos,
mas para aquele que por eles morreu e ressuscitou.
c) Hb 2:9: Vemos, todavia, aquele que, por um pouco,
tendo sido feito menor que os anjos, Jesus, por causa do sofrimento da morte,
foi coroado de glória e de honra, para que, pela graça de Deus, provasse a
morte por todo homem.
6)
A
Escritura nos diz explicitamente que o homem pode rejeitar o sacrifício de
Jesus realizado em favor de todos os pecadores e viver deliberadamente em pecado, sendo esta a verdadeira razão de sua
eterna condenação:
a) “Porque, se vivermos
deliberadamente em pecado, depois de termos recebido o pleno conhecimento da
verdade, já não resta sacrifício pelos pecados” (Hb 10.26-27).
b) “Por isso,
quem crê no Filho tem a vida eterna; o
que, todavia, se mantém rebelde contra o Filho não verá a vida, mas sobre
ele permanece a ira de Deus” (Jo
3;36).
c) “Se, porém, não vos arrependerdes, todos igualmente
perecereis” (Lc 13.3, 5).
d) “Por isso, eu
vos disse que morrereis nos vossos pecados; porque, se não crerdes que EU SOU,
morrereis nos vossos pecados” (Jo
8.24).
7)
A
Escritura nos diz que, embora o Espírito de Deus tem a missão de convencer o
homem do pecado, o homem pode resistir ao Espírito Santo:
a) “Homens de
dura cerviz e incircuncisos de coração e de ouvidos, vós sempre resistis ao Espírito Santo; assim como fizeram vossos
pais, também vós o fazeis” (At 7.51).
b) “... pois foram rebeldes ao Espírito de Deus, e
Moisés falou irrefletidamente” (Sl
106:33).
c) “Mas eles foram rebeldes e contristaram o
seu Espírito Santo, pelo que se lhes tornou em inimigo e ele mesmo pelejou
contra eles” (Is 63.10).
A Escritura nos diz que a condenação do homem não é
da vontade de Deus e que a causa dela está unicamente no homem (Jo. 3:17-19;
Rm. 2:5; Ez. 18:4, 31, 32; Is. 55:6-7). Assim, podemos concluir que salvação é
pela graça (Ef. 2:8-9); a condenação é por causa da resistência voluntária e
consciente do homem à graça de Deus (At 7:51).
CAPÍTULO X
A DOUTRINA DA
CRIAÇÃO
1.1. Introdução
As questões que têm sido levantadas sobre
a origem do universo e do ser humano são fonte de muitas controvérsias nas
diversas áreas da especulação científica. A filosofia antiga propôs respostas
que abrangiam opções que até hoje são apreciadas. Mas a teologia propõe uma
resposta, concebendo a criação como uma produção divina a partir do nada (ex nihilo).
Franklin Ferreira, opinando sobre a origem
do universo, afirma: “Ou o universo tem uma origem ou é eterno. Ou o universo
vem de uma fonte pessoal ou a fonte de tudo é impessoal. Não existem outras
opções além dessas”[7]. A
teologia cristã considera o universo e o homem como criações de Deus e
reconhece a necessidade do estudo desta doutrina por razões consideradas
plausíveis.
Millard Erickson[8]
enumera seis razões para o estudo da doutrina da criação:
a)
A Bíblia lhe
confere grande significado". A Bíblia começa com a narrativa da criação
(Gn 1.1); exalta a Deus por sua obra criadora (Sl 8.1-9; Sl 19.1-6; Sl 95.1-5);
testifica de como Deus a preserva (Ne 9.6; Sl 104.1-30); e termina descrevendo
seu estado eterno após o final da era presente (Ap 21.1-22.5).
b)
A doutrina da
criação tem ocupado uma parte significativa da crença da igreja, sendo um
aspecto importantíssimo de seu ensino e pregação. A Bíblia como um todo
descreve a pessoa de Deus como o Criador de todas as coisas.
c)
Nosso entendimento
da doutrina da criação é importante por causa de seus efeitos sobre nosso
entendimento de nossas doutrinas. Tudo que diz respeito aos decretos de Deus
está relacionado com a criação, em especial, com o homem.
d)
A doutrina da
criação ajuda a distinguir o cristianismo de outras religiões e cosmovisões.
e)
O estudo da
doutrina da criação é um ponto do diálogo potencial entre o cristianismo e a
ciência natural.
f)
É preciso um
entendimento minucioso da doutrina da criação porque, às vezes, ocorrem grandes
discordâncias no âmbito cristão.
1.2. O ato criador de Deus
Ao estudarmos sobre os decretos de Deus,
pudemos compreender que:
a) Deus, desde a
eternidade, tem um propósito, um desígnio, e age em função dele;
b) Toda realidade do
universo, situada no tempo e no espaço, era previamente do conhecimento de Deus
que direciona a história segundo os seus eternos desígnios;
c) Que nada escapa ao
decreto de Deus;
d) Que cada
circunstância, incluída a maldade dos homens, é incorporada ao decreto de Deus;
e) que tudo converge, no plano divino, para a salvação dos eleitos e glória do
amor salvífico de Deus.
Passemos agora ao estudo da execução
destes decretos com respeito ao mundo que tem seu início com a criação. As
Sagradas Escrituras, ao tratar dos atos de Deus, assim se iniciam: "No
princípio criou Deus os céus e a terra" (Gn. 1:1). Portanto, todas as
coisas, visíveis e invisíveis, ao dar entrada no tempo e a mover-se, tiveram
seu começo, quando Deus os trouxe à existência, do abstrato ao concreto.
1.3. Conceito de criação
Augustus H. Strong conceitua criação como sendo “o livre ato do
Trino Deus pelo qual, no princípio, para a Sua própria glória, Ele fez, sem uso
de material preexistente, todo o universo visível e invisível”. Detalhando este
conceito, ele prossegue dizendo que:
a) Criação não é “produção tirada do nada”
como se “nada” fosse alguma substância da qual “alguma coisa” pudesse ser
formada;
b) Criação não é o amoldamento de matérias
preexistentes, nem uma emanação oriunda da substância da divindade, mas é a
formação daquilo em que outro tempo não existiu, nem em forma, nem em
substância;
c) Criação não é um processo da natureza
divina, instinto ou necessário, mas é o ato livre de uma vontade racional,
estabelecida para um fim definido e suficiente.
d) Criação é o ato do Deus Trino, no sentido
de que todas as pessoas da Trindade – elas próprias não criadas – têm parte
nisto: o Pai como originador/o Filho como o Mediador/o Espírito Santo como a
causa que leva tudo a termo.[9]
A pergunta pela existência de alguma prova da ação criadora de
Deus não pode ser encontrada através da ciência ou da razão. Embora a ciência
possa observar e registrar mudanças em todo o universo físico, ela não é
autoridade para afirmar com segurança nada sobre sua origem. Portanto, dispomos
apenas da revelação registrada nas Escrituras como única fonte de informação.
Elas nos dão conta de que criação é um ato que a ciência humana não reconhece e
que só pode ser admitido pela fé: "Pela
fé entendemos que os mundos foram criados pela palavra de Deus, de modo que o
visível não foi feito do que se vê" (Hb 11:3).
Em sentido estrito, "criar" é, segundo a Igreja
Primitiva, "produzir do nada", isto é, trazer à existência algo que
não preexistia. Portanto, "criar" significa "produzir o
ser". Os homens podem "fazer" coisas de um material já
existente, mas só Deus pode criar. A razão humana grita: "Na natureza nada
se cria, nada se perde; tudo se transforma". Segundo Louis Berkhof,
“Criação, no sentido estrito da palavra, é o livre ato de Deus pelo qual ele,
segundo a sua vontade soberana e para sua própria glória, produziu no princípio
todo o universo, visível e invisível, sem o uso de material preexistente, e
assim lhe deu uma existência distinta da sua própria e, ainda assim, dele
dependente.[10]
Criar é o ato pelo qual Deus, como sujeito
e eterna causa, traz à existência o que antes não existia e, para torná-la
existente, não utiliza nenhuma substância preexistente. O universo é uma ideia
divina concretizada pelo próprio Deus. Ou ainda, é a concretização de uma abstração
divina. O universo é o produto da imaginação divina substancializada. Em
sentido estrito, "criar" é, segundo a Igreja Primitiva,
"produzir do nada", isto é, trazer à existência algo que não
preexistia. Portanto, "criar" significa "produzir o ser".
Os homens podem "fazer" coisas de um material já existente, mas só
Deus pode criar. Assim sendo, criação é um ato que a ciência humana não
reconhece e que só pode ser admitido pela fé: "Pela fé entendemos que os
mundos foram criados pela palavra de Deus, de modo que o visível não foi feito
do que se vê" (Hb. 11:3).
1.4. A criação como um ato do Deus trino
A Bíblia diz claramente que Deus “faz
todas as coisas conforme o conselho de sua vontade” (Ef 1.11; Ap 4.11). Antes
da criação nada existia além do Deus trino. Portanto, nenhum fator externo
influenciou a decisão de Deus em decretar e realizar a criação dos céus e da
terra. A criação não foi também uma necessidade
divina, pois o Deus infinito, imutável e perfeito não é movido por
circunstâncias, pois, se assim fosse, estaria limitado e não teria sob seu
controle a regência do universo.
A vontade de Deus é soberana e seus atos
são livres. Os atos de Deus não dependem do conselho de outro ser além dele
mesmo. “Quem guiou o Espírito do Senhor?
... Com quem tomou conselho, para que lhe desse compreensão?” (Is
40.13-14). Não há em Deus dependência;
ele é autoexistente e autossuficiente. A Bíblia confirma que o Deus trino é o
autor da criação. Embora o Pai esteja em destaque na obra da criação, nela é
reconhecida a participação tanto do Filho (Jo 1:1-2; 1Co. 8:6; Cl 1:15-17) como
do Espírito Santo (Gn. 1:2; Jó 26:13; 33:4; Sl. 104:30; Is. 40:12-13).
1.5. A criação como um ato de Deus situado no tempo
Para argumentar sobre esta declaração,
Lacueva assim se expressa:[11]
a) “Deus sempre opera a partir do seu próprio ser, que é
eterno; portanto, o ato de criar tem seu princípio na eternidade de Deus, que
abarca e perpassa todo o tempo”.
b) “Que o mundo foi criado no tempo ou, mais exatamente,
com o tempo, significa que o mundo começou a ser ou seja, teve um primeiro
instante. Ainda que antes e depois indiquem a existência de coisas temporais,
expressões como “antes de suas obras” (Pv 8.22); “antes que o mundo existisse”
(Jo 17.5); “antes da fundação do mundo” (Ef 1.4) nos dão a entender que o mundo
não existiu sempre. Talvez seja melhor pretender dizer o mesmo que é dito em Gn
1.1 – “No princípio”, a ideia-chave é que Deus é o princípio de tudo quanto
existe, e assim entendem também os rabinos judeus”.
c) “A razão humana não pode provar nem refutar que um
mundo que não tivesse princípio nem fim seja possível ou impossível. Mas há de
ter-se em conta algo mui importante: ainda que o mundo houvesse existido
sempre, não deixaria de ser contingente; em outras palavras, um mundo eterno (mais
exatamente: indefinidamente temporal) não teria em si mesmo a razão de seu
existir, dependeria de Deus em todo seu ser durante todo o ilimitado tempo de
sua existência; sempre seria algo criado do nada, pois para isto não é
necessária uma sucessão cronológica, senão uma dependência essencial”.
d) “Sendo a eternidade um só instante que dura sempre,
não um fluir do tempo com um antes e depois, Deus não pôde estar inativo em sua
eternidade, precisamente porque não teve tempo para estar ocioso... não é Deus quem
muda do ócio ao trabalho, da magnitude à pequenez, etc., senão o único que muda
é o término da ação divina: o ser criado, o qual passa do potencial ao atual”.
A Bíblia começa dizendo: "No princípio criou Deus os céus e a
terra". O termo hebraico “b’reshith”
(literalmente, no princípio) é indefinido e, portanto, suscita a questão: no
princípio de que? Não podemos presumir que já houvesse tempo quando Deus criou
o mundo e que, em algum momento desse tempo, ele deu "princípio" à
produção do universo. Agostinho achava mais correto dizer que o mundo foi
criado juntamente com o tempo do que afirmar que foi criado em alguma época do
tempo. O significado mais coerente que se pode dar à expressão hebraica
"b’reshith" é que o mundo teve começo. Compreendendo o sentido de
tempo como sendo o curso da existência,
podemos afirmar que tempo é um intervalo da eternidade ou que eternidade é o
percurso da existência infinita de Deus. Portanto, em algum “momento da
eternidade”, Deus deu início à obra da criação do universo.
1.6. Direção na qual se deve procurar a solução
"A solução só pode estar em obter-se
uma ideia apropriada da relação da eternidade com o tempo" (Orr, Christian
Vew of God and the World, p. 130, citado por Berkhof). A eternidade de Deus não
é um período de tempo indefinidamente prolongado, mas uma coisa essencialmente
diferente, que somos incapazes de conceber. O remoto passado e o mais distante
futuro estão ambos presentes para Deus. Ele age em todas as suas obras como
"O Eterno" e não temos o direito de retratar a criação como um ato de
Deus na esfera temporal. Os atos de Deus são obras realizadas na eternidade.
Os teólogos fazem distinção entre criação
ativa e passiva. A primeira indica a criação como um ato de Deus e a segunda, o
mundo criado, como resultado da criação ativa. A primeira não é caracterizada
como uma sucessão temporal, mas a segunda é. Segundo Wollebins, "a criação
é uma passagem, não do Criador, mas da criatura, da potencialidade para a
realização concreta".[12] A
conclusão a que se pode chegar é a seguinte:
a)
O universo não é
eterno; tem sua origem a partir do ato criador de Deus.
b)
Não foi formado a
partir de alguma preexistência ou substância; foi criado ex nihilo.
c)
A criação não era
necessária, pois Deus tinha a liberdade de criar ou não criar; de criar o
universo tal como ele existe atualmente ou em outra qualquer ordem e sistema,
segundo o beneplácito de sua vontade.
d)
Deus opera sempre
a partir do seu próprio ser, que é eterno. Portanto, o ato de criar tem seu
princípio na eternidade que abarca todo o tempo.
e)
Mundo foi criado
no tempo ou, mais precisamente, com o tempo e seu começo teve um
"instante". Antes desse "instante" existia apenas a
"glória do Eterno" fora das dimensões do tempo (Jo 17:5). Portanto,
Gn 1:1 deve significar que o princípio está situado em Deus, que é a gênese de
tudo quanto existe. Deus originou o tempo e, nesta origem do tempo, criou o
universo.
1.7. A criação como um ato pelo qual algo é produzido do
nada
Na
narrativa da criação, os termos bíblicos usados para designar o ato criador de
Deus são bara', 'asah e yatsar. Mas, dentre esses, o verbo mais importante é o
primeiro, o qual nem sempre significa criar, produzir, pois, às vezes, é usado
com o sentido de fazer, mas sempre está relacionado como ato criador de Deus.
Nunca é usado com relação a qualquer produção humana. As outras duas palavras
'asah = fazer, fabricar, confeccionar e yatsar = formar, modelar com material
preexistente são usadas para descreverem o trabalho do oleiro na modelagem de
vasos de barro.
No
Novo Testamento, são usadas as palavras gregas kitzein (criar – Mc 13:19),
poein = fazer (Mt. 19:4), plassein = formar (Rm 9:20), com o mesmo sentido dos
vocábulos hebraicos. Mas nenhuma destas palavras expressa a ideia de
"criação do nada". A ideia de "criação do nada" é
originária de Gn. 1:1 onde não apresenta Deus usando qualquer material
preexistente. O primeiro capítulo de Gênesis descreve a criação como algo
produzido pela palavra de Deus. Tal ideia é mencionada em Sl. 33:6, 9 e 148:5,
mas é em Hb. 11:3 onde expressamente é dito que o universo foi criado pelo
poder da palavra de Deus. Assim, pela fé aceitamos que o mundo foi criado do
nada.[13]
1.8. Conclusões sobre o conceito teológico de criação
Diante do que já foi exposto até aqui,
concluímos que o conceito de criação é complexo. Portanto, quando falamos em um
conceito teológico de criação, queremos transmitir as seguintes ideias:
a) O ato original da criação divina é singular. Não se
compara com os atos "criadores" dos homens que envolvem modelagem com
o uso de material disponível.
b) Tudo que não é Deus derivou sua existência dele. Isto
significa que não há nem houve uma realidade preexistente à criação e/ou
simultaneamente coexistente com Deus.
c) A ação criadora de Deus foi resultado de uma decisão
livre da vontade soberana de Deus sem que houvesse possibilidade de ter havido
qualquer restrição externa. Deus se apresentou inteiramente independente quando
disse: "Haja luz!" e houve luz.
d) A Trindade operou eficazmente por meio das três
pessoas divinas como coautoras e agentes do decreto e de todo o processo da
criação.
1.9. O propósito da criação
Para entendermos bem este tema do fim ou
objetivo a que Deus se propôs ao criar o mundo, precisamos distinguir
cuidadosamente três classes de fins que a Filosofia distingue da seguinte
maneira: finis qui, ou objetivo final
que se pretende; finis cui, o sujeito
que, no final das contas, se beneficia do objetivo; finis quo, o meio supremo de consecução dos objetivos anteriores.
Aplicando à criação esta tríplice
distinção, concluímos que o fim que Deus pretendeu como objetivo último de sua
obra criadora foi sua glória; o sujeito para quem Deus criou o universo, ou
seja, o beneficiário de sua obra é o homem; e o meio supremo para conseguir
ditos fins é, por parte de Deus, a manifestação de seus atributos de amor,
sabedoria e poder. Aristóteles dividiu as "causas" dos seres em
quatro classes: (1) Material, ou
seja, a matéria da qual se faz algo; (2) Formal,
que é a forma (tanto o desenho como a essência íntima) de uma coisa; (3) Eficiente, ou seja, o agente que produz
algo; (4) Final, isto é, o fim ou
objetivo que o autor se propõe em seu trabalho.
Se aplicarmos à criação estas noções de
"causa", veremos que a causa eficiente da criação é Deus;
enquanto que a causa formal é o plano que Deus tinha em sua mente, como um
desenho de tudo que se propunha produzir. Sendo a criação um "fazer do
nada", não existe nela causa material. A causa final ou objetivo último a
que Deus se propôs ao criar o universo é sua glória. Mas, uma questão precisa
de uma resposta clara: Qual o significado
do termo “glória de Deus”?
A
primeira concepção
que as Escrituras nos dão da glória
divina é expressa pelos Salmos e os Profetas. Quando lemos os Salmos e os
Profetas, nos depararemos com a forte convicção de que a glória de Deus não é
outra coisa senão aquilo que, com exclusividade, Deus ostenta como Soberano
Árbitro dos Mundos e único Salvador, necessário e suficiente, de seus súditos;
como única fonte de beleza, de bem-estar, de liberdade e de felicidade para os
homens.
A glória de Deus consiste, portanto, da
magnitude de todos os seus atributos majestáticos que enaltecem com justo
mérito a grandeza e a perfeição de todo o seu ser. Por isso, Deus não permitirá
que "outros deuses", diante dos quais o homem se prostra, herdem a
"Dignidade" e a "Honra" que só a Ele, como único Deus
verdadeiro e "Supremo Benfeitor" de toda a criação, devem ser atribuídas.
As Escrituras dizem claramente que Deus fez tudo quanto existe para a sua
glória (cf Is 43.7; 60.21; Cl 1.16; Ap 4.11).
Ao ouvir ou ler que Deus criou todas as
coisas "para a sua glória", há quem pensa que Deus é um Grande
Egoísta que necessita de suas obras para sentir-se feliz com a adoração e a
submissão que todos devem prestar-lhe. Ora, por uma parte, o fim último tem que
coincidir com o Supremo Bem e este Supremo Bem não pode encontrar-se fora de
Deus; por outra parte, Deus não pode ser egoísta, porque é infinitamente rico e
feliz em si mesmo; sendo Ele a causa e fonte de todos os bens, não necessita de
nada (At. 17:25).
A
segunda concepção de glória de Deus consiste, portanto, de todo o esplendor
radiante que permeia o ser de Deus. A glória de Deus é o ambiente perfeitamente
puro e santo descrito nas Escrituras como “habitação de Deus”. Esta glória é o
destino da criação. Segundo o apóstolo Paulo, esta glória de Deus é o destino
reservado por Deus ao homem do qual o homem ficou destituído quando pecou.
“Todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus” (Rm 3.23).
Pela fé em Jesus, o homem é regenerado e
restaurado à condição original como destinado à glória divina. Em sua oração
sacerdotal, no capítulo 17 de João, Jesus referiu-se à glória de Deus como algo
que compartilhou com o Pai “antes que o
mundo existisse” (Jo 17.5). Na súplica a Deus em favor dos seus discípulos,
Jesus estabeleceu que a glória de Deus é o destino que ele pretende dar aos
seus discípulos: “Pai, a minha vontade é
que onde eu estou, estejam também comigo os que me deste, para que vejam a
minha glória que me conferiste, porque me amaste antes da fundação do mundo”.
2.
Teorias da criação
2.1. Teoria da criação eterna
Segundo Orígenes e outros filósofos do
passado, Deus tem estado criando desde toda a eternidade, de sorte que o mundo,
apesar de ser uma criatura e de ser dependente, é tão eterno quanto o próprio
Deus. Esta teoria não só é contestada pela Escritura como também é contrária à
razão, pois uma criação desde a eternidade é uma contradição de termos e a ideia
da criação eterna baseia-se na identificação do tempo com a eternidade,
enquanto estes são diferentes.[14]
Segundo Spinoza, Hegel e Green, a
distinção entre tempo e eternidade é puramente subjetiva e se deve à nossa
condição finita. Eles gostariam que nós considerássemos as coisas do ponto de
vista da eternidade e não do tempo. Mas o que existe para a nossa consciência,
como um desenvolvimento no tempo, para a consciência divina existe simplesmente
como um conjunto eternamente completo.
A Bíblia contesta de forma explícita esta
teoria (Gn 1:1; Sl 90:2; 102:25; Jo 1:3). O termo bíblico usado em Gênesis – No princípio – evoca o início da criação
a partir do qual o tempo passa a existir como uma série de momentos
consecutivos. Trata-se de um intervalo limitado que tem começo e fim. As
Escrituras testificam de um fim vindouro
que ocorrerá em um tempo a respeito do qual Jesus se referiu como o “último dia” (Jo 6.39, 40, 44, 54;
11.24; 12.48). Desta forma, o tempo é passageiro
e vai acabar.
Tentando estabelecer uma distinção entre
os conceitos de tempo e eternidade, Grudem afirma: “Quando falamos da
existência de Deus “antes” da criação do mundo, não devemos pensar que Deus
existisse ao longo de uma infindável extensão de tempo. Antes, a eternidade de
Deus implica que ele vive uma espécie diferente de existência, uma existência
sem passagem de tempo, uma espécie de existência que para nós é até difícil de
imaginar”. [15]
2.2. Teoria da evolução teísta
Segundo
Grudem, “essa teoria se chama evolução
teísta porque advoga a crença em Deus (é “teísta”) e também na evolução”.
Alicerçados na teoria de Charles Darwin, disseminada em sua obra intitulada A Origem das Espécies por meio da Seleção
Natural (1859), os seguidores desta corrente de pensamento admitem que os
seres vivos surgiram pelo processo evolutivo, mas que “Deus orientou esse
processo para que o resultado fosse justamente o que ele desejava”. A
intervenção de Deus no processo evolutivo teria sido (1) na criação da matéria
no princípio, (2) na criação da forma mais simples de vida e (3) na criação do
homem”.[16]
Há objeções a essa teoria, mas a principal
delas consiste no fato de que a narrativa bíblica descreve a criação não como
um processo evolutivo no qual cada espécie origina-se de outra, mas que as diversas
espécies existentes foram todas criadas simultaneamente ao mesmo tempo: “Produza a terra seres viventes, conforme a
sua espécie: animais domésticos, répteis e animais selváticos, segundo a sua
espécie” (Gn 1.24). Outrossim, deve-se considerar que a narrativa bíblica a
respeito da criação do homem e da mulher, revoga toda e qualquer possibilidade
de crença em uma evolução dos primatas até a geração da espécie humana. “E formou Deus o homem do pó da terra...”
(Gn 2.7) é a declaração divina registrada na narrativa de Gênesis que anula a
ideia propugnada pela teoria da evolução teísta. Adão e Eva são criação direta
de Deus.
2.3. Teoria dualista
Louis
Berkhof depõe que os seguidores desta teoria concebem a ideia de “dois
princípios autoexistentes: Deus e a matéria, distintos um do outro e, ao mesmo
tempo, co-eternos. Contudo, a matéria original é tida apenas como uma
substância negativa e imperfeita [...], que é subordinada a Deus e instrumento
da Sua vontade [...]. Segundo essa teoria, Deus não é o Criador, mas apenas o
estruturador e artífice do mundo”. [17] Refutando esta teoria, ele apresenta as
seguintes objeções:
a)
“É errônea em sua
ideia fundamental de que era preciso existir alguma substância da qual foi
criado o mundo, desde que ex nihilo nihil fit. Esta máxima só é
verdadeira como expressão da ideia de que nenhum evento tem lugar sem alguma
causa, e é falsa se tem o sentido de afirmar que nada poderia ser feito, a não
ser com o uso de material preexistente. A doutrina da criação não dispensa uma
causa absolutamente suficiente do mundo na vontade soberana de Deus. Sua
descrição da matéria como eterna é fundamentalmente falha. Se a matéria fosse
eterna, teria que ser infinita em todos os sentidos, pois não poderia ser
infinita num aspecto (duração) e finita noutros. Mas é impossível que dois
infinitos ou absolutos coexistam. O absoluto e o relativo podem existir
simultaneamente, mas só pode haver um ser absoluto e autoexistente”.
b)
“É antifilosófico
postular duas substâncias eternas, quando uma só causa autoexistente é
perfeitamente adequada para explicar todos os fatos. Por essa razão a filosofia
não se satisfaz com uma explicação dualista do mundo, mas procura dar uma
interpretação monistas do universo. Se a teoria presume – como faz nalgumas de
suas formas – a existência de um princípio eterno do mal, não há absolutamente
nenhuma garantia de que o bem triunfará sobre o mal no mundo. Ao que parece,
aquilo que é eternamente necessário terá que se manter sempre, e jamais cair”.
2.4. Teoria da emanação
Segundo Berkhof [18],
“esta teoria pretende que o mundo é uma emanação necessária do Ser divino. De
acordo com ela, Deus e o mundo são essencialmente um, sendo este a manifestação
fenomênica daquele. A ideia de emanação é característica de todas as teorias
panteístas, embora nem sempre apresentada da mesma maneira”. Em seguida propõe
as seguintes objeções:
a)
“Este
conceito da origem do mundo virtualmente nega a infinidade e a transcendência
de Deus por aplicar-lhe um princípio de evolução, de crescimento e progresso,
que caracteriza somente o finito e imperfeito; e por identificá-lo com o mundo.
Assim, todos os objetos visíveis vêm a ser apenas modificações transitórias de
uma essência autoexistente, inconsciente e impessoal, que pode ser denominada
Deus, natureza, ou Absoluto”.
b)
“Essa
teoria furta a soberania de Deus, despojando-o do Seu poder de autodeterminação
em relação ao mundo. Fica reduzido à base oculta da qual emanam necessariamente
as criaturas, e que determina o seu movimento mediante uma inflexível
necessidade da natureza. Ao mesmo tempo, priva todas as criaturas racionais da
sua relativa independência, da sua liberdade e do seu caráter moral”.
c)
“Ela
compromete igualmente a santidade de Deus de modo deveras grave. Faz de Deus o
responsável por tudo quanto acontece no mundo, tanto pelo mal como pelo bem.
Esta é, naturalmente, uma gravíssima consequência da teoria, consequência da
qual os panteístas nunca puderam escapar”.
3.
Teorias sobre a
narrativa de Gênesis
Com base na narrativa do livro de Gênesis,
quatro teorias foram formuladas:
LITERALISTA
– Propugnada pelos mais radicais fundamentalistas de todos os tempos. Foi
defendida, quase unicamente por teólogos e exegetas de todas as confissões, até
o século atual, e, todavia, a sustentam teólogos como Berkhof, Kuyper, Bavinck,
etc. Todos eles se apoiam na palavra hebraica "yôm" = dia como se ela
indicasse exclusivamente um período de 24 horas, e a sucessão das distintas
fases da criação houvesse de tomar-se ao pé da letra. Esta teoria não nos
convence nem desde o ponto de vista de uma sã hermenêutica nem desde o ponto de
vista científico.
CONCORDISTA
– Propugnada por muitos exegetas do século atual, tanto judeus como cristãos,
assim como por grande número de cientistas crentes, os quais entendem a palavra
"yôm" como um período indefinido de tempo (um "dia de Deus"
– para quem "mil anos é como o dia que passou") que pode durar
milhares de anos. Esta teoria faz justiça tanto aos princípios de uma sã
hermenêutica como aos resultados mais prováveis da investigação científica,
sendo a preferida por fundamentalistas moderados.
ALEGORISTA
– Defendida pela grande maioria dos teólogos e exegetas católicos modernos e alguns
protestantes, segundo o qual o relato do Gênesis é uma espécie de alegoria,
parábola ou poema épico, onde os atos fundamentais (o monoteísmo – Deus criou
tudo – e a instituição do sábado) são os únicos que o autor sagrado intenta
comunicar, sendo o restante da narrativa do Gênesis uma decoração literária ou
dramatização semelhante às cosmogonias pagãs, ainda que expurgada de erros e
superstições. Esta teoria é tipicamente liberal e não faz justiça aos
princípios da hermenêutica, posto que o relato genesíaco não deixa lugar a
dúvidas de que se trata de uma peça histórica, não poética. Aliás, o resto da
Escritura o considera como tal (Ex. 20:11; Ne 9:6; Sl. 33:6-9; 145:2-6).
MÍTICA
– Também chamada modernista, defendida por todos os incrédulos, assim como por
muitos exegetas protestantes, alguns católicos e, especialmente, por Rudolf
Bultman, segundo os quais "não só os onze primeiros capítulos de Gênesis,
mas também todo o restante do Pentateuco, contém unicamente contos para o
ensino de crianças na Escola Dominical" (Novo Catecismo Holandês).
Trata-se de puros "mitos" (fábulas) que nos trazem uma vaga mensagem
de um Deus sobrenatural. Isto equivale à completa destruição da Palavra de Deus
e não se concebe que alguém possa chamar-se "crente" sustentando esta
teoria.
4.
Considerações
gerais sobre tais teorias
a)
A
Bíblia Sagrada não é um livro de Geologia, nem de Astronomia, nem de Física ou
de Matemática; mas uma História da Salvação. Não é um livro de Ciência, mas de
Fé, uma vez que toda a Bíblia é reconhecida como inspirada por Deus.
b)
Tudo
que é científico, que serve de contexto à esta História da Salvação, está
narrado de uma forma popular, ao alcance de todos, segundo a percepção semita
dos fenômenos e segundo a cosmovisão oriental. É assim que entendemos a
passagem em que se nos diz que Josué mandou o sol deter-se. Não dizem nossos
atuais calendários "o sol sai a tal hora; o sol se põe a tal hora?”.
c)
É
preciso conhecer a mentalidade hebraica para poder entender devidamente a
Bíblia Sagrada e que a inspiração divina se acomoda aos estilos literários e
aos modos de pensar dos hagiógrafos (escritores sagrados), os quais eram todos
hebreus, com a exceção somente de Lucas. Esta mentalidade hebraica era:
concreta, imaginativa, primitiva e inclinada a expressar os fatos ou conceitos
em gestos. Se se desconhece a mentalidade hebraica, perde-se de vista que o
léxico e a temática do Novo Testamento estão imersos nos conceitos do Antigo
Testamento e os vocábulos: salvação, verdade, justiça, graça, fé, vida, caminho,
etc., perdem seu verdadeiro sentido ao serem entendidos de acordo com as
categorias do pensamento greco-romano.
5.
A criação do mundo
visível - o relato mosaico da criação
De
acordo com o primeiro versículo da Bíblia, podemos afirmar que o universo não é
eterno nem formado a partir de coisas já existentes, mas resultou do ato
criativo imediato de Deus. "Céus e terra", são criação imediata de
Deus. Eles são produto da Força Geradora inerente ao Deus Eterno e
Todo-Poderoso. Os dois primeiros capítulos de Gênesis registram a ação de Deus
na criação do universo sendo realizada em etapas durante as quais surgiram duas
categorias de criação: a imediata e a
mediata. Criação imediata é tudo que veio a existir a partir do nada. A Criação mediata deriva sua existência da
anterior. O versículo 2 nos faz ver os seguintes fatos:
a)
“A terra era sem
forma e vazia" revela
um estado imperfeito ou ainda um estágio que certamente caracteriza um processo
e uma continuidade. "Era sem forma" descreve apenas a situação
anterior que difere da atual. "Vazia" deve significar destituída de
vida, deserta, desolada. A essa altura da atividade de Deus, a terra não estava
definitivamente formada e ainda estava desabitada. Deus precisava dar-lhe forma
e condições de habitação das criaturas que ainda estavam por vir a existir.
b)
"O Espírito de Deus pairava
sobre as águas". A Bíblia de Jerusalém traduz “... e um vento de Deus
pairava”. A TEB traduz “... o sopro de Deus pairava”. O verbo hebraico
“rachaph” traduzido como "pairava", literalmente, pode ser traduzido
como “relaxava” ou "chocava" (como as aves fazem com os ovos para
nascerem os filhotes). Este verbo só é conjugado no piel (imperfeito) e aparece
pela segunda e última vez em Dt 32.11 significando “pousar”. Compare com Is. 31.5;
Sl. 91.4. A ideia, portanto, é que o Espírito de Deus ou, literalmente, um
vento (atmosfera?) por algum período “pousava” sobre as águas, criando as
condições para a geração da vida dos seres que ainda estavam por serem criados.
A terra precisou do sopro de Deus para que a vida nela fosse formada. O mesmo
ruach foi soprado por Deus no homem (Gn 2.7) e ele se tornou nephesh (alma
vivente).
A
criação mediata constitui-se, com exceção do homem, de tudo aquilo que não é
"céus e terra". A vida animal e a vida vegetal foram criadas a partir
da criação imediata. Deus, ao ordenar "produza a terra relva, ervas...,
árvores" (vv. 11-12), fez que a vida vegetal fosse produzida pela própria
terra da qual todo vegetal sobrevive até hoje. Semelhantemente toda a vida animal
foi produzida pela terra e as águas das quais dependem para continuarem vivos
(v. 20-25). Mas a criação do homem não seguiu a este padrão. Embora Deus tenha
modelado o homem do pó da terra, seu espírito não procede de nenhum elemento da
criação imediata, mas tem procedência direta de Deus, do “sopro” divino (Gn
2.7). Eis a razão pela qual o homem não pode ser considerado (tal como os
animais) parte da criação mediata.
6.
Teorias a respeito dos dias da criação
Ao
longo dos séculos os teólogos cristãos, interpretando o livro de Gênesis, têm
se posicionado sobre esta questão por diversas formas. “Uma primeira opção é a
de que todas as coisas foram criadas num momento único e indivisível, e os dias
da criação são estágios da revelação ou estágios do conhecimento da revelação”.[19]
Este é o posicionamento de Orígenes, o qual rejeitava uma interpretação
literal dos dias da criação. Agostinho partiu da premissa de que Deus “criou
todas as coisas num momento de tempo, e que a ideia de dias foi simplesmente
introduzida para auxiliar a inteligência finita”.[20]
A
segunda ideia é a denominada teoria da criação recente. Os adeptos desta
concepção propugnam que “o universo foi criado plenamente desenvolvido e,
portanto, com aparência de antiguidade, em seis dias de 24 horas, entre 6 a 20
mil anos atrás”. [21]
Pensavam desta forma Ambrósio (século IV) e os reformadores (século XVI).
A
terceira opção que teve destaque é a teoria do intervalo ou lacuna. Os
defensores desta concepção propugnam a ideia da existência de um intervalo
entre os dois primeiros versículos da Bíblia. Um intervalo teria surgido, dando
margem à existência de duas criações distintas em sua natureza e tempo.
Franklin Ferreira expõe tal teoria da seguinte forma: “Gênesis 1.1, segundo
essa ideia, fala sobre a criação original do mundo, enquanto 1.2 indicaria a
existência de uma pré-criação, que fora destruída por causa do pecado de
Satanás e dos anjos maus, arruinando a criação original. Depois de milhões de
anos, aproximadamente seis mil anos atrás, Deus refez o mundo e criou Adão e
Eva. Alguns defensores desta posição afirmam que os dinossauros e homens das
cavernas habitaram essa pré-criação”. [22]
A
quarta posição, segundo Franklin Ferreira, “é a tentativa de harmonizar o
Gênesis com a ciência, através de uma teoria que concebe os dias como eras”.[23]
Outras teorias têm surgido e, como consequência disso, as controvérsias têm se
intensificado, principalmente, no que se refere ao conceito etimológico do
termo hebraico “yôm”, usado por Moisés. Há várias interpretações quanto ao
significado desta palavra.
No Velho
Testamento esta palavra pode significar:
a) Um dia de 24
horas, como em Gn. 1:5, 8, 13, 19, 23 31;
b) Pode significar
apenas a parte do dia em que há luz, isto é, a parte que distingue da noite
(Gn. 1:5, 16, 18);
c) Pode significar
também o período equivalente aos seis dias juntos (Gn. 2:4);
d) Pode significar
longos e indefinidos períodos como "O Dia da Calamidade" (Dt. 32:35),
"O Dia da Peleja" (1Sm. 13:22), "O Dia do Furor ou da Ira"
(Jó 21:20), "O Dia da Salvação" (2Co. 6:2) e o "Dia do Senhor"
(Sf 1:7, 14);
e) Muitas vezes, a
palavra "yôm" é traduzida como "tempo" (Gn. 26:8; 38:12;
Dt. 19:6).
Com base nestas interpretações, há duas
correntes teológicas que identificam os dias da criação como sendo dias de
vinte e quatro horas ou eras geológicas. Entre os teólogos que acreditam que os
dias da criação significam eras geológicas encontram-se: Hodge, Shedd, Miley e
Strong. Tais teólogos tendem harmonizar o relato bíblico da criação com as
descobertas e teorias científicas modernas, mas sem base exegética. Levanta-se
a questão se será exegeticamente possível conceber os dias da criação como
longos períodos de tempo. Aplicando os princípios de uma boa exegese, os
defensores da teoria dos seis dias literais, isto é, dias de vinte e quatro
horas afirmam:
a) Em seu significado
primário, a palavra "yôm" denota um dia natural; e é boa regra de
exegese não abandonar o significado primário de uma palavra a menos que isto
seja exigido pelo contexto.
b) O autor de Gênesis
parece ter-nos aprisionado absolutamente na interpretação literal acrescentando
quanto a cada dia as palavras: "houve tarde e manhã". Cada um dos
dias mencionados tem precisamente uma tarde e uma manhã, coisa que dificilmente
se poderia aplicar a um período de mil anos.
c) E se se disser que
os períodos da criação foram dias extraordinários, cada um deles consistindo de
um longo dia e uma longa noite, levantar-se-á naturalmente a questão: Que seria
da vegetação durante a compridíssima noite?
d) Em Ex. 20:9-11
ordena-se a Israel que trabalhe seis dias e descanse no sétimo, porque Yahweh
fez os céus e a terra em seis dias e descansou no sétimo. Uma boa exegese
parece exigir que a palavra "dia" seja tomada no mesmo sentido em
ambos os casos.
7. As implicações da doutrina da criação
a) Tudo que existe
tem valor. Foi criado por Deus e para a glória de Deus.
b) A atividade
criadora de Deus incluiu não só a atividade criadora inicial, mas também suas
obras indiretas posteriores. A criação não impede o desenvolvimento dentro do
mundo; ela o inclui.
c) Há justificativa
para investigar cientificamente a criação. A ciência assume que existe algum
tipo de ordem ou padrão discernível na criação.
d) Nada, exceto Deus,
é autossuficiente ou eterno. Todo objeto e todo ser derivam sua existência
dele. Tudo existe para fazer sua vontade.
CAPÍTULO XI
A PROVIDÊNCIA DE
DEUS
1.
Questionamento necessário
A questão da
providência de Deus, diz Franklin Ferreira, “faz surgir o assunto da
teleologia: a questão do propósito do universo, da natureza da história e do
significado da vida. Será que Deus criou o universo com um propósito
específico? Qual é o seu propósito? Além disso, será que Deus criou o mundo e
resolveu deixá-lo funcionar por conta própria? Como Deus governa o universo que
ele mesmo criou? Qual é a filosofia cristã da história? Quais são as
alternativas propostas pelas várias cosmovisões não cristãs?” [24]
O estudo da
doutrina da providência nos leva a evitar quatro erros comuns na concepção do
relacionamento de Deus com a criação. O primeiro está na concepção do deísmo (Deus criou o mundo, dotando-o de
meios e recursos para autodesenvolver-se sem sua ajuda e abandonou-o à sua
própria sorte). O segundo é o do panteísmo
(a criação não tem existência real e distinta em si mesma; ela faz parte de
Deus). O terceiro consiste na concepção de que os acontecimentos da criação são
determinados pelo acaso (causalidade).
O quarto diz respeito ao determinismo,
segundo o qual os acontecimentos são determinados por um destino impessoal.[25]
2.
Conceito de providência
O conceito bíblico
de providência de Deus considera três princípios:
a)
Uma presciência
eficaz do futuro. Nada pode surpreender Deus.
b)
Um plano geral da
história do mundo e da humanidade definido e executado por Deus.
c)
Um governo
eficaz, contando com todos os meios necessários para levar a cabo
infalivelmente tudo o que Deus tem planejado para que suceda.
Assim sendo, a ideia da providência está
diretamente relacionada à soberania de Deus. Partindo da concepção que temos de
que tanto o universo físico como o espiritual foram criados por Deus, então,
eles existem para um determinado fim que o próprio Deus designou. Portanto,
Deus, no exercício de sua soberania, age direta e indiretamente na história,
conduzindo os fatos ao propósito para o qual criou todas as coisas. Tudo que
existe é preservado e conduzido por Deus para um determinado
fim. Uma vez que Deus é o Senhor de tudo e de todos, nada existe por acaso. A
Bíblia não discute a soberania de Deus; ela declara categoricamente que Deus
reina como soberano, legislador e juiz do universo: 1Cr. 29:11; 2Cr. 20:6; Sl.
24:1; 93:1-2; Dn. 4:35; Rm. 9:14-24; 1Tm. 1:17; 6:15. O exercício da soberania
divina se efetua de três maneiras:
a) Pela preservação,
através da qual Deus mantém em existência tudo que ele criou.
b) Pela providência,
através da qual Deus faz que todos os acontecimentos dos fenômenos físicos,
mentais e morais cumpram os seus eternos desígnios.
c) Pelo governo,
através do qual Deus controla todas as coisas e as dirige, conduzindo-as ao
fim que Ele designou.
O conceito de Providência tem sido
diversificado entre os teólogos. A. H. Strong a define da seguinte forma: “É a
atuação contínua de Deus pela qual ele faz todos os eventos do universo físico
e moral cumprirem o desígnio para o qual ele o criou”.[26]
Erickson é da opinião que “se a criação é a obra geradora de Deus com respeito
ao universo, a providência é seu relacionamento contínuo com esse universo. Por
providência entendemos a ação contínua de Deus pela qual ele preserva a
existência da criação que ele fez surgir e a dirige para os propósitos que
designou para ela”.[27]
Geisler cita o conceito dado por A. A.
Hodge que define providência como sendo “o meio pelo qual Deus continuamente
controla e dirige as ações de todas as criaturas assim preservadas, de forma
que Ele nunca viola a lei da natureza das criaturas, contudo Ele infalivelmente
causa todas as ações e eventos singulares e universais a acontecer de acordo
com o eterno e imutável plano adotado no seu decreto”.[28]
Berkhof exprime a ideia teológica da providência,
com a seguinte declaração:
Embora a
preservação se refira à existência, a concorrência à atividade e
ao governo à direção de todas as coisas, jamais se deve entender isso
num sentido exclusivo. Na preservação há também um elemento de governo, no
governo um elemento de concurso, e no concurso em elemento de preservação. O
panteísmo não distingue entre a criação e a providência, mas o teísmo acentua
uma dupla distinção: (a) A criação é o chamamento à existência daquilo que
antes não existia, enquanto que a providência continua ou faz continuar aquilo
que já foi chamado à existência. (b) na criação não pode haver cooperação da
criatura com o Criador, mas na providência concorrem a Causa primeira e causas
secundárias.[29]
Charles Hodge compreende que “as obras da
providência de Deus são sua preservação e governo santos, sábios e poderosos de
todas as suas criaturas e das ações que elas efetuam. Portanto, a providência
inclui preservação e governo. Por preservação entende-se que todas as coisas,
fora de Deus, devem a continuação de sua existência, com todas as suas
propriedades e poderes, à vontade de Deus. Esta é claramente a doutrina das
Escrituras”.
Segundo Berkhof, “providência significa o permanente
exercício da soberania divina, pelo qual o Criador preserva tudo que foi
criado, opera em tudo que se passa no mundo e conduz todas as coisas para o seu
determinado fim. Esta definição indica que há três elementos na
providência, a saber: a preservação, a concorrência ou cooperação, e o governo. Resumindo, podemos afirmar que a
providência consiste em três ações divinas determinantes: (1) Deus preserva (conservação);
(2) Deus dirige (concurso a um determinando fim); (3) Deus governa
(ordena eficazmente)”.
Strong faz uma
distinção destes conceitos da seguinte forma: “assim como a criação explica a
existência do universo e como a preservação explica sua continuação, assim a
providência explica sua evolução e progresso”.[30] A explicação é esta:
a)
A Providência não deve ser tomada simplesmente no
sentido de prever. É também uma atuação positiva em conexão com todos os
eventos da história.
b)
Deve-se distinguir providência de preservação.
Enquanto a preservação e a manutenção da existência e dos poderes das coisas
criadas, providência e um verdadeiro cuidado e controle delas.
c)
Porque o plano original de Deus e todo abrangente a
providência que executa o plano também o e abarcando em seu escopo coisas
pequenas e grandes e exercendo cuidado sobre indivíduos assim como sobre
classes.
d)
Com relação aos atos bons dos homens, a providência
abrange todas as influências naturais da hereditariedade e do meio que preparam
o homem para a operação da palavra de Deus e do Espirito e que constituem
motivos para a obediência.
e)
Com relação aos atos maus dos homens, a providência
nunca e causa eficiente do pecado, obstante, permissiva, diretiva e
determinativa.
f)
Porque Cristo e o único revelador de Deus e o
mediador de toda a atividade divina a providência deve ser considerada a obra
de Cristo; ver 1Co 8.6 - “um só Senhor, Jesus Cristo, por quem são todas as
coisas”; c/Joao 5.17 - “meu Pai trabalha até agora e eu trabalho também”.
3.
A finalidade da providência divina
A providência de Deus é a execução dos
seus decretos. Desta forma, tudo que ocorre concorre para a consumação do propósito
de Deus. No exercício da providência, Deus tem em vista: (a) o bem-estar do
homem (Mt. 5:45; At. 14:17), principalmente dos remidos (Rm. 8:28); (b) a
salvação e preparação de um povo para ser dele (Ex. 19:5-6; Tt 2:14; 1Pe. 2:9;
Ap. 5:9, 10).
4.
A extensão da providência de Deus
A providência
abrange duas dimensões: A providência geral que se refere à superintendência de
Deus no fluxo geral dos acontecimentos, e a providência particular (ou
especial) que se relaciona à sua superintendência em cada coisa. Estas duas
estão relacionadas e são inseparáveis.
Norman
Geisler compreende que “o fato de que a providência de Deus para a criação é
particular, e não apenas geral, é enfatizado pelo seguinte: (1) Deus não pode
controlar o geral sem controlar o particular. (2) O amor de Deus pelo geral
provoca interesse pelo menor detalhe que afete o geral. (3) A Bíblia confirma a
providência particular: Jó 23.10; 2 Coríntios 2.14; Efésios 3.1”.
5.
A ação providencial divina
5.1.
A preservação do universo
Strong define preservação nos seguintes
termos: “É a atuação contínua pela qual Deus conserva existentes as coisas que
ele criou, bem como as propriedades e forças de que as dotou. Como na doutrina
da criação tentamos explicar a existência do universo, assim na doutrina da Preservação
tentamos explicar sua continuação”.[31]
Ele prossegue explicando que:
a)
Preservação não é
criação, pois a preservação pressupõe a criação. O que se preserva deve existir
e isto pelo ato criador de Deus.
b)
Preservação não é
simples negação da ação ou impedimento de destruição da parte de Deus. É uma
atuação positiva pela qual, a cada momento, ele sustenta as pessoas e dá forças
ao universo.
c)
Preservação
implica um concurso natural de Deus em todas operações da matéria e da mente.
Apesar de que os seres pessoais existem e de que a vontade de Deus não é a
única força, ainda é verdade que, sem seu concurso, nenhuma pessoa e nenhuma
força podem continuar a existir ou a agir. Deus preserva todas as coisas
criadas. Na preservação do universo, tanto o visível como o invisível, Deus age
manifestando seus eternos cuidados para com duas categorias de seres
componentes de toda a criação. [32]
As passagens relacionadas a este tema
estão classificadas em diversos aspectos. (1) Passagens que declaram, em termos
gerais, que Deus sustenta todas as coisas pela palavra de seu poder, como Hb
1.3 e Cl 1.17, onde lemos que “nele, tudo subsiste” ou continua existindo (cf
Ne 9.6). (2) Passagens que se referem às operações regulares ou poderes da
natureza, a respeito das quais lemos que são preservadas em sua eficiência pelo
poder de Deus (Salmos 104 e 148). (3) Passagens que se relacionam com animais
irracionais a respeito dos quais lemos que vivem, se movem e têm seu ser da
parte de Deus (Sl 104.10-12).
Hodge presume que tais passagens ensinam
claramente:
a)
Que o universo
como um todo não continua em existência por si mesmo. Ele deixaria de existir
se não fosse sustentado pelo poder de Deus.
b)
Que todas as
criaturas, quer se trate de plantas ou de animais, em seus diversos gêneros,
espécies e indivíduos, continuam existindo não por algum princípio vital
inerente, mas pela vontade de Deus.
c)
Que essa
preservação se estende não só à substância, mas também à forma; não só à
essência, mas também às qualidades, propriedades e faculdades de todas as
coisas criadas.[33]
5.2.
A Escritura prova a doutrina da preservação [34]
Em numerosas
passagens da Escritura a preservação distingue-se da criação. Apesar de que
Deus descansou da obra da criação e estabeleceu uma ordem das forças naturais,
declara-se que uma atividade divina especial e contínua se exerce no sustento
do universo e de suas forças. Ademais, declara-se que esta atividade divina é a
de Cristo; como ele é o agente mediador na criação, assim também o é na
preservação (Ne 9.6; Jó 7.20; Sl 36.6; Sl 104.29-30; Cl 1.17; Hb 1.2-3).
5.3. A razão
prova a doutrina da preservação
Podemos argumentar
a atuação preservadora de Deus com as seguintes considerações:
a) A matéria e a mente não são autoexistentes. Porque
elas não têm a causa do seu ser em si mesmas sua continuação bem como sua
origem podem dever-se a um poder superior. Dorner, Glaubenslehre: “Se o mundo fosse autoexistente, seria um
Deus e nenhuma religião seria possível. O mundo e receptivo a novas criações;
mas estas, uma vez introduzidas, estão sujeitas, como as demais, a lei da
preservação” - i.e. dependem
da existência continua de Deus.
b) Força implica em uma vontade da qual é a expressão
direta ou indireta. Conhecemos a força somente através do exercício da nossa
vontade. Porque a vontade é a causa única da qual temos conhecimento direto; as
causas secundarias na natureza são consideradas apenas como obras secundarias,
regulares e automáticas da grande primeira Causa.
c) A soberania de Deus requer uma crença na sua atuação
preservadora especial; porque esta soberania não seria absoluta se algo
ocorresse ou existisse independente de sua vontade.
6.
A concorrência [35]
6.1. Definição e explicação
Pode-se definir a concorrência como a
cooperação do poder divino com todos os poderes subordinados, em harmonia com
as leis pré-estabelecidas de sua operação, fazendo-os agir precisamente como
agem. Alguns tendem a limitar a operação da concorrência, no que se refere ao
homem, às ações humanas moralmente boas e, portanto, recomendáveis; outros,
mais logicamente, estendem-na ações de toda sorte. Deve-se notar logo de início
que esta doutrina implica duas coisas:
a) Que as forças da natureza não agem por si mesmas, isto
é, simplesmente por seu próprio poder inerente, mas Deus exerce operação
imediata em cada ato da criatura. Deve-se sustentar esta verdade em oposição à
posição deísta.
b) Que as causas secundárias são reais, e não devem ser
consideradas apenas como o poder operativo e Deus.
É só com a condição de que as causas
secundárias sejam reais que podemos falar com propriedade de uma concorrência
ou cooperação da Causa Primeira com as causas secundárias. Deve-se dar ênfase a
isto, contra a ideia panteísta de que Deus é o único agente em ação no mundo.
6.2. Prova bíblica da concorrência divina
A Bíblia ensina claramente que a
providência de Deus pertence, não somente à existência, mas também às ações ou
operações da criatura. A verdade geral de que os homens não agem
independentemente, mas são governados pela vontade de Deus, transparece em
diversas passagens da Escritura. Em Gn 45.5 diz José que foi Deus, e não seus
irmãos, que o enviara para o Egito. Em Ex. 4.11, 12 diz o Senhor que Ele será
com a boca de Moisés e lhe ensinará o que dizer; e em Js 11.6 Ele dá a Josué a
certeza de que o livrará dos inimigos de Israel. Provérbios 21.1 ensina-nos que
“assim é o coração do rei na mão do Senhor; este segundo o seu quere, o
inclina”; e Esdras 6.22, que o Senhor tinha mudado “o coração do rei da
Assíria” para com Israel. Em Dt 8.18 traz-se à memória de Israel o fato de que
foi Jeová que lhe deu capacidade para conseguir riqueza.
Mais particularmente, a escritura
evidencia também que há uma espécie de cooperação divina naquilo que é mau.
Conforme 2Sm 16.11, Jeová mandou Simei amaldiçoar a Davi. Também o Senhor chama
à Assíria “cetro da minha ira”, e diz: “A vara em sua mão é o instrumento do
meu furor”, Is 10.5. Além disso, Ele pôs um espírito mentiroso na boca dos profetas
de Acabe, 1Rs 22.20-23.
Strong expressa a ideia da concorrência
como uma parceria entre Deus e o
homem. Duas observações são feitas por ele sobre essa ideia de parceria. A
primeira é que “a eficácia divina interpenetra a do homem sem destruí-la ou
absorvê-la. O influxo da energia sustentadora de Deus é tal que os homens retêm
suas faculdades e poderes. Deus não opera tudo, mas em todos”. A segunda é que
“apesar de que Deus preserva a mente e o corpo na obra deles, devemos lembrar
sempre que Deus concorre com os atos maus de suas criaturas somente quando são
atos naturais e não quando são um mal”.[36]
6.3. Características da concorrência divina
Berkhof apresenta três aspectos da
concorrência:
1)
A concorrência
divina é “prévia e predeterminante, não num sentido temporal, mas, sim, num
sentido lógico”;
2)
A concorrência divina é simultânea;
3)
A concorrência divina é imediata.[37]
No que se
refere à primeira característica (prévia e predeterminante), Berkhof afirma:
Na
criatura não há nenhum princípio de atividade autônoma à qual simplesmente
juntasse a Sua atividade. Em cada caso, o impulso para a ação e movimento
procede de Deus. Tem que haver uma influência da energia divina antes de poder
agir a criatura. Deve-se notar particularmente que esta influência não termina
na atividade da criatura, mas na criatura mesma. Tudo que há na natureza Deus
faz agir e mover-se na direção de um fim predeterminado. Assim, Deus capacita e
ajuda as Suas criaturas racionais, como causas secundárias, a funcionar, e isso
não apenas dotando-as de energia, de maneira geral, mas dando-lhes energia para
certos atos específicos. Ele opera tudo em todos, 1Co 12.6, e também neste
caso, opera tudo conforme o conselho da sua vontade, Ef 1.11. Ele deu a Israel
a capacidade de obter riqueza, Dt 8.18, e opera nos crentes tanto o querer como
o realizar, segundo a Sua boa vontade, Fp 2.13. Os pelagianos e semipelagianos
de todo tipo geralmente se dispõem a admitir que a criatura não pode agir sem
um influxo do poder divino, mas sustentam que este não é tão específico que
chegue a determinar o caráter da ação de algum modo.[38]
A segunda característica é que ela é simultânea.
Berkhof a expõe da seguinte forma:
Depois de iniciada a atividade da
criatura, a vontade eficaz de Deus terá que acompanhá-la a todo momento, se é
que a referida atividade deva continuar. Não há um só momento em que a criatura
aja independentemente da vontade e do poder de Deus. É só nele que vivemos e nos
movemos e existimos, At 17.28. Esta atividade divina acompanha a acaso do
homem em todo e qualquer ponto, mas sem privar o homem, um ato pelo qual ele é
responsabilizado. Esta concorrência simultânea não redunda numa identificação
da causa prima com a causa secunda num sentido muito real, a
operação é o produto de ambas as causas. O homem é e continua sendo o
verdadeiro sujeito da ação. Bavinck ilustra isto indicando o fato de que a
madeira queima, que somente Deus a faz queimar, mas que formalmente esta queima
não pode ser atribuída a Deus, mas unicamente à madeira como sujeito da ação de
queimar. É evidente que esta ação simultânea não pode ser separada da
concorrência prévia e determinante, mas deve ser distinguida dela. Estritamente
falando, diversamente da concorrência prévia, a ação simultânea termina, não na
criatura, mas em sua atividade. Desde que não termina na criatura, pode, no
abstrato, ser interpretada como não tendo quaisquer suportes éticos. Isto
explica por que alguns teólogos reformados (calvinistas) limitavam a 164
concorrência prévia às boas ações dos homens, e quanto ao restante,
contentavam-se em ensinar uma concordância simultânea.[39]
Em terceiro lugar, a concorrência divina
é, segundo Berkhof, imediata. Para
expor tal ideia, ele assim se expressa: “Em seu governo do mundo, Deus emprega
toda sorte de meios para a consecução dos Seus fins; mas não opera deste modo
na concorrência divina. Quando destruiu com fogo as cidades da planície,
praticou um ato de governo divino sem empregar meios ativos. Mas, ao mesmo
tempo, esse ato constituiu Sua concorrência imediata, pela qual habilitou o
fogo a cair, queimar e destruir. Assim, também Deus opera no homem, dotando-o
de poder, determinando as suas ações e sustentando as suas atividades o tempo
todo”.[40]
7. O governo divino
Deus
tem um propósito um tudo o que faz no mundo e, providencialmente, dirige todas
as coisas ao cumprimento eficaz de seus propósitos. As Escrituras ensinam
claramente o governo providencial de Deus:
a)
Sobre o universo
em geral (Sl 103.19; Dn 4.35; Rm 11.36; 1Co 15.27; Ef 1.11);
b)
Sobre o mundo
físico (Jó 37.5; Sl 104.14; 135.6; Mt 5.45);
c)
Sobre a criação
inferior (Sl 104.21, 28; Mt 6.26; 10.29);
d)
Sobre os negócios
das nações (Jó 12.23; Sl 22.28; 66.7; At 17.26);
e)
Sobre o
nascimento do homem e sua sorte na vida (1Sm 16.1; Sl 139. 16; Is 45.5; Gl
1.15, 16);
f)
Sobre as vitórias
e fracassos que sobrevêm às vidas dos homens (Sl 75.6, 7; Lc 1.52);
g)
Sobre coisas
aparentemente acidentais ou insignificantes (Pv 16.33; Mt 10.30);
h)
Na proteção dos
justos (Sl 4.8; 5.12; 63.8; 121.3; Rm 8.23);
i)
No suprimento das
necessidades do povo de Deus (Gn 22.8, 14; Dt 8.3; Fp 4.19);
j)
Nas respostas à
oração (1Sm 1.19; Is 20.5, 6; 2 Cr 33.13; Sl 65.2; Mt 7.7; Lc 18.7, 8); (k) No
desmascaramento e castigo dos ímpios (Sl 7.12, 13; 11.6).
7.1. A natureza do governo divino [41]
Podemos
definir o governo divino como a contínua atividade de Deus pela qual Ele rege
todas as coisas direcionando-as de tal forma que garanta a realização do seu
eterno desígnio. Deus governa como Rei do Universo; ele é o Supremo Árbitro de
toda a criação visível e invisível. Toda a Escritura – ambos os testamentos –
ensina a realeza divina.
Segundo Berkhof, “é um governo adaptado à
natureza das criaturas que Ele governa”. Ele comenta que “no mundo
físico Ele estabeleceu as leis da natureza, e é por meio dessas leis que Ele
exerce o governo do universo físico. No mundo mental Ele exerce o Seu governo
mediatamente, por meio das propriedades e leis da mente, e imediatamente, pela
direta operação do Espírito Santo. No governo e domínio dos agentes morais Ele
faz uso de toda classe de influência moral, como as circunstâncias, os motivos,
a instrução, a persuasão e o exemplo, mas também age diretamente, pela operação
pessoal do Espírito Santo no intelecto, na vontade e no coração”.[42]
7.1.1. Governo de Deus como rei do universo [43]
Nos dias presentes muitos consideram a
ideia de Deus como Rei uma noção antiquada do Velho Testamento, e a querem
substituir pela ideia neotestamentária de Deus como Pai. A ideia da soberania
divina deve dar lugar à do amor divino. Julgar-se que esta se harmoniza com a
ideia progressiva de Deus na Escritura. Mas é um erro pensar que a revelação
divina, conforme se eleva a níveis mais altos, tenciona fazer com que nos
desapeguemos aos poucos da ideia de Deus como de Deus como Rei e a substituamos
pela ideia de Deus como Pai.
Já vai contra isso a proeminência da ideia
do reino de Deus nos ensinos de Jesus. E se se disser que isto envolve apenas a
ideia de uma especial e limitada realeza de Deus, pode-se replicar que a ideia
da paternidade de Deus nos evangelhos está sujeita às mesmas restrições e
limitações. Jesus não ensina uma paternidade universal de Deus. Além disso, o
Novo Testamento também ensina a realeza universal de Deus em passagens como Mt
11.25; At 17.24; 1Tm 1.17; 6.15; Ap 1.6; 19.6. Ele é igualmente Rei e Pai, e é
a fonte de toda autoridade no céu e na terra, o Rei dos reis e Senhor dos
senhores.
7.1.2. Um governo adaptado à natureza das criaturas que Ele
governa [44]
No mundo físico Ele estabeleceu as leis da
natureza, e é por meio dessas leis que Ele exerce o governo do universo físico.
No mundo mental Ele exerce o Seu governo mediatamente, por meio das
propriedades e leis da mente, e imediatamente, pela direta operação do Espírito
Santo.
No governo e domínio dos agentes morais
Ele faz uso de toda classe de influência moral, como as circunstâncias, os
motivos, a instrução, a persuasão e o exemplo, mas também age diretamente, pela
operação pessoal do Espírito Santo no intelecto, na vontade e no coração.
7.2. A extensão do governo de Deus
A Escritura declara explicitamente que
este governo divino é universal, Sl 22.28, 29; 103.17-19; Dn 4.34, 35; 1Tm
6.15. É realmente a execução do Seu propósito eterno, abrangendo todas as Suas
obras, desde o princípio, tudo que foi, é e será para sempre. Mas, embora
geral, desce também a particularidades.
As coisas de maior significação, Mt
10.29-31, aquilo que é aparentemente acidental, Pv 16.33, as boas ações dos
homens, Fp 2.13, como também as suas más ações, At 14.16 – tudo está sob o
governo e direção de Deus. Deus é o Rei de Israel, Is 33.22, mas Ele também
domina entre as nações, Sl 47.9. Nada pode escapar ao Seu governo.
7.3. A providência extraordinária de Deus – milagres
Ainda
que tudo que aconteceu no mundo, por mui maravilhoso, estranho ou milagroso que
pareça, exija de Deus o mesmo empenho de energia, posto que seu poder, sua
sabedoria e seu amor são infinitos e não requerem de Deus um maior ou menor esforço,
precisamos distinguir o “ordinário” do “extraordinário”, pela distinta
impressão que causa em nós. O olho do crente instruído e observador pode ver
maravilhas em um cristal de neve ou em qualquer órgão do seu próprio corpo que
funciona misteriosamente; mas tal não é considerado extraordinário, porque é
comum e obedece às leis da natureza. Só podemos reconhecer como milagre
(extraordinário) um feito sensível, realizado por Deus, sem explicação possível
segundo o curso normal das leis naturais.
7.4. A possibilidade e o objetivo do milagre
Uma
vez que Deus é onipotente, poderíamos afirmar a priori que os milagres são
possíveis, porque para Deus nada é impossível (Gn. 18:14; Lc. 1:37). Os
incrédulos arguem que o milagre supõe uma violação das leis naturais. Tal
argumento está errado, pois Deus, ao operar o milagre, não viola uma lei
física, mas suspende por um momento o efeito habitual de seu funcionamento,
pelo que não há razão para desconfiar da regularidade de ditas leis, sendo os
milagres exceções de tal regra. Berkhof prefere, ao falar do milagre, o
conceito de um feito natural, ou de “superação” do modo normal de operar, em
virtude de um poder superior.
7.5. A natureza e propósito dos milagres
Strong define milagre nos seguintes
termos: “Milagre é um evento perceptível aos sentidos, produzido com um
propósito religioso pela atuação imediata de Deus; portanto, um evento que,
apesar de não contrariar qualquer lei da natureza, se plenamente conhecida, não
se explica sem a atuação direta de Deus”.[45]
Este conceito, diz Strong, desfaz os conceitos errôneos que se têm levantados,
dentre os quais, eis alguns:
a) Milagre não é a
suspensão ou violação de uma lei natural; porque a lei natural está em operação
na época em que ocorre o milagre como anteriormente.
b) Não é um produto
súbito de agentes naturais - simplesmente previstos por aquele que o opera; é o
efeito de uma vontade exterior à natureza.
c) Não é um evento
sem causa; porque tem sua causa direta na volição de Deus.
d) Não é um ato
irracional ou caprichoso de Deus; mas um ato de sabedoria realizado segundo as
leis imutáveis de seu ser de modo que, nas mesmas circunstâncias, segue-se o
mesmo curso.
e) Não é contrário à
experiência; porque não é contrário à experiência de uma nova causa seguida de
um novo efeito.
f) Não é matéria de
experiência interior como a regeneração e a iluminação; mas um evento
perceptível aos sentidos e que em tudo pode servir como prova objetiva de que o
seu operador é divinamente comissionado como mestre religioso.[46]
Strong depõe que
“a definição acima tem a intenção simplesmente de referir-se aos milagres da
Bíblia, ou, em outras palavras, aos eventos que professam atestar uma revelação
divina contida nas Escrituras. O Novo Testamento designa estes eventos de uma
dupla forma, focalizando-os, quer subjetivamente, produzindo efeitos sobre os
homens, quer objetivamente, revelando o poder e a sabedoria de Deus. Naquele
primeiro aspecto eles são chamados “tepata”, ‘maravilhas’, e “shmeia” ‘sinais’, (Joao 4.48; At. 2.22). Neste segundo, são chamados dunameiV, ‘poderes’ e “erga” ‘obras’ (Mt 7.22; Jo 14.11)”.
Um segundo
conceito – “definição alternativa e preferível” – é apresentado por Strong como
segue: “Milagre é um evento na natureza em si mesmo tão extraordinário e tão
coincidente com a profecia ou a determinação de um mestre religioso ou um líder
que garante plenamente a convicção da parte dos que o testemunham que Deus o
operou com o desígnio de certificar que o mestre ou líder foi comissionado por
ele”. Em sua concepção, esta definição tem algumas marcantes vantagens em
comparação com a anterior:
a) “Reconhece a imanência de
Deus e sua atuação imediata na natureza ao invés de assumir uma antítese entre
as leis da natureza e a vontade de Deus.
b) Considera o milagre
simplesmente como um ato extraordinário do mesmo Deus que já está presente em
todas operações naturais e que está revelando nelas seu plano geral.
c) Sustenta que a lei natural
como método da atividade regular de Deus de modo nenhum exclui os esforços do
seu poder quando estes garantiriam melhor seu propósito na criação.
d) Permite a possibilidade de
que todos os milagres tenham suas explicações naturais e daí em diante sejam
atribuídos a causas naturais enquanto tanto os milagres como suas causas
naturais podem ser apenas nomes da única e mesma vontade de Deus.
e) Harmoniza as reivindicações
tanto da ciência como da religião: da ciência, permitindo quaisquer possíveis
ou prováveis antecedentes físicos do milagre; da religião, sustentando que
estes mesmos antecedentes juntamente com o milagre devem ser interpretados como
sinais da comissão especial de Deus através daquele cujo ensino ou liderança o
milagre se opera”.[47]
Com respeito ao propósito do milagre,
Berkhof é de parecer que...
Pode-se
presumir que os milagres da Escritura não foram realizados arbitrariamente,
mas, sim, com um propósito definido. Não são meras maravilhas e exibições de
poder, destinadas a provocar admiração, mas têm significação revelacional. A
entrada do pecado no mundo torna necessária a intervenção sobrenatural de Deus
no curso dos eventos, para a destruição do pecado e para a renovação da
criação. Foi mediante milagre que Deus nos deu a Sua revelação especial e
verbal na escritura, bem como a Sua revelação suprema e fatual em Jesus Cristo.
Os milagres estão relacionados com a economia da redenção, uma redenção que com
frequência eles prefiguram e simbolizam. Não visam a uma violação, mas, antes,
a uma restauração da obra criadora de Deus.[48]
Os milagres, como temos dito, não
representam uma “exibição” do poder de Deus, mas uma obra divina que tem um
objetivo mui definido. A Bíblia mostra claramente que os milagres estão sempre
inseridos em um contexto de salvação. Jesus Cristo sempre realizava os milagres
“para que se manifestassem as obras de Deus” (Jo. 9:3-4) e estas obras
comportavam as credenciais de Sua Majestade, como aquele que desfaz as obras
que o diabo havia cometido em nossa humanidade doente. Esta foi a resposta de
Jesus aos discípulos de João (Lc. 7:22) como sinal de que nele se cumpria a
profecia de Isaías (Is. 35:5-6; 61:1-3).
7.6. A fé que obra milagres
Em Mc.
9:23 Jesus pronuncia uma frase: “Se
podes! Tudo é possível ao que crê”. E em Mt. 17:20 assegura: “Em verdade
vos digo que, se tiverdes fé como um grão de mostarda, direis a este monte:
passa daqui para acolá, e ele passará. Nada vos será impossível” (cf. Lc.
17:6). Toda a Bíblia, tal como a história de todos os tempos, atesta o poder
onipotente da oração dos homens de fé (cf Gn 18:23-32; Ex. 33:9-14; Mc
16:17-18; Jo 15:16; Rm 8:26-27; Tg 1:5-6; 5:15-18, etc.). Um claro exemplo de
resposta milagrosa à oração eclesial é At. 12:5-19.
8. O mal no mundo governado por Deus
8.1. A realidade
inquietante do mal
Temos
conhecimento de que Deus, em sua natureza, é um ser perfeito, santo, justo e
bom; e que, segundo as Escrituras, ao terminar a obra da criação, Deus “viu
tudo quanto havia feito e eis que era muito bom” (Gn 1.31). Portanto, como
soberano árbitro do universo, Deus controla e dirige o curso da existência de
toda a criação; que ele tem um plano para o universo por todo o tempo e a
eternidade, o qual está executando “segundo o conselho (propósito, desígnio) de
sua vontade” (Ef 1.11).
A
despeito de tudo isso, uma grande sombra recai sobre a fé cristã: a realidade
inevitável e ameaçadora do mal no mundo. A alma humana inquieta reclama e
indaga: Por que? De onde vem o mal? Como Deus lida com o mal no mundo?
Descrevendo o drama do mal no mundo, Erickson assim se expressa: “Pois se Deus
é grande, ele pode evitar que o mal ocorra. Se Deus é bom, ele não deve desejar
que o mal ocorra”.[49]
Ao
ensinar seus discípulos a orarem, Jesus propôs que eles rogassem ao Pai: “Não
nos deixes cair em tentação, mas livra-nos do mal, porque teu é o reino, o
poder e a glória para sempre” (Mt 6.13). A primeira impressão que se tem aqui é
que o mal é algo sinistro do qual os santos temem tornar-se vítimas e que
somente Deus, em sua soberania, pode agir em defesa e segurança dos que nele se
refugiam. O problema do mal é conflitante e envolve dois conceitos teológicos:
o poder soberano de Deus e a bondade de Deus.
Com
respeito ao problema do mal, Millard Erickson é partidário da ideia de que o
mal é um efeito secundário da criação da humanidade em virtude do livre
arbítrio. Ele assevera que “Se Deus tivesse evitado o mal, teria de nos fazer
diferentes do que somos. Para sermos realmente humanos, precisamos ter a
capacidade de desejar ter e fazer coisas das quais algumas não serão as que
Deus deseja que tenhamos ou façamos. O mal, portanto, era um complemento
necessário do bom plano de Deus para nos fazer plenamente humanos”. Avaliando
as concepções que temos de bem e mal, Erickson opina:
O
bem não deve ser definido como de acordo com o que traz prazer pessoal para os
homens de forma direta. O bem deve ser definido em relação com a vontade e a
natureza de Deus. O bem é o que o glorifica, cumpre sua vontade, está de acordo
com sua natureza. A promessa de Romanos 8.28 é às vezes citada de forma um
tanto impensada pelos cristãos: ‘Sabemos que todas as coisas concorrem para o
bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu
propósito’. Mas que bem é esse? Paulo nos responde no versículo 29: ‘Portanto
aos que de antemão conheceu, também predestinou para serem conformes à imagem
de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos’. Isto,
portanto, é o bem: não a riqueza ou a saúde pessoal, mas ser conforme a imagem
do Filho de Deus. Não é o conforto a curto prazo, mas o bem-estar a longo prazo
para a humanidade, segundo o que é determinado pelo conhecimento e pela
sabedoria de Deus.[50]
8.2. O governo soberano de Deus sobre maus e bons
Como governante supremo do universo, Deus,
pela sua providência, age no sentido de fazer cumprir sua vontade soberana e
realizar os seus eternos desígnios. O governo
providencial consiste em que os planos divinos são executados de maneira
tal que a criação inteira funcione de acordo com a programação da providência
de Deus, para a glória do seu santo nome. Deus exerce seu governo como Rei e
Senhor de todos, tanto bons como maus e como Pai dos seus filhos.
Para o alcance dos seus desígnios, Deus
age nos seres humanos pela inspiração do seu Espírito influindo na formação da
mentalidade e na dinâmica biopsíquica da motivação (cf. Gn 50.20; Ex 4.21; 2Cr
10.15; 2Cr 25.20; Lc 15.15-20; Rm 8.28; 2Co 3.5; Fp 2.13). Deus dirige o curso
da história e, para isso, ele usa pessoas para executar seus planos.
8.3. A origem do mal
As
Escrituras declaram que o mundo criado por Deus tinha em si a essência do bem
(Gn 1.10, 18, 21, 25, 31) e testificam que todos os atos de Deus são justos e
seus juízos são verdadeiros (Dt 32.4; Sl 19.9; Ap 15.3; Ap 16.7). Portanto,
qual a origem do mal? Considerando que a vontade de Deus é boa e agradável (Rm
12.2); que Deus nunca age em contrário à santidade e à perfeição da natureza
imutável de seu ser; que Deus jamais pode desejar o mal nem mesmo ser tentado a
realizá-lo (Tg 1.13); e que Ele é reconhecido como fonte de todo bem (Tg 1.17),
a conclusão imediata a que se pode chegar é que Deus jamais pode ser
responsabilizado pela agência do mal. A única alternativa viável para explicar
a origem do mal consiste em admiti-lo como produto da imperfeição originado da
vontade livre das criaturas de Deus. É uma manifestação da subjetividade
própria dos seres imperfeitos.
8.4. A fonte sobrenatural do mal
O mal, em sua essência, consiste em tudo
que se manifesta em contrário à santidade e à bondade divina ou se opõe aos
desígnios e ao beneplácito de Deus. Desta forma, a essência do mal é o pecado.
O pecado é o mal maior, cuja causa primária é a soberba caracterizada como a
ambição pela transcendência dos próprios limites e usurpação da glória de Deus
que os seres angelicais caídos tiveram e por causa dela foram corrompidos em
sua natureza e condenados à perdição eterna. As Escrituras testificam de um
fato indiscutível: a queda dos anjos tendo como causa o pecado manifestado pela
soberba. O mal se originou no céu e não na terra. Algumas passagens confirmam o
fato da queda dos anjos:
a)
2 Pedro 2:4 –
Ora, se Deus não poupou anjos quando
pecaram, antes, precipitando-os no inferno, [inferno; no original, tártaro]
os entregou a abismos de trevas, reservando-os para juízo;
b)
Judas 6 – e a
anjos, os que não guardaram o seu estado
original, mas abandonaram o seu próprio domicílio, ele tem guardado sob
trevas, em algemas eternas, para o juízo do grande Dia;
c)
1 Timóteo 3:6 não
seja neófito, para não suceder que se ensoberbeça
e incorra na condenação do diabo.
Seres humanos que operam como agentes
intencionais do mal são considerados como descendência do maligno. Isto implica
em dizer que o mal também resulta do estado de escravidão do mundo e do homem
dominados pelos poderes do mal. Vejamos algumas passagens:
a)
Atos 26:18 – para
lhes abrires os olhos e os converteres
das trevas para a luz e da potestade de Satanás para Deus, a fim de que
recebam eles remissão de pecados e herança entre os que são santificados pela
fé em mim.
b)
Efésios 2:2-3 –
nos quais andastes outrora, segundo o
curso deste mundo, segundo o príncipe da potestade do ar, do espírito que agora
atua nos filhos da desobediência; entre os quais também todos nós andamos
outrora, segundo as inclinações da nossa carne, fazendo a vontade da carne e
dos pensamentos; e éramos, por natureza, filhos da ira, como também os demais.
c)
Efésios 6:12 –
porque a nossa luta não é contra o sangue e a carne, e sim contra os principados e potestades, contra os dominadores deste mundo
tenebroso, contra as forças espirituais do mal, nas regiões celestes.
d)
1João 3:10 –
Nisto são manifestos os filhos de Deus e os filhos
do diabo: todo aquele que não pratica justiça não procede de Deus, nem
aquele que não ama a seu irmão.
e)
1João 5:19 –
Sabemos que somos de Deus e que o mundo
inteiro jaz no Maligno.
8.5. A fonte natural do mal
Tudo indica que a mesma razão da queda dos
anjos também foi o motivo da queda do homem. Em seu conceito de pecado, Tiago
fala de como ele se manifesta na natureza humana decaída da seguinte forma: “Ninguém, ao ser tentado, diga: Sou tentado por Deus;
porque Deus não pode ser tentado pelo mal e ele mesmo a ninguém tenta. Ao
contrário, cada um é tentado pela sua
própria cobiça, quando está o atrai e seduz. Então, a cobiça, depois de haver
concebido, dá à luz o pecado; e o pecado, uma vez consumado, gera a morte”
(Tg 1.13-15).
Não há
como negar que a fonte mais abundante da qual mal procede é o coração do homem.
As Escrituras nos dizem que o coração do homem é perverso e fonte de todo
pecado que se pratica no mundo (Jr 17.9; Mc 7.21). O mal moral está relacionado
à vontade e à ação humana, é consequência direta da depravação total da raça
por causa do pecado. O conceito de mal não se limita ao pecado. O mal, segundo
as Escrituras, consiste também nas maldições consequentes da queda do homem. A
corrupção é o mal secundário consequente do pecado. Maldições são sentenças do
juízo divino sobre o homem e o mundo. As Escrituras descrevem o mal como estado
de maldição em que o homem e a natureza se encontram como consequência do
pecado humano. Algumas passagens demonstram isso:
a) Gênesis 3:17-19
– E a Adão disse: Visto que atendeste a voz de tua mulher e comeste da árvore
que eu te ordenara não comesses, maldita é a terra por tua causa; em fadigas
obterás dela o sustento durante os dias de tua vida. Ela produzirá também
cardos e abrolhos, e tu comerás a erva do campo. No suor do rosto comerás o teu
pão, até que tornes à terra, pois dela foste formado; porque tu és pó e ao pó
tornarás.
b) Romanos 5:12
– Portanto, assim como por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado,
a morte, assim também a morte passou a todos os homens, porque todos pecaram.
c) Romanos 6:23
– porque o salário do pecado é a morte, mas o dom gratuito de Deus é a vida
eterna em Cristo Jesus, nosso Senhor.
d) Romanos 8:21
– na esperança de que a própria criação será redimida do cativeiro da
corrupção, para a liberdade da glória dos filhos de Deus.
8.6. O mal permitido por Deus
Deus permite o mal por algumas razões:
a)
Porque o mal é
produto da natureza decaída do homem que Deus ama e pretende resgatar. Embora
Deus abomine o pecado, ele ama o pecador e não o aniquila porque seu propósito
não é “destruir as almas dos homens e sim, salvá-las” (Lc 9.56).
b)
Porque o mal é
consequência do livre-arbítrio com o qual Deus dotou o homem. Ele o permite,
mas julga o responsável (Gn 2.16-17; Gn 4.7-11; Rm 1.24-27; Rm 2.1-12).
c)
Porque a presença
do mal no mundo é uma forma pela qual Deus aperfeiçoa seus filhos (Mt 5.11; Rm
12.21; Lc 6.27, 35; 1Pe 1.22).
d)
Porque o mal,
como tribulação na vida dos crentes, serve para o fortalecimento da fé (Rm
5.1-4; At 14.22).
e)
Porque males
praticados por homens podem ser aproveitados por Deus para o alcance dos seus
propósitos (Gn 50.20; Gn 45.5-8).
f)
Porque o mal é
utilizado por Deus para disciplina dos seus filhos (Is 10.5-6; Jr 6.19; Jr
11.11; 1Co 11.30-32; 2Co 12.7).
9. O juízo de Deus e a erradicação do mal
Todo
mal e todo aquele que o pratica sofrerá as penas do justo juízo de Deus. O
propósito de Deus para com a humanidade é abençoar todas as famílias da terra
(Gn 12.3; Gn 28.14) e, para isso, terá que erradicar o mal da criação e remover
toda maldição que predominou no mundo presente (Ap 21.4). Tanto o mal de modo
geral quanto os seus agentes serão removidos do reino divino, como está
expresso na parábola do joio e do trigo (Mt 13.24-43). Já na era presente, os
homens estão recebendo justa punição (Rm 1.24-27).
Salvação, mais que libertação do poder do
pecado, da morte e do diabo, consiste em uma regeneração completa da criação
que começa com o homem (2Co 5.17-18). A
morte, o diabo e os ímpios haverão de ser excluídos para todo o sempre (Ap
21.8) do “novo céu e da nova terra” nos quais habita a justiça (Is 51.16; Is
65.17; Is 66.22; 2Pe 3.13; Ap 21.1-5).
CAPÍTULO XII
ANGELOLOGIA
1. Introdução
A Angelologia é o ramo da Teologia
Sistemática que estuda os seres espirituais criados por Deus, chamados anjos no
que concerne à sua origem, natureza, classificação, atuação, queda e destino
final. O termo deriva do grego angelos ("mensageiro") e logos
("estudo", "tratado"), cujo significado literal é "o estudo dos mensageiros divinos".
Em hebraico, mal’akhim é o
termo usado para designar não somente os anjos, mas também mensageiros humanos,
sacerdotes ou profetas, destacando sempre a função de mediação da vontade de
Deus.
O conteúdo exegético dessa doutrina
fundamenta-se no testemunho bíblico com cerca de 108 referências no Antigo
Testamento e 165 no Novo. Dentre estas, a mais explícita é uma citação de
Paulo: “pois nele [em Cristo] foram criadas todas
as coisas, nos céus e na terra, as visíveis e as invisíveis, sejam tronos,
sejam dominações, sejam principados, sejam potestades; tudo foi criado por ele
e para ele” (Cl 1:16). O estudo da angelologia tem como
ponto de partida alguns pressupostos conceptuais sobre os anjos:
a) Anjos são seres
reais, criados por Deus, e não meras figuras simbólicas ou mitológicas. Não são
eternos nem divinos. Foram criados por Deus antes da criação da humanidade para
cumprir a vontade soberana divina.
b) Anjos são seres
dotados de essência espiritual, isto é, não possuem corpo material por
natureza, embora possam assumir formas visíveis quando Deus assim permite.
Possuem identidade pessoal, inteligência, vontade e capacidade de tomar
decisões.
c) Anjos não são
forças impessoais, mas seres inteligentes que, por terem personalidade, são
dotados de liberdade moral (livre-arbítrio). Alguns permaneceram fiéis a Deus
(anjos santos), enquanto outros se rebelaram, tornando-se anjos caídos ou
demônios.
A
tradição cristã admite uma organização hierárquica entre os anjos (ou ordens de
categorias específicas). A classificação mais conhecida é a de nove coros
angelicais, proposta por Pseudo-Dionísio, o Areopagita: Serafins, Querubins,
Tronos, Dominações, Virtudes, Potestades, Principados, Arcanjos, Anjos.
Independente da categoria à qual tais anjos pertencem, as funções que lhes
foram atribuídas consistem em glorificar a Deus, executar a vontade soberana
divina, servir como mensageiros, protetores e ministros em favor da humanidade.
Eles podem atuar na história da salvação, transmitindo mensagens divinas,
protegendo pessoas, fortalecendo os fiéis e participando da execução dos
desígnios de Deus, mas não são objetos de adoração. Toda autoridade e poder que
possuem lhes são concedidos por Deus, a quem permanecem plenamente
subordinados.
2. A necessidade de estudarmos angelologia
Angelologia não chega a ser uma ciência em
si mesma, mas é uma secção da teologia que estuda e formula a doutrina bíblica
dos anjos. É uma das doutrinas menos divulgada não somente nas igrejas, mas
também nas instituições teológicas. O que justifica estudarmos angelologia? Há
várias razões que justificam o estudo da angelologia:
a)
Compreensão integral da Bíblia: Os anjos são mencionados mais de 300 vezes ao longo
das Escrituras. Eles atuam em momentos cruciais da história da salvação, como
no nascimento, na ressurreição e no retorno de Cristo. Ignorar essa doutrina
cria lacunas na interpretação do texto bíblico.
b)
Proteção contra equívocos e superstições: O estudo doutrinário evita dois extremos perigosos:
o racionalismo (que nega a realidade do mundo espiritual) e o misticismo (que
busca contato direto, cultua ou idolatra anjos, prática expressamente proibida
na teologia cristã).
c)
Discernimento na guerra espiritual: Compreender a origem, a queda e os limites das
forças espirituais malignas (anjos caídos) permite identificar o engano moral e
doutrinário sem cair no medo paralisante ou em especulações infundadas.
d)
Exemplo de obediência e adoração: Os anjos fiéis executam as ordens de Deus de forma
imediata, perfeita e humilde. O serviço deles serve de modelo prático de
submissão e louvor ao Criador.
e)
Reconhecimento da providência de Deus: A doutrina revela como Deus usa Suas criaturas
celestiais como "espíritos ministradores" enviados para servir e
proteger aqueles que herdarão a salvação, fortalecendo a confiança dos fiéis no
cuidado divino.
3. A existência dos anjos
A
existência dos anjos não é uma inferência filosófica, mas um dado da revelação
especial. As Escrituras mencionam anjos mais de trezentas vezes, em
praticamente todos os gêneros literários bíblicos: narrativa histórica, poesia,
profecia e literatura apocalíptica.
a)
"Louvai-o, todos os seus anjos, louvai-o, todos
os seus exércitos." (Salmos
148:2)
b)
"Não são todos eles espíritos ministradores,
enviados para servir a favor dos que hão de herdar a salvação?" (Hebreus 1:14)
O
argumento teológico para a existência dos anjos apoia-se, portanto, na
autoridade das Escrituras como Palavra inspirada de Deus (2Tm 3:16), e não em
especulação. Charles Ryrie destaca que a quantidade e a variedade de
referências bíblicas aos anjos tornam essa doutrina "tão bem estabelecida
quanto qualquer outra da Teologia Sistemática" (RYRIE, 1993). Millard
Erickson acrescenta que negar a existência dos anjos equivaleria a rejeitar
parte substancial do testemunho bíblico, inclusive palavras do próprio Jesus
Cristo, que falou dos anjos como realidades pessoais e ativas (Mt 18:10; Mt
26:53) (ERICKSON, 2000).
As
Escrituras declaram explicitamente a existência de uma criação invisível que
está estruturada hierarquicamente e sob o domínio soberano de Cristo (Cl 1.16).
Estes seres “estão reunidos em grupos que são identificados como tronos,
domínios, principados, potestades, autoridades e hostes celestiais”.[51]
Onde habitam estes seres? A resposta bíblica é direta: “nas regiões celestiais” (Ef 3.10; 6.12). Todo o cosmos fora da
terra é o território angelical. A Epístola de Judas faz uma referência à
habitação ou domicílio dos anjos (Jd 6). Isto nos leva a crer que a existência
dos anjos antecede a criação terrena.
4. Conceito e natureza dos anjos
Etimologicamente, anjo é uma palavra que
significa literalmente mensageiro de Deus. Segundo Wayne Grudem, anjos são
seres espirituais criados, dotados de juízo moral e alta inteligência, mas
desprovidos de corpos físicos.
4.1.
Seres espirituais criados
O texto de Jó 38 costuma ser interpretado
como referência à criação dos anjos ("filhos de Deus", termo usado
para seres angelicais em Jó 1:6 e 2:1) antes ou durante a criação do universo
material, uma vez que eles já existiam e celebravam quando a terra foi
fundamentada. Norman Geisler observa que a criação angelical, embora não esteja
detalhada no relato de Gênesis 1-2, está implícita na expressão "os céus e
a terra" e é explicitada em outras passagens, como Colossenses 1:16, que
inclui "tronos", "soberanias", "principados" e
"potestades" — termos que a tradição teológica associa a hierarquias
angelicais (GEISLER, 2010).
Henry Thiessen ressalta ainda que os anjos
foram criados de uma só vez, e não por um processo contínuo, pois a Escritura
não registra o nascimento ou a reprodução de anjos; eles não se casam nem se
multiplicam (Mt 22:30), o que indica uma criação completa e definitiva em
número (THIESSEN, 2000).
Os anjos são criaturas de Deus, não
existem desde sempre. Em Ne 9:6, Esdras, referindo-se aos anjos como exército
dos céus, diz: "Só tu és Senhor, tu fizeste o céu, o céu dos céus e todo o
seu exército [...] e o exército dos céus te adora” (cf. Sl. 148:2-5). As
Escrituras registram alguns atributos dos anjos como seres espirituais:
a) Os anjos são
criaturas inteligentes, são espíritos que estão, por ordem de Deus, a serviço
dos santos (Hb. 1:14).
b) São seres pessoais
dotados de juízo moral, pois alguns deles pecaram e caíram dos seus postos
(2Pe. 2:4; Jd 6).
c) São dotados de
inquestionável integridade, boa vontade e obediência espontânea a Deus (Dn.
9:21-23; Sl. 91:11; Sl. 103:20).
d) Por serem
espíritos, os anjos estão desprovidos de corpos físicos e de sexo (Lc. 24:30;
Mt. 22:30).
4.2.
Seres dotados de personalidade
O autor de Hebreus
refere-se aos anjos como "espíritos
ministradores, enviados para servir a favor dos que hão de herdar a
salvação" (Hebreus 1:14). Os anjos são descritos como "espíritos", isto é, seres
imateriais, invisíveis à percepção humana ordinária, mas plenamente pessoais:
possuem intelecto (1Pe 1:12), sentimentos (Lc 15:10) e vontade (Jd 6 — alguns "não
guardaram o seu principado"). Berkhof define os anjos como "seres
espirituais criados, dotados de personalidade, mas sem corpo material",
diferenciando-os tanto de Deus, que é Espírito eterno e incriado, quanto do
homem, que é espírito e corpo unidos (BERKHOF, 1990).
a)
Alguns são
identificados por nome como o “Arcanjo Miguel” (Jd 9; Ap 12.7) e o “anjo
Gabriel” (Lc 1.19; 1.26).
b)
Conhecem suas limitações (Mt 24.36) e sua inferioridade em relação ao Filho
de Deus (Hb 1.4-14).
4.3.
Seres investidos de autoridade
O poder dos anjos deriva de Deus, mas é
restrito. São incapazes de realizar obras que são da competência exclusiva de
Deus. Por outro lado, são capazes de influenciar a mente humana (Mt 16.21-23).
Somente pela capacitação divina os humanos podem impedir a influência de
espíritos malignos (Ef 6.10-12; 1Jo 4.4).
Expressões como “anjo forte” e “anjo poderoso”
citados no Apocalipse designam não só a força, mas também o poder de
influência. Em Ef 2.1-3, Paulo diz que o curso deste mundo é influenciado
(direcionado) pelo “príncipe da potestade do ar” e tal príncipe é um “espírito
que agora atua nos filhos da desobediência”. Tais principados são “dominadores
deste mundo tenebroso” (Ef 6.12). De certa forma, todos os não cristãos estão
sob o domínio (espiritual e mental) do maligno (1Jo 5.19; At 26.18; Cl 1.13).
Paulo nos ensina que os anjos são seres espirituais inteligentes, que estão
organizados para exercerem autoridade e domínio. As Escrituras fazem referência
ao poder sobrenatural dos anjos (Sl. 103:20; 2Ts. 1:7).
5.
O modo de existência dos anjos
Os
anjos são seres assexuados,
não se reproduzem (Mt 22.28-30). Foram criados simultaneamente em número
limitado, embora não se conheça sua numerosidade (Cl 1.16-17). Eles não
diminuem nem aumentam. Um número não determinado, mas provavelmente superior à
população da terra, é composto de anjos que manifestam hostilidade a Deus.
Os
anjos são seres incorpóreos
(sem corpo físico). Por não serem dotados de consistência material (são
constituídos de essência espiritual) não são visíveis. Não importando a
categoria ou condição, os anjos, conforme revelam as Escrituras, são seres
interessados e envolvidos nas coisas da terra e em algum serviço nessa direção.[52]
Por serem espírito (Sl 104.4; Hb 1.14), possuem “corpo espiritual”.
A
declaração de Paulo de que há corpos celestiais (1Co 15.40) pode ser uma
indicação de que os seres que possuem tais corpos são os anjos. A declaração de
Jesus de que “um espírito não tem carne nem ossos” (Lc 24.39) não significa que
os espíritos não possuem corpos, mas sim, que tais corpos não têm consistência
material.
É-nos dito, nas Escrituras, que Enoque e
Elias foram trasladados aos céus. Portanto, seus corpos foram elevados e
transformados, isto é, foram condicionados (modificados e adequados) à nova
forma de existência da vida nos céus. Isto parece confirmar a existência de
seres espirituais que possuem corpos celestiais.
A aparição de anjos com corpos semelhantes
aos humanos ocorre sempre com um aspecto de um branco reluzente e numa glória
resplandecente (Mt 28.2-4). A aparência material deve ser reconhecida como uma
transformação. Quando a ocasião exige, anjos tomam a forma humana. O autor de
Hebreus exorta que se pratique a hospitalidade, pois alguns “sem o saber
hospedaram anjos” (Hb 13.2).
6.
As categorias e níveis de autoridade dos anjos
Chafer
propugna que as Escrituras fazem menção de cinco “representações de supremacia”
[53]
entre os anjos: tronos (qronoi),
domínios (kuriothteV),
principados (arcai),
potestades (exousiai)
e poderes (dunameiV).
Tronos referem-se àqueles que estão sobre eles; domínios ou soberanias, àqueles
que ditam regras; principados, àqueles que governam; potestades, àqueles que
estão investidos de responsabilidade imperial; poderes, àqueles que exercem
supremacia. Estes termos que designam níveis de autoridade também podem ser
entendidos como sinônimos. As categorias dos seres angelicais estão niveladas
em três escalões:
1) Os que habitam na presença
de Deus – serafins, querubins, tronos.
2) Os que exercem o governo e a
força divina no universo – dominações,
virtudes, potestades.
3) Os que servem na mediação
com a humanidade – principados, arcanjos,
anjos.
6.1. Serafins
No
que diz respeito aos serafins, só existe uma passagem bíblica que faz referência
aos serafins, é a que se encontra em Isaías 6:1-3, onde é dito que eles voam
sobre o trono de Deus ministrando louvor permanentemente. Davis cita que,
“segundo o entendimento dos judeus, o Targum insere a palavra em Ez 1.8 e Zc
3.7. Eram criaturas [...] que rendiam preito à santidade divina e que se
empregavam no ministério da purificação...”.[54]
Segundo
fontes bibliográficas específicas[55],
estes seres, cujo nome em hebraico śārāp, "os que ardem",
"consumidos pelo fogo", expressam o amor consumado e a pureza diante
da Santidade infinita de Deus. Além do texto de Isaías 6:1–7, eles também são
referidos em Apocalipse 4:8 (os quatro seres viventes que proclamam
"Santo, Santo, Santo"). Eles são descritos com o seguinte perfil:
a)
Seis asas: duas cobrem o rosto (reverência
diante de Deus), duas cobrem os pés (humildade e sacralidade), duas voam
(prontidão no serviço).
b)
Estão em pé, imediatamente ao redor
do trono, proclamando incessantemente: "Santo,
santo, santo é o Senhor dos Exércitos; toda a terra está cheia da sua
glória" (Is 6:3).
c)
Exercem purificação: um serafim
toca os lábios de Isaías com uma brasa ardente do altar, declarando: "Eis
que isto tocou os teus lábios; a tua iniquidade foi tirada, e o teu pecado será
purificado" (Is 6:6–7).
d)
Teologicamente, eles representam o
auge da contemplação e do culto; sua essência é o louvor que transforma e
santifica. Não são mensageiros entre céu e terra, mas permanecem na presença de
Deus, refletindo Sua santidade.
6.2. Querubins
Embora
não se conheça a etimologia da palavra querubim, ela provavelmente está em
conexão com o termo acádio "Karibu" ou "Kuribu",
originalmente uma divindade de grau inferior no começo representado por um
homem, mais tarde com asas e aparência de águia, leão ou touro. As passagens
bíblicas os mencionam como guardiões da glória divina e da arca da aliança.
Passagens bíblicas e alguns teólogos[56]
os descrevem da seguinte forma:
a) Os querubins são descritos
como seres cuja atividade principal é exercerem a função de guardas. Colocados a
leste do Éden com espada chamejante, aparecem como guardiões do caminho da
árvore da vida, protegendo o acesso ao sagrado. (Gn 3.24; cf. Ez. 28:14, 16).
b) Êxodo 25 cita dois querubins
de ouro que cobrem a tampa da Arca da Aliança, com asas estendidas e rostos
voltados um para o outro. Deus se faz presente entre os querubins: "Ali me encontrarei contigo e, de cima
do propiciatório, falarei contigo" (v. 22).
c) Em Ezequiel 1 e 10, eles
aparecem com quatro rostos (homem, leão, boi, águia) e quatro asas, acompanhados
de rodas dentro de rodas como símbolos de mobilidade e onipresença na execução
dos juízos de Deus.
d) Nos Salmos e na literatura
apocalíptica eles são mencionados como seres que se encontram diante do trono
de Deus e o adoram (Sl 80:1; 99:1; Ez 28:14-16; Ap 4:6-9).
6.3.
Tronos
Algumas referências bíblicas os mencionam:
Colossenses 1:16; Apocalipse 4:4–6; também implícitos em Ezequiel 1:26,
descrevendo-os da seguinte forma:
a) O nome indica que neles repousa o juízo e o governo de
Deus. São os que, como diz Apocalipse 4, estão assentados em torno do trono,
participando da administração da justiça divina.
b) Colossenses 1:16 lista-os entre as coisas criadas:
"quer sejam tronos, quer sejam dominações, quer sejam principados, quer
sejam potestades".
c) Refletem a imutabilidade, a justiça e a sabedoria com
que Deus governa o universo. Não se movem tanto quanto contemplam e sustentam o
peso do governo divino.
6.4.
Dominações
As referências bíblicas mais comuns
que fazem abordagens a essa categoria são: Colossenses 1:16; Efésios 1:21; 1
Pedro 3:22. De acordo com tais passagens bíblicas, no exercício do seu ofício,
eles regulam, ordenam e distribuem as missões e os poderes às ordens
inferiores. Estabelecem a ordem e a harmonia no governo celestial. Em Efésios
1:21, Paulo diz que Cristo está acima de todo principado, potestade, virtude e
dominação.
6.5.
Virtudes (Forças Celestiais)
O termo bíblico que os descreve em Efésios
1:21 (δυναμις dunamis) traduz,
possivelmente, a ideia de "forças" = virtudes, habilidades, etc.
próprias de uma pessoa. Em 1Pedro 3:22, são categorias também associadas à
operação de sinais e poderes. Significa, portanto, que, por meio destes seres,
Deus opera sinais, prodígios e milagres na natureza e na história. Transmitem a
força divina que rompe as leis naturais quando necessário ao plano salvífico.
6.6.
Potestades
As passagens bíblicas situadas em
Colossenses 1:16; Efésios 3:10; 1 Pedro 3:22 mencionam esta categoria de “potestades” (εξουσια exousia), cuja função consiste em
defender e manter a ordem estabelecida contra as forças do mal. Exercem
vigilância e resistência espiritual no confronto com os poderes das trevas, a
fim de que o plano de Deus avance e concretize os desígnios divinos. A própria
Igreja, em sua caminhada, testemunha diante desses seres a sabedoria de Deus em
Cristo.
6.7.
Principados
O termo que descreve a categoria de um
principado (αρχη arche) em algumas
referências bíblicas, tais como Colossenses 1:16; Efésios 1:21; Daniel
10:13–21; 12:1, indicam que esses seres têm a seu cargo a guarda e a direção de
nações, povos e instituições. Em Daniel 10, o "príncipe da Grécia" e
o "príncipe da Pérsia" são seres espirituais (anjos maus ou anjos
atribuídos à guarda daqueles reinos)., o qual é chamado "um dos primeiros príncipes" (v. 13), que é guarda de
Israel.
A Bíblia menciona nominalmente três
príncipes na tradição bíblica ocidental:
a) Miguel ("Quem é como Deus?") que em Daniel 10.13 é chamado “um dos primeiros
príncipes” é o guarda de Israel, responsável pela
defesa espiritual, combate contra o mal, garantindo proteção do povo de Deus
(Dn 10.13; Ap 12.7).
b) Gabriel ("Força
de Deus") anunciador
dos planos da Redenção: a encarnação de Cristo anunciada a Maria (Dn 8.16; Lc
1.26-38).
c) Rafael ("Deus
cura") agente da cura física e espiritual, acompanhamento e
orientação de peregrinos (Livro de Tobias).
6.8.
Arcanjos
Os arcanjos representam a classe de
espíritos celestes encarregados das missões de maior relevância histórica e
espiritual para a humanidade. A palavra "arcanjo" deriva do grego ἀρχάγγελος
(archángelos), uma construção formada por dois elementos fundamentais:
a) ἀρχή (archē) / ἄρχων (archon) que significa
"chefe", "primeiro", "superior",
"princípio" ou "governante";
b) ἄγγελος (ángelos) uma tradução do hebraico mal'akh,
que significa "mensageiro" ou "enviado".
Etimologicamente,
arcanjo traduz-se como "mensageiro-chefe", "anjo principal"
ou "mensageiro superior". A etimologia deixa claro que o termo não
descreve a natureza do ser (que é puramente espiritual), mas sim a sua função e
o grau de autoridade de sua mensagem. A distinção entre anjos e arcanjos foi
plicada por Gregório Magno da seguinte forma: "O termo 'anjo' refere-se ao
dever, não à natureza. Aqueles que anunciam fatos de menor importância são
chamados 'anjos'; os que proclamam os maiores acontecimentos são chamados
'arcanjos'."
Nos livros
apócrifos são mencionados grupos de anjos, como por exemplo, os "sete
príncipes" (arcanjos) – Tobias 12:15; Henoc grego 20:2-7; Henoc etiópico
81:5; Testamento de Levi 8:2-10; Apocalipse de Moisés 40; IV Esdras 4:1, etc.;
cujos nomes são os seguintes: Miguel, Gabriel, Rafael, Uriel, Raguel e Remiel.
Isto nos leva a crer que havia em Israel a crença na existência de
"príncipes angelicais" que exerciam autoridade em nome de Deus.
Johanes B. Bauer supõe que os "sete
espíritos de Deus" (Ap. 5:6) são os mesmos sete anjos do juízo divino de
Ap. 8:2 e segs. que correspondem aos sete arcanjos citados acima. Em Dn 10:13 e
12:1 é dito que Miguel (cf. Jd 9) é "um dos primeiros príncipes" e também
é reconhecido como "defensor dos filhos do teu povo" (Israel). [57]
Segundo o apóstolo Paulo, os demônios
formam "principados e
potestades" que são "dominadores
deste mundo tenebroso" (Ef. 6:12). Outro ser angelical de renome é
Gabriel. Seu nome significa “poderoso”. Em nenhuma passagem bíblica ele é
designado como arcanjo. Quatro vezes ele aparece nas Escrituras e sempre como
mensageiro ou revelador do propósito divino (Dn 8.15-27; 9.21; Lc 1.19; Lc
1.26).
6.9.
Anjos eleitos ou designados
A passagem bíblica que faz referência
explícita a “anjos eleitos” é 1Tm 5.21. Certamente que esta passagem não propõe
estender a doutrina da eleição aos anjos, mas pode-se inferir aqui estes seres
celestiais que preservaram o lugar de sua habitação, mantendo-se fiéis a Deus,
quando da queda de tantos outros que se rebelaram contra a autoridade divina
(cf 2Pe 2.4; Jd 6).
Em todo o cânon das Escrituras, há
inúmeras passagens que os mencionam. Exemplos: Salmo 91:11; Mateus 18:10;
Hebreus 1:14. Eles constituem uma vasta multidão de espíritos servidores
enviados para auxiliar, guardar, proteger e anunciar aos seres humanos. Atuam
como anjos guardiães de cada fiel (segundo tradição e Salmo 91; Mateus 18:10: "Os seus anjos nos céus veem sempre a
face do meu Pai"). Trazem mensagens, libertam do perigo, confortam e
acompanham no caminho da salvação. "Não
são todos eles espíritos ministradores, enviados para serviço por causa dos que
hão de herdar a salvação?" (Hebreus 1:14). Sua função é a mais próxima
e acessível a nós: Deus cuida de cada um, pessoalmente, por meio deles.
Embora não conhecidos por sua categoria ou
nome, são identificados pelas obras ou missão que realizam. Desta forma, as
Escrituras mencionam os anjos que executam juízo punitivo (Gn 19.13; 2Sm 24.16;
2Rs 19.35; Ez 9.1, 5, 7; Sl 78.49); e outros que são denominados como o anjo
“vigilante” (Dn 4.13, 23), o anjo do abismo (Ap 9.11), o anjo que tinha o poder
sobre o fogo (Ap 14.18), o anjo das águas (Ap 16.5) e os sete anjos (Ap 8.2).[58]
Uma vez que anjos são “espíritos ministradores” a serviço dos santos, é mister
que se conheça o que eles fazem. Segundo Millard Erickson, os anjos são
designados para desempenharem, sob as ordens de Deus, as seguintes atividades:
a) Os anjos louvam e glorificam continuamente a Deus (Jó
38:7; Sl. 103:20; 148:2; Ap. 5:11, 12; 7:11; 8:1-4).
b) Os anjos revelam e comunicam a mensagem de Deus aos
homens (Dn. 9:21-27; Lc. 1:13-20; 1:26-38; At. 8:26; 10:3-7; 11:13; 12:7-11;
27:23).
c) Os anjos ministram aos crentes, provendo proteção e
trazendo livramento (Sl. 34:7; Sl 91.11-12; At. 5:19-20; 12:6-11) e cuidando de
suas necessidades (Hb. 1:14).
d) Os anjos executam juízo por ordem de Deus (Gn 18.1-2;
2Rs. 19:35; 2Sm. 24:16; Sl. 78:49-51; At. 12:23).
e) Os anjos são responsáveis por conduzirem as almas dos
santos que morrem ao paraíso (Lc. 16:22).
Wayne Grudem acrescenta outras atividades
que são realizadas pelos anjos de Deus:
a) Os anjos patrulham
a terra como representantes de Deus (Zc 1.10-11).
b) Eles guerreiam
contra forças demoníacas (Dn 10.13; Ap. 12.7-8).
c) Os anjos comemoram
com alegria o arrependimento dos pecadores (Lc. 15:10).
7.
A numerosidade dos anjos
Embora as Escrituras não nos forneçam o
número de anjos que foram criados por Deus, há várias passagens bíblicas que
nos falam sobre sua extraordinária e impressionante numerosidade:
a)
Hebreus 12:22 - "Mas
chegastes ao monte Sião, e à cidade do Deus vivo, à Jerusalém celestial, e aos
muitos milhares de anjos..."
b)
Daniel 7:9-10 - "Eu
continuei olhando, até que foram postos uns tronos, e um ancião de dias se
assentou; a sua veste era branca como a neve, e o cabelo da sua cabeça como a
pura lã; e seu trono era de chamas de fogo, e as suas rodas de fogo ardente. Um
rio de fogo manava e saía de diante dele; milhares de milhares o serviam, e
milhões de milhões assistiam diante dele; assentou-se o juízo, e abriram-se os
livros".
c)
Apocalipse
5:11 - "E olhei, e ouvi a voz de muitos anjos ao redor do trono, e dos
animais, e dos anciãos; e era o número deles milhões de milhões, e milhares de
milhares...".
8.
Procedimentos errados com respeito aos anjos
A falta de conhecimento da Palavra de Deus
tem levado muitos crentes ao abismo espiritual, cometendo erros grosseiros e
práticas heréticas que Deus abomina. Grande parte destes erros está relacionada
à doutrina dos anjos e dos demônios. Existem, pelo menos, três distorções da fé
cristã com respeito aos anjos:
a) Culto aos anjos – Esta era uma
das falsas doutrinas que se infiltraram na igreja primitiva, especificamente em
Colossos e que foi atacada por Paulo (Cl. 2:18). Podemos observar também no
livro do Apocalipse uma exortação do anjo diante do qual o apóstolo João se
prostrou para adorá-lo, o qual recusava e reprovava tal atitude do apóstolo (Ap
19.9-10).
b) Dirigir orações
aos anjos
– Orações aos santos (mortos) e aos anjos é uma prática herética oriunda da
superstição popular e do paganismo. Devemos orar somente a Deus. Jesus nos
exortou a orarmos diretamente ao Pai (Mt 6.6-9). O apóstolo Paulo nos exorta a
não imaginar que possa haver outro mediador entre nós e Deus (1Tm 2.5). Não há,
em toda a Bíblia, exemplo de alguém que tenha orado ou pedido socorro aos
anjos.
c) Revelações por
meio de anjos
– Os anjos estiveram muito ativos durante o período da igreja primitiva. Um
anjo apareceu a Filipe, ordenando-o a dirigir-se à estrada de Gaza (At 8.26); a
Cornélio, orientando-o a chamar o apóstolo Pedro para pregar-lhe o evangelho
(At 10.3-6); a Pedro, exortando-o a erguer-se e sair da prisão (At 12.6-11) e
apareceu a Paulo advertindo-o da necessidade de comparecer diante do imperador
romano (At 27.23-24). Mas anjos não aparecem para trazer revelações de conteúdo
doutrinário. Mensagens de “novas” revelações, de conteúdo que vai além do que
Deus já nos revelou nas Escrituras, têm toda probabilidade, e é quase certo, de
que tenham origem demoníaca (Gl 1.8; 2Co11.14).
9.
Demônios
Tal
como os anjos, os demônios são seres espirituais criados, dotados de
discernimento moral e elevada inteligência, mas desprovidos de corpos físicos.
“São anjos maus que pecaram contra Deus e hoje continuamente praticam o mal no
mundo” (Wayne Grudem). Eles não diferem dos anjos que habitam com Deus a não
ser num detalhe: o caráter. O caráter dos demônios reflete a expressão máxima
de toda perversão e maldade.
9.1.
A origem dos demônios
Todos eles são seres criados que estavam
incluídos entre os anjos que vivem na presença de Deus. Eram bons em natureza e
caráter, pois tudo quanto Deus havia criado “era muito bom” (Gn 1.31). Há duas
passagens que afirmam a queda dos anjos: (1) “Ora, se Deus não poupou anjos quando pecaram, antes, precipitando-os
no inferno, os entregou a abismos de trevas, reservando-os para juízo;”
(2Pe 2.4); (2) “E aos anjos que não
guardaram o seu principado, mas deixaram a sua própria habitação, reservou na
escuridão e em prisões eternas até ao juízo daquele grande dia;” (Jd 6).
Segundo
Berkhof, o pecado específico desses anjos não foi revelado, mas geralmente se
pensa que consiste em se exaltarem contra Deus e aspirarem à autoridade
suprema. Thiessen diz que “este é um dos profundos mistérios da teologia”. Há
dois textos no Velho Testamento que fazem referência ao caráter satânico do rei
de Babilônia (Is 14.13-14) e do rei de Tiro (Ez 28.11-19). Esses são
personagens históricos a quem os referidos profetas dirigem uma sentença do
juízo divino. A linguagem usada parece transmitir a ideia de que estes reis
ímpios cometeram o mesmo pecado que Satanás cometeu e resultou em sua queda:
soberba, ambição sem limites pelo poder, a “egolatria”, vontade de ser deus, de
ser o detentor do poder para exercer domínio absoluto sobre tudo e de todos.
9.2.
A classificação dos demônios
Há indicações no Novo Testamento de que
existe organização hierárquica entre os anjos maus. Em Rm 8.38; Ef 6.12 e Cl
2.15 encontramos referências aos principados
e potestades reconhecidos como forças espirituais do mal, dominadores
deste mundo tenebroso. Todos estes formam um exército organizado que exerce
domínio sobre o mundo não cristão.
Tal mundo, também chamado “século”
consiste num sistema de valores contrários aos valores do Reino de Deus. O mal
é sistêmico e está organizado contra Deus e sua obra na terra. Esse sistema
maligno de dominação é denominado por Paulo de “império das trevas” do qual
todos os verdadeiros crentes foram libertos. Esse sistema secular maligno tem
um “deus que cegou o entendimento dos incrédulos” (2Co 4.4) e que mantém tais indivíduos
cativos. Ele é Satanás, “o príncipe deste mundo” (Jo 16.11), ou ainda, na
linguagem de Paulo, “o príncipe da potestade do ar” (Ef 2.1).
9.3.
A obra dos demônios
a) Eles podem ser
usados por Deus para punir ímpios e disciplinar os rebeldes dentre seu povo (Sl
78.49; 1Sm 16.14; 1Co 5.5; 1Tm 1.20).
b) Eles cooperam com
Satanás na execução dos propósitos e planos dele (Mt 25.41; Ef 6.12; Ap
12.7-12).
c) Eles causam
moléstias para tormento de pessoas que lhe são cativas (Jó 1.5-10; Mt 9.33;
12.22; Lc 9.37-42; 13.11, 16).
d) Eles causam
distúrbios mentais (Mc 5.4-5; Lc 8.35).
e) Eles se incorporam
em pessoas, possuindo-as e fazendo-as cativas (Mc 5.1-9; Mt 12.43-45).
f) Eles são os
principais responsáveis pela disseminação de falsas doutrinas (1Rs 22.21-23;
2Ts 2.2; 1Tm 4.1).
CAPÍTULO XIII
ANTROPOLOGIA
TEOLÓGICA - I
Introdução
Para
responder à questão referente à sua própria origem, o homem dispõe atualmente
de dois caminhos: a investigação científica e a revelação bíblica. No primeiro,
o homem parte de onde se encontra e “retrocede” no tempo e no espaço em busca
de pistas que o levem ao local e ao tempo de sua origem. No segundo, o homem
recebe todas as informações que deseja por meio da revelação do seu Criador.
Antropologia
é a doutrina do homem que se estuda tanto na ciência quanto na teologia. A
antropologia científica estuda o organismo psicofísico humano e sua história
natural. A antropologia teológica estuda o homem em sua relação com Deus e a
revelação bíblica é sua fonte de informação.
1. A origem do
homem segundo a Bíblia
A
Bíblia nos diz que Deus criou o homem e que ele o fez e “formou do pó da terra”
(Gn. 1:26-27; 2:22; 6:6-7; Sl. 100:3; 103:14; 1tm. 2:13). A narrativa da
criação do homem apresenta algumas peculiaridades que devemos considerar para
melhor compreensão da doutrina bíblica do homem:
a)
A criação do homem
foi precedida por um solene conselho divino (Gn. 1:26).
A
criação do homem consistiu em um ato que resultou de uma livre, soberana e
solene decisão. Tal decisão está inclusa no decreto eterno de Deus que antecede
a criação, mas que se concretiza após a criação dos céus e terra e de toda a
vida animal e vegetal. A expressão “façamos o homem à nossa imagem, conforme a
nossa semelhança” não deve significar que Deus convocou os anjos como cocriadores
do homem, pois somente Deus o criou (Gn. 1:27). Portanto, ela deve significar
essencialmente a auto-exortação por parte de Deus, em cujo ser há uma
pluralidade.
b)
A criação do homem
foi um ato imediato de Deus
O
homem não pode ser incluído na criação mediata. Esta se compõe exclusivamente
dos seres (animal e vegetal) cuja existência foi uma produção, segundo a ordem
de Deus, que surgiu dos elementos já criados: terra e água. As expressões:
"Produza a terra relva, ervas... e árvores...”, “Povoem-se as águas de
enxames de seres viventes...”, “Produza a terra seres viventes...” definem a
origem da criação mediata. Mas o homem é obra das “mãos” de Deus que, embora
tenha usado o “pó da terra” como material para a sua constituição física, não o
fez na criação da alma.
c)
Distinto das
criaturas inferiores, o homem foi criado conforme um tipo divino
No que
se refere aos animais e vegetais, de um modo geral, lemos que Deus os criou
“segundo a sua espécie”. O homem não é uma espécie animal, pois “Deus criou o
homem à sua imagem, à imagem de Deus os criou” (Gn. 1:27). Portanto, o homem é
imagem e semelhança de Deus e não de outro ser criado (Gn. 1:26).
2.
A natureza constitutiva do homem
Em Gn.
2:7 é feita uma clara distinção entre a origem do corpo e a da alma. O corpo
foi formado do pó da terra e a alma foi uma nova produção de Deus sem uso de
nenhuma substância. Deus, depois de Ter criado o corpo, “soprou-lhe nas narinas
o fôlego da vida e o homem tornou-se alma vivente”. Por esta razão, afirma-se a
dupla natureza do homem, o que também é corroborado por outras passagens da
Escritura, como Ec 12:7; Mt. 10:28; Lc. 8:55; 2Co. 5:1-8: Fp. 1:22-24: Hb.
12:9.
3. O homem,
perante toda a criação, foi colocado em posição exaltada.
O
homem, ao ser criado, recebeu de Deus a incumbência de, como mordomo de Deus,
governar a terra e tudo o que nela havia. Tal posição deu ao homem o privilégio
de tornar toda a natureza e todos os seres criados subservientes à sua vontade
e ao seu propósito, para ele e toda a criação magnificassem o Onipotente
Criador e Senhor do universo (Gn. 1:28: Sl. 8:4-9).
4. A unidade da
raça
As
Escrituras ensinam claramente que toda raça humana descende de um único casal
(Gn. 1:27-28: 2:7, 22: 3:20; 9:19). Deus criou Adão e Eva como os iniciantes de
espécie humana e lhes ordenou que fossem fecundos e se multiplicassem e
enchessem toda a terra.
A
unidade orgânica da raça humana é declarada por Paulo: “de um só fez toda a
raça humana para habitar sobre toda a face da terra” (At. 17:26) e ele comprova
tal unidade tanto no que diz respeito à queda (primeira transgressão) como
também na provisão divina para a salvação em Cristo (Rm. 5:12-19); 1Co.
15:21-22).
5. A natureza
constitutiva do homem
Por
Ter sido criado do “pó da terra”, o homem tem uma natureza material e, por ter
Deus soprado no homem o “fôlego da vida” e tê-lo criado à sua imagem e
semelhança, o homem tem uma natureza imaterial semelhante à de Deus. Isto quer
dizer que o homem é dotado de espírito e mente que fazem do homem um ser
racional, que tem personalidade. Para explicar a natureza constitutiva do
homem, os teólogos cristãos propõem duas teorias: a dicotomista e a
tricotomista, que se fundamentam nos conceitos de alma e espírito.
5.1. Conceito
bíblico de alma segundo o Velho Testamento
Nephesh é a palavra hebraica
traduzida como “alma”, para designar a parte imaterial do homem, isto é, a
"vida biológica” que tanto existe no homem como nos animais (Gn. 2:7;
1:20, 24, 30; 9:12, 15, 16; Ez 47:9).
a) “Nephesh” é a sede do apetite físico (Nm 21:5; Dt
12:15, 20, 21; Jó 33:20; Sl. 78:18; Ec 2:24; Mq 7:1).
b) “Nephesh” é a fonte das emoções (Jó 30:25; Sl. 86:4;
Sl: 107:26; Ct 1:7).
c) “Nephesh” é o lugar onde reside a vontade que move o
ser à ação moral (Dt. 4:29; Jó 7:15; Sl. 24:4; 25:1; 119:129, 167).
d) “Nephesh” identifica a parte do homem que se separa do
corpo na ocasião da morte (Gn. 35:18; 1Rs 17.22).
e) “Nephesh”, às vezes, é empregada como sinônimo do
pronome pessoal da primeira pessoa – “livra
a minha alma da espada” (Sl 22.10) = “salva-me da espada”.
f) “Nephesh” constitui-se também na essência imaterial do
homem que adora e se rende a Deus (Sl 25.1; Sl 42.2).
g) “Nephesh” significa também a própria vida (Jó 33.20;
33.22).
h) “Nephesh” significa também pessoa (Nm 9.13; Lv 23.29;
Lm 3.25).
OBSERVAÇÃO: “Nephesh” é um
termo atribuído a Deus (Lv 26.11; Is 1.14). Neste caso, podemos entender que
tal expressão indica um antropomorfismo e não uma descrição da essência que
constitui a natureza divina.
5.2. Conceito de
alma no Novo Testamento
Psyqué é a palavra grega
que traduz, com o mesmo sentido, a palavra hebraica “nephesh”. Não há entre
ambas qualquer diferença de sentido.
a) Paulo a usa psyqué
para designar a vida biológica (Rm. 11:3; 16:4; 2Co. 1:23; Fp. 2:30; 1Ts. 2:8).
b) psyqué é usada para indicar a própria pessoa
(At 2.43; 3.23).
c) Paulo a usa também psyqué
para designar o interior, o íntimo de nosso ser, o coração, a sede dos
sentimentos e da vontade (Ef 6:6; Fp 1:27; Cl 3:23).
d) Nos evangelhos, psyqué
é usada para designar a parte do homem que tem existência após a morte (Mt.
10:28; Lc. 12:20; Jo. 12:25).
e) Pedro e Tiago usam psyqué
para identificar a parte do homem que é beneficiada com a salvação (1Pe. 1:9;
Tg. 1:21).
f) Pedro usa psyqué
como sendo a parte do homem que se opõe às inclinações da carne (1Pe. 2:11).
g) João usa psyqué
para identificar os mortos que vivem nos céus (Ap. 6:9; 20:4).
OBSERVAÇÃO: psyqué nunca é utilizada no Novo
Testamento para designar a natureza divina. Também jamais é atribuída aos anjos
ou aos demônios. Anjos e demônios sempre são identificados pelo vocábulo pneuma atribuído tanto a Deus como ao
homem.
Diante
de tais ideias podemos chegar ao conceito de alma como sendo a natureza
imaterial do homem que o anima como ser vivo (vida biológica), é fonte das
emoções e sentimentos, que se caracteriza por sua racionalidade, que designa a
própria pessoa e sobrevive após a morte.
5.3. Conceito de
espírito no Velho Testamento
Ruwach é a palavra hebraica traduzida
como “espírito” para designar a essência imaterial do homem que o caracteriza
como pessoa e o distingue dos demais seres criados. No Velho Testamento, este
termo apresenta os seguintes sentidos:
a) Designa a essência da natureza de Deus (Gn. 1:2; Sl.
139:7).
b) Significa o “fôlego da vida” que fluiu de Deus para
dar vida ao homem criado, fazendo dele “alma vivente” (Gn. 2:7; Jó 32:8; 33:4).
c) Em Eclesiastes 3.19 e 3.21 “ruach” tem o sentido de
fôlego de vida e é atribuído tanto aos homens como aos animais.
d) Designa um espírito maligno que pode atuar no homem
(1Rs. 22:19-25; 1Sm. 16:14-16; Nm. 5:14; Os. 4:12).
e) Pode também significar “vento poderoso” (Ex. 10:13;
14:21; Jó 21:18; Sl. 1:4; 35:5; Ez. 1:4; 1Rs. 19:11).
f) Em Ez. 37:5-10, “ruach” é usada para identificar a
essência imaterial do homem sem a qual o corpo está morto e, o versículo 14,
designa a pessoa do Espírito Santo.
g) Identifica parte imaterial do homem que, após a morte,
separa-se do corpo e vai ao encontro de Deus (Ec. 12:7).
5.4. Conceito de
espírito no Novo Testamento
Pneuma é a palavra grega que incorpora
todo o conceito de “ruach” em hebraico, mas que diz respeito à parte do homem
que se relaciona com Deus e sobrevive após a morte. Além disso, pneuma assume os seguintes significados:
a) Paulo a usa com o sentido de “sopro” (2Ts. 2:8).
b) Em Jo. 3:8, é traduzida corretamente como “vento”,
embora em outras passagens do Novo Testamento, a palavra usada é amenos.
c) Designa o Espírito Santo (Mt. 3:11, 16; Mc. 1:8-12;
Lc. 4:18; 10:21; Jo. 1:32-33; At. 1:8; 16:7; Rm. 5:5; 8:9-11; 1Co. 2:11-12;
3:16; Gl. 4:6; Ef. 3:16; 4:30; Cl. 1:8; 1Ts. 1:6; Hb. 10:15; 2Pe. 1:20).
d)
Tem o sentido
de fantasma (Lc. 24:37-39).
e) pneuma também pode significar espírito mau, demônio (Mc.
1:23; Lc. 11:24-26; At. 5:16; 16:18; 19:15-16; Ap. 18:2).
f) Pode significar também qualquer espírito que não é de
Deus (1Co. 12:10; 2Co. 11:14; 2Ts. 2:2; 1Jo. 4:1-3).
5.5. Concepções
distintas de alma e espírito
Embora
pneuma possa ter, algumas vezes, no
Novo Testamento o mesmo sentido de psyqué
há, contudo, no que se refere ao homem, algumas considerações que tornam
possível fazermos uma certa distinção entre espírito e alma.
a) O homem, por ter sido criado à imagem e semelhança de
Deus, é pessoa tal como Deus. Como “Deus é espírito” (pneuma) e não alma (psyqué),
sua personalidade está no espírito e, logicamente, devemos concluir que em nós
o que é pessoa é o nosso espírito. Nisto somos diferentes dos animais que,
embora sejam “almas viventes” não têm espírito; e se o tivessem seriam
semelhantes a nós e Deus, e teriam existência após a morte.
b) Jesus, com referência à sua natureza humana, falou de
sua alma e espírito. Descrevendo sua agonia no Getsêmani, Jesus disse que em
sua alma manifestavam-se suas emoções e seu estado psicológico (Mc. 14:33-34;
Mt. 26:38). Mas, na hora de sua morte, o que ele entrega a Deus ele chama de
espírito e não de alma (Lc. 23:46; Mt. 27:50; Jo. 19:30). Nesse caso, podemos
chegar a duas conclusões:
·
Alma e espírito
foram palavras diferentes usadas por Jesus para definirem a mesma coisa, a
natureza imaterial do homem.
·
Jesus, embora
nunca tivesse feito explicitamente uma distinção entre alma e espírito, admitia
que o homem tem apenas duas naturezas, uma material e outra imaterial. A
primeira é o corpo físico e a outra, composta de duas faces ou dois níveis que,
embora sejam constituídos da mesma essência, teriam funções e aspectos
diferentes: a alma, que comporta a
vida biológica, produz as emoções e os sentimentos e manifesta a vontade; e o espírito que constitui a personalidade,
onde está alojada a razão, e que expressa a fé e manifesta o caráter. Seria o
EU e o SER de cada pessoa. Neste caso, alma e espírito seriam dois níveis ou
faces inseparáveis de uma mesma essência que compõem um mesmo elemento dotado
de consciência e que tem existência após a morte. Na vida e na morte, alma e
espírito seriam inseparáveis.
c) Com referência aos demais seres humanos, Jesus ensina
que o homem, para Deus vale muito mais que o resto da criação (Mt. 10:31;
12:12). O homem tem uma alma e perdê-la é perder-se totalmente por toda a
eternidade (Mt. 16:26).
Por
outro lado, quando se refere ao novo nascimento (regeneração do pecador),
afirma categoricamente que tal nascimento é realizado pelo Espírito Santo e o
homem “que nasce do Espírito é espírito” (Jo. 3:5-6). Ele também afirma que
Deus, por ser espírito, exige dos seus adoradores que “o adorem em espírito e
em verdade” (Jo. 4:23-24). Assim sendo, podemos chegar a três conclusões:
a)
Que
Jesus, quando se referia à alma ou espírito, estava falando da mesma e única
essência imaterial que, juntamente com o corpo, forma uma pessoa humana;
b)
Espírito
é apenas uma figura de linguagem que Jesus usou para se referir à alma do
homem, que pela fé renasce, passando da morte para a vida (Jo. 5:24);
c)
O
espírito é o âmago da alma humana que se comunica com Deus; está morto no
incrédulo e ressuscitado no crente. Só os seres humanos o possuem. Desta forma,
o espírito e a alma seriam partes que se completam, formando um único elemento
de natureza imaterial e consciente. Esta seria a razão porque o ímpio necessita
do Espírito Santo, para que possa reviver, pois, embora tendo vida biológica,
seu espírito, estando morto (separado de Deus e indiferente para com Deus) o
impede totalmente de relacionar-se com Deus. Tal homem possui somente a vida da
alma (natural e carnal) onde reina o pecado; mas, quando renasce
espiritualmente, torna-se capaz de relacionar-se com Deus, pois seu espírito
recebe vida diretamente de Deus, tornando-se filho de Deus (Jo. 1:12-13). O
homem regenerado teria, portanto, não somente a vida da alma, mas também a do
espírito e, só assim, pode entrar no reino de Deus.
A
distinção entre alma e espírito parece tornar-se evidente na teologia paulina.
Provavelmente, a distinção fundamenta-se nos conceitos que Paulo faz do yucikoV antrwpoV - homem natural e do pneumatikoV anyrwpoV - homem espiritual. Para descrever o
homem, Paulo, em sua linguagem antropológica, usa as seguintes palavras:
a)
“Carne”
(sarx, 91 vezes) usada
no sentido físico e ético;
b)
“Espírito”
(pneuma, 146 vezes) para
designar o elemento superior da natureza do homem, que se dirige a Deus;
c)
“Corpo”
(soma, 89 vezes)
significando o organismo humano;
d)
“Alma”
(yuch, 11 vezes)
geralmente para transmitir o princípio vital da vida do indivíduo.
Em
1Ts. 5:23, Paulo descreve o homem como sendo formado de corpo, alma e espírito.
Nesta passagem, ele faz uma possível distinção entre espírito e alma, como
sendo esferas diferentes da natureza imaterial do homem. Para Paulo, “espírito”
parece ser a profundeza interior da existência do homem e o aspecto superior de
sua personalidade. “Alma” parece ser a individualidade especial e distintiva do
próprio homem. O espírito inclina-se para as coisas do “alto” e para Deus; a
alma, para as coisas terrenas e para a carne.
O
texto de Hb. 4:12 apresenta a ideia de que alma e espírito, embora estejam
unidos numa só essência de natureza imaterial, são distintos entre si e que só
a palavra de Deus, ao penetrar no interior do homem, produz tal distinção. Uma
vez que a “palavra de Deus é viva” (ver também Jo. 6:63), ela produz vida no “pneuma”, que está morto
pelo pecado e isso o distingue da yuch que tem apenas a
vida natural. A palavra de Deus penetra de tal forma na natureza interior do
homem que faz distinção entre alma, que é o princípio vital de todas as
pessoas, e o espírito que separa o homem das demais criaturas vivas e o eleva
até Deus, em cuja imagem ele foi criado.
6. Teorias
sobre a natureza constitutiva do homem
6.1. A teoria
dicotômica
A
teoria dicotômica é uma teoria que se define da seguinte forma: o homem é um
ser composto de duas naturezas que se manifestam através de dois elementos, que
são o corpo e a alma, também chamada de espírito. O corpo é a natureza material
do homem; a alma ou espírito designa sua natureza imaterial e imortal
(indestrutível, incorruptível, sobrevive após a morte do corpo).
Tal
teoria se fundamenta na declaração dogmática de que espírito (ruach, em hebraico e pneuma em grego) é outro nome que se dá
nas Escrituras para alma (nephesh, em
hebraico e psyqué,
em grego). Os argumentos utilizados para demonstrar tal ideia são os seguintes:
a)
Alma
e espírito são termos intercambiavelmente usados em algumas passagens das
Escrituras, tanto no Velho como no Novo Testamento. Exemplos disso são
encontrados em passagens que falam da perturbação do espírito (Gn. 41:8; Jo.
13:21) como sendo perturbações que também ocorrem na alma (Sl. 42:6; Jo.
12:27).
b)
A
morte é descrita como a alma sendo exalada do corpo (Gn 35:18; 1Rs 17:21) ou
também como entrega do espírito (Lc 23:46; At 7.59).
c)
Espírito
e alma são atribuídos à criação irracional (Ec. 3:21; Ap. 16:3).
d)
A
Deus, que é Espírito (Jo 4:24), é atribuído alma (Is 1.14; Jr 5.8; 9:9).
e)
O
lugar mais elevado na religião é atribuído à alma Mc. 12:30; Lc. 1:46; Hb.
6:18-19; Tg. 1:21).
f)
Corpo
e alma constituem integralmente o homem (Mt. 10:28; 1Co. 5:3; 3Jo 2) e ainda
perder a alma é perder tudo (Mt. 16:26; Mc. 8:36-37).
Além
disso, podemos acrescentar que o consciente testifica que há dois elementos no
ser humano; podemos distinguir uma parte material e outra imaterial. Mas o
consciente de ninguém consegue distinguir entre alma e espírito.
6.2. A teoria
tricotômica
A
tricotomia é uma teoria que afirma que o homem é constituído de três elementos
distintos: corpo, alma e espírito. O corpo é a parte imaterial, a natureza
física, algo que temos em comum com os animais e as plantas. A alma é o
princípio de vida animal (biológica). É também o elemento psicológico, a base
da razão, das emoções, da vontade, etc. A posse da alma é o que distingue os
animais das plantas. O terceiro elemento, o espírito, é a parte do homem que se
relaciona a Deus e com Deus. Trata-se do centro das qualidades espirituais do
indivíduo, visto que os traços da personalidade residem na alma. Essa teoria
fundamenta-se nas seguintes considerações:
a)
Gn.
2:7 não declara absolutamente que Deus fez o homem como um ser duplo.
b)
Paulo
ensina que o corpo, alma e espírito são três partes distintas da natureza
constitutiva do homem (1Ts. 5:23). A mesma coisa parece estar indicada em Hb.
4:12.
c)
Uma
tripla composição humana parece estar implícita em 1Co. 2:14-3:4, onde Paulo
classifica os homens como “carnais”), “naturais”) e “espirituais” (pneumatikoV).
6.3. Objeções à
teoria tricotomista
a)
“A
Bíblia nos ensina a ver a natureza do homem como uma unidade e não como uma
dualidade consistente de dois elementos diferentes, cada um dos quais
movendo-se ao longo de linhas paralelas sem realmente unir-se para formar um
organismo único... Embora reconhecendo a complexa natureza humana, ela nunca a
expõe com redundando num duplo sujeito no homem. Cada ato do homem é visto como
um ato do homem todo. Não é a alma e sim o homem que peca; não é o corpo e sim
o homem que morre; e não é meramente a alma, e sim o homem, o corpo e a alma,
que é redimido em Cristo” (Berkhof).
b)
As
referências bíblicas onde as palavras alma e espírito são mencionadas necessariamente
não estão declarando a existência de dois elementos distintos da natureza
imaterial do homem. Se assim fosse, em Mt. 22:37, Jesus teria considerado o
coração, alma e o entendimento como três elementos ou substâncias distintas
que, juntamente com o corpo, faria do homem um ser constituído de quatro
componentes.
6.4. Harmonia das
duas teorias
Thiessen
propõe a harmonia das duas teorias da seguinte forma:
É
provável, entretanto, que devamos considerar a natureza imaterial do homem como
sendo constituída de uma porção inferior e uma superior (Alford a respeito de
Hb. 4:12). Talvez a expressão de Strong: ‘poder superior e inferior’ seja
melhor. À alma pertenceriam a imaginação, memória, compreensão do homem; ao
espírito, seus poderes de raciocínio, consciência e livre arbítrio. Esta
variação do ponto de vista tricotomista tradicional torna possível conservar os
argumentos em favor do ponto de vista dicotomista e ainda explicar como é que
alguns cristãos são ‘carnais’ e outros ‘espirituais’. Também está de acordo com
o ensinamento de que o corpo atual é um ‘corpo-alma’ e que o corpo da
ressurreição será um ‘corpo espiritual’ (1Co. 15:44). Em outras palavras, a
natureza imaterial do homem é considerada como sendo uma só natureza, mas
composta de duas partes.[59]
Podemos
entender o seguinte: o homem tem duas naturezas, uma material, o corpo; e outra
imaterial que designa seu ser como pessoa, define sua identidade e seu caráter
e apresenta dois aspectos, níveis ou poderes, que são espírito e alma,
constituídos de uma só essência. Alma e espírito seriam duas “partes
inseparáveis” desta única essência que compõem um mesmo elemento dotado de
consciência e que sobrevive após a morte. Espírito (pneuma) não pode existir separado da alma (yuch) e nem a alma
separada do espírito. A alma pode ser compreendida como o complemento do
espírito, assim como o espírito também pode ser considerado como o complemento
da alma. Ou ainda poderíamos dizer: a alma é a parte inferior do espírito e o
espírito, a parte superior da alma.
7. Teorias
sobre a origem da alma
Desde
os tempos da igreja primitiva até hoje há divergências sobre o assunto. Tais
divergências ainda perduram até hoje. Há três teorias sobre a origem da alma: o
preexistencialismo, o traducianismo e o criacionismo.
7.1. Preexistencialismo
A
teoria da preexistência da alma origina-se da filosofia grega (Platão). Na
Igreja Primitiva, Orígenes foi o principal defensor da mesma. Para ele, a atual
existência material do homem moralmente corrompido é consequência de uma queda
ocorrida em uma existência anterior. João Escoto Erígena (810-877), filósofo
irlandês, afirmava que o pecado antecede a existência atual e que o homem
começa sua existência terrena já como pecador. A mesma tese é defendida por
Júlio Mueller.
7.2. Traducianismo
De
acordo com esta teoria, as almas humanas são reproduzidas juntamente com os
corpos pela geração natural e são transmitidas pelos pais aos filhos. Nos
primórdios da igreja cristã foram propagadores desta teoria Tertuliano, Rufino,
Apolinário e Gregório de Nissa. Os defensores desta teoria fundamentam-se nos
seguintes argumentos:
a)
Deus
criou o homem e o capacitou para que se reproduzisse, perpetuando a espécie
(Gn. 1:28).
b)
Como
Eva foi criada por Deus, não do pó da terra, mas de Adão, sua alma originou-se
da alma do homem, pois a Bíblia silencia quanto a criação da alma da mulher
(Gn. 2:21-23).
c)
Os
descendentes, antes mesmo de nascerem, estão nos “lombos” do seu pai (Gn.
35:11; Hb. 7:9-10).
d)
O
homem foi a última obra da criação imediata de Deus (Gn. 2:2).
e)
Era
necessário que Jesus, para redimir a alma humana, tivesse recebido alma
diretamente de Maria, pois assim seria verdadeiro “descendente da mulher” (Gn.
3:15; Gl. 4:4; Mt. 1:22-23; Is. 7:14).
OBJEÇÃO
A TAL CONCEPÇÃO:
Jesus
não poderia ter herdado de Maria uma alma humana. Nada, além de sua natureza
física e biológica, originou-se de Maria. Caso a natureza espiritual de Jesus
tivesse origem humana, o homem Jesus teria sido um indivíduo diferente do
Cristo preexistente e nada de divino haveria nele; a não ser que ele tivesse
uma natureza tricotômica.
Por
outro lado, o mistério da encarnação do Logos
nos traria um problema grave de consequências maléficas para a fé cristã,
pois tal concepção descreve Jesus como um duplo sujeito, o Nazareno (somente
humano) e o Logos Divino (o Filho de
Deus). Se este for um fato no qual se pretenda crer como verdade, questionamos:
Que destino teve a alma de Jesus quando ele morreu na cruz? Quem realizou o
sacrifício de expiação: o homem Jesus ou o Logos
encarnado?
7.3. Criacionismo
Segundo esta teoria, cada alma
individual é produto da criação imediata de Deus, mas que não se pode precisar
o momento em que isto ocorre. Tal teoria fundamenta-se nos seguintes
argumentos:
a)
Na
criação do homem, seu corpo origina-se “do pó da terra”, mas sua alma vem
diretamente de Deus (Gn. 2:7; Ec. 12:7; Is. 42:5; Zc. 12:1; Hb. 12:9).
b)
Torna
mais crível que Jesus teria uma alma pura, isenta de mácula do pecado.
Embora
esta seja a teoria mais aceita, este segundo argumento não convence, pois se
Deus criou uma alma para Jesus para isentá-lo da possibilidade de pecado, isto
pode significar uma acusação contra Deus de que todas as almas dos homens,
criadas depois de Adão, foram criadas impuras, isto é, já pecadoras em
potencial. Caso contrário, todas as almas dos homens pecadores depois de Adão,
foram criadas puras e só pecam por causa de sua imperfeição, suas limitações e
seu livre-arbítrio.
As
almas de crianças inocentes estão em estado de graça, isto é, sem pecado. Jesus
assim o reconhece quando disse: “Deixai
vir a mim os pequeninos, não os embaraceis, porque dos tais é o reino de Deus”
(Mc 10.14). “Em verdade vos digo que, se
não vos converterdes e não vos tornardes como crianças, de modo algum entrareis
no reino dos céus” (Mt 18:3).
Sabemos
que Jesus, para vencer o pecado, sofreu, sem pecar, todas as tentações que
todos os pecadores sofrem (Hb. 2:14-18; 4:15) e era necessário que fosse
“aperfeiçoado” e “aprendesse a obedecer” por meio de tudo que sofreu (Hb. 2:10;
5:8-9). Ele não foi tentado como Deus, isto é, na plenitude de sua divindade, “pois Deus não pode ser tentado pelo mal”
(Tg 1.13) e, por outro lado, para se encarnar, esvaziou-se de si mesmo (Fp 5.5-8).
Estas
passagens de Hebreus nos garantem que o Filho de Deus, nos dias da sua carne,
foi tão humano como qualquer outro, apenas no sentido de que esteve submetido a
todas as limitações humanas:
a)
limitações físicas (limite de espaço
ocupado, corpo físico dotado de todas propriedades limitadas da matéria; e
circunstâncias a que esteve submetido);
b)
limitações
psicológicas
(necessidade de aprendizagem, amadurecimento, sentimentos, emoções e
tentações).
CAPÍTULO XIV
ANTROPOLOGIA TEOLÓGICA – II
1. A concepção
teológica da “imago Dei”
A
doutrina da “imago Dei”, ou seja, da semelhança do homem com Deus, é o tema
fundamental da antropologia cristã e lhe abrange todos os aspectos, de modo que
se poderia, a partir da mesma, desenvolver uma doutrina completa do homem.
As
passagens bíblicas mais conhecidas que retratam a temática da "imago Dei”
estão no livro de Gênesis, nos capítulos 1:26-27; 5:1 e 9:6. Diante dos
resultados mais seguros da exegese bíblica e da teologia veterotestamentária,
pode-se dizer que com a expressão “imago Dei” o autor de Gênesis quer afirmar
três coisas:
a)
A
posse, por parte do homem, de atributos divinos que o distinguem das criaturas
inferiores.
b)
A
posição privilegiada que cabe ao homem como ponto alto e conclusivo da criação.
c)
A
função de representar Deus no universo, como seu “liturgo”, a quem foi confiada
a missão de governar a criação terrena.
1.1.
O significado
ontológico da “imago Dei”
As
palavras “imagem” e “semelhança” devem ser entendidas como sinônimas. Os dois
termos são empregados um pelo outro na Bíblia. A opinião geral é que a palavra
“semelhança” foi acrescentada à palavra “imagem” para expressar a ideia de que
a imagem do homem era semelhante (não igual) à de Deus. Isto significa que o
homem não só “leva” a imagem de Deus em si, mas que ele é como Deus em sua
natureza e caráter. Assim sendo, o homem é portador de atributos divinos:
a)
Um
ser espiritual cuja essência imaterial é semelhante à de Deus, pois é dotada de
invisibilidade e imortalidade.
b)
Um
ser dotado de poderes ou faculdades psíquicas que o caracterizam como sendo
racional e moral – intelecto, consciência, vontade própria e livre arbítrio.
Tal como Deus, o homem é pessoa.
1.2.
Outras concepções
a)
Filon de
Alexandria
Inspirando-se
em parte na filosofia platônica e em parte nas Escrituras, Filon deduz uma
concepção do homem não como imagem direta de Deus, mas como imagem do “Verbo” (eikon tou logou) e, por
conseguinte, imagem indireta de Deus. A alma, e não o corpo, é a imagem de
Deus.
a)
Clemente de
Alexandria
Clemente,
utilizando-se do que ele chamava de “filosofia cristã”, ele reconhece a
existência de três espécies de “imago Dei”: a do “Logos”, a do cristão e a de
todos os homens. Para as duas imagens cujo sujeito é o homem, Clemente adota
dois termos diferentes: eikon para a imagem
natural e oimoiosiV para a imagem
sobrenatural do cristão. A primeira pertence a todos; a outra, somente a
poucos: “o homem recebeu, logo ao nascer, a imago: mais tarde, na medida em que
se torna perfeito, recebe a “similitudo”. E o homem só se torna tal “pela ação
de Jesus Cristo”.
b)
Gregório de Nissa
Antes
de tudo, Gregório esclarece o significado de “imago”. Esta contém uma
reprodução fiel do modelo e, consequentemente, uma estreita semelhança com ele,
embora excluindo sua identidade. A Imagem é realmente imagem na medida em que
possui todos os atributos de seu modelo. Se a imagem não é exata, é qualquer
outra coisa, menos imagem.
Segundo
Gregório, Deus efetuou duas criações, primeiro a da “imago Dei ideal” e, em
seguida, a da “imago Dei real”, histórica. A criação da primeira realizou-se
quando Deus decidiu criar o homem. A real foi criada quando Deus fez o homem
sexuado. A imagem ideal consiste nas propriedades fundamentais da alma
(espiritualidade, liberdade, incorruptibilidade) e nas suas faculdades
cognitivas. A imagem real no homem dotado de sexualidade faz dele um ser
imperfeito, tendente à satisfação de suas paixões que o inclinam à reversão da
imagem de Deus. Para socorrer o homem nessa luta e mostrar-lhe os meios de
alcançar a imagem ideal, Deus enviou Jesus Cristo que mostrou à humanidade como
deve viver para realizar a “imago Dei”, fornecendo-lhe os meios para fazê-lo. O
cristão é aquele que se esforça por realizar plenamente a “imago Dei” pela
imitação de Jesus Cristo.
c)
Agostinho de
Hipona
Agostinho
baseia-se seu conceito de imagem de Deus na concepção da trindade. Para ele o
protótipo, cuja imagem o homem transmite, não é o Deus uno dos hebreus, não é o
Filho ou o “Logos” (como queria Filon), nem a “imagem ideal” (como afirma
Gregório), mas a Santíssima Trindade.
Agostinho
distingue duas espécies de imagem de Deus. Uma que é da mesma substância do
modelo e outra que de substância diferente. A imagem consubstancial realiza-se
através da geração; a não consubstancial é resultado de uma produção não
generativa (criação, transformação, etc.). Ele distingue o homem do Verbo,
ambos imagem de Deus. O Verbo é a imagem perfeita, idêntica à natureza do Pai;
o homem criado por Deus é uma imagem imperfeita, semelhante, mas não idêntica à
realidade divina, de quem possui as perfeições por “participação”. A imagem de
Deus não tem no homem semelhança física, mas somente espiritual. A alma humana
é o constitutivo essencial da imagem de Deus.
2.
Considerações
sobre a “imago Dei” no homem
a)
A
imagem de Deus é universal em toda a raça humana. Adão foi feito segundo a
imagem divina. “De um só fez toda raça humana...” (At. 17:26).
b)
A
“imago Dei” não foi perdida em consequência do pecado, mas ficou deformada em
seu aspecto moral por causa da degeneração humana. A regeneração por meio de
Cristo, o qual é a imagem perfeita de Deus (Cl. 1:15; Hb. 1:3) faz do homem uma
nova criatura. Desta forma, o cristão, que já se “despiu do velho homem com os
seus feitos”, foi “revestido do novo homem que se refaz... segundo a imagem daquele que o criou” (Cl. 3:9-10).
c)
O
propósito de Deus é restaurar e aperfeiçoar sua imagem no homem. Para isso, ele
equipou a igreja com dons, ministérios e ministros “com vistas ao
aperfeiçoamento dos santos... até que todos cheguemos... à perfeita varonilidade, à estatura da plenitude de Cristo” (Ef.
4:12-13). “E todos nós com o rosto desvendado, contemplando, como por espelho,
a glória do Senhor, somos transformados
de glória em glória, na sua própria imagem, como pelo Senhor, o Espírito”
(2Co. 3:18).
3.
A queda do homem
A
queda do homem consistiu no pecado de Adão. Sua natureza decaída foi herdada
por toda a humanidade (Sl. 51:5; 1Co. 15:21-22). Para se conhecer em que
consiste a queda do homem, necessário é que se saiba como Adão se tornou um
pecador.
3.1.
A origem do pecado
A Bíblia
declara que o pecado consiste na transgressão da lei de Deus e o homem é
descrito como transgressor. A natureza pecaminosa do homem é uma herança de
quem? Como o homem adquiriu essa natureza? O que a Bíblia tem a dizer sobre
isso? Antes de tudo, vejamos algumas considerações.
A
primeira é que Deus não pode ser
considerado como o seu autor. O decreto eterno de Deus evidentemente deu a
certeza da entrada do pecado no mundo, mas não se pode interpretar isso de modo
que faça de Deus a causa do pecado no sentido de ser Ele o autor responsável.
Esta ideia é completamente excluída da Escritura. “Longe de Deus o praticar ele
a perversidade, e do Todo-Poderoso o cometer injustiça” (Jó 34:10). Ele é o
santo Deus (Is. 6:3) e absolutamente não há falta de retidão nele (Dt. 32:4;
Sl. 92:16). “Ele não pode ser tentado pelo mal e ele próprio não tenta a
ninguém” (Tg. 1:13).
A
segunda é que o pecado tem origem
angelical - A narrativa da queda do homem apresenta um personagem como
tentador, falando por meio de uma serpente e induzindo a mulher a levar o homem
ao pecado. Segundo Ap. 12:9, tal personagem era o diabo, Satanás. Uma passagem
em Ez. 28:12-16 geralmente aceita como a narrativa da origem de Satanás,
comprova a origem do pecado como ocorrendo no mundo angelical. As passagens de
2Pe. 2:4 e Jd 6 expressam claramente que o pecado se originou com a queda dos
anjos. A ocasião desta queda não é indicada, mas em 1Jo. 3:8 está escrito que o
diabo peca desde o princípio. “Desde o princípio” deve significar desde o
início da criação e da história do homem.
3.2.
O pecado na raça
humana
As
Escrituras declaram que através de um homem o pecado entrou no mundo e com ele
todas as consequências universais do pecado (Rm. 5:12-19; 1Co. 15:21-22). Este
homem foi Adão e o pecado consistiu em ter desobedecido a Deus, comendo da
árvore do conhecimento do bem e do mal (Gn. 3:1-8).
3.3. A tentação
O
homem havia sido criado livre e, exatamente por isso, sua lealdade a Deus
precisava ser submetida à prova, para que sua lealdade fosse resultado de uma deliberação
livre do homem e não de uma coação divina. Para tanto, Deus colocou no jardim
do Éden a “arvore do conhecimento do bem e do mal”. A tentação manifestou-se com as seguintes
características:
a)
Não
começou nem terminou com um apelo ao pecado, mas com uma acusação contra Deus
de ter escondido a verdade, de enganar o homem intencionalmente e,
consequentemente, não ser digno de confiança.
b)
Realizou-se
através do despertamento da vontade de satisfazer ao desejo pessoal de
grandeza, tentando galgar uma postura divina e desvendar os segredos de Deus.
c)
Fez
Adão desejar possuir o que Deus havia proibido, querer saber o que Deus não
havia revelado e ser o que Deus não tivera a intenção que fosse. Embora,
indubitavelmente, a intenção do tentador fosse levar Adão a pecar contra Deus,
não obstante, não foi diretamente a ele, mas dirigiu-se a Eva e o fez
provavelmente pelas seguintes razões: (1) Eva não recebeu diretamente de Deus a
ordem de não comer da árvore e, por conseguinte, não teria o mesmo senso de
responsabilidade; (2) Seria o instrumento mais eficiente para alcançar o
coração de Adão.
3.4. A natureza do pecado de Adão
a)
O
pecado de Adão foi um ato livre e consciente que consistiu em opor-se a Deus,
recusar-se a sujeitar sua vontade à vontade de Deus, de modo que Deus
determinasse o curso de sua vida, decidindo determinar ele próprio seu futuro.
b)
O
primeiro pecado foi o desejo do coração, a escolha de interesses próprios ao
invés dos interesses de Deus. O ato público simplesmente expressa que já havia sido
cometido no coração.
3.5.
As consequências
imediatas do pecado de Adão
a)
A quebra da
comunhão com Deus
A
harmonia existente no relacionamento com o Criador e a paz espiritual advinda
desse relacionamento foram substituídos pelo medo e pelo tormento produzidos
por suas consciências culpadas. A vergonha que tomou conta do primeiro casal
fê-lo tornar-se fugitivo de Deus.
b)
A morte em todas
as suas dimensões
A
morte, como sentença do juízo divino, foi decretada sobre o homem, atingindo o
homem todo, corpo e alma. Sua vida teria de ser confiscada por Deus. A partir
daquele momento o corpo humano tornou-se perecível. Os germes que causam as
enfermidades que ceifam a vida e a perda lenta da energia vital
(envelhecimento) passaram a fazer parte da estrutura orgânica do corpo humano.
Sua natureza imaterial (espírito) ficou impedida de usufruir da glória divina
para a qual o homem fora criado. Privados da vida eterna, Adão e Eva foram
expulsos do Éden e impedidos de comerem da “árvore da vida”.
c)
A maldição sobre a
natureza
A
criação animal e a terra (solo) receberam a maldição divina. A natureza, antes
governada pelo homem, tornou-se adversa e a luta do homem, para dela tirar seu
sustento, tornou-se angustiante. A busca ansiosa pelos meios de sobrevivência,
para enfrentar e vencer a força da morte voraz, frustra e atormenta o homem ao
sentir-se ameaçado pelo seu fim inevitável.
3.6.
As consequências
universais do pecado de Adão
a)
A
morte de Adão, em todas as suas dimensões, estendeu-se sobre toda a humanidade
(Rm. 5:12), porque toda raça humana também tornou-se pecadora (Rm. 3:23).
b)
Toda
raça humana se corrompeu. A degeneração, por causa do pecado, atingiu
proporções universais (Gn. 6:1-13; Sl 14:2, 3; Rm. 3:10-12). Tal degeneração
significa a perda da inocência, santidade e justiça originais da imagem de
Deus, que ficou deformada. O homem tornou-se moralmente desqualificado e
espiritualmente incapaz. Não há homem que não peque (Ec. 7:20; 1Jo. 1:8-10).
c)
Todos
os homens tornaram-se culpáveis e inescusáveis perante Deus que encerrou todos
na qualidade de desobedientes. Sem acepção de pessoas, Deus privou todos da sua
glória (Rm. 2:1-11; 3:9, 19, 23; Gl. 3:22).
d)
Toda
a natureza, mesmo manifestando a glória de Deus (Sl. 19:1; Rm. 1:20), tornou-se
corrompida e aguarda “gemendo” sua redenção (Rm. 8:19-22).
CAPÍTULO XV
CRISTOLOGIA – A DOUTRINA DA PESSOA E OBRA DE CRISTO
Introdução
A
pergunta sobre o que é a Cristologia e qual a abrangência do conteúdo e
propósito de estudo tem como resposta o que se propõe a expor em seguida. Ela
consiste no estudo investigativo sobre Jesus Cristo no que diz respeito à sua
natureza, identidade, missão, ensinamentos e obra salvífica. O termo deriva da
junção de dois vocábulos gregos: Christos (Cristo, o Ungido) e logos
(estudo, tratado, palavra).
O
estudo da Cristologia propõe responder uma questão considerada de extrema
relevância: Que conteúdo se obtém na investigação do que foi revelado sobre
Cristo? Esse conteúdo é vasto e abrange não só tudo que diz respeito à
identidade histórica e divina de Jesus quanto à sua obra salvífica.
Tradicionalmente, o conteúdo é dividido em duas grandes vertentes: a Pessoa de
Cristo (quem Ele é?) e a Obra de
Cristo (o que Ele fez?). Estas
questões intrínsecas à Teontologia
definem a dimensão em que se estuda a natureza e a identidade de Jesus. Os
principais debates e formulações dogmáticas (especialmente nos primeiros
concílios ecumênicos, como de Niceia, em 325 d.C. e o de Calcedônia, em 451
d.C.) definiram, no âmbito da Cristologia, os seguintes pilares:
a)
A
Divindade de Cristo: Jesus é o Logos eterno, a segunda pessoa da
Trindade, consubstancial (homoousios) ao Pai. Ele não é apenas um homem
iluminado ou uma criatura elevada, mas o próprio Deus encarnado.
b)
A
Humanidade de Cristo: Jesus assumiu uma natureza humana real e completa
(corpo, mente, alma e vontade). Ele experimentou a fome, o cansaço, a dor e a
morte, sendo em tudo igual aos seres humanos, exceto no pecado.
c)
A
União Hipostática: É o mistério de como a natureza divina e a
natureza humana se unem em uma única pessoa (a pessoa do Filho de Deus).
Segundo o Concílio de Calcedônia, essas duas naturezas coexistem "sem
confusão, sem mudança, sem divisão e sem separação".
d)
A
Pré-existência: Consiste no estudo de Cristo, antes da encarnação,
participando da criação do cosmos e manifestando-se de forma teofânica no
Antigo Testamento.
O
outro conteúdo a ser explorado no estudo da Cristologia diz respeito à obra que
Cristo realizou, no âmbito da Soteriologia, cuja investigação exige prudência
em não separar a personalidade de Jesus daquilo que Ele realizou. A obra de
Cristo estuda o seu papel na redenção da humanidade, nos seguintes aspectos:
a)
A
Encarnação: O ato pelo qual o Filho de Deus se esvaziou de sua glória
(kenosis) e assumiu a condição humana.
b)
A
Vida e o Ministério Terreno: Seus ensinamentos (o Reino de
Deus), seus milagres e sua obediência perfeita à lei de Deus, que serve de
modelo para a humanidade.
c)
A
Morte Expiatória: O sacrifício na cruz como o meio de
reconciliação entre Deus e a humanidade, interpretado por várias teorias da
expiação (substituição penal, vitória sobre o mal, influência moral, etc.).
d)
A
Ressurreição e Ascensão: A vitória sobre a morte que garante a
justificação e a futura ressurreição dos crentes, e sua exaltação à direita do
Pai como Senhor do universo.
e)
O
Tríplice Ofício: A compreensão de Cristo como o cumprimento
perfeito de três papéis do Antigo Testamento: Profeta (revela a verdade de
Deus), Sacerdote (intercede e oferece o sacrifício por nós) e Rei (governa com
justiça).
Com referência
ao propósito da Cristologia – para que estudar? – o estudo não consiste
em um mero exercício intelectual ou acadêmico. Ele possui propósitos profundos
que afetam a fé, a prática e a visão de mundo. Em sua abrangência, o estudo do
propósito da Cristologia está relacionado aos seguintes aspectos: (a) propósito
teológico revelacional; (b) soteriológico; (c) doxológico e devocional; (d)
prático e existencial.
No que
se refere ao Propósito Teológico e Revelacional, este envolve o
conhecimento do caráter de Deus, cujo propósito primário consiste em revelar
quem é Deus. Em João 14:9, Jesus diz: "Quem me vê, vê o Pai".
Jesus é a exegese de Deus e, por esta razão, a Cristologia nos impede de criar
falsas projeções sobre a divindade, ancorando nossa visão de Deus na pessoa
histórica e amorosa de Jesus. Indispensável, portanto, é garantir a ortodoxia.
A Cristologia funciona como a "espinha dorsal" da teologia cristã. Se
a nossa compreensão de Jesus estiver incorreta, a nossa visão sobre a salvação
(Soteriologia), sobre a Igreja (Eclesiologia) e sobre o fim dos tempos
(Escatologia) também será distorcida.
O
propósito soteriológico consiste em compreender a redenção, isto é, entender
como a salvação é possível. A Cristologia explica que somente alguém que fosse verdadeiramente
Deus poderia suportar o peso do julgamento do pecado, e somente alguém
verdadeiramente homem poderia representar a humanidade. Sem a identidade
correta de Cristo, a eficácia da salvação desmorona.
O
propósito doxológico e devocional consiste em alimentar a fé e a adoração,
através do estudo teológico do ser de Cristo que visa conduzir o estudante à
adoração (doxologia). Ao contemplar a beleza de sua dupla natureza, seu
esvaziamento por amor e sua vitória cósmica, o coração humano é movido ao amor,
à gratidão e à reverência.
O
propósito prático e existencial (tem a ver com o discipulado) focaliza a
imitação de Cristo. A Cristologia fornece o padrão ético para a vida humana.
Estudar a humanidade de Jesus nos ensina o significado da verdadeira humanidade,
segundo o design original de Deus, na prática de vida em amor, serviço,
humildade e justiça.
Finalmente,
a Cristologia tem como propósito fundamentar a Missão da Igreja, enfatizando
que a Igreja é o "Corpo de Cristo" na terra. Nestes termos, o
propósito da Cristologia é alinhar a missão da Igreja com a missão do próprio
Jesus, no que diz respeito à proclamação das boas-novas, à cura dos
quebrantados e na libertação dos cativos.
Em
resumo, podemos dizer que a Cristologia é o coração da fé cristã. Seu conteúdo
investiga o mistério profundo de Deus que se fez homem, habitou entre nós,
morreu e ressuscitou. Seu propósito é transformar o estudante, tirando-o da
ignorância sobre Deus, conduzindo-o à salvação, inspirando sua adoração e
moldando seu caráter à imagem daquele que é o modelo perfeito de humanidade.
Outras
concepções sobre o estudo da Cristologia, propõem que o Antigo Testamento
(Bíblia dos primeiros cristãos) foi a fonte primária usada tanto por Jesus como
também pelos seus discípulos. Dela extraíram seus ensinos doutrinários sobre a
identidade, natureza e missão do Messias. O sucesso da Missão do Messias entre
os judeus, segundo parece, dependia de uma visão correta de sua identidade e de
sua função. O Novo Testamento indica que um problema sério deveria ser
resolvido entre os judeus: Jesus era ou não o Messias? Ele tinha as credenciais
que poderiam identificá-lo como o Cristo? Quem é o Cristo? Qual seria sua
missão? Das respostas a estas questões dependeria o destino dos judeus e de sua
religião.
Segundo
Oscar Cullman, a pergunta levantada no Novo Testamento “quem é o Cristo?” não
se refere à sua natureza, mas à sua função.[60] Por isso, as
informações fornecidas pelo Novo Testamento concentram-se na pessoa e obra do
Cristo reconhecido na figura do homem Jesus. Durante seu ministério, ao
levantar a questão “Quem dizem os homens que eu sou?” (Mc 8.27-29),
Jesus quis certamente resolver um problema existente que consistia numa visão
distorcida da real identidade e do verdadeiro papel do Cristo na história da
salvação. Resolver este problema é o objetivo central da Cristologia.
A
Cristologia é o centro e o âmago da teologia e da fé cristã. A doutrina de
Cristo nos mostra Deus vindo até o homem com o propósito de remover a barreira
da separação entre o homem e Deus, restaurando a comunhão entre ambos. Cristo é
descrito como o Mediador da Aliança entre Deus e seu povo, o sacerdote e profeta
que revelou o Pai na plenitude do seu ser e abriu o caminho para reconciliar
não somente o homem, mas também toda a criação com o seu Criador.
1. A identidade
de Cristo no Velho Testamento
Entramos
agora em um dos assuntos mais importantes da história da cristandade, pois diz
respeito ao alicerce da nossa fé. Nossa fé baseia-se no fato de que Jesus é,
para nós, Deus em carne humana. A divindade de Jesus é comprovada tanto pelo
Velho como o Novo Testamento. A doutrina da pessoa de Cristo resume-se no fato
de que Jesus Cristo foi, de forma simultânea, plenamente homem e plenamente
Deus, em uma só pessoa de caráter e natureza indivisíveis.
1.1. O protoevangelho (Gn 3.15)
O termo
"protoevangelho" (do grego proto + evangelion,
"primeiro evangelho" ou "primeira boa notícia") é a
designação tradicional dada a Gênesis 3:15: "Porei
inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e a sua descendência;
esta te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar". Este versículo
aparece no contexto imediato da queda humana (Gênesis 3), como parte da
sentença divina proferida contra a serpente, logo após o pecado de Adão e Eva.
É reconhecido pela tradição cristã (patrística, medieval e reformada) como o
embrião de toda a revelação redentiva que se desdobra ao longo das Sagradas
Escrituras.
Uma exposição
exegética deste conteúdo consiste dos seguintes elementos:
1) "Porei
inimizade" (אֵיבָה, eybah) - Deus mesmo se apresenta como o agente que institui a
hostilidade entre o bem e o mal, entre a serpente e a humanidade. Não se trata
de um estado natural neutro, mas de uma imposição divina pós-queda como ponto
de partida para a manifestação da graça de Deus como a razão da quebra da
aliança estabelecida entre a humanidade caída e o tentador.
2) "Entre a
tua descendência e a sua descendência" (זֶרַע, zera) – A palavra
hebraica zera ("semente" ou "descendência") é central. Ela
pode indicar: (a) Um sentido coletivo (a linhagem humana em conflito perpétuo
com o mal, simbolizado pela serpente); (b) Um sentido singular e pessoal (um
indivíduo específico que confrontará o mal de modo decisivo).
3) "Ferirá
a cabeça" / "ferirás o calcanhar" (שׁוּף, shuph) – O verbo hebraico shuph é usado nas duas cláusulas,
mas a assimetria é decisiva: um golpe na cabeça é fatal; um golpe no calcanhar
é doloroso, mas não mortal. Este paralelismo assimétrico prenuncia a vitória
final da "semente da mulher"
sobre a serpente, ainda que a vitória venha mediante sofrimento.
Irineu de Lyon
(séc. II), em Contra as Heresias, identifica Cristo como aquele que
reverte a desobediência de Adão, esmagando a cabeça da serpente que havia
enganado a humanidade. Justino Mártir e outros apologistas do período também
associaram a passagem à obra de Cristo. A tradição protestante reformada
enfatiza o caráter cristocêntrico do texto identificando Cristo como a "semente da mulher" por
excelência, o segundo Adão (Romanos 5:12-21; 1 Coríntios 15:45), que reverteu a
queda inaugurada no primeiro Adão. Calvino, em seu comentário sobre Gênesis,
via aqui o início da "aliança da
graça", o primeiro raio de esperança concedido à humanidade caída.
Este posicionamento
teológico tem sua fundamentação comprovada pelo Novo Testamento:
1)
Romanos 16:20: linguagem quase idêntica de
esmagamento sob os pés.
2)
Gálatas 4:4: "nascido
de mulher" — ênfase paulina que ressoa com a "semente da mulher".
3)
Hebreus 2:14-15: Cristo destruindo "aquele que tinha o poder da morte, isto é, o diabo".
4)
Apocalipse 12:1-17: a visão da mulher, o dragão e a
semente remanescente que guarda os mandamentos de Deus.
1.2. A Bênção Patriarcal – Judá e o Cetro (Gênesis 49.10)
“O
cetro não se arredará de Judá, nem o bastão de entre seus pés, até que venha
Siló; e a ele obedecerão os povos”. Gênesis 49:10 [ARA].
O termo hebraico shiloh (שִׁילֹה) foi lido tradicionalmente
como "Aquele a quem pertence [o cetro]" ou "aquele que
traz repouso/paz". O texto estabelece que a realeza definitiva
emergirá da tribo de Judá. Este é um dado genealogicamente relevante, pois
Mateus e Lucas situam Jesus precisamente nessa linhagem (Mt 1.2-3; Lc 3.33)
como também declara o autor de Hebreus: "nosso Senhor procedeu de
Judá" (Hb 7.14,). A cláusula "a ele obedecerão os povos"
projeta um domínio universal, não meramente nacional.
1.3. O profeta vindouro (Dt 18.15)
“O Senhor, teu Deus, te suscitará um profeta do meio
de ti, de teus irmãos, semelhante a mim; a ele ouvirás”, Deuteronômio 18:15
[ARA] (ver também Dt 18.18).
A figura do profeta
vindouro, na era escatológica do judaísmo, tornou-se evidente no período
pós-exílico, quando a expectativa messiânica judaica deu margem para muita
especulação. Neste período, o profetismo escatológico atingiu o auge. A
aparição de João Batista, nos dias que antecederam a manifestação pública de
Cristo, suscitou nos judeus uma inquietação: Quem és tu? [...] És o
profeta? (Jo 1.19-21). Era evidente que a expectativa da restauração
nacional dos judeus estava associada não só à figura do Messias, mas também ao
do profeta escatológico anunciado por Moisés (Dt 18.15,18).
O Novo
Testamento funde os personagens escatológicos (o Messias e o profeta vindouro)
na pessoa de Jesus de Nazaré. O livro de Atos dos Apóstolos declara
explicitamente que Jesus é o profeta anunciado por Moisés (At 3.19-23).
1.4. A aliança davídica (2Sm 7.12-16)
“Quando teus dias se cumprirem e descansares com
teus pais, então, farei levantar depois de ti o teu descendente, que procederá
de ti, e estabelecerei o seu reino. Este edificará uma casa ao meu nome, e eu
estabelecerei para sempre o trono do seu reino”. 2Samuel 7:12-13 [ARA]
A aliança feita com Davi (berit) institui
uma dinastia perpétua. Historicamente, a linhagem davídica foi interrompida
pelo exílio babilônico (586 a.C.), criando uma tensão teológica que gerou nos
profetas pós-exílicos a esperança de um Rebento (netser) davídico que
haveria de restaurar definitivamente o trono (Is 11.1; Jr 23.5). O Novo
Testamento resolve essa tensão declarando que Jesus, "gerado da
descendência de Davi segundo a carne" (Rm 1.3), está designado como
Rei eterno (Lc 1.32-33).
1.5. Os salmos reais e messiânicos
A declaração expressa no Salmo 2 – “O SENHOR me
disse: Tu és meu Filho; eu hoje te gerei. Pede-me, e eu te darei as nações por
herança e os confins da terra por tua possessão” (v. 7,8) – transcende
qualquer monarca de Israel, projetando um domínio sobre "os confins da
terra". É citado repetidamente no NT em referência a Cristo (At
4.25-28; 13.33; Hb 1.5; 5.5).
Declarações do Salmo 22 sobre o sofrimento do Justo
expressam com precisão abandono, escárnio, ser traspassado, sorteio de vestes,
etc. antecipam detalhes da crucificação séculos antes de essa forma de execução
romana existir. O salmo conclui com vindicação e proclamação universal (v.
27-31), padrão de sofrimento seguido de glória que esquematiza toda a
cristologia do NT (cf. Lc 24.26).
Citações do Salmo 110 no NT fazem referência a Cristo.
Sua estrutura é teologicamente decisiva: Davi chama seu próprio descendente de "meu
Senhor" (Adoni), enigma que o próprio Jesus explora em debate
com os fariseus (Mt 22.41-45) para demonstrar que o Messias é mais que "filho
de Davi", ou seja, é
também seu Senhor divino. A referência a Melquisedeque (Gn 14.18-20) une os
ofícios régio e sacerdotal numa única pessoa, algo impossível na ordem levítica
ordinária (sacerdotes e reis eram de tribos distintas), exigindo uma ordem
sacerdotal sui generis, tal como foi desenvolvida extensamente em Hebreus 7.
1.6. O Filho que é “Deus Poderoso” (Is 9.6-7)
“Porque um menino nos nasceu, um filho nos foi
dado, e o governo está sobre os seus ombros. E ele será chamado Maravilhoso
Conselheiro, Deus Poderoso, Pai Eterno, Príncipe da Paz. Ele estenderá o seu
domínio, e haverá paz sem fim sobre o trono de Davi e sobre o seu reino,
estabelecido e mantido com justiça e retidão desde agora e para sempre. O zelo
do Senhor dos Exércitos fará isso”. Isaías 9:6-7 [NVI].
A justaposição "um menino nos nasceu"
/ "Deus Forte" (El Gibbor) é teologicamente notável, pois o texto
atribui à figura régia de descendência davídica, tanto identidade humana
(nascimento) como também identidade divina (título reservado a Yahweh em
Is 10.21) como antecipação implícita da união hipostática desenvolvida
cristologicamente séculos depois.
1.7. Isaías 52.13-53.12 (O Servo Sofredor)
Este é
o texto messiânico mais denso do AT. O Servo é "desprezado e
rejeitado" (53.3), "ferido por causa das nossas transgressões"
(53.5), "levou sobre si o pecado de muitos" (53.12). Esta
terminologia, usada numa linguagem sacrificial e substitutiva, é inequívoca (נָשָׂא nâsâʼ, "levar/carregar", terminologia cúltica
do Dia da Expiação, Lv 16.22). Crucialmente, o sofrimento vicário do Servo é
seguido de exaltação e vindicação (52.13; 53.10-12), estabelecendo o padrão
morte-ressurreição-glorificação. Filipe aplica este texto diretamente a Jesus ao
evangelizar o eunuco etíope (At 8.32-35), e o próprio Jesus se identifica com
essa figura (Lc 22.37; Mc 10.45).
1.8. Jeremias e Ezequiel – o Rebento Justo e o Pastor Davídico
O profeta Jeremias anuncia: "Levantarei a
Davi um Rebento justo, e ele reinará... e será chamado: O SENHOR (Yahweh) é a
nossa justiça" (Jr 23.5-6). O uso do Tetragrama atribuído ao nome do
Rebento é uma das indicações mais explícitas de identidade divina do Messias no
AT. O profeta Ezequiel, por sua vez, fala de "o meu servo Davi"
que será "príncipe para sempre" (Ez 37.24-25) como sendo uma
referência não ao Davi histórico, que já havia morrido há séculos atrás, mas a
um segundo Davi escatológico.
1.9. Daniel: o Filho do
Homem e o Ungido Cortado
a)
Daniel
7.13-14 — O Filho do Homem
"Eis
que vinha nas nuvens do céu um como o Filho do Homem... foi-lhe dado domínio, e
glória, e um reino, para que os povos, nações e línguas o servissem; o seu
domínio é um domínio eterno."
A
expressão "vir nas nuvens" é, no AT, prerrogativa
exclusivamente divina (cf. Is 19.1; Sl 104.3). Fato teologicamente
extraordinário é a figura descrita "como filho do homem" que
se manifesta numa vinda gloriosa, recebendo culto/serviço (pelach,
termo cúltico) reservado a Deus. Jesus adota este título como sua
autodesignação preferida nos evangelhos (mais de 80 ocorrências), sinalizando
reivindicação messiânica e divina simultânea, culminando em sua declaração
perante o Sinédrio (Mc 14.62).
Segundo
o Velho Testamento, o Messias é um personagem escatológico designado por Deus
para estabelecer um reino eterno sobre toda a humanidade (Dn 7.13-14). A
expectativa judaica, no período pós-exílico, era de que Yahweh haveria
de enviar um Descendente de Davi (também intitulado “O Renovo”) para estabelecer
o reino eterno prometido na aliança de Deus com Davi registrada em 2Sm 7.4-17.
Outras passagens da profecia do Velho Testamento testificam da vinda do Messias
para a restauração de Israel (Mq 5.2-4; Is 4.2-6; Jr 23.5-6; 33.14-22; Zc
6.12-13).
b) O “Anjo da
Aliança” (Ml 3.1)
A era vindoura,
tão esperada no período pós-exílico, haveria de ser caracterizada pelo
estabelecimento de uma nova aliança que jamais seria quebrada, uma vez que a
antiga fora violada por meio da apostasia de Israel. Através da nova aliança,
os remanescentes de Israel haveriam de herdar todas as promessas da antiga. Um
mediador, a quem o profeta Malaquias intitula de anjo da aliança (Ml 3.1),
haveria de fazer cumprir os eternos desígnios de Deus com respeito a Israel e
os gentios. Este anjo da aliança é o Messias e essa profecia se cumpre em Jesus
que selou com seu próprio sangue o pacto eterno (Mt 26.26-28; 1Co 11.24).
2.
A identidade de Cristo segundo o Novo Testamento
A
identidade de Cristo no contexto da nova aliança é uma composição teológica
multifacetada que consiste numa reinterpretação da esperança messiânica do
Antigo Testamento formulada a partir da pessoa, ministério, morte e
ressurreição de Jesus de Nazaré. Os escritores neotestamentários fizeram uma
reconfiguração do Messias, associando a expectativa do glorioso Rei davídico à
figura do Servo sofredor descrito pelo profeta Isaías. Portanto, a titulação de
Jesus como "Cristo" deixa
de ser apenas uma designação de sua função para tornar-se o Redentor, não
exclusivo de Israel, mas de toda raça humana e da criação em geral.
Ao encontrar-se em Cesareia de Filipe juntamente com seus discípulos,
Jesus questionou: "Quem vocês dizem que eu sou?" (NVI - Mc
8,29). A pergunta é retórica, mas suscita respostas de cunho teológico. Os
escritores do Novo Testamento não oferecem uma definição sistemática única;
eles mencionam títulos, narrativas e afirmações que esboçam a Cristologia,
concentrando sua
mensagem em dois temas: a identidade do Messias onde são evidenciadas suas duas
naturezas, a divina e a humana; e a sua obra redentora através de sua vida,
morte e ressurreição. Os escritores neotestamentários definem a pessoa de Jesus
com base em alguns títulos.
Segundo
Berkhof, “alguns sustentam que somente os sinópticos dão um retrato verdadeiro
de Cristo”.[61] Em contraste com o Evangelho de João, os sinópticos descrevem o Cristo
através da figura do Jesus histórico, dando mais ênfase ao conteúdo biográfico
que ao teológico. Mesmo assim, a narrativa da vida e obras de Jesus são uma
forma de descrever sua natureza divina manifesta na encarnação. As passagens de
Mt 9.6; 11.1-6, 27; 14.33; 16.16; 25.31-46; 28.18; Mc 8.38, e outras mais, dão
destaque à figura de Jesus como uma pessoa supernatural, buscando provar sua
identidade messiânica.
a)
Distintas perspectivas no contexto da nova aliança
A
tradição judaica mantém a expectativa de um Messias como um monarca,
descendente de Davi que cumprirá sua missão previamente designada por Yahweh:
·
Restaurará
a soberania de Israel;
·
Reunirá
o povo disperso;
·
Construirá
o Templo em Jerusalém;
·
Estabelecerá
uma era de paz universal, sem guerras ou sofrimento.
No
contexto atual, a maioria das correntes judaicas concebe a ideia de que o “Mashiach” não é Deus nem divino; é um
homem escolhido por Deus. Os judeus descartam por completo a crença em sua
morte expiatória ou ressurreição como parte da missão messiânica. O Novo
Testamento apresenta Jesus como o cumprimento da promessa messiânica, mas
amplia e transforma o perfil original do Messias, fazendo surgir diferentes
interpretações, conforme o esboço abaixo;
Cristãos ortodoxos - afirmam que
Jesus é o Messias esperado, mas sua missão tem um sentido mais amplo e
espiritual do que o esperado por muitos na época. (a) Jesus cumpre as profecias
de realeza, mas seu reino “não é deste
mundo” (João 18:36); (b) Na figura do "Servo Sofredor", a morte
de Jesus é expiatória e serve para reconciliar a humanidade com Deus, perdoar
pecados e vencer a morte; (c) Como “Filho
de Deus”, Jesus une em sua pessoa a natureza divina e humana, sendo capaz
de conceder vida eterna (Jo 10.14-18).
Perspectiva crítica e acadêmica – expõe uma
concepção histórico-religiosa nos seguintes aspectos:
·
A
expectativa messiânica no Antigo Testamento foi se modificando conforme as
experiências do povo judeu (exílio, dominação estrangeira).
·
Observa
que, no início, os seguidores de Jesus o viam como o Messias político esperado;
após sua morte e ressurreição, mas a interpretação evoluiu para incluir
elementos de divindade e salvação espiritual, adaptando-se também ao público
não judeu.
·
Destaca
que a visão de Cristo como divino não era unânime nos primeiros séculos do
cristianismo, sendo definida progressivamente em concílios sucessivos.
b)
Outras perspectivas
·
Messiânicos – buscam conciliar as tradições, mantendo
costumes judaicos e reconhecendo Jesus como o Messias, interpretando as
profecias de forma mais alinhada com a cultura original.
·
Simbolismo – Algumas correntes mais liberais ou
espirituais veem o Messias/Cristo não como uma pessoa única, mas como um
princípio ou estado de consciência de união com Deus.
c)
O evangelho de João – o “Logos”
João inicia seu evangelho com a afirmação mais explícita: "no
princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus" (Jo
1,1). Tomé conclui o evangelho confessando "Meu Senhor e meu
Deus!" (Jo 20,28). Hebreus 1,8 aplica a Cristo o vocativo "Deus"
citando o Salmo 45. Tito 2,13 e, provavelmente, Romanos 9,5 seguem a mesma
linha.
A ideia do Logos,
segundo George Ladd, remonta aos tempos do filósofo Heráclito (século VI a.
C.). Ele ensinava que todas as coisas no universo estavam em constante fluxo e
nada permanece o mesmo. Mesmo assim, em meio a essas alterações, há uma ordem e
um padrão que podem ser percebidos por meio do Logos, identificado como
sendo “o princípio eterno de ordem no universo [...] e que faz com que o mundo
se torne um ‘cosmos’ e um todo ordenado”.[62]
Na cultura
helenística, a ideia do Logos foi desenvolvida na teologia estoica e ganhou
a concepção de um poder divino produtivo, o princípio gerador do mundo que
fornece “a ordem racional do universo e provê o padrão para a conduta e para a
adequada ordenação da vida para o homem racional”.[63] Filo, judeu natural de Alexandria (20 a. C. – 42 d. C.), associou a
filosofia grega ao judaísmo. Ele defendeu a ideia de Deus numa perspectiva
grega, isto é, um ser transcendente e separado do mundo, utilizando-se do
conceito do Logos para sugerir uma mediação entre Deus e a Criação.
O apóstolo João
utilizou-se do conceito grego do Logos para ensinar que Jesus, como
homem, era a revelação perfeita da natureza e caráter do Criador. Ele enfatiza
quatro ideias: a preexistência, a deidade, a ação criadora e encarnação de
Jesus na Criação. Nos demais escritos do Novo Testamento, os títulos
messiânicos atribuídos a Jesus especificam detalhes de sua natureza e
personalidade.
3.
Títulos messiânicos
a)
Cristo/Messias
(Χριστός) – este é o termo grego que traduz o hebraico mashiach, "ungido". A confissão de Pedro - "Tu és
o Cristo" (Mc 8,29) - situa Jesus na expectativa messiânica judaica,
mas os evangelhos redefinem o conceito: o Messias que Jesus é será um Messias
sofredor (Mc 8,31-33), um redentor espiritual, não um libertador político
imediato. Paulo usa "Cristo" quase como nome próprio, sinal de que a
confissão messiânica já estava consolidada na tradição pré-paulina.
b)
Filho
do Homem (ὁ υἱὸς τοῦ ἀνθρώπου) – este foi o título
preferencialmente usado por Jesus para identificar-se com o personagem
escatológico de Daniel 7.13-14, descrito como um “semelhante a um filho de
homem" que recebe de Deus o domínio eterno. O título comporta três
usos: autoridade terrena (Mc 2,10), sofrimento (Mc 8,31) e vinda
gloriosa no fim dos tempos (Mc 14,62). Essa tripla função revela uma
cristologia que une humildade e exaltação numa só figura.
c)
Filho
de Deus - em sentido funcional, este título faz referência ao rei
davídico, cf. Sl 2,7; e em sentido ontológico mais pleno, manistesta sua
natureza divina, especialmente em Marcos (1,1.11; 15,39) e João. A voz do
batismo e da transfiguração - "Este é o meu Filho amado", Mc
1,11; 9,7 - ecoa o Salmo 2 e Isaías 42, unindo realeza messiânica e eleição
única.
d)
Senhor
(Κύριος) – este é o termo designativo da pessoa de Deus em substituição ao
tetragrama YHWH, não pronunciado pelos judeus. Quando Paulo aplica a Jesus
textos veterotestamentários sobre o Senhor (cf. Rm 10,9-13 com Jl 2,32) e
afirma que "todo joelho se dobre... e toda língua confesse que Jesus
Cristo é Senhor" (Fp 2,10-11, ecoando Is 45,23), há uma transferência
deliberada da identidade divina de YHWH para Jesus.
4.
A divindade de Cristo
Entramos agora
em um dos assuntos mais importantes da história da cristandade, pois diz
respeito ao alicerce da nossa fé. Nossa fé baseia-se no fato de que Jesus é
para nós Deus em carne humana. A divindade de Jesus é comprovada tanto pelo
Velho como pelo Novo Testamento. A doutrina da pessoa de Cristo resume-se no
fato de que Jesus Cristo foi, de forma simultânea, plenamente homem e
plenamente Deus, em uma só pessoa de caráter e natureza indivisíveis.
5.
A divindade de Jesus segundo o Velho Testamento
A divindade de
Cristo, embora não tenha sido enfatizada na pregação dos profetas, foi
registrada nos seus escritos. Dela dão testemunho os seguintes profetas:
Isaías, Jeremias, Daniel e Miquéias.
5.1.
Isaías 9:6-7
Na
predição da vinda do Messias, Isaías atribui a ele não só títulos, mas também
autoridade divina. Com base nas declarações de Isaías, podemos afirmar que:
a)
"Maravilhoso" é um nome que designa algo ou alguém de origem
sobrenatural (Jz. 13:18). Desta forma, Maravilhoso é o nome que designa o
Messias como Conselheiro Divino que traria ao mundo "palavras de vida
eterna" (Jo. 6:68-69).
b)
"Deus Forte" é um termo aplicado à pessoa de Javé (Dt. 10:17; Is.
10:21; Jr. 32:18) e prediz a vitória definitiva do Messias sobre o mal.
c)
"Pai da Eternidade" ou Pai Eterno designa a relação de paternidade que
Javé tem com seu povo (Is 63:16; 64:8). Isto pode significar que o Messias
seria a perfeita revelação de Javé (Jo. 14:7-11).
d)
O versículo 7
declara que o Messias viria fazer cumprir o propósito divino de estabelecer
entre os homens o reino eterno de Deus com autoridade divina para julgar o
mundo.
5.2. Jeremias
23:5-6
a)
O Messias teria
poder divino para reinar com "juízo e justiça" em toda a terra. O
reino de Deus deveria se estabelecer por meio do Messias como verdadeiro agente
da justiça e do juízo divinos (Jo 5:22-27; At. 17:30-31).
b)
O nome do Messias
haveria de conter o nome de Javé como Salvador. Isto o identificaria como um
ser divino entre os homens promovendo salvação para o seu povo (Mt. 1:21; Lc.
1:31). O nome "Jesus" vem da forma grega e latina do hebraico "Jeshua" (Josué) que
significa "Javé é Salvação".
5.3. Daniel
7:13-14
Este texto
refere-se ao estabelecimento do reino eterno de Deus por meio do Messias que
surge em figura humana sem, contudo, ser terreno, pois sua origem é celestial.
Ele vem com autoridade divina para exercer soberania absoluta sobre todos os
povos e nações de toda a terra.
5.4. Miquéias 5:2
O profeta
Miquéias identifica o Messias como um homem que, embora tenha existência terrena
(natural de Belém de Judá), não é mera criatura de origem situada nas dimensões
do tempo, mas um ser preexistente "cujas origens são... desde os dias da
eternidade".
6.
A autoconsciência de Jesus
Jesus não fez
nenhuma declaração explícita sobre ele ser Deus, mas usou diversos termos que
evidenciam estar ele consciente de sua preexistência, de sua divindade e de sua
origem celestial.
6.1. Sua autoridade
a) Jesus menciona sua autoridade sobre os anjos que
também são identificados como anjos de Deus (Mt 13:41; Lc. 12:8-9; 15:10).
b) Jesus comprovou sua autoridade sobre os espíritos
malignos que, por sua vez, reconheceram sua autoridade sobre eles (Mc. 5:6-14).
c) Jesus alega possuir autoridade divina para perdoar
pecados (Mc. 2:5-12).
d) Jesus reivindicou sua autoridade sobre o sistema
religioso judaico (Mt 12:5-8).
6.2. Sua identidade e caráter divino
a)
Jesus estava
consciente de que, mesmo como homem, era uma pessoa cujo caráter era divino,
isto é, revelava o próprio Deus a quem chamava de Pai (Jo 10:30; 12:44-45; 14:8-11).
b)
Jesus deu
testemunho de sua origem celestial e de sua divindade ao declarar sua
coexistência eterna com o Pai a quem os judeus adoravam como Deus (Jo 8:38,
52-58).
"Antes
que Abraão existisse EU SOU". Por que Jesus não disse "eu era",
ou então "eu existia"? Se Jesus tivesse se expressado desta forma
poderia significar que sua existência teve um "início" em algum lugar
do tempo. EU SOU foi a expressão através da qual Deus se identificou a Moisés
quando este lhe perguntou pelo nome (Ex 3:13-15). Ao dizer EU SOU, Jesus se
identifica com o próprio Javé, cuja personalidade e caráter estavam retratados
em sua própria pessoa.
a)
Jesus aceitou que
seus discípulos lhe atribuíssem divindade, como no caso de Tomé ao vê-lo
ressuscitado: "Senhor meu e Deus meu" (Jo 20:28).
b)
Jesus declarou
ter poder sobre a vida e a morte, isto é, poder para devolver a vida aos
mortos, o que só compete a Deus (Jo 11:25-26; cf. Dt 32:39; 1Sm 2:6).
c)
Jesus afirma que,
tal como Deus, ele "vivifica a quem quer" (Jo 5:21), tem autoridade para
julgar; e o propósito de tudo isso é para que ele receba "honras
divinas" (Jo. 5:22-23).
6.3.
Testemunho de João
O
apóstolo João, para enfatizar a divindade de Jesus, denomina-o de Logos. Apesar dos eruditos com
frequência terem tentado encontrar a fonte do conceito de João a respeito do
"Logos" no pensamento helenístico, a tendência atual é de interpretar
o termo à luz do seu fundo contextual veterotestamentário.
T. W.
Manson escreveu: "É, penso eu, indiscutível que as raízes da doutrina se
encontram no Velho Testamento e que seu ramo principal é a dabar Yahweh, a Palavra de Deus, criativa e reveladora, pela qual
os céus e a terra foram feitos e os profetas inspirados".
Uma exegese do texto de João 1:1-14 nos
revelará o seguinte:
6.4. O "Logos" em relação a Deus:
a)
"No princípio" aponta para além da criação, pois o "Logos"
foi o agente criador.
b)
"O Verbo estava com Deus e o Verbo era Deus" é uma afirmação da preexistência e da deidade de Jesus
como pessoa distinta de Deus. Em outras palavras, João afirma que o
"Logos" é tudo que Deus é e, ao mesmo tempo, uma pessoa distinta de
Deus, o Pai.
c)
"Com
Deus"
pode significar: "junto de Deus" para dar a ideia de igualdade;
"à direita de Deus" no sentido de participação do mesmo poder, ou
ainda, "no seio de Deus", para dar a ideia de intimidade com Deus.
6.5. O "Logos" e a criação:
a)
"Todas as coisas foram feitas por meio dele" significa que a criação inteira teve como "causa
eficiente" o "Logos", ou seja, o Cristo preexistente foi o
agente de Deus na criação do universo.
b)
"Sem ele" aponta para a participação ativa do "Logos"
como agente criador, coparticipante do mesmo poder divino.
6.6. O "Logos" e os homens:
a)
Ele é para os
homens vida e luz. O
"Logos", como Deus, possui, em plenitude, a vida e comunica aos
homens, primeiro sob a forma de luz para a inteligência. No Velho Testamento a
Sabedoria é vida (Pv. 4:10-13) e a Lei é chamada de luz (Pv. 6:23; Sl.
119:105). Em geral, a Palavra de Deus é luz e vida e, por isso, Jesus, é vida e
luz (Jo. 5:24; 6:63; 8:12; 11:25-26, 46; 14:6).
b)
Sendo Cristo a
luz, os homens que o rejeitam são "trevas"
e vivem nas trevas do mundo sem luz. Trevas, tanto são os homens sem luz como
também as obras dos homens sem luz (Jo. 3:19-21).
c)
"A luz resplandece", literalmente, dá a ideia de que a luz continua
luzindo, está brilhando ainda.
d)
"As trevas não prevaleceram" dá a
ideia de um duelo entre dois antagonistas sobre-humanos e transcendentes: de um
lado, a vida e as forças do bem, representadas pela luz; do outro, as forças do
mal, do pecado, da morte e do demônio, representadas pelas trevas. Cristo em
sua ressurreição sai vitorioso deste duelo.
e)
"O Verbo se fez carne" significa que o "Logos"
transcendente e preexistente em forma de Deus e com atributos divinos tornou-se
humano com todos os atributos e limitações humanas.
f)
"Ele habitou entre nós" tem o
sentido de "morou temporariamente entre os humanos como um habitante de
tendas" (semelhante aos nômades do deserto). O verbo grego skeno, traduzido como habitar, significa
literalmente "viver em tenda, morar num tabernáculo". O
"Logos", em sua encarnação como Jesus de Nazaré,
"tabernaculou" num corpo humano entre os humanos. Em outras palavras,
o "Logos" tornou-se humano sem deixar de ser o "Logos
Divino".
g)
"Vimos a sua glória", literalmente, significa "nós fomos espectadores
da sua glória". Em grego, etheasámetha
está no aoristo médio e significa "assistimos" (como em um teatro),
observamos, vimos, contemplamos (como espectadores). O "Logos"
encarnado foi objeto da observação de várias testemunhas que podiam testificar
da realidade de sua glória entre os homens.
6.7.
Testemunho de Paulo
a) Paulo descreve o Filho como "a imagem do Deus invisível" (Cl. 1:15).
b) Jesus é aquele em quem, por meio de quem e para quem
todas as coisas subsistem (Cl. 1:17).
c) Nele, em Jesus, reside "toda a plenitude". Certamente isto é uma referência à plenitude
não só do caráter e propósito divinos, como também de toda a força criadora
(geradora) e preservadora da vida (Cl. 1:19; 2:9).
d) Paulo enfatiza a divindade do Cristo preexistente que
se encarnou, desceu ao mais profundo estado de humilhação (homem mortal) para
efetuar a redenção humana e retornou ao seu estado de glória como Senhor de
tudo e de todos (Fp. 2:6-11).
6.8.
Testemunho do autor de Hebreus
Hebreus
apresenta Cristo denominando-o preferencialmente de Filho de Deus, o qual é
herdeiro de todas as coisas. Cristo é identificado como ser divino preexistente
e agente da criação. Nele está reproduzida, com toda perfeição a imagem da
natureza divina (1.1-3). A citação do Salmo 45.6 – “O teu trono, ó Deus, subsiste pelos séculos dos séculos” (Hb 1.8)
é uma declaração explícita de sua deidade, também comprovada pelo título Kyrios
(Senhor) atribuído a Javé no Velho Testamento (2.3; 7.14). Ele é adorado
pelos anjos (1.6); é coroado de glória e honra (2.9) e está assentado à destra
de Deus (1.3, 13; 12.2). O livro de Hebreus é também muito enfático não só no
que se refere ao ofício de Cristo como também à sua divindade. No capítulo de
abertura, o autor fala do Filho Como:
a)
O
resplendor da glória de Deus e a expressão exata de sua natureza (1:3).
b)
Por
meio do Filho, Deus criou o mundo (1:2).
c)
Por
meio do Filho, Deus sustenta (sentido de carregar nas mãos) todas as coisas
pela palavra do seu poder (1:3).
d)
O
Filho é superior aos anjos (1:4-2:9), a Moisés (3:1-6) e aos sumo-sacerdotes
(4:14-5:10). Ele é superior porque não é um mero homem ou um anjo, mas algo
muito mais elevado, ou seja, Deus.
7. A humanidade de Cristo
A
natureza humana de Cristo é comprovada pelos seguintes fatos: Ele teve
existência terrena, corpo físico e experimentou as limitações, sentimentos e
emoções humanas. Em uma época determinada, no tempo e na história, ele nasceu
de uma mulher, por meio de um parto normal, em uma determinada localidade
geográfica (Lc. 2:4-7). Ele residiu em uma cidade, teve uma profissão e foi
reconhecido como membro de uma família (Lc. 4:16; Mc. 6:3).
7.1. Sua natureza física e psicológica
a)
É-nos dito que
ele, como todo ser humano, passou pelo mesmo processo de crescimento físico e
amadurecimento psicológico (Lc. 2:52).
b)
Ele sofreu todas
as necessidades e limitações humanas: fome, sede, fadiga, sono, etc. (Mt.
11:19; Mc. 4:38; Jo. 4:6-8).
c)
Ele experimentou
as mesmas emoções humanas: ficou irado, teve compaixão, chorou, teve medo e
tristeza (Mc. 10:14; Mt. 9:36; Jo. 11:35; Mc. 14:33-34).
d)
Ele tinha
conhecimento limitado sobre fatos e assuntos:
·
perguntou ao pai
do menino epiléptico: "há quanto
tempo isso sucede?" (Mc 9:21);
·
perguntou o nome
do demônio que se apoderara do geraseno (Mc 5:9);
·
não sabia a data
de sua segunda vinda (Mc 13:32).
8. Sua encarnação
Um
problema que a teologia cristã enfrenta, tanto na doutrina da criação como
também na doutrina da encarnação, está relacionado à imutabilidade de Deus.
Segundo Berkhof, independente de qual seja a solução, “deve-se sustentar que a
natureza divina não sofreu nenhuma mudança essencial na encarnação [...]. É
melhor dizer que a pessoa do Filho de Deus encarnou-se, do que dizer que a
natureza divina assumiu a carne humana”.[64]
Em outras palavras, não foi o trino Deus, mas a segunda pessoa da trindade que
assumiu a natureza humana.
Continuando
em sua exposição teológica, Berkhof prossegue declarando que “O resultado da
encarnação foi que o Salvador divino pôde ter deficiência de conhecimento e
fraqueza, pôde ser tentado, e pôde sofrer e morrer, não em sua natureza divina,
mas derivativa-mente, em virtude de Sua natureza humana”.[65]
Portanto, a encarnação resultou no fato de que “o Salvador divino sofreu
deficiência de conhecimento e fraqueza, pôde ser tentado, e pôde sofrer e
morrer [...] em virtude de Sua natureza humana”.[66]
8.1. Características
fundamentais da encarnação
a)
Envolveu
distintamente as três pessoas da trindade (Lc. 1:35; Jo. 1:14; At. 2:30; Rm.
8:3; Gl. 4:4; Fp. 2:7).
b)
O
processo da encarnação não pode ser confundido com incorporação, pois na encarnação ocorreu concepção, gestação e parto normal (Lc. 1:30-31; Mt. 1:18; Lc.
2:4-7). Cristo, ao dizer "Eu desci
do céu" (Jo. 6:38), não sugere a ideia de uma incorporação do Logos em Jesus de Nazaré, mas enfatiza
sua origem divina e celestial (Jo.8:23).
c)
Encarnação
não é a mesma coisa que geração. Esta
ocorre com todos os homens, a partir da qual todos tem um início de existência na dimensão do tempo. O Logos é preexistente, antecede ao tempo, é eterno. Por esta razão,
não foi gerado, mas encarnado,
enfatizando, assim, sua existência anterior ao tempo (Jo. 1:1; 17:5; Gl. 4:4;
Fp. 2:6-7).
8.2. A necessidade da encarnação
Quão o
motivo e a finalidade da encarnação? O motivo estava em Deus e a finalidade
estava no homem. Como motivo, Deus precisava revelar sua pessoa e seu plano
redentivo; como finalidade, resgatar o homem pelo sacrifício da expiação. Com
referência a Deus Pai, a encarnação de Cristo foi necessária para revelar a
pessoa e as intenções do Pai (Jo 1:18; 14:9; 8:38; 12:49-50). Com referência ao
plano divino, a encarnação foi necessária para que o Cristo concretizasse o
propósito redentivo de Deus que teve como pontos culminantes os seguintes
benefícios:
a)
Libertação
do poder do pecado (Jo. 8:31-36; Hb. 9:23-28);
b)
Garantia
ao homem da posse da vida eterna, dando fim à morte e destruindo as obras do
diabo (Jo. 3:16; 11:25-28; Hb. 2:14-15);
c)
Na
mediação de Cristo entre Deus e o homem (1Tm. 2:5), representando Deus perante
o homem – profeta – (Hb. 1:1) e
representando o homem perante Deus – sacerdote
– (Hb. 2:17; 8:3-7; 9:11-15).
8.3. Estado de humilhação de Cristo (Fp 2:5-8)
O
estado de humilhação de Cristo manifestou-se de três formas principais: através
de um estilo de vida simples, pelo sofrimento e pela forma e condições em que
morreu.
8.4. Um estilo de vida simples
a)
Nasceu
numa povoação sem importância, em Belém da Judéia, e teve como berço uma
manjedoura (Lc. 2:7).
b)
Teve
por pai um pobre carpinteiro de Nazaré, o que o tornou desprezível aos olhos
dos seus concidadãos (Mt. 13:54-58).
c)
Viveu
na Galileia, lugar de pobres e ignorantes, tidos como pessoas desprezíveis (Jo.
1:45-46; 7:52).
d)
Escolheu
uma vida de profeta itinerante, vivendo dia a dia sem domicílio e bens
materiais (Lc. 9:58).
e)
Teve
uma imensa afinidade com os alienados da sociedade a quem se dedicou
intensamente (pobres, enfermos, pecadores e crianças).
8.5. Uma vida marcada pelo sofrimento
Dois
traços da personalidade de Jesus tornam-no simpático aos nossos contemporâneos:
sua solidão e o seu "ser-para-a-morte". Estes dois traços podem ser exemplificados
da seguinte forma:
a)
Ele
foi rejeitado pelos seus compatriotas e contemporâneos (Lc. 4:16-30), pelos
sacerdotes, escribas e fariseus.
b)
"Muitos
dos seus discípulos o abandonaram" (Jo. 6:66-71) e "ele veio para os
que eram seus e os seus não o receberam" (Jo. 1:11).
No
que se refere ao seu "ser-para-a-morte":
a)
Três
vezes ele predisse sua morte aos apóstolos, que se escandalizaram (Mt. 16:21;
17:23 e 20:17-19).
b)
Afirmou
categoricamente que ele veio para dar sua vida em resgate dos pecadores (Mt.
20:28; 26:27-28).
8.6. Uma morte cruel, humilhante e dolorosa
Sua
acusação, julgamento, sentença e execução ocorreram de uma forma dramática e
perversa, por iniciativa das autoridades religiosas movidas pela inveja, ciúme,
ódio, fanatismo, ambição e sadismo.
a)
Traído
covardemente por Judas, negado por Pedro e abandonado por todos, ficou à mercê
dos seus cruéis algozes (Mt. 25:31-35; Jo. 16:32).
b)
Em
seu julgamento não teve nenhuma testemunha para depor a seu favor, somente
acusadores (Mt. 27:12-14).
c)
Foi
despido de suas vestes, escarnecido e crucificado juntamente com marginais (Mt.
27:35-44).
d)
Sua
humilhação, por ter chegado ao extremo, fê-lo sentir-se só e abandonado por
Deus, seu próprio Pai, em um momento de densa e sinistra escuridão (Mt.
27:45-46).
No
que diz respeito à sua morte, destacamos 3 aspectos:
a)
Cristo
morreu fisicamente na cruz e espiritualmente suportou a ira de Deus contra o
pecado, estando apartado de Deus durante a sua morte (Mt. 27:45-46) e, durante
o período que antecedeu sua ressurreição, quando esteve no hades entre os que aguardam o juízo de condenação (1Pe. 3:18-20;
Ef. 4:9).
b)
Sua
condenação à morte foi uma sentença judicial de uma autoridade constituída por
Deus que, embora pagã e sem mesmo ter consciência disso, realizou a vontade e o
propósito de Deus (Jo.19:10-11; At. 4:27-28).
c)
Durante
todo o período de sua morte, Jesus suportou todos os efeitos da maldição que
acompanham a morte, para que nós fôssemos resgatados da maldição da morte à
qual a lei de Deus nos condena (Gl 3:13-14).
8.7. A impecabilidade de Cristo
Com
respeito à humanidade de Jesus, o autor de Hebreus faz algumas declarações que
enfatizam a realidade de suas limitações e sua necessidade de passar por um
processo de maturação até alcançar a perfeição. Alguns fatos, ocorridos na
experiência de vida da pessoa de Jesus, são citados: (1) Jesus teve de ser
submetido ao sofrimento como meio pelo qual aprendeu
a obedecer e alcançou a maturidade e a perfeição (Hb 2.10; Hb 5.7-9); (2)
Jesus teve de ser submetido à prova da tentação em todas as áreas e dimensões
da vida em que todos os mortais são tentados (Hb 4.15).
Diante
disso, uma questão importante é saber se ele pecou ou se seria capaz de pecar.
As Escrituras declaram claramente que ele "foi
tentado em todas as coisas, à nossa semelhança, mas sem pecado" (Hb
4:15). O autor de Hebreus descreve Jesus como sendo um "sumo sacerdote [...] santo, inculpável, sem mácula, separado dos
pecadores e feito mais alto do que os céus" (Hb 7:26). O apóstolo
Pedro declarou em sua Segunda Epístola que Jesus "não cometeu pecado" (2Pe 2:2). O mesmo afirmou João: "nele não existe pecado" (1Jo
3:5). O apóstolo Paulo também afirmou que Jesus "não conheceu pecado" (2Co 5:21).
Embora
a Bíblia testifique que Jesus não cometeu pecado, questionamos: Será que Jesus
poderia pecar? A Palavra de Deus nos ensina que Deus não faz o mal e não pode
ser tentado (Tg 1:13). Mas ainda questionamos: a divindade de Jesus eliminava a
possibilidade de ele, também como homem, cometer algum pecado? As tentações que
ele sofreu eram genuínas? O autor de Hebreus declara: "Porque não temos um sumo sacerdote que não
possa compadecer-se das nossas fraquezas; porém, um que, como nós, em tudo foi
tentado, mas sem pecado" (Hb 4:15).
A expressão "como nós" deve
significar o seguinte:
a)
Que
a tentação de Jesus foi tão real quanto a nossa;
b)
A
forma como Jesus foi tentado não foi diferente da nossa;
c)
A
expressão "em tudo" deve
significar que Jesus experimentou em sua natureza humana todas as tendências e
seduções da carne que induzem o homem a pecar, mas que não foram capazes de
dominá-lo e fazê-lo cometer qualquer pecado. Ele não pecou, porque, como imagem
perfeita de Deus, Jesus foi o mais humano
de todos os humanos; ele viveu a perfeita
varonilidade que nem Adão, em seu estado original de pureza, e nenhum
mortal, mesmo redimido do poder do pecado e da morte, conseguiram atingir.
8.8. A união das duas naturezas de Cristo
A posição
adotada pela igreja em todo o mundo é que a pessoa de Jesus é única, isto é, há
em Cristo uma unicidade de caráter e personalidade. Por outro lado, em sua
constituição, Jesus teve duas naturezas: a divina, decorrente da sua pessoa
coexistente com o Pai desde a eternidade; e a humana, oriunda de sua
encarnação, herdada de Maria e sujeita às limitações e às leis naturais como
todo e qualquer ser humano mortal.
Na
verdade, o Logos era, é e será
eternamente Deus. Em sua essência, o Cristo é espírito eterno, é Deus.
Portanto, antes de sua encarnação o
Cristo tinha apenas uma natureza, a divina. Durante sua vida terrena, o Cristo,
divino e preexistente, adotou uma segunda natureza sem perder a primeira.
Na
terra, como Jesus de Nazaré, a pessoa do Logos
era Deus que, tendo se esvaziado de si mesmo, por sua livre e espontânea
vontade, humilhou-se a ser homem, isto é, destituiu-se de sua glória
temporariamente, abdicando de suas prerrogativas divinas para viver plenamente
nossa humanidade, para sofrer e vencer todas as limitações e consequências do
pecado humano sem, contudo, ter cometido pecado. Quanto à união das duas
naturezas, Strong comenta:
Não
há intercâmbio de "Eu" e "Tu" entre as naturezas humana e divina
(Jo. 17:23) [...] Os atributos e poderes de ambas as naturezas são
atribuídos ao único Cristo, e da mesma
maneira, as obras e dignidades do único Cristo são atribuídas a qualquer uma
das duas naturezas, de uma maneira inexplicável, exceto pelo princípio de que
essas duas naturezas são organicamente e indissoluvelmente unidas em uma única
pessoa [...] As constantes demonstrações bíblicas do valor infinito da expiação
de Cristo e da união da raça humana com Deus que foi obtida por Ele, são
compreensíveis apenas quando Cristo é considerado, não como um homem de Deus,
mas como Deus-Homem, em quem as duas naturezas estão tão unidas que o que cada
uma faz tem o valor das duas [...] a consciência cristã universal reconhece em
Cristo uma personalidade única e indivisível, e expressa este reconhecimento em
seu culto de cântico e oração[67].
8.9. Os nomes e títulos messiânicos de Jesus
Dentre
os títulos atribuídos a Jesus no Novo Testamento, os evangelhos sinópticos
apresentam apenas três: Filho de Davi,
Filho do Homem e Filho de Deus. Essas três designações messiânicas não
devem ser compreendidas como simples apelidos ou rótulos lançados sobre a
pessoa de Jesus, mas como características de sua personalidade e,
principalmente, de seu ofício como profeta, sacerdote e rei, embora isto não
esteja explícito nos evangelhos sinópticos.
a) Jesus, Filho
de Davi – A designação "Filho de
Davi" não foi usada por Jesus, mas pelos judeus que nele creram,
principalmente os pobres, aflitos e oprimidos que aguardavam ansiosamente a
restauração do reino davídico pelo Messias prometido, o qual libertaria o povo
judeu do domínio pagão e reinaria com justiça e paz sem fim (Is. 9:1-7).
b) Jesus, o
Filho do Homem – Antes de entrarmos
no significado teológico deste título temos que fazer, pelo menos, três
considerações muito importantes que nos facilitará a compreensão do termo:
·
Filho do Homem
foi o modo favorito de Jesus fazer referência a si próprio.
·
Tal título nunca
foi usado por ninguém para designar a Jesus.
·
Com exceção de
At. 7:56, que cita as palavras de Estêvão durante seu martírio, em nenhum outro
lugar da Bíblia, fora dos evangelhos, encontramos tal expressão. Diante disso,
concluímos que o uso do termo "Filho do Homem" é exclusivo da pessoa
de Jesus.
Interpretações errôneas
a)
Os pais da igreja
interpretaram (Irineu em particular) a expressão como uma referência à
humanidade de Jesus. Filho do Homem não seria um título messiânico, mas o
contrário de "Filho de Deus". Esta interpretação incorre em erro
porque desconsidera o contexto histórico e o significado na linguagem
profética.
b)
Uma outra
interpretação suscitada é a de que tal expressão não tem outro significado
senão o de funcionar como substitutivo para o pronome na primeira pessoa e não
tem outro significado além do "EU".
8.9.1. O contexto histórico
de o "Filho do Homem"
A
expressão ocorre no Velho Testamento. Exemplos:
a)
"Deus
não é homem, para que minta, nem filho do
homem para que se arrependa" (Nm. 23:19).
b)
"...
Que é o homem mortal para que te lembres dele; ou o filho do homem, para que o visites? (Sl. 8:4).
c)
"Ó
Senhor, que é o homem, para que o conheças, e o filho do homem para que o visites?" (Sl. 144:3).
Em
tais passagens "filho do homem"
significa apenas homem, humano; ou
ainda, qualquer descendente de qualquer homem. Alguns intérpretes acham que o
contexto, para o uso que Jesus fez da expressão, encontra-se em Ez. 2:1, 3, 6,
8; 3:1, 3, 4, 10 e outros mais. Entretanto, esta tentativa é insatisfatória
para explicar o uso escatológico de "O Filho do Homem" nos evangelhos.
8.9.2. A interpretação
mais aceita
O
contexto provável do Velho Testamento é a passagem de Dn. 7:13-14. Aqui a frase
é uma referência a um personagem celestial que vem à terra para estabelecer um
reino de domínio universal e eterno. Cremos que a expressão "Filho do Homem"
em Daniel tem o seguinte significado:
a)
É
um personagem celestial preexistente;
b)
Recebe
de Deus autoridade para reinar sobre todos os povos da terra;
c)
Seu
reino é eterno;
d)
Seus
súditos são os "santos do Altíssimo" (v. 27);
e)
Deve
ser identificado com o Messias, pois a mesma expressão usada por Daniel é usada
por João no Apocalipse, referindo-se à pessoa de Jesus glorificado (Ap. 1:7 e
13).
8.9.3.
Jesus, Filho de Deus
O título
messiânico "Filho de Deus" é o mais importante no estudo da
autorrevelação de Jesus. Esta expressão define teologicamente a divindade de
Jesus. Ele é homem, não gerado por homem, mas única e milagrosamente gerado por
Deus, possuindo, portanto, natureza divina e tendo existência anterior à sua
encarnação. Não há registro em nenhuma passagem das Escrituras do uso deste
título pela pessoa de Jesus. No entanto, em dois textos encontramos Jesus
admitindo sua filiação divina (Mc. 13:32 e Lc. 22:69-71). A filiação de Jesus a
Deus é declarada nos sinópticos pelo próprio Deus em apenas duas ocasiões: por
ocasião do batismo de Jesus e no fenômeno da transfiguração (Mt. 3:17; Lc.
3:22; Mt. 17:5; Mc. 9:7; Lc. 9:35).
8.9.4.
Filho de Deus na concepção de Paulo
Para Paulo, Jesus
é ao mesmo tempo Deus (Rm. 9:5; Tt. 2:13) e Filho de Deus. Esses dois aspectos
da Cristologia de Paulo são enfáticos. Ele apresenta dois sentidos para o termo
que devem ser considerados: o sentido funcional e o ontológico. O sentido
funcional indica o Cristo glorificado ou o rei Messiânico (Rm. 1:3-4). O
sentido ontológico apresenta dois aspectos: Jesus é o Filho de Deus em sua
encarnação (Gl. 4:4; Rm. 1:1-3; 8:3), em seu sofrimento e morte (Rm. 8:31-32;
Gl. 2:20; Rm. 5:10). Há outros dois aspectos do sentido ontológico de
"Filho de Deus" que Paulo enfatiza em Cl. 1:15-18 e estão relacionados
diretamente à pessoa de Jesus: "a
imagem do Deus invisível “e "o
primogênito de toda a criação" (Cl. 1:15).
A
expressão “imagem do Deus invisível” abrange as seguintes ideias:
a)
Designa
a ideia de igualdade, isto é, de similitude;
b)
Transmite
também a ideia de dependência, isto é, o Pai transfere ao Filho todas as suas
características;
c)
Designa
a ideia de manifestação, isto é, o Filho comunica aos homens, por meio do seu
ser, todo o caráter do Pai.
Isto
equivale a dizer que Cristo, como imagem
do Deus invisível, revela simultaneamente ser igual a Deus, possuindo não
somente os mesmos atributos, mas também o mesmo poder e a mesma glória,
operando em harmonia com o caráter e o propósito do Pai.
8.9.5. "O primogênito de toda a criação"
O
termo primogênito (em grego, prwtotokoV) não tem o
sentido errôneo de o primeiro a ser
criado. O Cristo preexistente não pode ter sido criado porque criado significa trazido à existência, tendo como origem o inexistente. O termo
deriva do Velho Testamento e refere-se ao direito dos primogênitos de receberem
porção dupla da herança paterna (Dt. 21:15-17). Com "PRIMOGÊNITO" (em grego,) Paulo
enfatiza a PRIMAZIA de Jesus significando que:
a)
Cristo
como homem tornou-se o legítimo e principal herdeiro
de Deus, cujo DIREITO DE PRIMOGENITURA (prwtotokia) outorga-lhe a
PRIMAZIA na concessão da herança compartilhada com todos os filhos de Deus
(filhos de adoção), os quais são também coerdeiros
com Cristo (Hb. 1:2; Rm. 8:16-17).
b)
Cristo,
como Filho de Deus, é a GÊNESE de tudo que existe, pois "Nele foram criadas todas as coisas... Tudo foi criado por meio
dele e para ele" (v. 16).
c)
Cristo
é o PRIMEIRO (em grego, prwtoV) em superioridade
de perfeição, autoridade e poder, pois "tudo
foi criado por meio dele e para ele"(v. 16) é o PRIMEIRO em
anterioridade ao tempo, pois "Ele é
antes de todas as coisas" (v. 17).
d)
Cristo
é o PRIMEIRO em relação à posição que ocupa no universo, isto é, está acima de
todas as coisas criadas "nos céus e
sobre a terra, as visíveis e as invisíveis, sejam tronos, sejam soberanias,
quer principados, quer potestades..."(v. 16) e "para em todas as coisas ter a PRIMAZIA" (v. 18).
9. Os ofícios de Cristo
9.1.
Cristo como profeta
O
ofício profético de Jesus está diretamente relacionado à figura do profeta escatológico apregoado pelo
judaísmo do período pós-exílico. A vinda desse profeta, segundo a esperança
judaica, haveria de consumar toda a profecia antiga. A figura do profeta vindouro
foi tomando forma na pessoa de Jesus durante seu ministério. Pouco a pouco,
Jesus foi sendo identificado e aclamado publicamente como profeta. Ele também
se identificou como tal. Algumas passagens revelam isso:
a)
Lucas
7.16 – “Todos ficaram possuídos de temor
e glorificavam a Deus, dizendo: Grande profeta se levantou entre nós; e: Deus
visitou o seu povo”.
b)
Mateus
21.46 – “e, conquanto buscassem
prendê-lo, temeram as multidões, porque estas o consideravam como profeta”.
c)
Marcos
6.4 – “Jesus, porém, lhes disse: Não há
profeta sem honra, senão na sua terra entre os seus parentes e na sua casa”.
Disse isto referindo-se ao seu ministério profético na Galileia, onde foi
rejeitado.
d)
Mateus
21.11 – “E as multidões clamavam: Este é
o profeta Jesus, de Nazaré da Galileia”.
e) Lucas 13:33 – “Importa, contudo, caminhar hoje, amanhã e
depois, porque não se espera que um profeta morra fora de Jerusalém”.
Os
evangelhos sinópticos revelam que grande parte do povo considerava Jesus como
profeta do fim dos tempos. Mas é em At 3.19-26, no discurso de Pedro no dia de
Pentecostes, que Jesus é expressamente identificado como o profeta vindouro. Descrevendo a figura do profeta vindouro, Cullman diz o seguinte:
A
função do profeta escatológico consiste, acima de tudo, [...] em preparar por
sua pregação o povo de Israel e o mundo para a vinda do Reino de Deus; e isto
não à maneira dos profetas do Antigo Testamento, mas de um modo direto: como
precursor imediato do evento deste reino. Ele vem armado com a autoridade
escatológica que lhe é privativa. Seu chamado ao arrependimento é absoluto e
exige uma decisão definitiva, o que dá à sua pregação um caráter final,
absoluto, que nem mesmo a palavra dos antigos profetas possuía no mesmo grau.[68]
A
predição da atividade messiânica de Jesus como profeta está registrada no Velho
Testamento (Dt. 18:15-19) e confirmada no Novo Testamento (At. 3:22-23). Lucas
4:16-21 descreve a agenda missionária de Jesus em sua atividade profética,
citando Is 61:1-3, onde são mencionadas três expressões-chave:
a)
"Evangelizar os pobres" – proclamação das
boas novas do reino de Deus (v. 18);
b)
"Proclamar libertação aos cativos" – mensagem
libertadora dos poderes do mal;
c)
"Apregoar o ano aceitável do Senhor" – trata-se do
anúncio da era da salvação. A era da salvação é exemplificada pelo "ano do
jubileu" (Lv. 25:8-16), isto é, o ano quinquagésimo, após o sétimo ano
sabático, em que no dia 10 do sétimo mês, Dia da Expiação, soava a trombeta por
toda a terra de Israel anunciando o resgate de toda dívida. Este era o ano da
remissão. A citação deste texto de Isaías por Lucas indica a era messiânica da
salvação, da remissão dos pecados.
Profeta
(em hebraico, nãbhï), segundo as
passagens como Ez. 7:1 e Dt. 18:18, é alguém comissionado como porta-voz
oficial de Deus perante os homens. As palavras hebraicas rô'eh e chôzeh acentuam a
ideia de que o profeta é alguém que recebe revelações da parte de Deus por meio
de visões, designando o profeta como "vidente" (1Sm. 9:9; 1Cr.
29:29). Outros designativos são "homem
de Deus", "mensageiro do
Senhor" e "vigia".
Assim, podemos dizer que profeta é alguém
que recebe revelações de Deus e fala em nome de Deus. Com esta concepção,
Jesus foi profeta porque:
a)
Ele
foi identificado como profeta prenunciado por Moisés (At. 3:22-23; cf. Dt. 18:15).
b)
O
próprio Jesus falou de si mesmo como alguém que era profeta (Lc. 13:33).
c)
Jesus
declarou que trazia uma mensagem do Pai (Jo 8:26-28; 12:49-50; 14:10, 24;
15:15; 17:8, 20).
d)
Ele
anunciou uma mensagem escatológica (Mt. 24:3-35; Lc. 19:41-44).
e)
O
povo o reconheceu como profeta (Mt 21:11, 46; Lc. 7:16; 24:19; Jo 3:2; 4:19;
6:14; 7:40; 9:17).
9.2.
Cristo como sacerdote
A
palavra hebraica traduzida no Velho Testamento como sacerdote é kohen. Ela indica alguém que ocupava uma
posição honrosa e de responsabilidade, e que estava revestida de autoridade
sobre os outros. Também designava um oficial eclesiástico, uma pessoa
consagrada a Deus que se apresentava a Deus em lugar do povo. A passagem
clássica que descreve o ofício sacerdotal de Jesus é Hebreus 5:1-4. Esta
passagem apresenta as seguintes atividades que eram exercidas pelo sacerdote:
a)
Era
escolhido dentre os homens para ser seu representante perante Deus (v. 1). Deus
é quem o constituía como sacerdote (v. 4).
b)
Agia
no interesse dos homens nas coisas pertinentes a Deus. Sua obra especial
consistia em oferecer dádivas e sacrifícios a Deus pelos pecados dos homens (v.
3).
c)
Ele
também abençoava o povo em nome de Deus (Lv 9:22).
9.2.1. O testemunho bíblico do sacerdócio de Cristo
a)
O
Velho Testamento prediz e prefigura o sacerdócio do Redentor que havia de vir
(Sl 110:4; Zc 6:13).
b)
No
Novo Testamento somente a Epístola aos Hebreus testifica explicitamente do
sacerdócio de Jesus (Hb 3:1; 4:14; 5:5; 6:20; 7:26; 8:1).
9.2.2. A obra sacerdotal de Cristo
O que
merece destaque na obra sacerdotal de Cristo é que Cristo aparece nelas como
sacerdote e como a vítima do sacrifício. Jesus é identificado como único,
verdadeiro e eterno Mediador e perfeito Sumo Sacerdote, constituído por Deus,
que assume vicariamente nosso lugar e, pelo sacrifício de si mesmo, obtém uma
real e perfeita redenção (Hb. 3:1-2; 5:1-10; 7:1-28; 9:11-15, 24-28; 10:11-14,
19-22; 12:24).
O
ministério sacerdotal de Jesus compreende as seguintes atividades: expiação e
intercessão. O propósito deste ministério era de reconciliar o homem com Deus
e, para isso, tornou-se o mediador entre Deus e o homem (1Tm 2:5) por meio da
nova e eterna aliança (Hb 8:6; 9:15; 12:24). A atividade sacerdotal de Jesus o
identifica não só como sacerdote, o ministro oficiante do sacrifício, mas
também como a própria vítima. Por meio do sacrifício de si mesmo ele obtém uma
real e perfeita redenção (Hb. 5:1-10; 7:1-28; 9:11-15, 24-28; 10:11-14, 19-22;
12:24).
9.2.3. O tipo de sacerdócio de Cristo
Sendo
Jesus judeu, não teve ele origem sacerdotal, a qual estava reservada unicamente
para os levitas. Desta forma, não tendo uma linhagem sacerdotal, ele foi
sacerdote "segundo a ordem de
Melquisedeque" (Hb. 6:20-7:17). A expressão "Tu és sacerdote para sempre, segundo a ordem de
Melquisedeque" é tirada do salmo profético de Davi (Sl 110:1-4). Este
salmo prediz a vinda do Messias, o qual, mesmo como rei, haveria de exercer o
ofício sacerdotal, não segundo a linhagem e o sistema levítico, mas semelhante
a Melquisedeque, que era "rei de
Salém" e, ao mesmo tempo, exercia o ofício sacerdotal (Hb 7:1). Da
mesma forma, o ofício sacerdotal do Messias seria exercido simultaneamente com
o seu ofício real, à destra de Deus.
9.2.4. A obra sacrificial de Cristo
O
sacrifício de Jesus foi simbolizado e tipificado pelos sacrifícios ordenados
pela lei de Moisés. Segundo a lei mosaica, os sacrifícios significavam:
a)
ofertas
de gratidão a Deus (1Sm 6:14; Jz 11:30-40);
b)
ofertas
para atrair o favor divino (Jz 21:4; 1Sm 13:9; Mq 6:6);
c)
refeições
sacrificiais de comunhão (1Sm. 9:12-13; 16:3-5);
d)
reparação
do pecado por ignorância (Lv 5:14-19);
e)
expiação
do pecado de todo o povo (Lv 16:16, 21, 29, 31).
A
morte de Cristo significou um sacrifício expiatório e vicário, isto é, de
substituição (1Jo 2:1-2) através do qual foi estabelecida a paz do homem com
Deus (Cl 1:20) e por meio dele temos a redenção dos pecados (Ef 1:7; Cl 1:14).
9.2.5. A causa da expiação
A
causa da expiação, segundo as Escrituras, encontra-se em:
a)
No beneplácito de
Deus
– foi a boa vontade de Deus, por causa do seu amor para com o homem, que o
moveu a redimir o homem por meio do sacrifício de Jesus (Gl. 1:4).
b)
No amor de Deus – o sacrifício de
Cristo, o Filho de Deus, foi a maior prova do amor divino pelo homem (Jo 3:16; Rm
5:6-8; 1Jo 4:10).
c)
Na justiça de Deus – a expiação
alcançada pelo sacrifício de Cristo satisfez a justiça de Deus. O pecado do
homem pela violação da lei divina traz condenação como ato do juízo divino. A
libertação da pena do pecado não podia acontecer até que as exigências da
justiça fossem cumpridas. A morte de Jesus satisfez essas exigências (Rm.
3:21-26; 2Co. 5:21; 1Co. 1:30).
9.2.6. O significado de expiação
a)
Sacrifício – segundo Hb.
9:6-15, a obra de Cristo é comparada ao "Yôm Kippur" (Dia da
Expiação) do Velho Testamento. Jesus ofereceu seu próprio sangue para redenção
eterna (v. 12). Tal sacrifício foi único e definitivo (Hb. 9:28; 10:10-12) e
teve o propósito de santificar os remidos (Hb. 13:10-13).
b)
Propiciação – este termo
significa remoção da ira mediante a oferta de um presente. "A ira de Deus se revela do céu contra toda impiedade e perversão
dos homens que detêm a verdade pela injustiça" é o que diz Paulo em
Rm. 1:18, para descrever o repúdio de Deus pelo pecado humano. Jesus, ao
derramar o seu sangue, "aplacou" a ira de Deus. Desta forma, os que
creem em Jesus têm a vida eterna e estão isentos do juízo que há de se
manifestar no "dia da ira" sobre os rebeldes (Jo. 3:36). Assim sendo,
mesmo que um remido peque, Deus, ao olhar para ele, vê o sangue de Jesus
derramado como propiciação pelos seus pecados (1Jo. 2:1-2; Rm. 3:25) e o livra
de sofrer o peso de sua ira (Rm. 5:8-9).
c)
Substituição – entendemos,
pelas Escrituras, que Cristo morreu em nosso lugar, sofrendo a pena do nosso
pecado como nosso substituto perante Deus (Is. 53:6; Jo. 1:29; 2Co. 5:21; 1Pe.
2:24).
d)
Reconciliação – a morte de
Cristo põe fim à inimizade entre Deus e o homem (Rm. 5:10-11). Quando o homem
pecou, Deus lançou uma maldição sobre ele e estabeleceu uma inimizade entre os
descendentes da serpente e o "descendente da mulher" (Gn. 3:15).
Ao
pecar, o homem tornou-se inimigo de Deus e a natureza do pecado que ele herdou
tornou-o semelhante ao diabo e diferente de Deus. Desta forma, todo aquele que
ainda não é remido está sob a potestade de Satanás (At. 26:18; Cl. 1:13). O
mundo, antes dominado pelo homem, passou a ser dominado por Satanás, "o príncipe deste mundo" (Jo.
12:31; 14:30; 16:11) que se tornou o "deus
deste século" (2Co. 4:4). Por isso, todo aquele que se torna amigo
deste mundo também se torna um aliado do diabo e inimigo de Deus (Tg. 4:4; cf.
Mt. 12:30; Lc. 11:23). Os rebeldes contra Deus (descendência da serpente) são
inimigos de Deus que, para se reconciliarem com o seu Criador, necessitam
aceitar o sacrifício de Cristo para poderem ser reconciliados com Deus (Rm.
5:1-2, 8-11; Ef. 2:11-17).
9.3.
Cristo como rei
A
entronização à "direita de Deus" é termo figurado, antropomórfico e
não literal, para designar a participação de Cristo no governo soberano de Deus
sobre o universo e, de modo específico, sobre a igreja. A Bíblia declara que
Cristo foi exaltado e o descreve como estando à destra de Deus (Rm. 8:34; 1Pe.
3:22; At. 7:56). Estando à destra de Deus, Cristo exerce não só a função de
Soberano do universo, mas também a de sacerdote para defender, perante o Pai,
os santos das acusações de Satanás (1Jo. 2:1; Ap. 12:10; Rm. 8:34; Hb. 4:15-16;
7:25; 9:24). Identificado no Novo Testamento como ser divino preexistente e
como segunda pessoa da trindade, Cristo exerce domínio sobre os céus e a terra
para a glória do Pai. Seu poder de governar tem a finalidade de executar o
propósito de salvar toda a criação segundo a vontade do Pai.
9.3.1. O reinado espiritual de Cristo
Este
reinado consiste no governo de Cristo sobre a Igreja. É um reinado espiritual,
porque se relaciona com uma esfera espiritual. É o governo estabelecido nos
corações e nas vidas dos crentes por meio da Palavra e do Espírito Santo (Sl.
2:6; 45:6-7; Is. 9:6-7; Jr. 23:5-6; Mq. 5:2; Lc. 1:33; 19:27, 38; 22:29; Jo.
18:36-37; At. 2:30-36; etc.).
A
natureza espiritual deste reinado é indicada pelo fato de que Cristo é
repetidamente chamado "cabeça da igreja" (Ef. 1:22; 4:15; 5:23; Cl.
1:18; 2:19). Esta expressão é equivalente a "Rei" como em 1Co. 11:3;
Ef. 1:22; 5:23. Justamente porque Cristo é o cabeça da igreja, ele pode
governar como "Rei". A relação entre ambos os aspectos pode ser demonstrada
como segue:
a)
O governo de
Cristo como "cabeça" indica a união mística entre Cristo e "seu
corpo", a igreja.
b)
O governo de
Cristo como "cabeça" é subserviente à sua realeza. O Espírito é o
meio pelo qual ele exerce seu poder real na igreja e sobre ela.
c)
A cidadania do
reino é coextensiva com o número de membros da igreja invisível. Seu campo de
operações, contudo, é maior que o da igreja, pois visa o domínio sobre a vida
em todas as suas manifestações.
d)
A igreja visível
é a manifestação externa do reino, instituída por Deus como agência de
propagação do reino de Deus na terra.
9.3.2. O reinado de Cristo sobre o universo
a)
"O reinado
de Cristo sobre o universo significa seu domínio soberano, sua administração
providencial e judicial de todas as coisas, no interesse da igreja. Como Rei do
Universo, Jesus guia de tal maneira os destinos dos indivíduos, dos grupos
sociais e das nações, que promove o crescimento, a purificação gradual e a
perfeição final do povo que ele remiu com seu sangue" (Louis Berkhof).
b)
Cristo,
formalmente "exaltado à destra de Deus" (At. 2:33; 5:31) e investido
da autoridade sobre céus e terra (Mt. 28:18), tornou-se o Soberano Regente do
Universo para a glória de Deus Pai (Fp. 2:9-11).
c)
O domínio de
Cristo como Soberano do Universo teve início quando de sua exaltação à destra
de Deus (Mc. 16:19; Mt. 28:18-20) e durará até o fim da presente dispensação.
No que se refere à presente
dispensação as Escrituras dizem: "Então
virá o fim, quando tiver entregado o reino a Deus, ao Pai, e quando houver
aniquilado todo o império, e toda a potestade e força. Porque convém que reine
até que haja posto a todos os inimigos debaixo de seus pés. Ora, o último
inimigo que há de ser aniquilado é a morte. Porque todas as coisas sujeitou
debaixo de seus pés. Mas, quando diz que todas as coisas lhe estão sujeitas,
claro está que se excetua aquele que lhe sujeitou todas as coisas. E, quando
todas as coisas lhe estiverem sujeitas, então também o mesmo Filho se sujeitará
àquele que todas as coisas lhe sujeitou, para que Deus seja tudo em todos"
(1Co. 15:24-28).
Observação:
Os
premilenistas atuais insistem veementemente em que Cristo é o cabeça da igreja,
mas negam que ele seja seu rei. Isto equivale a dizer que ele não é o
governante autorizado da igreja e que os oficiais da igreja não o representam
no governo eclesiástico. Eles não somente recusam a admitir que Ele é o Rei da
igreja, mas negam inteiramente seu reinado atual, exceto como reinado que lhe
pertence de direito, mas que ainda não se tornou efetivo.
Na
concepção premilenista as expressões "reino de Deus" e "reino
dos céus", no sentido em que são empregados nos evangelhos, referem-se a
duas realidades diferentes, a saber, ao reino universal de Deus e ao futuro
reino milenar de Cristo. Os premilenistas consideram o reino de Deus como sendo
essencialmente um reino de Israel e a igreja como sendo o corpo de Cristo,
formado de judeus e gentios na presente dispensação. Mas, ao compararmos Mt.
13, Mc.4, Lc. 8:1-10, podemos notar que tais expressões são sinônimas, pois uma
substitui a outra no mesmo contexto.
9.4.
A exaltação de Cristo
A
exaltação de Cristo compreende três etapas: ressurreição, ascensão e
entronização. A passagem bíblica clássica referente à exaltação de Cristo é Fp.
2:6-11. Este texto resume os dois estados de Cristo: o de humilhação
(encarnação e morte) e o de exaltação à destra de Deus (entronização).
9.5. A ressurreição de Cristo
A obra
messiânica de Cristo não se limitou à sua morte expiatória, mas prosseguiu com
a sua ressurreição e culminou com a sua exaltação à destra de Deus nos céus. A
ressurreição de Cristo foi a ênfase, o ponto culminante da pregação apostólica,
tornando-se doutrina fundamental do Cristianismo (At. 2:22-32; 4:10; 5:30;
10:39-40; 13:30-37; 17:31; Rm. 4:24-25; 6:4, 9; 7:4; 8:11; 10:9; 1Co. 6:14;
15:20; 2Co. 4:14; Gl. 1:1; Ef. 1:20; Cl. 2:12; 1Ts. 1:10; 2Tm. 2:8; 1Pe. 1:21).
9.5.1. A necessidade da ressurreição
A ressurreição foi
necessária para:
a)
garantir nossa
vitória sobre a morte (1Co. 15:50-57; Rm. 8:11; Cl. 2:12).
b)
Garantir a
ascensão de Jesus para que ele cumprisse a promessa do derramamento do Espírito
Santo (Jo. 16:7; At. 2:32-33) e a concessão dos dons espirituais (Ef. 4:8-13).
9.5.2. A natureza da ressurreição
A
ressurreição de Jesus foi corporal. Para que houvesse ressurreição era necessário
a comprovação de sua morte e é exatamente isso o que a Bíblia declara com muita
ênfase:
a)
O
centurião e os soldados, homens experientes em execuções, declararam com
segurança a morte de Jesus (Mc. 15:45).
b)
Se
tivesse havido apenas um desmaio, a lança que penetrou no seu lado o teria
matado; e, quando isto aconteceu, jorrou da ferida "sangue e água" (Jo. 19:33-37).
9.5.3. A realidade da ressurreição
a)
Pelo
depoimento dos guardas do sepulcro (Mt. 28:4, 11).
b)
Pelo
testemunho dos apóstolos que comprovaram a autenticidade do corpo ressurrecto
de Jesus, que conservou os sinais da crucificação (Lc. 24:38-43; Jo. 20:26-28;
At. 2:32).
c)
Pelo
testemunho de Saulo, cruel perseguidor da igreja (At. 22:1-11; 26:6-23; 1Co.
15:3-19).
9.5.4. Implicações
teológicas
a)
Ela
comprova a divindade de Cristo (Rm. 1:4; Hb. 1:3, 4; Jo. 20:28).
b)
Garantiu
a aceitação da obra de Cristo (Rm. 4:25).
c)
Fez
de Cristo nosso Sumo Sacerdote e intercessor perante o Pai (Hb. 8:1; 9:24; Rm.
8:33-34; Ef. 1:20-22; Hb. 2:18).
9.6. A ascensão de Jesus
A ascensão
foi a elevação de Cristo para a vida superior na glória, após ter conquistado a
soberania sobre os céus e a terra por meio de sua morte expiatória e sua
ressurreição (Mt. 28:18; Mc. 16:19; Lc. 24:50-53; At. 1:6-11; Ef. 1:20; 4:8-10;
1Tm. 3:16). A ascensão deve ter o seguinte significado:
a)
Que
o sacrifício de Cristo foi um sacrifício oferecido a Deus e, como tal, tinha
que ser apresentado a Ele no santuário mais recôndito – o céu (Hb. 9:24;
8:1-2);
b)
Que
o reino de Cristo não era um reino dos judeus, mas um reino universal (Mt.
28:18);
c)
Que
está garantida a ascensão de todos os remidos à glória celeste, onde
permanecerão para sempre (Jo. 17:24; Ef. 2:6);
d)
Foi
o cumprimento da promessa de Jesus de providenciar morada eterna para os seus
na casa do Pai (Jo. 14:1-3).
e)
Era
necessária para o cumprimento da "promessa do Pai" (Jo. 16:5-7).
f)
CAPÍTULO XVI
SOTERIOLOGIA – A DOUTRINA DA SALVAÇÃO
1. Introdução ao estudo da soteriologia
O
termo soteriologia deriva do grego sōtēría (salvação) e lógos
(discurso, estudo), designando o locus da teologia sistemática que trata
da obra salvífica de Deus em favor do ser humano, no que diz respeito à sua
natureza, meios, extensão e efeitos. Antes de tudo, é necessário que se tenha
conhecimento dos pressupostos epistemológicos.
O
primeiro consiste na revelação como base última. Deus se manifesta na criação,
na consciência e na ordem moral humana (Rm 1.19–20; Sl 19.1–4), tornando
relevante a necessidade de algo que transcende a natureza. Deve ser levado em
consideração o método teológico de estudo fundamentado na interpretação
histórica e sistemática das Escrituras, levando em conta a formulação da
doutrina ao longo dos séculos (patrística, reforma protestante e modernidade).
O
segundo pressuposto é delineado pelo dogma da Trindade que concebe a ideia de
um Deus Trino como agente da salvação.
O Pai é autor e planejador eterno da salvação (Ef 1:3–6; Jo 3:16). O Filho como
salvador e mediador que realiza a obra redentora na encarnação, morte e
ressurreição (At 4:12; 1Tm 2:5). O Espírito Santo que aplica a obra salvação –
convence, regenera e santifica os pecadores acolhidos como verdadeiros crentes
(Jo 16:8; Tt 3:5–6).
Com
base nestes princípios, a soteriologia expõe a ideia de salvação como sendo a
obra gratuita e soberana da Trindade, pela qual o único Deus de natureza tripessoal liberta o ser humano do
pecado, da morte e do juízo, restaurando-o à comunhão consigo mesmo e levando-o
à glória eterna. Isto torna a salvação em uma dimensão temporal que abrange
três períodos: (1) o passado, no qual o pecador é justificado e redimido; (2) o
presente, em que o redimido é santificado e preservado; (3) o futuro, no qual
os santos são glorificados e plenamente salvos de forma irreversível.
Há
quatro pilares de fundamentação do conteúdo da Soteriologia:
1)
Coerência
doutrinária – para evitar interpretações fragmentadas ou contraditórias.
2)
Clareza
evangelística – expressa com precisão o conceito correto de evangelho.
3)
Base
pastoral – ministra ao crente a segurança e o consolo.
4)
Defesa
da fé – propõe respostas que dirimem as dúvidas e confrontam as críticas com
fundamentos sólidos.
Não é
possível fazer uma exposição teológica sobre a salvação sem que antes seja
feito um esclarecimento responsivo a algumas questões consideradas como de
extrema relevância. Tal esclarecimento é obtido através das respostas às
respectivas questões que as demandam:
- A doutrina
de Deus e da Trindade responde à questão Quem salva?
- A
antropologia teológica responde à questão Quem é salvo?
- A
hamartiologia (doutrina
do pecado) responde à questão De que se salva?
- A
cristologia responde com firmeza à pergunta Por meio de quem se salva?
Uma
vez que a Soteriologia é a doutrina central das Escrituras os pressupostos
antropológicos precisam ser conhecidos com clareza. Em primeiro lugar, a
doutrina da imago Dei (imagem de Deus) estabelece a dignidade e o valor do
ser humano como objeto da graça salvífica. Segundo, a questão do livre-arbítrio
e sua relação com a graça é decisiva. O
ser humano caído tem capacidade de cooperar com a graça divina, ou está
totalmente incapacitado para tanto? Esta foi a questão que gerou os
históricos debates entre agostinianismo, pelagianismo, semipelagianismo,
tomismo, molinismo, calvinismo e arminianismo. Em terceiro lugar, a unidade
da raça humana em Adão é pressuposto para a doutrina do pecado
original e, por extensão, para a doutrina da redenção universal ou particular.
2. A aliança da graça e da redenção
O
conceito bíblico de aliança foi
desenvolvido no Velho Testamento, tendo como exemplos as alianças do período
patriarcal. A palavra hebraica berith,
que na Septuaginta foi traduzida por diatheke
e synteke, foi traduzida como aliança, pacto, testamento e concerto. A
ideia é de que Deus mantém uma relação pactual com o homem. Segundo o Velho
Testamento, uma aliança ou pacto entre homens era celebrada em cerimônia solene
onde ambas as partes que entravam em acordo obrigavam-se mutuamente ao
cumprimento de certas promessas.
As
alianças de Deus com os patriarcas, com o povo israelita e com Davi foram
firmadas, tendo como base as promessas de Deus relacionadas com seu plano
redentivo. Cada aliança divina é descrita nas Escrituras como uma relação de amor e misericórdia entre Deus e o
homem, sem nenhum mérito da parte do homem, mas como ato exclusivo da graça
divina, visando a redenção, quer seja do povo hebreu ou de toda a humanidade.
Desta forma, a aliança da graça constitui-se numa aliança de redenção.
2.1. As promessas de Deus no contexto da aliança
a)
A
promessa de um redentor (Gn. 3:15; Mt 1.20-21).
b)
A
promessa da bênção universal da salvação (Gn. 12:3; 18:18; 22:18; 26:4; 28:14;
At. 3:25-26).
c)
A
promessa do derramamento do Espírito Santo sobre todos os povos da terra (Jl.
2:28-29; At. 2:16-18).
Tais
promessas aludem ao plano da salvação. Deus, em seu eterno decreto dispôs-se a
redimir toda a criação que, por consequência do pecado humano, havia caído no
"cativeiro da corrupção"
(Rm 8:20-21). Portanto, suas promessas têm alcance universal e cumprem-se a
partir do homem, autor da queda.
2.2. As peculiaridades da aliança
a)
O
Pai enviou o Filho como mediador e fiador da aliança (Hb. 8:6; 7:22).
b)
O
Filho sela a aliança pelo sangue derramado no sacrifício de sua própria vida
(Lc. 22:20; Hb. 9:12).
c)
O
Filho, como substituto do homem, tornou-se o segundo Adão (1Co. 15:22), cumprindo a lei e o propósito de Deus
(Ef. 4:10; Mt. 5:17). Ele se tornou o vivificador dos mortais (1Co. 15:45).
3. A graça de Deus
Os
teólogos, ao se referirem à graça de Deus, fazem distinção entre a relação de
Deus com os pecadores de um modo em geral e sua relação com os remidos. No
primeiro caso, Deus manifesta para com o homem e a criação em geral sua graça comum e, no segundo caso, sua graça especial.
3.1. A graça comum
"O
problema de que trata a Graça Comum resulta de várias questões que foram
levantadas, tais como: Como podemos explicar a vida relativamente ordenada que
há no mundo, se sabemos que o mundo inteiro jaz sob a maldição do pecado? Como
é que a terra dá fruto precioso e abundante, em vez de produzir espinhos e
abrolhos? Como podemos explicar o fato de que o homem pecador ainda "conserva
algum conhecimento de Deus, das coisas naturais e da diferença entre o bem e o
mal, e demonstra alguma consideração pela virtude e pelo bom comportamento
exterior"? Que explicação se pode dar dos dons e talentos especiais de que
o homem natural é dotado, e do desenvolvimento da ciência e da arte por gente
totalmente vazia da nova vida que há em Cristo Jesus? Como podemos explicar as
aspirações religiosas dos homens de toda parte, até de pessoas que não tiveram
contato com a religião cristã? Como é que os não regenerados ainda podem falar
a verdade, fazer o bem aos outros e levar vidas exteriormente virtuosa?"[69]
3.1.1. A posição de Agostinho
Embora
Agostinho não tenha ensinado a doutrina da graça comum, ele falava da graça que
Adão gozava antes da queda. Segundo Agostinho, o homem é totalmente incapaz
para o bem e depende totalmente da graça de Deus, como sendo uma força
renovadora interna que tanto ilumina a mente como também age na vontade do
homem.
Para
Agostinho, as boas ações dos pagãos não somente são de qualidade inferior como
também são pecaminosas, pois não procedem da motivação do amor a Deus ou da fé
e não correspondem ao propósito certo, a glória de Deus. (Louis Berkhof).
3.1.2. A posição da Igreja Romana na idade média
A
antítese de Agostinho pecado e graça
foi substituída por outra, a da natureza
e graça. Esta baseava-se na relação entre o natural e o sobrenatural. No
estado de integridade (antes do pecado) o homem estava revestido do dom
sobrenatural da justiça original, que servia de freio para manter sob controle
a natureza inferior.
Com a
queda o homem perdeu esse dom. Desenvolveu-se, como consequência, uma
inclinação pecaminosa, mas isso não impedia o homem de produzir verdadeiras,
boas e belas ações. Mas sem a graça de Deus isso não seria suficiente para dar
a ninguém a vida eterna.
As
virtudes morais da humildade, da obediência, da mansidão, da generosidade, da
temperança, da castidade e da diligência podem ser produzidas pelo esforço natural humano; mas as virtudes teologais da fé, da esperança e do amor
só podem ser produzidas pela infusão da graça
santificante divina. (Louis Berkhof).
3.1.3. A posição dos reformadores
Lutero
faz distinção entre a esfera terrenal inferior e a esfera espiritual superior.
Ele afirmava que o homem decaído é por natureza capaz de fazer muita coisa boa
e louvável na esfera inferior (terrena), embora seja inteiramente incapaz de
fazer qualquer bem espiritual.
A
Confissão de Augsburg ensina que "a vontade do homem tem alguma liberdade
de pôr em ação uma justiça civil e de escolher coisas que a razão pode
alcançar; mas que não tem poder para pôr em ação a justiça de Deus"
(Artigo XVIII).
Zwínglio
considerava o pecado como corrupção e não como culpa, e, por conseguinte,
considerava a graça de Deus como santificante, e não como graça perdoadora.
Esta influência santificante penetra
até no mundo pagão, o que explica o que há de verdadeiro, bom e belo neste
mundo.
Berkhof
diz que Calvino sustentava que o homem natural não pode, por si mesmo, fazer nenhuma boa obra, e tinha uma concepção de que
a natureza da graça de Deus é essencialmente salvadora. Mas, por outro lado,
ele desenvolveu a doutrina da graça comum. Esta graça é comunal, não perdoa nem
purifica a natureza humana, e não efetua a salvação dos pecadores. Ela reprime
o poder destrutivo do pecado, mantém em certa medida a ordem moral do universo,
distribui em vários graus dons e talentos entre os homens, promove o
desenvolvimento da ciência e da arte e derrama incontáveis bênçãos sobre os
filhos dos homens.
3.2. Conceito de graça comum
Segundo
Berkhof, "a distinção entre a graça comum e a graça especial não se aplica
à graça como atributo de Deus. Não há duas espécies de graça em Deus, mas
somente uma. É a perfeição de Deus em virtude da qual ele mostra imerecido
favor ao homem, favor de que este fora privado com justiça". Graça, na
acepção da palavra, consiste na manifestação dos atos redentores de Deus que
visam a remoção da culpa, da corrupção e da punição do pecado, e à salvação
última dos pecadores. Esta é a graça especial de Deus manifestada aos homens.
A
Graça Comum designa os atos da bondade divina para com a humanidade em geral
(salvos e perdidos). Ela aparece nas bênçãos naturais que Deus derrama sobre o
homem na presente vida, embora o homem não as mereça por ter perdido o direito
a elas quando se tornou pecador sentenciado à morte. Finalmente, segundo
Berkhof, pode-se dizer que a Graça Comum significa:
a)
As
operações gerais do Espírito Santo pelas quais Ele, sem renovar o coração,
exerce tal influência sobre o homem por meio da sua revelação geral ou
especial, que o pecado sofre restrição, a ordem é mantida na vida social, e a
justiça civil é promovida;
b)
As
bênçãos gerais, como a chuva e o sol, água e alimento, roupa e abrigo, que Deus
dá a todos os homens indiscriminadamente, onde e quando lhe parece bem fazê-lo.
3.3. Conceito de graça especial
Graça
especial é o favor imerecido que Deus manifesta à humanidade pecadora, tendo
como alvo específico a salvação dos eleitos. Ela é especial, porque está
relacionada especificamente ao plano redentivo divino. A extensão da graça
especial é determinada pelo decreto da eleição. Esta graça limita-se aos
eleitos, ao passo que a graça comum é outorgada a todos indiscriminadamente. A
graça especial remove a culpa e a penalidade do pecado, muda a vida do homem e
gradativamente o purifica da corrupção do pecado pela operação sobrenatural do
Espírito Santo. Sua atividade redunda na salvação do pecador.
4. A obra redentora de Cristo
A
salvação, como restauração completa do homem, ocorre em três etapas:
a)
A
justificação – que implica em uma
anulação da pena do pecado em virtude de Cristo ter satisfeito a justiça divina
em lugar do pecador;
b)
A
santificação – através da qual o
remido é, não somente separado e purificado de tudo que contamina o espírito,
como também é aperfeiçoado no amor e edificado na justiça, servindo a Cristo na
promoção do seu reino entre os homens;
c)
A
glorificação – que implica na entrada
dos santos na glória celestial, para habitação eterna com Deus que se inicia
após a morte física e se completará com a ressurreição do corpo, quando da
segunda vinda de Cristo.
4.1. Chamado universal divino
A
nossa vocação para a salvação é obra do Deus trino. Em primeiro lugar, é uma
obra realizada pelo Pai (1Co. 1:9; 1Ts. 2:12; 1Pe. 5:10). Por outro lado, o Pai
faz todas as coisas por meio do Filho a quem é também atribuída a vocação dos
pecadores à salvação (Mt 11.28; Lc 5.32; Jo 7.37) e, finalmente, o Filho chama
por meio de sua Palavra proclamada no poder do Espírito Santo (Mt 10.20; Jo
15.26; At 5.31-32).
O fato
de que todos os homens estão perdidos no pecado (Rm. 3:23), espiritualmente
cegos (2Co. 4:4) e incapazes de discernir as coisas de Deus (1Co 2:14), torna
necessária uma interferência de Deus, ao longo da história, para a conversão do
homem. A esta atividade de Deus, denominamos "Chamado Divino".
Uma
vez que Deus tem um propósito universal que se fundamenta numa promessa de
abençoar "todas as famílias da terra" (Gn. 12:3), torna-se
necessário que Deus abra as portas da salvação a todos os homens (Tt 2:11; 1Tm
2:4).
Quando
Jesus disse "Vinde a mim, todos os
que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei" (Mt.
11:28), embora o tivesse feito no contexto do seu ministério entre os judeus,
ele não fez restrições a ninguém. Além disso, é explicitamente declarado nas
Escrituras que Deus não faz acepção de pessoas (At. 10:34; Rm. 2:11; Ef. 6:9).
Mais que isso, o mundo inteiro é alvo do amor imensurável de Deus que
providenciou salvação para todos os povos e nações (Jo. 3:16-18).
A
vocação para a salvação inicia com a proclamação do evangelho do reino, ao qual
os homens são convidados por Deus a participar, e culmina com um apelo ao
arrependimento (Mc. 1:14-15; At. 2:38; 3:19; 17:30-31; 2Pe. 3:9) e à fé (Mc.
1:15: Jo. 6:29; 8:24; 20:30-31; At. 16:31; 19:4; Rm. 10:9; 1Jo. 3:23).
4.2. A conversão do homem
A
conversão é o voltar-se para Deus. Consiste de dois elementos: o arrependimento
e a fé. O apelo ao arrependimento ou à fé leva em seu bojo uma promessa de
perdão e vida eterna para os que se convertem (At. 2:38; 3:19) e uma ameaça de
juízo para os impenitentes (At. 17:30-31; Jo. 3:36; Lc. 13:3, 5; Jo. 8:24). O
arrependimento dos homens é algo em que todo o céu surpreendentemente está
interessado (Lc. 15:7, 10; 24:46-47) e é a condição sine qua non para a salvação (Lc. 13:2-5).
A fé é
o segundo elemento sem o qual não há conversão. O homem não se arrependerá se
não der crédito à Palavra de Deus e não confiar em Jesus. Somos salvos pela fé
(Ef. 2:8, 9) que vem pelo ouvir a palavra de Cristo (Jo. 5:24-25; Rm.
10:14-17).
4.3. A justificação
Segundo
Thiessen, justificação "pode ser
definida como o ato de Deus pelo qual ele declara justo aquele que crê em
Cristo". Citando F. W. Farr, ele diz: "A justificação é a
inversão da atitude de Deus para com o pecador, por causa da nova relação do
pecador para com Cristo. Deus condenou, agora ele absolve". Na opinião de
Thiessen, a "Justificação é um ato declarativo. Não é algo operado no
homem, mas sim, algo declarado a respeito do homem".
Podemos
levantar uma objeção: se “Deus não
inocenta o culpado"(Na 1:3), como pode absolvê-lo? Na verdade, não há
uma declaração da parte de Deus que o pecador se torna inocente, pois Deus o declara culpado de morte (Rm. 3:19; 5:18; Ef.
2:3). No seu ato de justificação do pecador, Deus apenas remove a sentença de
morte que ele mesmo determinou sobre o homem por causa do pecado (Rm. 8:1-2).
Uma vez satisfeita em Cristo a justiça de Deus, a pena do pecado está paga por
Cristo pelo seu sacrifício expiatório e Deus não nos vê mais como ainda culpados, mas como libertos da condenação.
4.3.1. Conceito veterotestamentário de justificação
O
vocábulo em hebraico hitsdik, usado
para designar a ideia de justificação, significa "declarar judicialmente
que o estado de uma pessoa está em harmonia com as exigências da lei",
como se pode ver em (Ex. 23:7; Dt. 25:1; Pv. 17:15; Is. 5:23 (Louis Berkhof).
Deste modo, Davi, recusando-se a matar Saul, foi considerado justo (1Sm. 24:17;
26:23), pois estava se atendo aos padrões de relacionamento entre súdito e
monarca.
4.3.2. Conceito neotestamentário de justificação
Relacionadas
ao conceito de justificação, algumas palavras são usadas no Novo Testamento. O
verbo dikaioo significa
geralmente declarar uma pessoa justa. Ocasionalmente, refere-se a uma
declaração de que o caráter moral de uma pessoa está em conformidade com a lei
(Mt. 12:37; Lc. 7:29; Rm. 3:4). O substantivo dikaiosiV (justificação)
denota o ato de Deus pelo qual ele declara os homens livres da culpa e
aceitáveis a ele (Rm. 4:25; 5:18). O termo dikaiosune designa o estado
humano resultante do ato divino: retidão, justiça e integridade. Na
soteriologia paulina, justificar é declarar, em termos forenses (foro
judicial), que as exigências da lei, como condição de vida, estão plenamente
satisfeitas com relação a uma pessoa (At. 13:39; Rm. 5:1, 9; 8:30-33; 1Co.
6:11; Gl. 2:16; 3:11).
Segundo
Millard Erickson, "No Novo Testamento, a justificação é o ato declarativo
de Deus pelo qual, em razão da suficiência da morte de Cristo, ele afirma que
os crentes cumpriram todas as exigências da lei que lhes diz respeito. A
justificação é um ato forense de imputação da justiça de Cristo ao crente; não
é de fato uma infusão de santidade no indivíduo. É uma questão de declarar
justa a pessoa, como faz um juiz ao absolver um acusado". No parecer de
Berkhof, "A justificação é um ato judicial de Deus no qual ele declara,
com base na justiça de Cristo, que todas as reivindicações da lei são
satisfeitas com vistas ao pecador".
Segundo
Berkhof, a justificação apresenta as seguintes características:
a)
A
justificação envolve o perdão dos pecados e a restauração do pecador ao favor
divino. Isto implica em uma plena reconciliação do pecador com Deus pela
mediação de Cristo (Rm. 5:1-2; 2Co. 5:18-19).
b)
A
justificação dá-se fora do pecador, no tribunal de Deus, e não muda a sua vida
interior, embora a sentença lhe seja dada a conhecer na vida interna do homem e
gradativamente afete todo o seu ser.
c)
A
justificação acontece uma vez por todas. Não se repete, e não é um processo; é
imediatamente completa e para sempre. Não existe isso, de mais ou menos
justificação; ou o homem é plenamente justificado, ou absolutamente não é
justificado. Em distinção disto, a santificação é um processo contínuo, que
jamais se completa nesta existência.
4.3.3. Os benefícios da justificação
a)
A
justificação faz de cada pecador um filho de Deus por adoção (Jo. 1:11; Rm.
8:14-15; Gl. 3:26; Fp. 2:15; 1Jo. 3:2) e, consequentemente, é credenciado como
herdeiro de Deus (At. 26:18; Rm. 8:17; Gl. 3:29; Tt. 3:7; 1Pe. 1:3-4).
b)
A
justificação, uma vez que remove do homem sentença de morte, traz como
benefício não só a vida eterna, mas também todas as promessas e bênçãos da
salvação (Rm. 5:18-21; 6:22; Tt. 3:7).
4.4. A regeneração
O
vocábulo grego palingenesia, traduzido como
regeneração, só se acha em Mt. 19:28 e Tt. 3:5, mas é somente nesta segunda
referência que encontramos o sentido de início da nova vida do cristão. A ideia
de nova vida alcançada por meio de uma regeneração é melhor designada pelas
palavras gennaw e anoqen (Jo. 3:3). Estas
palavras significam gerar, gerar de novo, ou ainda, dar à luz, dar nascimento
(Jo. 1:13; 3:3-8; 1Pe. 1:23; 1Jo. 2:29; 3:9; 4:7; 5:1, 4, 18).
Outra
palavra usada para indicar a produção de uma nova vida é ktizw que significa
criar (Ef. 2:10 e a "nova criatura" produzida é kaine ktisiV (2Co. 5:17; Gl.
6:15) ou kainos anqropoV que significa
novo homem (Ef. 4:24). Finalmente, o termo suzoopoiew, que tem o
significado de “dar vida com”, “vivificar com”, também é empregado com o mesmo
sentido em Ef. 2:5 e Cl. 2:13.
4.4.1. Implicações teológicas destes conceitos
a)
A
regeneração é uma obra criadora e exclusiva de Deus sem participação humana.
b)
A
obra divina da regeneração produz no homem nova vida, sendo ele vivificado com
Cristo, participando da vida ressurrecta e tornando-se nova criatura (criado de
novo).
c)
Os
termos geração e nascimento devem ser compreendidos distintamente. A geração
implanta na alma o princípio da nova vida e o novo nascimento faz que este
princípio se ponha a firmar-se em ação.
4.4.2. Características da regeneração
a)
A
regeneração produz uma mudança radical da disposição dominante da alma que, sob
a influência do Espírito Santo, move o homem na direção de Deus. Tal mudança
afeta o homem todas as dimensões de sua alma: o intelecto (1Co. 2:14-15; 2Co.
4:6; Ef. 1:18; Cl. 3:10); a vontade (Fp. 2:13; 2Ts. 3:5; Hb. 13:21), os sentimentos
e emoções (Mt. 5:4; 1Pe. 1:8).
b)
A
regeneração é uma transformação
instantânea da natureza do homem. Embora instantânea, essa transformação
produz seus efeitos paulatinamente ao longo da vida e se desenvolve através do
processo do aperfeiçoamento, reconstituindo no novo homem a imagem de Deus que
o pecado deformou (2Co. 3:18; Ef. 4:13; Fp. 3:12; Cl. 3:28).
4.5. A adoção
A
adoção é o efeito imediato da regeneração que ocorre quando da conversão
individual. A adoção é a transferência de um estado de alienação e hostilidade
para um estado de aceitação e favor ((Gl. 4:5; Ef. 1:5). Paulo entende que
nossa adoção é o cumprimento de uma parte do plano de Deus (Ef. 1:5) e ele liga
a adoção com a justificação (Gl. 4:4-5).
4.5.1. O tempo da adoção
a)
Foi
uma decisão que fez parte dos eternos decretos de Deus (Ef. 1:5).
b)
Ela
se torna real para o crente no momento de sua regeneração (Jo. 1:12-13; Gl.
3:26).
4.5.2. Os benefícios da adoção
a)
Libertação
da condenação da lei divina (Gl. 4:4-5; Rm. 8:15).
b)
Os
regenerados são constituídos herdeiros de Deus (At. 26:18; Rm. 8:17; Gl. 3:29;
Tt. 3:7; 1Pe. 1:3-4);
c)
Os
regenerados recebem, como penhor de sua herança, o Espírito Santo que lhes
garante a segurança eterna (2Co. 1:22; 5:5; Ef. 1:11-14).
4.6. A união com Cristo
O
homem regenerado é conduzido a uma união vital com Cristo. A expressão paulina em Cristo designa esta união mística da nova criatura com Cristo (2Co. 5:17).
Por outro lado, é também dito nas Escrituras que Cristo está no crente
regenerado (Jo. 14:20; Rm. 8:10; Gl. 2:20; Cl. 1:27).
Pedro
declara que o crente participa da natureza divina (2Pe. 1:4) e Paulo diz que o
crente regenerado é um espírito com o Senhor (1Co. 6:17). Além disso, a
analogia da videira e dos ramos expressa a união dos crentes com Cristo (Jo.
15:4-5). Há passagens que incluem as promessas de Jesus de estar presente com o
que crê (Mt. 18:20; 28:20; Jo. 14:23).
Finalmente,
há uma lista de experiências que o crente compartilha com Cristo: sofrimento
(Rm. 8:17); crucificação (Gl. 2:20); morte (Cl. 2:13); sepultamento (Rm. 6:4);
revivificação (Ef. 2:5); ressurreição espiritual (Cl. 3:1); glorificação e
herança (Rm. 8:17).
4.6.1. Características desta união
a)
É
uma união espiritual (1Co. 6:17; cf. Rm. 8:9-10; Ef. 3:16-17).
b)
É
uma união vital (Gl. 2:20; Cl. 3:3-4).
c)
É
uma união completa (1Co. 12:27; Ef. 5:30).
d)
É
indissolúvel (Jo. 10:28; Rm. 8:35-39).
e)
É
mediada pelo Espírito Santo (1Co. 6:17; 12:13; 2Co. 3:17-18; Gl. 3:2-3).
f)
É
orgânica, onde os crente e Cristo formam um só corpo (1Co. 6:15-19; Ef.
1:22-23; 4:15-16; 5:29-30).
4.6.2. Consequências desta união
a)
Ela
produz segurança eterna (Jo. 10:28-30).
b)
Ela
habilita o crente a frutificar (Jo. 15:5).
c)
Ela
possibilita a concessão de dons espirituais para o serviço no reino de Deus
(1Co. 12:4-30).
4.7. A santificação
A obra
da salvação, como já dissemos, realiza-se em três etapas: redenção,
santificação e glorificação. A transformação do homem, no processo da salvação,
não ocorre instantaneamente. O novo nascimento é o início de uma nova vida que
exige cuidados especiais para um crescimento espiritual que leve a nova
criatura à maturidade espiritual, até que todos cheguemos à estatura do varão
perfeito (Ef. 4:13). Com a queda de Adão, a imagem de Deus no homem ficou
deformada. A reconstituição desta imagem é um processo que se inicia com a
regeneração, desenvolvendo-se por meio da santificação e se completa na
glorificação.
4.7.1. Conceito de santificação
A
palavra santificação, em grego hagiosmos,
aparece dez vezes no Novo Testamento (Rm. 6:19, 22; 1Co. 1:30; 1Ts. 4:3, 4, 7; 2Ts.
2:13; 1Tm. 2:15; Hb. 12:14; j 1Pe. 1:2) e designa o processo de aperfeiçoamento
da nova criatura em Cristo. Santificação é, portanto, a obra contínua de Deus,
tornando o crente realmente santo, isto é, portador de uma verdadeira
semelhança com Deus.
1)
Um estado de santidade e separação para Deus
No
Velho Testamento certos lugares, como o Santo dos Santos, objetos (arca, vasos
usados pelos sacerdotes, altares, etc.) e pessoas (sacerdotes e levitas) eram
especialmente separados ou santificados para o Senhor. Alguns exemplos disso
podemos ver em Ex. 40:10-15; Nm. 7:1; 2Cr. 7:16. Da mesma forma, todo o Israel
foi santificado, consagrado ou separado como povo exclusivo de Deus (Ex.
19:5-6).
O
mesmo sentido é encontrado no Novo Testamento com referência à igreja (1Pe.
2:9; 1Co. 1:2; Hb. 10:14). Tal santificação implica em uma consagração
(separação, vocação) que no Velho Testamento era confirmada pela unção com óleo
sagrado e no Novo Testamento, com o Espírito Santo (Lc. 4:18; At. 1:8; 2:17,
33; 10:38). Neste sentido, há uma separação e vocação de todos os remidos para
uso exclusivo de Deus (1Pe. 2:9; Rm. 1:6-7; 1Co. 1:2).
2)
Purificação do mal moral
Santidade,
como atributo de Deus, é uma alienação plena do mal em todas as suas
manifestações. Portanto, Deus, como um ser santo, é perfeitamente puro. Esta é
a razão pela qual Deus exige santidade (pureza) de seu povo para que se
relacione com ele (Lv. 20:26; 1Pe. 1:14-16). Também foi, por isso, que Isaías,
em sua visão de Deus no templo, considerou-se, diante da santidade divina, como
imundo e digno de morte (Is. 6:5); e só foi separado para ser profeta depois de
purificado do seu pecado (Is. 6:6-9). Sem esta purificação o homem não pode
viver com Deus (Hb. 12:14; Mt. 5:8).
4.7.2
Natureza e características da santificação
A
santificação é uma obra sobrenatural de Deus, uma operação divina no espírito
humano pela qual a santa disposição, nascida na regeneração, aumenta (1Ts.
5:23; Hb. 13:20-21). O Deus trino age na santificação do crente.
a)
O Pai santifica o crente ao outorgar-lhe a
santidade de Cristo (1Co. 1:30), opera nele aquilo que é agradável aos seus
olhos (Hb. 13:21) e o disciplina (Hb. 12:9-10; 1Pe. 5:10). Esta santificação
ocorre por meio da Palavra de Deus (Jo. 15:3; 17:17).
b)
Cristo santifica o crente por dar sua vida por
ele (Hb. 10:10; 13:12; Ef. 5:25-27), purificando-o pelo sangue da sua cruz
(1Jo. 1:7; 2:2; Ap. 7:14-15).
c)
O Espírito Santo santifica o crente ao livrá-lo da
natureza carnal (Rm. 8:12-14), milita contra a manifestação desta velha
natureza (Gl. 5:17) e produz no crente os frutos espirituais (Gl. 5:22-23).
A
santificação afeta o homem em todas as suas dimensões e níveis da vida (1Ts.
5:23). O corpo, visto como órgão ou instrumento da alma pecaminosa, através do
qual se manifestam os hábitos e as paixões pecaminosas, após a regeneração do
homem, torna-se santuário do Deus trino (1Co. 3:16-17; 6:19; Rm. 8:9-11; Jo.
14:23).
A
santificação, mesmo sendo uma obra divina, exige a cooperação do crente. Isto
não significa que o homem é um agente independente em ação, mas que Deus efetua
essa obra em parte pela instrumentalidade do homem. Dois fatores provam isso: (a) As advertências
contra males e tentações (1Co. 6:9-11, 17-20; Gl. 5:16-23; Rm. 8:12-13); (b) As
constantes exortações a um viver santo (Rm. 8:12, 13; 12:1-2; Ef. 5:1-21; 1Pe.
1:14-16).
A
santificação do crente, ao que parece, deve completar-se no exato momento da
sua morte (no que se refere ao espírito); e na ressurreição, no que concerne ao
corpo. Desta forma, podemos declarar que:
a)
Os
que dormem em Cristo são reconhecidos no céu como "espíritos dos justos aperfeiçoados" (Hb. 12:22-23).
b)
Os
que já se encontram no céu são identificados como "sem mácula" (Ap. 14:1-5).
c)
No
céu não pode penetrar "coisa alguma
contaminada, nem o que pratica abominação e mentira" (Ap. 21:27).
d)
Cristo,
na sua vinda, "transformará nosso
corpo de humilhação, para ser igual ao corpo da sua glória" (Fp.
3:21).
5.
A perseverança e a eternidade da salvação
A ideia de
perseverança dos santos tem o sentido de que aqueles que Deus regenerou e
chamou para um estado de graça não podem cair nem total nem definitivamente,
mas perseverarão nele até o fim e serão salvos para toda a eternidade. A
doutrina da perseverança dos santos não significa que todo aquele que
manifestar certas habilidades espirituais na obra cristã está necessariamente
salvo para todo o sempre (Mt. 7:21-23).
5.1. Concepção calvinista – provas bíblicas
a)
Jo 10.27-29 – esta passagem é uma declaração de Jesus
que nos ensina que seus verdadeiros discípulos são identificados pela
obediência aos seus ensinos (v. 27), que estão eternamente seguros porque já
estão livres da morte eterna (v. 28) e que têm o Deus Onipotente como protetor
invencível (v. 29).
b)
Rm 11.29 – Paulo ensina que a graça de Deus,
revelada em sua vocação, não pode jamais ser retirada. Deus jamais anulará
aquilo que Ele mesmo fez, pois Deus não mente nem se arrepende (Nm 23.19; 1Sm
15.29). Portanto, quando fez promessas jurou por si mesmo e não pode mais
voltar atrás, porque é imutável (Hb. 6:13-20; Tt. 1:2-3).
c)
Rm 8.29-30 – a salvação dos eleitos foi uma eterna
decisão de Deus que os "predestinou",
"chamou", "justificou" e "glorificou", isto é, garantiu-lhes
definitivamente sua entrada na glória celeste para a qual foram criados.
d)
1Pe 1:3-5 – todos os regenerados estão sendo
guardados por Deus para uma herança intransferível. Herança é uma concessão de
pai para filhos. Os regenerados nasceram do Espírito de Deus, tornaram-se
filhos de Deus, cuja filiação é comprovada pelo próprio Espírito Santo (Rm.
8:15-17) que foi concedido como selo inviolável e "penhor" de garantia até o "resgate de sua propriedade" (Ef. 1:13-14).
e)
1Jo 5.18-19 – os verdadeiros filhos de Deus foram
libertos da escravidão do pecado, são guardados pelo próprio Deus e o Maligno
não mais pode tocá-los; o que não ocorre com os não regenerados, que continuam
sob o domínio de Satanás.
5.2. Concepção arminiana (Jacobus Arminius)
A
posição arminiana prevê uma possibilidade de queda da graça no caso de
apostasia. Seu argumento neste caso baseia-se nas passagens bíblicas onde os
cristãos são exortados a perseverarem ou prevenidos quanto aos riscos de
apostasia (Mt. 24:9-14; Cl. 1:21-23; Hb. 2:1; 3:12-14; 6:1-4, 11-12; 10:26-29).
Os
arminianos recorrem a passagens bíblicas que "provam" a condenação de
pessoas que apostataram. O exemplo maior citado é Judas Iscariotes. Na
concepção arminiana, Judas era convertido, pois, caso não fosse, Jesus não o
teria escolhido como apóstolo. Outros casos são citados, tais como Ananias e
Safira (At. 5:1-11); Himeneu e Alexandre (1Tm. 1:19-20); Himeneu e Fileto (2Tm.
2:16-18); Demas (2Tm. 4:10); os falsos mestres e aqueles que os seguem (2Pe.
2:1-2).
5.3. Objeções ao arminianismo
a)
No
caso de Judas, Jesus fez forte insinuação de que Judas não era regenerado (Jo.
13:10-11) e João declara que ele era ladrão (Jo. 12:6), o que prova que ele não
era regenerado.
b)
Himeneu
e Alexandre (ou Fileto) – não há nenhuma afirmação de que houve uma queda do
estado da graça, mas apenas um ato disciplinar por parte de Paulo (1Tm. 1:20;
cf. 1Co. 5:1-5).
c)
Hebreus
6:4-6 pode ser uma referência que identifica a apostasia dos judaizantes que
retornaram ao regime da lei, cujo desvio é uma rejeição consciente ao evangelho
da graça, ato que resulta inevitavelmente em condenação (Gl. 1:6-9; 3:1-5;
5:1-10).
d)
A
declaração de Jesus em João 10:27-30 reflete uma segurança absoluta que
inviabiliza a possibilidade de uma perda da salvação por parte dos regenerados.
Diante
de tal fato, uma questão é levantada: Se a salvação é certa e eterna, isto é,
não se perde, qual o propósito das advertências e das ordens dadas aos crentes?
A resposta é que, desta forma, Deus garante que o salvo persevere e não caia,
pois em tal caso o crente fica sujeito a severa disciplina (Hb. 12:4-13).
Podemos ver exemplos dessa disciplina divina em 1Co. 5:1-4; 11:27-32. Os filhos
que se rebelam contra Deus e ficam sem disciplina não são filhos, são "bastardos" (Hb. 12:8).
6. A glorificação
No
processo da salvação, a glorificação é o ato final realizado por Deus em favor
de todos aqueles a quem Deus redimiu e santificou. Paulo ensina que a
glorificação do crente é a última etapa da salvação (Rm. 8:30). O fim que Deus
pretendeu dar à criação, especificamente ao homem, como objetivo último, foi a
sua glória. Várias são as passagens bíblicas que demonstram isso (Is. 43:7;
60:21; Rm. 11:36; Cl. 1:16; Ap. 4:11).
6.1. Conceito de glorificação
Glorificação
é o ato pelo qual Deus recebe os remidos no esplendor de sua glória para dela
usufruírem como morada eterna. Vários textos da Bíblia expressam claramente que
os remidos estão destinados à glória celeste.
a)
Enoque
e Elias foram transladados por Deus (Gn. 5:24; cf. Hb. 11:5; 2Rs. 2:11).
b)
Ao
ladrão regenerado Jesus prometeu o paraíso (Lc. 23:43).
c)
Paulo
fala de seu desejo de partir (ausentar-se da vida terrena) para estar com
Cristo no céu (Fp. 1;|21-23).
d)
Paulo
nos ensina que temos uma "pátria nos céus" (Fp. 3:20) e que nosso
corpo será glorificado para ser igual ao de Jesus após a ressurreição (Fp.
3:21).
e)
Paulo
expressou sua convicção de que estaria no reino celestial com o Senhor (2Tm.
4:18).
f)
Jesus
prometeu aos seus discípulos providenciar morada na "casa do Pai"
(Jo. 14:1-3) e orou a Deus declarando que seus discípulos não mais pertenciam
ao mundo (Jo. 17:16) e expressando seu desejo pessoal de tê-los em sua companhia
na glória celestial (Jo. 17:24).
6.2. A esperança no além
Até
onde caminharemos? Na jornada de nossa existência, onde está o ponto de
chegada? "Todos vão para o mesmo
lugar; todos procedem do pó e ao pó tornarão. Quem sabe se o fôlego de vida dos
filhos dos homens se dirige para cima e o dos animais para baixo, para a terra?"
(Ec. 3:20-21). O autor de Eclesiastes interpela com estas palavras a quantos
fundamentavam sobre suas próprias intuições, ou sobre seus sistemas filosóficos
e religiosos, sua crença na imortalidade da alma.
Esse "Quem
sabe...?" é a pergunta que lança às pessoas imbuídas de
mentalidade pagã, isto é, do esquema intelectual prevalecente em sua época. As
questões levantadas no Eclesiastes manifestam o realismo bíblico, não com o propósito de angustiar o homem pela
expectativa de seu próprio fim, mas para produzir no homem o temor ao seu
Criador, que tem nas mãos a chave da existência de todo ser criado. Deus não
criou o homem para a morte, mas para a eternidade. "Deus pôs a eternidade no coração
do homem" (Ec. 3:11). E "o
Pregador" prossegue dizendo: "Sei que tudo quanto Deus faz
durará eternamente" (Ec. 3:14). Isto inclui o próprio homem como
ser, cujo espírito é imortal, pois quando cessa a sua existência terrena "o pó
volta à terra, como o era, e o espírito volta a Deus, que o deu"
(Ec. 12:7).
6.3. A afirmação cristã
As
respostas bíblicas às questões misteriosas do homem sempre têm que ver com
atos. A Bíblia não é o resultado dos descobrimentos
que sobre Deus puderam tornar algumas almas excepcionalmente piedosas e dotadas
para o misticismo, mas o relato de um processo
de autorrevelação que Deus tem querido fazer chegar até nós para nossa
iluminação e nossa salvação. Daí que a Bíblia se ocupe mais de atos e de
pessoas que de escolas ou sistemas. Há 4 realidades
que temos de considerar à luz da Bíblia:
a)
A necrológica: a morte. Há algo que sobrevive à
mesma?
b)
A antropológica: o homem que
morre. Quem é esse homem?
c)
A escatológica: a ressurreição.
Qual a esperança cristã na imortalidade da alma ou na ressurreição dos mortos?
d)
A pneumatológica: O Espírito Santo
como "primícias" e "penhor" de nossa herança; poder
vivificante que transformará nossos corpos em soma pneumatikon (corpo espiritual), segundo a expressão original
de 1Co. 15:44.
6.4. A perspectiva bíblica da morte
O
problema da morte é trágico não porque, sendo pó haveremos de voltar ao pó,
mas, como diz Paul Tillich, porque somos culpáveis e morremos como tais. A
revelação bíblica nos diz que a morte é a sentença de Deus como juiz sobre o
homem pecador cujo veredicto o declara culpado.
6.4.1. O salário do pecado
Na
perspectiva bíblica, o ato da morte está indissoluvelmente unido ao ato do
pecado. A consequência do pecado é a morte; é sua paga, seu salário, sua justa
retribuição (Rm. 6:23). Daí seu horror, seu caráter antinatural. A morte é
sinal e fruto do pecado; entrou no mundo pelo pecado (Rm. 5:12; Ef. 2:15; Tg.
1:14-15; cf. Gn. 2:17; 3:34).
6.4.2. A morte vencida por Cristo
A resposta
última da Palavra de Deus (a única resposta válida) nos é garantida por haver
Deus se revelado a nós no processo histórico que a Bíblia registra. Em Cristo,
Deus falou pessoalmente ao homem e deu sua palavra final e irrevogável sobre
seu propósito para com o homem. O homem, embora punido com a morte por causa do
pecado, mas regenerado por haver crido em Cristo e se arrependido dos seus
pecados, há de ressuscitar "no
último dia" (Jo. 6:40, 44, 54). A garantia da ressurreição foi
concretizada pela morte de Cristo (Hb. 2:14-15).
6.4.3. O que sobrevive à morte física
No que
diz respeito aos crentes regenerados, estes sobrevivem após a morte e se acham
em uma situação tal que este estado significa que:
a)
É um estar em
Cristo
(Fp. 1:22-23; 2Co. 5:1-10). A morte física não nos pode jamais romper ou
desfazer nossa união com Cristo (Rm. 8:38; 14:8-9; 1Ts. 5:10).
b)
É como um sono. É o estado de
repouso em que vivem os filhos de Deus entre o instante de sua morte física e o
dia da ressurreição (1Ts. 4:13-14; cf. 1Co. 15:51-52). Este estado não se
refere a uma perda da consciência ou estado de inércia, mas apenas designa a
transitoriedade e sua temporalidade, pois todos estão conscientes (1Ts. 5:10;
Ap. 6:9-10).
c)
É como uma
experiência de desnudez, ao achar-se o espírito privado do corpo (2Co.
5:1-5).
d)
É um estado de
tensão escatológica.
Assim nos ensina o Apocalipse (6:9-10).
6.4.4. A ressurreição do corpo
Segundo
nos ensina a Bíblia, o homem vive três estágios de existência: o que antecede a
morte física, o que segue após a morte física e antecede a ressurreição e o
eterno, após a ressurreição. Apenas no primeiro e no último é que o homem vive
em um corpo. Desta forma, há dois tipos de corpos completamente diferentes um
do outro, que Paulo denomina de "corpo
terrestre" e "corpo celeste",
ou ainda, "corpo animal" e
"corpo espiritual" (1Co.
15:35-49).
Paulo
nos faz entender que o corpo terrestre ou animal é provisório, finito e tem
sido adaptado às necessidades do plano físico de existência. Da mesma forma, o
corpo celestial será adaptado às necessidades do plano espiritual da existência
transcendental, na eternidade. Por esta razão, nossos corpos celestes ou
espirituais serão semelhantes ao corpo do Cristo glorificado (Fp. 3:20-21).
CAPÍTULO XVII
PNEUMATOLOGIA – A DOUTRINA DO ESPÍRITO SANTO
1. Introdução
Pneumatologia (do grego pneuma,
"espírito", "vento", "sopro", e logos,
"estudo") é o ramo da Teologia Sistemática que estuda a pessoa, a
obra e o ministério do Espírito Santo. O estudo desta disciplina demanda por respostas
a algumas questões que servem como diretrizes para a sistematização do
conteúdo. Quem é o Espírito Santo? Como
podemos conhecê-Lo? O que a Bíblia revela sobre Sua natureza? Como Sua
divindade é demonstrada? Qual é Sua relação com o Pai e com o Filho? Como Sua
revelação progride ao longo das Escrituras?
A
doutrina do Espírito Santo não é formulada com base nas experiências pessoais,
sentimentos ou tradições religiosas; sua fonte são as Escrituras, reconhecidas
como o registro da revelação divina sob a inspiração do Espírito Santo (2Tm
3.16-17). Em sua Segunda Epístola, o apóstolo Pedro atribui ao Espírito Santo a
instrumentalidade da revelação e inspiração da Bíblia Sagrada – “... nenhuma profecia da Escritura provém de particular
elucidação porque nunca
jamais qualquer profecia foi dada por vontade humana; entretanto, homens santos
falaram da parte de Deus, movidos pelo Espírito Santo” (2Pe 1.20-21).
O
vocábulo Espírito (em hebraico רוּחַ ruwach) possui diversos significados: vento, sopro, respiração, espírito. Exemplo:
“o Espírito de Deus pairava
por sobre as águas” (Gn 1.2). No Novo Testamento, o termo grego (πνεῦμα Pneuma) é
equivalente ao hebraico com o mesmo significado. Exemplo: Jo 3.8 – “O vento (pneuma) sopra onde quer, ouves a sua voz, mas não sabes donde vem, nem para onde
vai; assim é todo o que é nascido do Espírito (pneuma)”.
No
Antigo Testamento, o Espírito aparece como agente capacitador que cria, habilita, inspira, fortalece e concede
sabedoria. Na criação (Gênesis 1.2), o Espírito paira sobre o caos primordial em que a Terra estava imersa.
Referindo-se à pessoa de Bezalel, Êxodo 31.3, declara: "Eu o enchi do Espírito de Deus". Ele foi a primeira pessoa explicitamente descrita
como cheia do Espírito. No período dos juízes, Otniel (Juízes 3), Gideão
(Juízes 6), Jefté (Juízes 11), Sansão (Juízes 14), foram habilitados e usados
pelo Espírito de Deus como libertadores de Israel. No Novo Testamento (João
14-16), o Espírito é mencionado como o agente divino que haveria de ensinar,
convencer, glorificar a Cristo e permanecer para sempre. Esse conteúdo será
explorado com detalhes, posteriormente.
A obra
do Espírito se realiza tanto no mundo como na igreja. No mundo o Espírito age
com propósito soteriológico, isto é, tornando o homem sensível e interessado na
obra redentora de Cristo, para que dela se beneficie. Por outro lado, a ação do
Espírito na igreja tem caráter hagiológico. A missão do Espírito na igreja é
santificá-la, renovando e edificando individualmente os remidos.
2. A natureza do Espírito Santo
A
respeito da natureza do Espírito de Deus, duas verdades são ensinadas pelas
Escrituras. A primeira é que o Espírito Santo é pessoa. A segunda é que ele é
divino. No Antigo Testamento, o termo em hebraico que designa o Espírito Santo
como pessoa é ruach Yahweh (Espírito
de Javé) que pode ter a seguinte conotação:
a)
O princípio vivificador de Deus - designa a
atividade pessoal de Deus na vontade de Deus atingindo um objetivo de caráter
espiritual. O ruach de Deus é a fonte
de tudo que está vivo (Jó 33.4); é o princípio ativo que procede de Deus e dá
vida ao mundo físico (Gn. 2:7; Sl. 104:24-30).
b)
A força ou o poder atuante de Deus – seu poder atua
nos homens e na natureza em geral. Era esta força que se apoderava dos homens
de Deus (Jz 14:6, 19; 15:14; 6:34; 11:29).
Por
outro lado, há clara e inegável identificação do Espírito Santo com a pessoa do
próprio Deus (Is. 63:10; Sl. 139:7-12). Mas, somente o Novo Testamento o
descreve como um ser que tem personalidade própria, sendo dotado de atributos
que só competem a pessoas, tais como: inteligência (1Co. 2:10-11), comunicação
com o homem (Jo. 14:26; At. 13:2), vontade própria (1Co. 12:11) e sentimentos
(Ef. 4:30; Is. 63:10). Com respeito à sua divindade, o Novo Testamento expressa
o seguinte:
a)
Ele
é expressamente chamado Deus (At. 5:3-4; 1Co. 3:16).
b)
Ele
tem atributos divinos:
ü Onisciência (1Co.
2:10-11).
ü Onipresença (Sl.
139:7-12).
ü Onipotência (Rm.
8:11).
c)
Ele
realiza obras que só Deus pode fazer:
ü Criação (Jó 33:4;
Sl. 104:30);
ü Regeneração do
homem (Jo. 3:5-6);
ü Inspiração das
Escrituras e revelação divina (2Pe. 1:21);
ü Autor da
encarnação de Cristo (Lc. 1:35);
ü Ressurreição (Rm.
8:11).
3. A obra do Espírito Santo
A obra
do Espírito Santo consiste na ação de Deus, ao longo da História da Salvação,
desde a criação até os últimos dias da presente era. A obra do Espírito no
Velho Testamento pode ser notada em três áreas: na criação, na preservação da
natureza, e no homem.
Na
criação, o Espírito Santo foi o
responsável por dar à terra as condições favoráveis à existência da vida de
todos os seres a serem criados (Gn 1:2 – "pairava" – em hebraico
significa literalmente "chocava". A terra estava envolvida pelo
Espírito de Deus como se estivesse numa incubadora). A ação do Espírito na
preservação da natureza é expressa através dos hinos de louvor ao Deus Criador,
o Salmo 104 exalta o poder de Deus e declara que Deus preserva a natureza, os
animais e o homem, perpetuando suas espécies, para renovar a face da terra.
Deus faz isso por meio do Espírito Santo (Sl. 104:30); nele reside a fonte da
vida (Jó 33:4).
No que
se refere ao homem, três fatos concernentes ao Espírito de Deus são
registrados:
a)
Habitação seletiva
– homens
vocacionados por Deus para uma missão eram habitados pelo Espírito Santo (Nm.
11:17; 27:18; Jz. 3:10; 1Sm. 16:13; Sl. 51:11).
b)
Capacitação para
serviços especiais –
exemplo único citado é o de Bezalel (Ex. 33:1-15).
c)
Na transmissão da
profecia (Ez.
2:2; 8:3; 11:1, 24; Mq. 3:8).
Ainda
no Velho Testamento são feitos dois anúncios da ação de Deus por meio do
Espírito Santo. O primeiro diz respeito ao Messias e o segundo a Israel
restaurado. Com referência ao Messias, o profeta Isaías diz que ele seria
ungido pelo Espírito Santo para o exercício de seu ministério terreno (Is.
11:2; 42:1; 61:1; cf. Lc. 4:16-18). Os profetas anunciaram que a restauração de
Israel seria uma ação divina que se completaria com o derramamento do Espírito
Santo sobre os remanescentes fiéis (Is. 44:4; Ez. 36:25-28; 37:11-14; Jl.
2:28-29).
No
Novo Testamento, a obra do
Espírito Santo é destacada com relevância. Os Evangelhos destacam sua ação no
nascimento, vida e ministério de Jesus. O livro de Atos narra sua obra na
igreja e as epístolas, na vida individual dos santos.
3.1. O Espírito Santo na vida e ministério de Jesus
a)
A
encarnação de Cristo foi um milagre do Espírito Santo (Lc. 1:35).
b)
O
início do ministério de Jesus foi marcado pela sua unção com o Espírito Santo
(Lc. 3:21-22; 4:16-21).
c)
Em
toda a sua vida e ministério Jesus foi conduzido e agiu pelo Espírito que
estava nele (Lc. 4:1, 14; At. 10:38).
d)
Pelo
poder do Espírito foi que Jesus expulsou demônios e fez milagres (Mt. 12:28).
e)
O
sacrifício de Jesus foi realizado como obra do Espírito Santo (Hb. 9:14).
f)
A
ressurreição de Jesus foi realizada pelo Espírito Santo (Rm. 8:11).
g)
Concessão
de dons espirituais à igreja para o ministério individual (Rm. 12:6-8; 1Co.
12:4-11; Ef. 4:11; 1Pe. 4:11).
3.2. A obra do Espírito Santo no mundo
Com
respeito ao mundo, o Novo Testamento declara que:
a)
O
mundo é reino de Satanás, que é seu príncipe e atua nos "filhos da
desobediência" (Jo. 12:31; 14:30; 16:11; Lc. 4:5-7; Ef. 2:2).
b)
Todos
os não regenerados vivem em trevas sob a potestade de Satanás (Jo. 3:19-20;
8:12; 12:46; At. 26:18; 1Jo. 5:19).
A
salvação do mundo é o fim último de Deus (1Tm. 2:4; 4.10) e, para o pecador
alcançá-la, ele precisa arrepender-se. Este arrependimento não se realizará se
o homem não admitir sua culpa perante Deus e reconhecer que está sujeito ao
juízo divino. A missão do Espírito Santo no mundo é, portanto, confrontar o
homem com Deus e fazê-lo admitir ser culpado e digno de sofrer as penalidades
do juízo de Deus. "Quando ele vier,
convencerá o mundo do pecado, da justiça e do juízo: do pecado, porque não
creem em mim; da justiça, porque vou para o Pai e não me vereis mais; do juízo,
porque o príncipe deste mundo já está julgado" (Jo. 16:8-11).
3.3. A obra do Espírito Santo na vida do crente
a)
Habitação
nos remidos como garantia eterna de salvação (Ef. 1:11-14).
b)
Concessão
de poder para realizar a obra missionária (Lc. 24:46-49; At. 1:8).
c)
Iluminação
espiritual para a compreensão da verdade revelada (Jo. 14:26; 16:13-14).
d)
Intercessão
nos momentos de fragilidade espiritual dos santos (Rm. 8:26-27).
e)
Santificação
dos filhos de Deus (Rm. 8:1-7), levando-os a rejeitar as obras da carne e
produzir o fruto do Espírito (Gl. 5:16-25).
4. O batismo no Espírito Santo
A
ideia de batismo no Espírito Santo aparece somente no Novo Testamento: nos
evangelhos (Mt. 3:11; Mc. 3:8; Lc. 3:16; Jo. 1:33), em Atos (1:5 e 11:16) e em
1Co. 12:13. Embora os contextos sejam diferentes, as ideias são semelhantes.
4.1. Conceito figurativo
O
termo "batismo no Espírito" não passa de uma analogia bíblica
relacionada à experiência de conversão. A palavra em grego baptizo tem sentido literal e figurativo no Novo Testamento. O
sentido literal é imergir, submergir, mergulhar, colocar em, dependendo do
contexto, como em Mt. 3:6.
O
sentido figurado é exemplificado pela descrição que Jesus fez de sua paixão,
como sendo um batismo (Lc. 12:50). A identificação deste batismo com os
acontecimentos da paixão e morte do Senhor Jesus é feito por Marcos (10:33-39),
onde Jesus falou de sua imersão ou "batismo" na morte, ou beber o
"cálice" da morte (Jo. 18:11; Mt. 26:42). Diante do exposto,
"batismo no Espírito Santo" tem, portanto, sentido estritamente
figurativo e não literal, pois o Espírito Santo é pessoa divina e não algo onde
se possa mergulhar ou ser submerso.
4.2. O batismo no Espírito como promessa para todos
Há
somente uma passagem no Novo Testamento onde explicitamente Jesus identifica o
batismo no Espírito Santo com a "promessa do Pai": Atos 1:4-5. O capítulo
2 de Atos narra o cumprimento dessa promessa. Dessas duas passagens podemos
concluir que:
a)
O
batismo no Espírito é o mesmo que derramamento do Espírito (At. 1:4-5; cf. At.
2:33).
b)
O
batismo no Espírito é uma promessa que seria cumprida "nos últimos dias"
que se iniciam com a primeira vinda de Cristo (Is. 9:1-6; Hb. 1:1) e se
estenderão por todo o tempo que antecede o "grande e glorioso dia do Senhor", isto é, durante a era da
salvação (At. 2:17-21).
c)
O
batismo ou derramamento do Espírito é promessa de Deus que se cumpre em TODOS
OS REGENERADOS dentre "toda a carne",
isto é, pessoas de ambos os sexos ("filhos" e "filhas"), de
todas as idades ("jovens" e "velhos"), de todas classes
sociais ("até sobre os meus servos
e as minhas servas") e de todos
os tempos e lugares do mundo (At. 2:38-39).
d)
O
batismo no Espírito tem o propósito de habilitar todos os regenerados para a
missão de testemunhar de Cristo (At. 1:8), isto é, de torná-los mensageiros
(porta-vozes) de Deus no mundo – "e
eles profetizarão" (At. 2:17-17).
4.3. O batismo no Espírito e no fogo (Mt. 3:11-12)
O tema
do batismo no Espírito, na pregação de João Batista, está relacionado ao tema
central de sua profecia, que era a vinda do reino de Deus e do Messias. João
anunciava que o reino de Deus, tão esperado pelo povo judeu, estava às portas e
a vinda do Messias era imediata. Todos eram chamados ao arrependimento e os que
confessavam os seus pecados eram por ele batizados no Rio Jordão, formando,
assim, a comunidade do reino.
"Muitos fariseus e saduceus vinham ao batismo"
(v. 7) e João, ao vê-los, os rechaçou contundentemente, chamando-os de "raça de víboras" (natureza da
"serpente", o diabo), os quais estavam destinados a serem alvo da
"ira vindoura" (juízo de
condenação eterna). Para serem aceitos precisavam ser regenerados, manifestando
os "frutos dignos de arrependimento".
Para
João, havia chegado a era da separação. Todo aquele que não se arrependesse dos
seus pecados – "árvore que não
produz bom fruto" – estava destinado inevitavelmente ao fogo do juízo
divino. O responsável por este ato seria o Messias, que foi identificado por
João como "aquele que vem depois de
mim [...] Ele vos batizará no
Espírito Santo e no fogo" (v. 11). O Messias viria separar a palha do
trigo. O trigo deveria ser posto "no
celeiro" e a palha, "em
fogo inextinguível" (v. 12).
Diante disso, temos a considerar o seguinte:
a)
Através
do batismo nas águas, os arrependidos formavam uma comunidade separada que
haveria de receber o Messias e herdar o reino.
b)
O
Messias é o agente que batiza no Espírito todos os arrependidos – "trigo" – e no fogo, os não
convertidos – "palha" –
(cf. Mt. 13:40-42; 25:41).
c)
O
arrependimento é o requisito que qualifica os que creem para herdarem o reino e
os tornarem livres da "ira vindoura",
do juízo de condenação eterna (cf. At. 17:30-31).
d)
O
arrependimento é o requisito que qualifica os que creem tanto para o batismo
nas águas como para o batismo no Espírito (cf. At. 2:38-39).
e)
Nenhum
arrependido está excluído do batismo no Espírito, assim como nenhum inconverso
está isento do batismo no "fogo
inextinguível".
4.4. Relação entre o batismo em água e o batismo no
Espírito
Romanos
6:3-4 descreve duas faces de uma experiência única, a regeneração. Uma vez que
tal regeneração é única, o batismo também é único (Ef. 4:4-5). O batismo em
água de Rm. 6:3-4 tem como requisito o batismo no Espírito, pois está ligado ao
"andar em novidade de vida", o que não pode acontecer sem "estar
no Espírito" (Rm. 8:5-9). "Estar no Espírito" é equivalente a
"ter o Espírito de Cristo". Na concepção de Paulo, o Espírito Santo é
Jesus sem corpo (2Co. 3:17-18; Gl. 4:6; Rm. 8:9). Assim, portanto, "estar
no Espírito", ou ainda, "ter o Espírito de Cristo" é requisito
para o batismo em água ao qual devem se submeter somente os regenerados.
4.5. Os batizados no Espírito estão em Cristo
Em
1Co. 12:13, Paulo diz: "Pois todos
nós fomos batizados em um Espírito, formando um corpo, quer judeus, quer
gregos, quer servos, quer livres, e todos temos bebido de um Espírito. Com
estas palavras, Paulo nos ensina que:
a)
O
batismo no Espírito tem o propósito de nos unir ao "corpo de Cristo",
a igreja.
b)
Todos
os que estão no "corpo de Cristo" estão batizados no Espírito.
c)
A
expressão "todos nós" implica em que nenhum de nós (regenerados) está
excluso do batismo no Espírito ou fora do corpo de Cristo.
d)
"Beber
de um só Espírito" é uma referência ao cumprimento da promessa do Espírito
feita ao povo de Deus (Is. 44:1-3; Jo. 7:37-39).
Em
resumo, podemos deduzir as seguintes conclusões:
a)
Batismo
no Espírito é a experiência inicial do recebimento do Espírito que ocorre na
regeneração.
b)
O
batismo no Espírito é uma dádiva universal de Deus concedida por Jesus a todos
os regenerados sem exceção, pois para Deus não há acepção de pessoas (At.
10:34-35; Rm. 2:11; Ef. 6:9, etc.).
c)
O
efeito imediato do batismo no Espírito é a inclusão do crente regenerado no
"corpo de Cristo", a igreja (1Co 12.13).
d)
Tal
batismo nomeia automaticamente todos os verdadeiros crentes (de ambos os sexos,
de todas as idades, raças e classes sociais) como testemunhas de Jesus, seus
legítimos mensageiros no mundo.
5. As manifestações especiais do Espírito Santo no Livro
de Atos
Se o
batismo no Espírito Santo ocorre no momento da regeneração, levantamos a
seguinte questão: como se explicam as manifestações ocorridas depois do
Pentecostes, registradas no livro de Atos? Devemos entender que cada caso tem
as suas peculiaridades que precisam ser analisadas.
Partindo
das palavras de Jesus na Grande Comissão, registrada em At. 1:8, podemos
perceber que a igreja deveria levar a mensagem do evangelho a três povos
específicos: os judeus, os samaritanos e os gentios. Pentecostes marcou a era
da missão da igreja no mundo, a partir de Jerusalém, até os confins da terra.
Devemos notar que Jesus especificou dois povos que os judeus discriminavam e
que não desejavam tê-los na comunhão da igreja: os samaritanos e os gentios.
5.1. Os samaritanos (At. 8:9-25)
Os
samaritanos eram um povo odiado pelos judeus (Jo. 4:9). Uma das formas dos
judeus expressarem seu repúdio por Jesus, demonstrando seu ódio e desprezo por
ele, foi chamá-lo de samaritano (Jo. 8:48). Sendo a salvação uma bênção
universal destinada a "todas as famílias da terra" e o dom do
Espírito Santo, uma promessa para "toda carne", os judeus (povo de
onde vem a salvação cf. Jo. 4:22; Is. 2:3; Rm. 9:4-5), jamais deveriam excluir
os samaritanos de sua agenda missionária. Assim sendo, Deus, para quebrar a
barreira do preconceito judaico, só permitiu a concessão do Espírito Santo aos
samaritanos, na presença de Pedro, um judeu exclusivista (At. 10:28) e de João
que outrora havia desejado o extermínio dos samaritanos por terem negado
hospedagem a Jesus e seus discípulos (Lc. 9:51-56).
5.2. Os gentios (At. 10:1-11:18)
As
razões pelas quais o Espírito Santo foi derramado sobre os gentios de forma
perceptível não foram diferentes daquelas referentes aos samaritanos. Mas a
"barreira da inimizade" para com os gentios era maior e precisava ser
quebrada, para que de ambos os povos (judeus e gentios) Deus fizesse um só povo
para ter acesso ao mesmo Deus por meio de um só Espírito (Ef. 2:11-22). O
Espírito Santo deveria ser o elo da união dos povos. Esta é a razão pela qual
Paulo, na bênção apostólica, menciona a ação da trindade na obra da salvação,
manifestando-se através da graça do Senhor Jesus, do amor do Pai e da comunhão
do Espírito Santo (2Co. 13:13).
A
discriminação para com os gentios era bem maior do que para com os samaritanos.
Por esta razão, foi necessário que Pedro tivesse uma visão através da qual Deus
lhe preparou para fazer contato com os gentios (At. 10:9-22; cf. At. 10:28). Já
na casa de Cornélio, enquanto Pedro pregava, quando ainda não havia concluído
suas palavras, "caiu o Espírito
Santo sobre TODOS os que ouviam a palavra" (At. 10:44; 11:15). Os
companheiros de Pedro ficaram perplexos (At. 10:45). Eles não podiam entender
porque isso havia acontecido. Não esperavam jamais que o Espírito Santo pudesse
vir sobre aqueles impuros gentios. Mas Pedro compreendeu. A visão que tivera em
Jope o havia preparado para aquele momento. A barreira do preconceito foi
quebrada e agora Pedro tinha uma prova cabal de que "Deus não faz acepção de pessoas" (At. 10:34). Por isso,
resolveu batizar a todos da casa de Cornélio (At. 10:47-48).
Censurado
pela igreja de Jerusalém por ter tido contato com gentios, Pedro pôs-se a
defender-se, contando a visão que teve em Jope e o que viu acontecer na casa de
Cornélio. Ao concluir suas palavras, disse: "Pois, se Deus lhes concedeu o
mesmo dom que a nós nos outorgou quando cremos no Senhor Jesus, quem era eu
para que pudesse resistir a Deus?" (At. 11:17). Só assim é que
apaziguaram seus corações (At. 11:18).
5.3. Os discípulos de Apolo em Éfeso (At. 18:24-19:7)
Pelo
que o texto nos diz, os doze discípulos que Paulo encontrou em Éfeso eram
crentes semelhantes aos do Velho Testamento que aguardavam o Messias, sem saber
que ele já havia vindo, até seu encontro com Apolo. Nenhum deles tinha tomado
conhecimento dos acontecimentos em Jerusalém no dia de Pentecostes. Quatro
detalhes nos levam a tal conclusão:
a)
É
provável que Apolo, por ser natural de Alexandria (At. 18:24), nada soubesse
sobre o derramamento do Espírito ocorrido em Jerusalém sobre os 120 discípulos
(todos judeus).
b)
Apolo,
que havia pregado para eles, apesar das grandes qualidades espirituais que
tinha, embora conhecesse muito bem as Escrituras, nunca havia conhecido outro
batismo além do "batismo de João" (At. 18:25).
c)
Os
discípulos de Éfeso (provavelmente não eram judeus) nem sequer sabiam que
existe o Espírito Santo (At. 19:2).
d)
Tais
discípulos, assim como Apolo, haviam sido batizados somente no "batismo de
João". Isto significa que não eram cristãos segundo os padrões do Novo
Testamento, pois não haviam sido batizados em nome de Jesus, o que Paulo teve
que fazer depois que lhes anunciou a salvação em Cristo (At. 19:4-5).
Através
da imposição das mãos do apóstolo Paulo, veio sobre eles o Espírito Santo. O
falar em línguas e o profetizar foram apenas sinais necessários naquelas circunstâncias para confirmação de que
haviam recebido o Espírito Santo. As línguas lembravam o Pentecostes e o
profetizar, a finalidade da promessa do derramamento do Espírito anunciada por
Joel – "e eles profetizarão" (Jl. 2:28; At. 2:17-18).
6. A plenitude do
Espírito Santo
Plenitude
é o termo que se usa para designar aquilo que o Novo Testamento denomina de ser
cheio do Espírito Santo. A Plenitude do Espírito é algo que resulta do
relacionamento pessoal do crente com o Espírito de Deus que nele habita.
A
expressão "ser cheio do Espírito Santo" aparece dez vezes no livro de
Atos e designa uma experiência que parece ser concebida em uma relação dupla,
contemplando sua causa e seu efeito. O conceito de plenitude do Espírito é
descrito no Novo Testamento como algo
experiencial ou como uma qualidade ou
estágio do caráter cristão.
6.1. A plenitude do Espírito Santo como experiência pessoal
Segundo
as narrativas do Novo Testamento, a plenitude do Espírito era uma experiência
tal que aqueles que a tiveram poderiam responder com precisão a três perguntas:
quando, como e onde foram cheios do Espírito. Vejamos os seguintes exemplos:
a) João Batista e Isabel, sua mãe (Lc. 1:15, 39-41) – a profecia
sobre o nascimento de João Batista declarava "e será cheio do Espírito Santo já desde o ventre materno" (v.
15). Tal profecia teve cumprimento no dia
em que Maria visitou sua prima Isabel, na
casa de Zacarias. O "como aconteceu" é dito da seguinte forma:
"Ouvindo esta saudação de Maria, a
criança lhe estremeceu no ventre; então, Isabel ficou cheia do Espírito Santo".
b) Jesus (Lc. 3:21-22; 4:1) – essas passagens
narram que Jesus foi cheio do Espírito no dia do seu batismo, no Rio Jordão,
quando estava orando.
c) Os apóstolos (At. 2:1-4) – foram cheios do
Espírito no dia de Pentecostes (dez dias após a ascensão de Jesus, conforme
Atos 1:3-5), no cenáculo, em Jerusalém. Os sinais miraculosos fizeram parte da
ocorrência.
d) A igreja de Jerusalém e os apóstolos (At. 4:23-31) – esta experiência
ocorreu no dia em que Pedro e João foram soltos da prisão, em um local de culto
(v.23), após o término de uma oração. "Tendo
eles orado, tremeu o lugar onde estavam reunidos; todos ficaram cheios do
Espírito Santo..." (v. 31). Pedro e João que participaram da
experiência do Pentecostes foram cheios novamente.
e) O apóstolo Paulo (At. 9:17-19) – foi cheio do Espírito no terceiro dia após sua conversão
(v. 9), na casa de Judas, situada na Rua Direita, em Damasco (vv. 10-11),
através da imposição das mãos de Ananias (v. 17).
6.2. A plenitude do Espírito como estado espiritual
Ser
cheio do Espírito é uma expressão que também pode significar uma qualidade do
caráter cristão, isto é, uma característica do crente consagrado que revela
integridade de caráter, plena submissão, cuja espiritualidade é notada pelos
frutos de sua vida santificada, de padrão elevado e acima do comum.
Para o
serviço de assistência aos pobres, a igreja de Jerusalém elegeu sete homens,
cujo caráter exemplar deveria ser identificado pelos seguintes critérios:
"boa reputação, cheios do Espírito
Santo e de sabedoria". O Novo Testamento, ao descrever o caráter de
homens extraordinários como Estêvão e Barnabé, declara explicitamente que eram
cheios do Espírito Santo (At. 6:5, 8; 7:55; 11:24).
6.3. A plenitude do Espírito como revestimento de poder
espiritual
Em
situações muito especiais, a plenitude do Espírito manifesta-se como um
revestimento de poder que vem como um impulso motivador para o desempenho de
tarefas de relevante importância, especialmente em situações de emergência.
Alguns exemplos podemos ver no livro de Atos:
a)
Os
apóstolos Pedro e João, conduzidos ao sinédrio judaico, foram interrogados
pelas autoridades. No momento de seu depoimento, Pedro e João, foram
poderosamente usados na plenitude do Espírito para o testemunho perante as
autoridades (At. 4:8). Tal experiência fundamenta-se na promessa de Jesus
registrada em Mc. 13:11; Lc. 12:11-12 e Mt. 10:19-20.
b)
Uma
vez postos em liberdade, Pedro e João reuniram-se com a igreja que, ao tomar
conhecimento das ameaças das autoridades, orou fervorosamente pedindo a
intervenção de Deus para que os apóstolos tivessem intrepidez para continuarem
proclamando o evangelho (At. 4:23-31).
c)
Em
sua primeira viagem missionária, o apóstolo Paulo, ao chegar em Pafos,
defrontou-se com um forte opositor, um poderoso feiticeiro e falso profeta
judeu denominado Barjesus. Para enfrentá-lo, Paulo foi cheio do Espírito Santo
(At. 13:4-12).
6.4. A exortação de Paulo em Efésios 5:18-21
Nesta
passagem, Paulo parece querer fazer-nos compreender que, como "filhos da
luz", devemos nos despojar das "obras infrutuosas das trevas"
(vv. 8-11) a fim de vivermos em santidade e na plenitude da vida cristã. Isto,
portanto, só acontecerá quando pudermos discernir a "vontade do
Senhor" (v. 17). Para alcançarmos tal discernimento, é preciso estar
sóbrio e ser cheio do Espírito (v. 18).
É
interessante notar que a expressão "enchei-vos" não é uma tradução
adequada. Em grego – plerouste en pneumati – o verbo está no
tempo presente, modo imperativo e voz passiva. Isto significa que quem pratica
é diferente daquele que sofre a ação. Sendo o Espírito Santo uma pessoa divina,
o sujeito do verbo encher nunca pode
ser um ser humano. Portanto, a exortação consiste em que cultivemos as
condições para que sejamos cheios do Espírito. Algumas observações devem ser
feitas quanto a isso:
a)
O
crente não pode, em hipótese alguma, ser identificado com o agente divino que
efetua o enchimento, isto é, o crente não é o sujeito da ação, mas o objeto
dela.
b)
O
Espírito Santo é o "elemento" desse enchimento, isto é, ele é o
elemento com o qual o crente é cheio. Ele também não pode ser identificado como
o sujeito da ação.
c)
O
sujeito que realiza a ação, isto é, que faz com que o crente se torne cheio do
Espírito (aquele que efetua o enchimento), é o Senhor e não outro.
d)
A
responsabilidade do crente consiste apenas em criar as condições favoráveis a
que tal enchimento aconteça – "falando
entre vós em salmos, hinos e cânticos espirituais, entoando e louvando [...]
dando sempre graças por tudo [...] sujeitando-vos uns aos outros"
(vv. 19-21).
e)
Tal
enchimento deve ser algo que perdure, isto é, que seja permanente. Deve ser o
estado de espírito normal em que o crente deve viver por toda a sua vida.
Observação
Não se
refere a experiências de êxtase espiritual ou uma implosão de poder místico e
sobrenatural a ser desejado e alcançado como resultado do esforço humano
através de "exercícios espirituais". Não há, em nenhuma parte das
Escrituras, o registro de que tais experiências de êxtase foram pedidas a Deus.
Pelo contrário, todos os casos registrados foram experiências inesperadas nas
quais todos os que a viveram foram apanhados de surpresa, sem que tivessem
qualquer participação nelas e em nenhuma delas é dito que, como resultado,
ficaram cheios do Espírito. Exemplos: Ezequiel (Ez. 1:1; 2:1-2; 3:14,
24; 8:1-3); Pedro (At. 10:9-10); Paulo (2Co. 12:1-16).
BIBLIOGRAFIA BÁSICA
BERKHOF, Louis.
Teologia Sistemática. São Paulo: Cultura Cristã, 2012.
FERREIRA,
Franklin; MYATT, Alan. Teologia Sistemática: uma análise histórica, bíblica e
apologética para o contexto atual. São Paulo: Vida Nova, 2007.
GRUDEM,
Wayne. Teologia Sistemática. São Paulo: Vida Nova, 1999.
BIBLIOGRAFIA COMPLEMENTAR
BAVINCK, Herman.
Dogmática Reformada. Trad. Vagner
Barbosa. Vol. 1 a 4. São
Paulo: Cultura Cristã, 2012.
CHAFER, Lewis
Sperry. Teologia Sistemática. São Paulo: Hagnos, 2003.
ERICKSON, Millard
J. Teologia Sistemática. São Paulo: Vida Nova, 2015.
GEISLER, Norman.
Teologia Sistemática. Volumes I e II. Trad. Marcelo Gonçalves e Luis Aaron de
Macedo. Rio de Janeiro: CPAD, 2010.
HODGE, Charles.
Teologia Sistemática. São Paulo: Hagnos, 2001.
THIESSEN, Henry C.
Palestras introdutórias à teologia sistemática. São Paulo: Batista Regular,
2014.
URETA, Floreal.
Elementos de Teologia Cristã. Rio de Janeiro: JUERP, 1995.
[1] HODGE, A.A. op. cit. p. 287.
[2] ERICKSON, Millard J. op. cit, p.
886.
[3] ERICKSON, Millard J. op. cit, p.
886.
[4]
Artigo V do documento Remonstrância.
[5] Os
Cânones de Dort, Capítulo I, artigo 7.
[6] FRANCISCO LACUEVA. op. cit. p.
190.
[7]
Franklin Ferreira, Teologia sistemática. São
Paulo: Vida Nova, 2007, p. 251.
[8]
Millard Erickson, Introdução à teologia
sistemática. São Paulo: Vida Nova, 1997, pp. 158, 159.
[9]
Augustus Hopkins Strong, Antologia
Teológica, p. 239.
[10]
Louis Berkhof, Teologia Sistemática,
p. 121.
[11]
Francisco Lacueva, Un Dios En Tres
Personas, pp. 198, 199.
[12] Louis Berkhof, op. cit. p. 132.
[13] Louis Berkhof, op. cit. p. 134.
[14] Louis Berkhof, op. cit. p. 131.
[15]
Wayne Grudem, Teologia Sistemática, p.
202.
[16] Wayne Grudem, p. 210.
[17] Louis Berkhof, op. cit. p. 138.
[18] Louis Berkhof, op. cit. p. 139.
[19]
FERREIRA, Franklin. Op. cit. p. 256.
[20] BERKHOF, Louis. Op. cit. p. 119.
[21]
FERREIRA, Franklin. Ibidem, p. 258.
[22]
Franklin Ferreira, Teologia Sistemática,
p. 264.
[23]
Franklin Ferreira, p. 264.
[24]
FERREIRA, Franklin. Op. cit.
p. 295.
[25] GRUDEM, Wayne. Op. cit. p. 247.
[26] STRONG, Augustus Hopkins. Teologia Sistemática, p. 614.
[27]
ERICKSON, Millard J. op. cit. p. 169.
[28]
GEISLER, Norman. Teologia sistemática, vol.
1. Rio de Janeiro: CPAD, 2010, p. 1041.
[29] BERKHOF, Louis. Op. cit. p. 166.
[30] STRONG, A. H. op. Cit. p. 614.
[31] STRONG, A. H. op. Cit. p. 602.
[32] STRONG, A. H. ibdem, p. 602.
[33] HODGE, Charles. Op. cit. p. 428.
[34] STRONG, A. H. Ibidem, p. 603-604.
[35] BERKHOF, Louis. Op. Cit. p.
162-166.
[36] STRONG, A. H. op. Cit. p. 612-613.
[37] BERKHOF, L. op. Cit. p. 164.
[38] BERKHOF, L. op. Cit. p. 164.
[39] BERKHOF, L. op. Cit. p. 164-165.
[40] BERKHOF, L. op. Cit. p.165.
[41] BERKHOF, L. op. Cit. p.166.
[42] BERKHOF, L. op. Cit. p.166-167.
[43] BERKHOF, L. op. Cit. p. 166.
[44] BERKHOF, L. op. Cit. p. 166.
[45] STRONG, A. H. op. Cit. p. 183-184.
[46] STRONG, A. H. Ibidem p. 185-186.
[47] STRONG, A. H. op. Cit. p. 186.
[48] BERKHOF, Louis. Op. Cit. p. 168.
[49]
Millard Erickson, Introdução à Teologia
Sistemática, p. 184.
[50]
Millard Erickson, p. 187.
[51]
CHAFER, Lewis S. Teologia sistemática,
vol 1 e 2, p. 429.
[52]
CHAFER, L. S. op. cit. p. 429.
[53]
Lewis CHAFER. Teologia sistemática. vol.
1 e 2, p. 438.
[54]
DAVIS, John D. Dicionário da Bíblia. 10 ed. Rio de Janeiro: JUERP, 1984,
p. 554.
[55]
Dionísio Areopagita: A Hierarquia Celeste, Capítulo VII — "Dos Serafins,
Querubins e Tronos, e da primeira hierarquia que eles constituem".
Santo Tomás de Aquino: Suma
Teológica, Iª Parte, Questão 108, Artigo 5 e 6 — "O nome de Serafim consta
em Isaías 6, 2".
Santo Gregório Magno:
Homilias sobre os Evangelhos, Homilia 34 — exposição sobre o fogo e o amor
ardente.
[56]
Dionísio Areopagita: A Hierarquia Celeste, Capítulo VII (mesmo capítulo, seção
específica sobre Querubins)
Santo Tomás de Aquino: Suma
Teológica, Iª, Qu. 108, Art. 5 — "o de Querubim em Ezequiel 1"
Santo Gregório Magno: Moral
em Jó, Livro XXXII, § 13 — sobre a plenitude de ciência e guarda da glória
[57]
Johanes B. BAUER. Dicionário de teologia
bíblica. Vol. 1, p. 74.
[58] Observação:
estas são algumas fontes de consulta sobre o tema: Isaías 6; Gênesis 3:24;
Êxodo 25:18–22; Ezequiel 1, 10; Daniel 10–12; Colossenses 1:16; Efésios 1:21;
3:10; Hebreus 1:14; Judas 9; 1 Tessalonicenses 4:16; Apocalipse 4; 12:7–9;
Lucas 1; Salmo 91; Mateus 18:10. Também: Santo Dionísio Areopagita, Sobre a
Hierarquia Celestial; São Gregório Magno, Moral em Jó; tradição teológica
sistemática.
[59]
THIESSEN, H. C. Palestras em teologia
sistemática. 1997, p. 157.
[60]
CULLMAN, Oscar. Cristologia do novo testamento, 2001, p. 20.
[61]
BERKHOF, Louis. Teologia sistemática, 1996, p. 317.
[62]
LADD, G. E. Teologia do novo testamento, 1985, p. 224.
[63] LADD, G. E. op. cit. p. 224.
[64] BERKHOF, op. cit. p. 493.
[65] BERKHOF, ibdem, p. 493.
[66]
BERKHOF, ibdem, p. 493
[67]
THIESSEN, H. C. Palestras em teologia sistemática, p. 217.
[68]
CULLMAN, Oscar. Cristologia do novo
testamento, 2001, p. 67.
[69] BERKHOF, Louis. op. cit.
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